Os fãs da cultura pop (2)

musicDepois de ter postado o texto “Os fãs da cultura pop”, recebi vários comentários e críticas. Como aquele post foi bem resumido, quero aqui ampliar algumas ideias e deixar claro que respeito todos os que me escreveram e que creio que o diálogo nos ajuda a crescer e a melhorar nossos pontos de vista.

Primeiramente, quero explicar por que não mantenho habilitada a função de comentários em meu blog e em meu canal no YouTube. Não sou o único que age dessa forma. E meu motivo é simples: falta de tempo. Entendo que, se habilitasse essa função, teria que moderar os comentários e, óbvio, interagir com as pessoas. O que faço em meu blog e em meu canal é um trabalho voluntário que consome muito do meu tempo de “folga”. Tenho esposa e três filhos, e não acho justo dedicar mais tempo do que já tenho dedicado a esse trabalho, repito, voluntário. Já tenho grandes dificuldades para responder aos muitos e-mails que me chegam e mensagens via WhatsApp, Messenger, etc. Assim, tive que tomar essa decisão que, para muitos, soa como arbitrariedade ou falta de abertura para o diálogo. Só que não se trata absolutamente disso.

maranata1.0Com respeito ao que escrevi em relação à cultura pop, acho que minha crítica não está sendo compreendida. Nunca me opus ao uso de recursos como filmes e mesmo histórias em quadrinhos. Já na década de 1990 eu publicava histórias em quadrinhos com conteúdo religioso (um exemplo ao lado). Poucos anos atrás, criei personagens que passaram a fazer parte de tirinhas apologéticas que eu publicava regularmente nas redes sociais (confira). Repito: nunca me opus ao uso das mídias, me oponho é à mistura de conteúdos seculares claramente anticristãos para entreter o público cristão, tentando extrair dali alguma eventual lição espiritual (conforme destaquei neste vídeo). É simplesmente a isso que me oponho. Eu mesmo costumo sugerir bons filmes, de vez em quando (confira). Não podemos é absorver indiscriminadamente todo e qualquer conteúdo da cultura pop, e creio ter deixado isso bem claro em minha postagem anterior.

Nunca disse que considero minha experiência religiosa exemplo para qualquer pessoa, mas me sinto no direito de, assim como outros, testemunhar do que vivi, do que experimentei (confira aqui e aqui). Entendo que a conversão nos faz repensar um bocado de coisas, entre elas os conteúdos que não combinam com o cristianismo. Reconheço os esforços sinceros de muitos cristãos que procuram contextualizar a mensagem, mas isso não significa que não possa discordar das metodologias adotadas. Se vejo que certa tendência parece crescer entre nós e tenho motivos para discordar (respeitosamente) dela, me sinto na liberdade e no dever de fazê-lo.

Eu poderia ter usado dezenas de outros textos bíblicos na postagem anterior para defender a importância de (1) aproveitarmos bem nosso tempo precioso, (2) mantermos a mente pura, (3) não termos contato com conteúdos relacionados com ocultismo, magia, nudismo, pornografia e outros. Entendo que os três textos que citei sejam suficientes para justificar essa minha postura.

Não sou o único a advogar as ideias que defendo. Estou em consonância com obras publicadas pela editora na qual trabalho há duas décadas. Creio também que tenho o endosso da Bíblia e dos livros de Ellen White, afinal, ela defende o uso dos meios de comunicação e denuncia conteúdos nocivos.

Não sou um ermitão midiático. Assisto a bons filmes de vez em quando e utilizo critérios os mais seguros possíveis para fazer essa seleção. Sempre ensinei que devemos fazer escolhas (em todas as áreas) com base em princípios bíblicos. Quanto aos conteúdos que não me convêm, não é difícil saber alguma coisa sobre eles. Por exemplo, pesquisei bastante sobre “Game of Thrones”, sobre os roteiristas, sobre os livros que inspiraram a série, sobre o enredo, etc. Nunca assisti a um episódio sequer e quanto mais pesquisava mais me convencia de que realmente não precisava nem deveria assistir. Tem muita gente interpretando errado o “analisai tudo” de Paulo, como se esse texto fosse um salvo-conduto para consumir qualquer tipo de conteúdo. Se for assim, a contradição com vários outros textos bíblicos estará criada, e creio que nem preciso citá-los aqui.

Será que Jesus usaria “GOT” e “50 Tons”, por exemplo, para atrair os “de fora”? E não me refiro à simples menção dessas produções. Refiro-me a assistir junto com as pessoas, mostrar cenas, descrever em detalhes, se demorar no assunto a ponto de até deixar curiosos aqueles que talvez nunca fossem assistir. Outra coisa: todo esse meu posicionamento está descrito e apresentado em meu livro Nos Bastidores da Mídia, da Casa Publicadora Brasileira, editora mantida pela Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Fiz uma atualização recente no meu livro, refinei argumentos, retirei alguns exageros (próprios da época em que a primeira edição foi escrita), mas os princípios centrais estão lá, e vêm sendo defendidos pela igreja há muito tempo.

