Viagem missionária ao Camboja

Photo 01.08.17 23 07 20Meu marido e eu nos conhecemos e fomos batizados na Igreja Adventista há três anos, aqui na Suíça, onde moramos, e desde então entendemos o significado da religião, da igreja: disseminar a Palavra de Deus. Vivemos em um país onde falar de Deus é algo banal. Devido às boas condições de vida, de trabalho, as pessoas vivem por suas próprias obras e sentem que tudo está sob controle de suas mãos. Antes de pensarmos em ir a outro país, fizemos várias campanhas evangelísticas na região onde moramos, mas sempre sem muito sucesso… Certo dia em uma conversa informal com um amigo, estávamos conversando sobre missões e tomamos conhecimento de alguns missionários que moravam no Camboja, então surgiu a ideia de nos juntarmos a eles e fazer algo evangelístico mais relevante. Nascia o projeto Conexão Camboja.

Entramos em contato com esses missionários adventistas e elaboramos o projeto que consistia em visitar alguns vilarejos próximos da cidade de Siem Reap, onde ficava nossa sede missionária, e distribuir material escolar às crianças para incentivar os pais a enviar seus filhos às escolas (dado que o índice de crianças que trabalham em fábricas têxteis, em arrozais e na prostituição é enorme), distribuir refeição saudável e vegetariana, livros Caminho a Cristo traduzidos para a língua nativa – o khmer –, compartilhar o testemunho de nossa fé ; falarmos sobre conselhos básicos de saúde, implantamos poços de água potável em vilarejos nos quais o acesso à água era mais difícil, e distribuímos Bíblias aos membros das igrejas adventistas já existentes no país.

O próximo passo foi desenvolvermos campanhas para divulgar o projeto e arrecadar fundos para a compra dos materiais. O projeto foi financiado por doações, mas os gastos com passagens e pessoais foram financiados por nós mesmos.

O início de uma batalha

Tudo pronto para partirmos rumo ao Camboja! Mas… problemas começaram a surgir.

Uma semana antes de nossa partida torci o pé direito de tal maneira que mal conseguia pisar no chão. Fomos tomados por preocupações, o “estado de saúde” do meu pé não era bom, mas decidi ir mesmo assim.

Ao chegarmos no aeroporto de Zurique, meu marido e eu fomos surpreendidos com uma informação desagradável no guichê de checkin-in. Eu não poderia entrar no Camboja porque meu passaporte tinha apenas dois meses para expirar a validade, e para entrar no Camboja era necessário no mínimo seis meses. Descuido da minha parte!

Porém, não nos demos por vencidos. Como tínhamos conexão em Bangkok, e lá era autorizada minha entrada no país, decidimos ir ao consulado brasileiro de Bangkok e providenciar um novo passaporte. Decisão certeira! Conseguimos renovar meu passaporte no mesmo dia e em poucas horas.

Mas… (novamente o “mas”) ao pisar na Tailândia adquiri uma infecção no olho direito que me acompanhou por uma semana. Acho que foi nesse momento que eu entendi o que Paulo escreveu em sua carta aos Éfesios 6:12 : “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” E nem pense que os “infortúnios” acabaram por aqui. Apesar de todos os imprevistos conseguimos chegar enfim ao Camboja!

Ao cruzarmos a fronteira, nos deparamos com uma paisagem extremamente diferente do que estamos habituados a ver. Não comparo apenas com a realidade da Europa, comparo também com o que já vi no Brasil, e era uma imagem muito triste de pobreza, condições de vida e trabalho no limite do aceitável.

Finalmente encontramos nossos companheiros missionários, e a partir daí sentimos a tão sonhada missão ser concretizada!

Sobre nossos amigos missionários: um é de origem cambojana ou khmer, como eles costumam dizer, o outro é francês casado com uma cambojana.

Para facilitar nosso deslocamento alugamos uma moto que foi nosso meio de transporte durante uma semana de missão. O acesso aos vilarejos não é fácil: estradas de terra, muita poeira e desníveis, mas, mesmo assim, a moto era o meio mais acessível aos vilarejos. Carregados de caixas de materiais e livros, fomos todas as tardes aos vilarejos onde nosso missionário cambojano havia pedido autorização aos chefes para realizarmos a missão – no total foram cinco povoados. Em um desses povoados o chefe se sentiu tocado pela mensagem e pediu para que nossos missionários orassem por eles e para que chovesse – algo inusitado, dado que a grande maioria do Camboja é budista e não acredita orações. Nesses locais foram implantados quatro poços de água potável e realizadas palestras com mensagens bíblicas.

Apesar de os locais serem todos, sem exceção, extremamente pobres, as pessoas estavam sempre sorrindo. As crianças tinham um sentido de gratidão muito firmado. As pequenas comunidades transmitiam a imagem de uma grande família; as crianças menores eram cuidadas por todos; eu não conseguia identificar quem eram os pais; até mesmo as próprias crianças cuidavam umas das outras.

