Como entender a palavra “impecaminosidade” no comentário da lição da Escola Sabatina desta semana

liçãoNos Comentários de Ellen White sobre a Lição da Escola Sabatina desta semana (neste trimestre focalizando o livro de Romanos), há a seguinte citação: “Todo aquele que, pela fé, obedece aos mandamentos, alcançará o estado de impecaminosidade no qual Adão viveu antes de sua transgressão” (Nos Lugares Celestiais [MM 1968], p. 148).

O texto não diz quando será esse estado de “impecaminosidade”. E ainda que dissesse, “impecaminosidade” é diferente de “impecabilidade”. O primeiro se refere a um estado não absoluto de falta de pecado; o segundo se refere à não possibilidade de pecar. Além disso, a passagem deve ser comparada com outras da Bíblia e de Ellen White sobre o tema (veja dois desses textos no fim desta postagem). A ênfase está no tema da santificação. Ellen White enfatizou essa necessidade com uma figura de linguagem, algo como uma hipérbole.

Ocorre que, na verdade, a palavra traduzida por “impecaminosidade” (sinlessness) pode ser traduzida também como “inocência”. De fato, na edição de 1968 da Meditação estava assim. O dicionário Webster, do tempo de Ellen White, define o termo como “liberdade do pecado e da culpa”. Isso tem que ver com o aspecto prático do pecado, ou seja, o pecado como atos, e não como natureza. Não é tão difícil entender a declaração de Ellen White: quem obedece aos mandamentos não os está transgredindo, portanto não está vivendo em pecado. Isso não significa, porém, que o indivíduo deixou de ser pecador, de ter a natureza pecaminosa, a qual virá à tona se ele não vigiar e será eliminada por ocasião da glorificação na volta de Jesus. Seria menos problemático se a palavra tivesse sido traduzida como “inocência”. A palavra inocência remete a pureza e até ingenuidade, como de uma criança. Uma criança é inocente, porém não deixa de ser pecadora por natureza.

Agora analisemos detalhadamente o texto no original em inglês:

Título: “Freedom Through Christ” [Seja qual for a mensagem e o que vai acontecer na vida do cristão, isso será realizado por Cristo e em Cristo. Isso já indica que, sem a ligação com Cristo, continuamos sob o controle da natureza pecaminosa. Possivelmente ênfase da autora seja o controle sobre a natureza pecaminosa enquanto o cristão permanece justificado. Outro ponto: aparentemente o contexto não tem a ver com condição do pecador após o fechamento da porta da graça.]

“Stand fast therefore in the liberty wherewith Christ hath made us free, and be not entangled again with the yoke of bondage (Galatians 5:1)” (HP 146.1). [Ênfase em permanecer na Liberdade em Cristo.]

“In the beginning God placed man under law as an indispensable condition of his very existence. He was a subject of the divine government, and there can be no government without law…” (HP 146.2). [Ênfase no fato de que o governo divino tem uma lei; essa lei é condição para a existência; portanto, Cristo nos liberta para a vida, ou seja, para viver de acordo com a lei da liberdade; mas só podemos ser aprovados pela lei em Cristo, pois o nosso passado e a nossa natureza nos colocam em desarmonia com a lei.]

“God is omnipotent, omniscient, immutable. He always pursues a straightforward course. His law is truth – immutable, eternal truth. His precepts are consistent with His attributes. But Satan makes them appear in a false light. By perverting them, he seeks to give human beings an unfavorable impression of the Lawgiver. Throughout his rebellion he has sought to represent God as an unjust, tyrannical being…” (HP 146.3).