Preciso repetir para deixar claro: nunca ataquei nem vou atacar pessoas. Isso é rasteiro. É argumento ad hominem. Falo sobre ideias e métodos dos quais discordo e creio que tenho meu direito de fazê-lo. Além de produzir HQs e tirinhas e ter um canal no YouTube há dez anos, mantenho blogs (fui um dos primeiros blogueiros adventistas), páginas no Facebook e uma conta no Twitter (desde 2009), pois isso é lícito e a Revelação nos incentiva a usar essas ferramentas. Só que a mesma Revelação nos orienta a ter cuidado com conteúdos midiáticos e a nos lembrar de que não pode haver comunhão entre a luz e as trevas.

Sou entusiasta da contextualização da mensagem e do evangelismo, mas entendo que isso, também, deve ser feito com critérios bem claros e sob a supervisão do Espírito Santo. E não pode ser desculpa para se “batizar” conteúdos com os quais os fãs ainda insistem em flertar. Entendo que devemos evitar a postura fanática de satanizar todo e qualquer tipo de conteúdo e toda e qualquer manifestação cultural. Mas também não podemos ser ingênuos a ponto de achar que Satanás não mais existe.

Falando em contextualização… Jesus usou uma “lenda” pagã, sim [parábola do rico e Lázaro]. Assim como Deus Se valeu de uma estátua pagã para falar com Nabucodonosor em sonho. Isso, obviamente, é legítimo. Mas nenhum deles (assim como Paulo no Areópago) se demorou na ilustração, exaltando seus aspectos literários, pictóricos, históricos, etc. Usaram esse recurso apenas como “ponte” para despertar a atenção de uma “plateia” familiarizada com a coisa. O que não se pode fazer é usar “recursos pagãos” para entreter cristãos.

Faz bem refletir sobre estes textos: 1 João 5:19; Efésios 6:12; Romanos 12:2. Ignorar a realidade do grande conflito e de que há uma disputa pela nossa mente, pela nossa razão e pelos nossos sentimentos é ou ingenuidade ou manifestação de prepotência – a mesma prepotência que fez com que Eva pensasse ser capaz de vencer sozinha a batalha contra o inimigo. Não podemos cair nessa onda de “dessatanização” e relativização do mal. Não podemos supervalorizar nosso livre-arbítrio, ainda mais quando sabemos que, diferentemente de Eva, nosso cérebro tem a desvantagem de cerca de seis mil anos de decadência.

Reflita também nos seguintes textos inspirados:

“Vocês devem se tornar fiéis sentinelas de seus olhos, de seus ouvidos e de todos os sentidos, se querem controlar sua mente e evitar pensamentos vãos e corruptos que mancham a alma. Só o poder da graça pode realizar essa obra desejável” (Ellen G. White, O Lar Adventista, p. 401).

“Se houver um meio qualquer pelo qual Satanás possa alcançar acesso à mente, ele semeará seu joio e o fará crescer até que redunde em farta colheita. Em caso algum pode Satanás obter domínio sobre os pensamentos, palavras e ações, a menos que voluntariamente lhe abramos a porta e o convidemos a entrar. Ele entrará então, lançando fora a boa semente semeada no coração e tornando de nenhum efeito a verdade” (Ellen G. White, O Lar Adventista, p. 402).

“Todos os que proferem o nome de Cristo necessitam vigiar e orar, e guardar as entradas da alma; pois Satanás está em atividade para corromper e destruir, uma vez que lhe seja dada a mínima vantagem” (Ellen G. White, Testemunhos Seletos, v. 1, p. 402, 403).

“Nossa única segurança é abrigarmo-nos na graça de Deus cada momento, não confiando em nossa própria visão espiritual, para que não chamemos ao mal bem, e ao bem chamemos mal. Sem hesitação ou discussão precisamos fechar e guardar as entradas da alma contra o mal” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, v. 3, p. 324).

“Devemos ter sempre em mente que há em operação seres invisíveis, tanto do mal quanto do bem, procurando ganhar o controle da mente. […] Anjos bons são espíritos ministradores, a exercer celestial influência sobre o coração e a mente; ao passo que o grande adversário das almas, o diabo, e seus anjos, estão continuamente trabalhando para efetuar nossa destruição” (Ellen G. White, O Lar Adventista, p. 405).

E, para encerrar, um diagnóstico preciso de Allan Bloom:

“Se o nosso jovem conseguir recuar – o que é muito difícil e raro –, ganhar distância crítica em relação àquilo a que aderiu, duvidar do significado final daquilo que ama, então já terá dado o primeiro passo, o mais difícil, no sentido da conversão filosófica. A indignação é a defesa da alma contra a ferida da dúvida sobre o que lhe é próprio: reordena o cosmo para apoiar a justiça de sua causa” (O Declínio da Cultura Ocidental, p. 90).

Michelson Borges

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