As intrigas e a militância que nos tiram a paz

militanteMinhas filhas adolescentes são grandes defensoras dos animais e, inclusive, não comem carne mais por isso, talvez, do que pelo cuidado com a saúde. Certa vez, percebi que a mais nova estava envolvida em uma “briga” no Facebook, debatendo com uma colega de escola que tentava defender o consumo de alimentos cárneos. Os argumentos da menina eram indefensáveis, obviamente, mas, mesmo assim, repreendi minha filha e a orientei a respeitar as pessoas e a opinião delas. Podemos e devemos nos manifestar, sim, mas existem as formas e os fóruns corretos para isso. Disse-lhe que, muitas vezes, é melhor “perder” uma discussão para ganhar um amigo do que fazer o contrário. Disse-lhe, também, que muitos veganos e vegetarianos acabam demonstrando mais amor aos animais do que às pessoas, e que acabam sendo absorvidos tão profundamente pela “causa” que não enxergam nada mais além da bandeira que empunham. No afã de defender suas ideias e seu ponto de vista, tornam-se tão desagradáveis, tão extremistas, intransigentes e combativos que acabam repelindo aqueles que até poderiam parar para pensar no que eles falam. Trata-se de um tiro no pé; de propaganda negativa; da propagação de uma mensagem que pode até ser correta, mas cuja embalagem mais afasta do que atrai.

E não são somente os militantes do veganismo que incorrem nesse erro. Corre o mesmo risco quem se deixa absorver demais por uma ideia fixa e passa a defendê-la como se fosse a verdade mais importante acima todas (e essa fixação em um só assunto geralmente é o princípio da dissidência). Por exemplo, há pessoas que só falam de vencer pecados e de perfeição cristã. Outras ficam patrulhando o comportamento, os hábitos e a vestimenta alheios. Dá até medo ficar perto desses scanners ambulantes! Também há os que só falam em amor de Deus e em fazer o bem ao próximo. Outros ficam o tempo todo apenas trazendo novos conceitos e novas práticas de adoração. Dá até medo ficar perto desses “iluminados pós-modernos”!

Mesmo denúncias válidas, como a de erros teológicos e filosofias anticristãs, podem se tornar um problema, quando a pessoa lê apenas conteúdos relacionados a esses temas e só fala deles, deixando de lado leituras edificantes e devocionais, e mesmo outros pontos de vista. Quando a militância nos afasta do Mestre, entramos em um terreno perigoso e corremos o risco de nos tornar áridos e infelizes, além de poder acabar vítimas da psicologia reversa, que consiste em transferir ao “inimigo” o controle das nossas crenças. Basta o “inimigo” defender uma coisa boa para nos fazer ir contra ela e ignorar ou reinterpretar todos os textos bíblicos e do Espírito de Profecia que defendem uma ideia similar. Isso é arriscado e não faz bem.

Note o que escreveu Ellen White no livro Testemunhos Seletos, volume 1, página 493: “Não devemos permitir que nossas perplexidades e nosso desapontamentos nos corroam a alma, tornando-nos impertinentes e impacientes. Não haja discórdia, nem suspeitas ou maledicência, para não ofendermos a Deus. […] Busca a plenitude que há em Cristo. Trabalha de modo por Ele indicado. Que cada pensamento, palavra e ato O revele. Precisas de um diário batismo do amor que nos dias dos apóstolos os tornava todos de um mesmo comum acordo. Esse amor trará saúde ao corpo, espírito e alma. Circunda tua alma com uma atmosfera que fortaleça a vida espiritual. Cultiva a fé, a esperança, o ânimo e o amor. Reine a paz de Deus no teu coração.”

Que o bom Deus nos batize diariamente nesse “batismo do amor”. Assim colocaremos a salvação das pessoas e o bem-estar delas acima de qualquer ideologia ou militância. Assim teremos paz no coração e agiremos com a tranquilidade, a paciência e a nobreza típicas de um verdadeiro cristão.

Michelson Borges

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