“As a result of Adam’s disobedience every human being is a transgressor of the law, sold under sin. Unless he repents and is converted, he is under bondage to the law, serving Satan, falling into the deceptions of the enemy, and bearing witness against the precepts of Jehovah. But by perfect obedience to the requirements of the law, man is justified.” [Talvez a mensagem aqui seja que a justificação em Cristo se torna evidente pela atitude de obediência à lei; outra possibilidade seria incluir a obediência de Cristo, creditada a nós, o que nos torna justos; talvez esses dois aspectos estejam implícitos aqui.] “Only through faith in Christ is such obedience possible.” [Obediência só é possível em Cristo, por meio do perdão e por meio da justiça comunicada.] “Men may comprehend the spirituality of the law, they may realize its power as a detector of sin, but they are helpless to withstand Satan’s power and deceptions, unless they accept the atonement provided for them in the remedial sacrifice of Christ, who is our Atonement – our At-one-ment – with God” (HP 146.4). [Ênfase na expiação provida em Cristo.]

“Those who believe on Christ and obey His commandments are not under bondage to God’s law; for to those who believe and obey, His law is not a law of bondage, but of liberty.” [Ênfase em crer primeiro, e depois obedecer.] “Everyone who believes on Christ, everyone who relies on the keeping power of a risen Saviour that has suffered the penalty pronounced upon the transgressor, everyone who resists temptation and in the midst of evil copies the pattern given in the Christ life, will through faith in the atoning sacrifice of Christ become a partaker of the divine nature, having escaped the corruption that is in the world through lust. Everyone who by faith obeys God’s commandments will reach the condition of sinlessness in which Adam lived before his transgression” (HP 146.5). [Ênfase clara na santificação: obedecer e crer; lei da liberdade; Salvador crucificado, penalizado por nossas transgressões; resistir às tentações e imitar o exemplo de Cristo; participar da natureza de Cristo mesmo sem perder a natureza pecaminosa, o que só ocorrerá por ocasião da volta de Cristo. A condição de impecaminosidade, em Cristo, antes da volta de Cristo, tem o sentido apenas de justificação e santificação. Portanto é uma vitória sobre o pecado enquanto se convive com a natureza pecaminosa. Agora, impecabilidade absoluta, apenas quando Cristo libertar os salvos da presença do pecado, na Sua volta.]

Dois textos para equalizar a questão:

“Era possível a Adão, antes da queda, formar um caráter justo pela obediência à lei de Deus. Mas deixou de fazê-lo e, devido ao seu pecado, nossa natureza se acha decaída, e não podemos tornar-nos justos. Visto como somos pecaminosos, profanos, não podemos obedecer perfeitamente a uma lei santa. Não possuímos justiça em nós mesmos com a qual pudéssemos satisfazer às exigências da lei de Deus. Mas Cristo nos proveu um meio de escape. Viveu na Terra em meio de provas e tentações como as que nos sobrevêm a nós. Viveu uma vida sem pecado. Morreu por nós, e agora Se oferece para nos tirar os pecados e dar-nos Sua justiça. Se vos entregardes a Ele e O aceitardes como vosso Salvador, sereis então, por pecaminosa que tenha sido vossa vida, considerados justos por Sua causa. O caráter de Cristo substituirá o vosso caráter, e sereis aceitos diante de Deus exatamente como se não houvésseis pecado” (Ellen White, Caminho a Cristo, p. 62).

“Os serviços religiosos, as orações, o louvor, a penitente confissão do pecado, sobem dos crentes fiéis, qual incenso ao santuário celestial, mas passando através dos corruptos canais da humanidade, ficam tão maculados que, a menos que sejam purificados por sangue, jamais podem ser de valor perante Deus. Não ascendem em imaculada pureza, e a menos que o Intercessor, que está à mão direita de Deus, apresente e purifique tudo por Sua justiça, não será aceitável a Deus. Todo o incenso dos tabernáculos terrestres tem de umedecer-se com as purificadoras gotas do sangue de Cristo. Ele segura perante o Pai o incensário de Seus próprios méritos, nos quais não há mancha de corrupção terrestre. Nesse incensário reúne Ele as orações, o louvor e as confissões de Seu povo, juntando-lhes Sua própria justiça imaculada. Então, perfumado com os méritos da propiciação de Cristo, o incenso ascende perante Deus completa e inteiramente aceitável” (Ellen White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 344).

“Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças” (Apocalipse 5:12). Só Ele é digno!

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