Kairós 2017 e a celebração da Reforma: o protesto realmente acabou

kairosPassada a celebração dos 500 anos da Reforma Protestante (sempre eclipsado pela festa do Halloween), fica no ar a pergunta: Celebrar o quê? A ênfase de muitos meios de comunicação seculares e religiosos esteve mais na união do que nos aspectos que motivaram Lutero e outros reformadores a promoverem o protesto contra os desmandos e as heresias da igreja dominante. Poucos dias antes, nos Estados Unidos, foi realizado um grande evento ecumênico chamado Kairos 2017. O orador principal foi o conhecido pastor pentecostal amigo do papa Francisco Kenneth Copeland. Sim, aquele que levou ao Vaticano uma comitiva de pastores norte-americanos para beijar a mão do papa.

Em um vídeo disponível no YouTube, Copeland explica o acordo quanto à justificação pela fé entre luteranos e católicos para concluir que o protesto acabou (confira). Afirma também que somos conhecidos pelas lutas na igreja e que isso é uma força para o diabo (confira). O pastor lamenta que a maior parte da igreja ainda não sabe que isso acabou, e depois elogia Francisco como um dos seus heróis. Logo depois ele assegura que em nenhuma parte da Bíblia é dito que seremos unidos pela doutrina. O que nos unirá, segundo Copeland, é a fé, minimizando, assim, a importância da Bíblia e de suas doutrinas na realidade da igreja.

O jornal Folha de S. Paulo, na reportagem “Reaproximação com católicos marca 500 anos da Reforma na Alemanha”, informa que a Igreja Evangélica na Alemanha (EKD), federação que reúne mais de 20 igrejas protestantes alemãs, “quis deixar para trás o aspecto divisionista do movimento iniciado por Lutero e focou no ecumenismo e na aproximação com os católicos”. Líderes católicos, ortodoxos e judeus foram convidados para a cerimônia.

Em um cumprimento praticamente literal do que Ellen White previu no século 19, e que está escrito em seu best-seller O Grande Conflito, os protestantes finalmente estenderam a mão através do abismo (que existiu por muito tempo) e tomaram a iniciativa de selar a união com os católicos. Note o que foi publicado pela Folha: “O bispo Heinrich Bedford-Strohm, presidente do conselho da EKD, estendeu simbolicamente as mãos dos protestantes aos católicos.* Num discurso direcionado ao papa Francisco, disse: ‘Quando você vier a Wittenberg, vamos recebê-lo de todo o coração.’” O cardeal Reinhard Marx aproveitou o momento para pedir a reunificação das igrejas cristãs. Se eu acreditasse na imortalidade da alma, diria que Lutero estaria se contorcendo em seu túmulo na igreja de Wittenberg.

O jornal O Globo informou que o Vaticano e a Federação Luterana Mundial liberaram um comunicado conjunto em que pedem perdão um ao outro e se comprometem a sanar suas diferenças. “O que temos em comum é mais do que aquilo que nos divide”, diz o comunicado, ignorando o fato de que a Igreja Católica ainda venera imagens e os mortos, defende a intercessão de Maria e dos santos, crê na infalibilidade papal e no poder humano de perdoar pecados, iguala a tradição à Bíblia Sagrada, e, claro, defende a santidade do domingo e a crença na imortalidade da alma, mas nisso os protestantes de modo geral também estão de acordo, constituindo-se, na verdade, em dois grandes pontos de convergência entre eles e o catolicismo.

Entre tantos outros jornais e sites que deram atenção à data história, a Fox News engrossou o coro ecumênico ao publicar um artigo de Peter Leithart, presidente do Instituto Theopolis em Birmingham, Alabama. Leithart também é professor na Igreja Presbiteriana da Trindade em Birmingham e autor do livro O fim do Protestantismo. No artigo, ele diz que, “em 1600, cristãos europeus não adoravam juntos. Católicos não recebiam bem protestantes na missa”, mas “o Protestantismo somente terá um futuro se nós protestantes recuperarmos a visão católica original dos reformadores. Precisamos retomar o projeto de unificar e renovar toda a igreja. […] Enquanto protestantes permanecem divididos entre si, e separados dos católicos, ortodoxos e outros, nossas igrejas falham em experimentar a totalidade do Evangelho”.

Finalmente, Leithart apela: “A Reforma recuperou o Evangelho, mas minou o Evangelho pelas divisões que plantou. Em outras palavras, a Reforma falhou. Quinhentos anos passados, o único futuro protestante viável – o único futuro evangélico, o único futuro fiel à visão dos reformadores – é um futuro católico.”

Quinhentos anos depois do começo da Reforma Protestante, tudo o que podemos ver é o cumprimento perfeito das profecias bíblicas e das declarações feitas por Ellen White no século 19. A marcha da história prossegue e só surpreende os que não estudam aquilo que Deus revelou. O que está para vir certamente virá. Estejamos preparados e vivamos o verdadeiro espírito da Reforma: sola fide, sola gratia, solus christus e sola Scriptura.

Michelson Borges

* O cumprimento profético final daquilo que Ellen White diz ser a formação da imagem da besta só ocorrerá com o cumprimento exato das seguintes palavras: “Quando (1) as principais igrejas dos Estados Unidos, ligando-se em pontos de doutrinas que lhes são comuns, (2) influenciarem o Estado para que imponha seus decretos e lhes apoie as instituições, a América do Norte protestante terá então formado uma imagem da hierarquia romana, e (3) a aplicação de penas civis aos dissidentes será o resultado inevitável.”

Anúncios