De certa forma, eles são conformados com a realidade em que estão inseridos, e isso não é motivo para se sentirem desafortunados ou injustiçados por não terem uma bela casa, carros, roupas da moda, como eles viam em algumas revistas espalhadas pelo vilarejo.

O meio

 Nossa primeira semana de missão finalizou numa visita a uma igreja adventista local de língua inglesa, mas… como eu havia dito que os infortúnios não haviam terminado, passei mais uma vez por uma complicação.

Fui convidada a pregar na igreja de língua inglesa naquele sábado em que estaríamos lá. Porém, na tarde da sexta-feira, caí enferma com muita febre, dor no corpo e na garganta. No dia seguinte, ainda muito mal, consegui aliviar as dores e a febre com analgésicos. Com oração e com a graça de Deus, consegui cumprir o compromisso. Após o culto me senti como se houvessem acabado minhas forças e passei a tarde na cama. Surpreendentemente, à noite eu já estava bem. Dei graças a Deus novamente porque no dia seguinte iríamos passar uma semana na estrada, visitando algumas igrejas adventistas pelo país para distribuirmos Bíblias.

Você deve estar se questionando por que era tão importante distribuir Bíblias nas igrejas. Explico: o salário básico da população é de 50 dólares e uma Bíblia no Camboja custa em média de 7 a 10 dólares, ou seja, mais de 10% do salário. Os membros conhecem a Bíblia quando ouvem nas igrejas, mas estudar e investigar a Palavra de Deus não é tão simples para eles.

Deslocarmo-nos dentro do país foi quase uma aventura. Em algumas cidades não existem estação rodoviária, nem pontos de ônibus. Nessas cidades precisávamos ir à praça e esperar algum carro ou minibus passar e anunciar que estava indo para alguma outra cidade.

No total visitamos cinco igrejas, todas elas longe das cidades e próximas a pequenos povoados nos quais todos os habitantes são adventistas. Uma dessas igrejas chamou muito nossa atenção por sua história. Os membros já eram cristãos e guardavam o domingo, porém, descobriram sozinhos que o dia certo de guarda é o sábado e começaram o guardar o sétimo dia. E um dia, um pastor adventista da região descobriu esse grupo desconhecido de guardadores do sábado e começou a apoiá-los. Hoje todos são adventistas.

Visitamos também um complexo adventista com colégio, orfanato e igreja financiados por mantenedores dos Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul. Ficamos muito felizes por ver como os jovens são ativos. Toda a programação de sábado é organizada por eles.

Conhecemos também um jovem que conversou muito com meu marido. Durante a conversa, meu marido notou uma pequena deficiência mental nele, porém, o que ele falava sobre seu amor por Jesus era muito lúcido. Esse jovem relatou um pouco suas experiências de evangelizar em povoados muçulmanos e budistas, e como ele havia sido várias vezes maltratado verbalmente e até mesmo fisicamente – numa ocasião tentaram até mesmo atear fogo nele e apedrejarem-no. Mas ele não cansava de dizer que, se fosse para morrer por Cristo, ele estava pronto. Mesmo com sua pequena deficiência, seu amor por Jesus era contagiante e sincero. Que lição! Esse relato se tornou para nós uma grande reflexão, pois até alí estávamos prontos a abrir mão de nosso conforto e ir aos mais necessitados, mas será que já estaríamos prontos a morrer por Cristo?

Fim da batalha

Voltamos para casa e, apesar de termos passados apenas duas semanas intensas em missão, sentimos um grande choque cultural ao chegar de volta à Suíça. Era algo inesperado. Eu não imaginava que sentiríamos isso, mas nos sentimos revoltados por viver em um local em que o luxo é tão presente e tão desnecessário.

O retorno foi mais difícil de digerir do que a chegada a um país onde a pobreza é a classe predominante. Onde a condição climática com altas temperaturas é desfavorável até mesmo para trabalhar. Mas, mesmo assim, ainda era menos chocante do que viver em um país em que o meu eu é sempre o mais importante.

Eu poderia escrever páginas e páginas sobre nossa experiência missionária e mesmo assim não conseguiria transmitir o que sentimos no momento em que nos colocamos à disposição de Deus na missão que Ele nos confiou.

Já havia escutado várias vezes que quando você parte em missão não volta o mesmo, e eu sempre acreditei nisso. Porém, agora eu entendo o porquê. Viver em missão ou viver uma experiência missionária é realizar o pedido que nosso Pai nos faz todos os dias, que é o de sermos 100% dependentes dEle. É literalmente esvaziar o eu e, consequentemente, ser preenchido pelo Espírito de Deus. O sentido de viver se torna mais pleno, algo nunca havíamos experimentado. Agora o grande objetivo é trazer para nossa vida esse sentido de missão e ser missionários em todo lugar: no trabalho, entre amigos e familiares, e em nossa própria congregação.

Enfim… agora entendemos por que Jesus nos pediu várias vezes: ide e fazei discípulos, porque é dessa maneira que nos aproximamos dos braços do Pai.

(Alessandra Vieira é brasileira e mora na Suíça)

 

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