Teatro na igreja e a condenação de Jesus

rico lazaroRecebi alguns e-mails em reação ao post sobre o uso de dramatizações na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Respeito a opinião de cada um e tenho a minha, que está alinhada com a posição do Dr. Alberto Timm, diretor associado do White Estate, e com a da organização adventista. Em que sentido? No de que Ellen White mesma incentiva a igreja a utilizar todos os recursos lícitos para pregar o evangelho: “Devemos utilizar todos os meios possíveis para levar a luz diante do povo. Utilize-se a imprensa e rodo meio de propaganda para chamar a atenção para o trabalho” (Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 36). “Descobrir-se-ão meios para alcançar os corações. Alguns dos métodos usados nesta obra serão diferentes dos que foram usados na mesma no passado” (Evangelismo, p. 105). “As invenções da mente humana parecem proceder da humanidade, mas Deus está atrás de tudo isso. Ele fez com que fossem inventados os rápidos meios de comunicação para o grande dia de Sua preparação” (Fundamentos da Educação cristã, p. 409). Você consegue ver a internet prevista aí? Aliás, falando em internet, será que alguém hoje teria dúvida de que a web é um tremendo recurso para alcançar as pessoas onde elas estão? Mas trata-se de uma tecnologia criada para fins militares e que hoje dissemina conteúdos que são um lixo, para dizer o mínimo… E o que dizer do rádio? Quando o pastor H. M. S. Richards, criador da Voz da Profecia, começou a usar esse meio de comunicação para pregar, teve que ouvir muitas críticas. O mesmo aconteceu com o pastor Roberto Rabelo. Onde já se viu usar o rádio para pregar! Televisão? A mesma coisa. O “diabo de chifres” (no tempo em que os aparelhos tinham aquelas duas anteninhas) é profano! Hoje alguém tem dúvidas de que TV Novo Tempo é uma grande bênção? As novas gerações já quase não ouvem rádio nem assistem à TV. Onde estão essas pessoas? Na internet. E o que elas fazem lá para se entreter? Entre outras coisas, assistem a vídeos no YouTube. Então vamos fazer vídeos para o YouTube a fim de pregar o evangelho a toda criatura, incluindo essas criaturas.

Há pessoas que têm utilizado textos de Ellen White relacionados ao teatro e às encenações teatrais com o objetivo de criticar essas produções cinematográficas que têm potencial para alcançar milhões de pessoas em pouco tempo (uso a palavra “cinematográfica” aqui no sentido de produção de filmes, não para me referir ao ambiente cinema). Quando analisada em seu devido contexto, a maioria desses textos têm que ver com a condenação que a Sra. White faz de pregadores que falavam com teatralidade, ou seja, de maneira “forçada”, não natural, fingida. Os textos restantes também devem ser analisados com cautela, levando em conta o contexto cultural, a ocasião e os destinatários da mensagem, e o conjunto da obra da autora. Exatamente como se faz com a boa exegese bíblica. Ou alguém atualmente proibiria uma mulher de pregar a Palavra usando como argumento a ordem paulina lá em Corinto?

Evidentemente que muitas dramatizações feitas na igreja ou em eventos da igreja chegam ao ponto de ser ridículas e entrariam facilmente na condenação dos textos que falam de “sabor teatral”. Quando os figurantes fazem gracejos, falam ou fazem o que é inapropriado, se vestem de modo impróprio, e por aí vai. Nesse caso, vamos condenar todas as encenações por causa de alguns desvios? Vamos condenar o meio (como já foi feito com o rádio, a TV e a internet) ou a forma como o meio é usado? Vamos jogar o bebê fora com a água suja do banho? (Perdoe-me a comparação “manjada”.) Seria como dizer que devemos abandonar o uso da música por causa dos desvios que vêm sendo praticados nessa área.

Uma boa comparação é com o uso de ficção em nossa literatura. Ellen White também escreveu sobre isso e, numa primeira leitura, parece que ela condena todo tipo de ficção. Até que a gente descobre que ela elogiou a obra de ficção clássica intitulada O Peregrino e que ela também colecionava contos (fictícios) para lê-los aos netos. Estaria a Sra. White se contradizendo? Claro que não. E isso fica claro quando analisamos o tipo de ficção que ela não recomendava. (Sobre esse assunto, indico o artigo “Ellen White e a ficção literária”, do Dr. Milton Torres, e a apresentação em Prezi “Literatura como recurso evangelístico e didático”.)

Levando em conta a atitude de algumas pessoas, Jesus seria condenado por ter contado a parábola do rico e Lázaro. Como Ele pôde usar uma história pagã antibíblica para dar Seu ensinamento? Convenhamos, trata-se de um conto bastante “dramático”. E que história é aquela de árvores falantes, na parábola do antigo testamento? Deus é criativo em Sua maneira de alcançar os seres humanos.

Muita confusão se deve à (in)compreensão do que seja “dramatização”. Seria apenas uma peça teatral, ou haveria outras formas de “drama”? Ou a representação limitada e real de algo muito maior poderia também ser classificada como “drama”? Não seriam – como aponta o Dr. Timm – as cerimônias do santuário uma “dramatização” de algo infinitamente maior, ou seja, do sacrifício de Cristo? Há quem pense que sim, há quem pense que não. Mas aí é uma questão de opinião. E opiniões não devem ser impostas como a vontade de Deus e em dissonância com o entendimento da igreja. Isso só causa divisão no corpo de Cristo, originando uma situação muito pior do que o mal que se critica.

E o que dizer do fato de haver atores não adventistas em produções “cinematográficas” da igreja? Como fazer um filme verossímil e convincente sem empregar atores? Vamos dispensar os pedreiros que constroem nossos templos? A maioria deles não é adventista… Vamos rejeitar o capítulo 4 do livro de Daniel por ter sido escrito por um rei pagão recém-convertido? O que dizer de uma jumenta que falou? E de um alcoólatra usado por Deus para espalhar literatura adventista, no começo de nossa obra no Brasil (confira)? (Aliás, foi graças ao filme “Como Tudo Começou” que uma pessoa para quem dei estudos bíblico se convenceu de que Ellen White foi usada por Deus como profetisa.)

Neste, como em vários outros temas, é preciso muito bom senso, respeito, preocupação com a igreja e devida análise de contexto bíblico e dos escritos de Ellen White. Curiosamente, assim como o Dr. Timm, os depositários do patrimônio literário Ellen White que o precederam em anos recentes mantiveram a mesma opinião sobre o assunto: a Sra. White não condena de forma indiscriminada o uso de dramatizações. Estariam errados esses homens que devotaram a vida ao estudo e à divulgação do Espírito de Profecia?

Há desvios em nossas produções? Há aspectos que podem ser melhorados? Há coisas que devem ser rejeitadas? Possivelmente. Mas não avancemos o sinal em nossa crítica a ponto de condenar o que não precisa ser condenado (neste caso, o meio, não a forma). Oremos pelas pessoas que, de coração e com toda a sinceridade, querem usar seus talentos na pregação do evangelho. E que Deus nos ajude a utilizar com sabedoria e bom senso todos os meios lícitos a fim de alcançar esta geração que se perde na escuridão.

Michelson Borges

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