Entre o liberalismo e o perfeccionismo: um desabafo

confusedA tensão entre liberais e conservadores é antiga entre os cristãos em geral e os adventistas, em específico. Por ser uma denominação que valoriza a lei de Deus e que leva a sério a revelação inspirada dEle, ou seja, a Bíblia Sagrada, a Igreja Adventista do Sétimo Dia sempre foi conhecida pelos ideais elevados que cultiva e defende, levando a sério aspectos como alimentação saudável, entretenimentos sadios, vestuário apropriado, discrição em termos de adornos, relacionamentos, e por aí vai. Obviamente que uma ênfase exagerada no que alguns chamam de “usos e costumes” em detrimento da cristocentricidade e do valor da graça salvífica gera distorções objetáveis e, infelizmente, já bem conhecidas, como o legalismo, o perfeccionismo e a aridez religiosa que mais afasta do que atrai as pessoas. Como já disse em outras ocasiões, é comum na história o movimento pendular de ação e reação na mesma intensidade, mas em sentido oposto. E esse fenômeno parece estar sendo reproduzido também nos arraiais cristãos e adventistas.

No afã de deixar para trás todo ranço legalista de certas fases da história, alguns têm movido o pêndulo comportamental para o outro extremo. Com receio de repelir, estão atraindo toda gente com iscas apetecíveis e com “táticas evangelísticas” duvidosas. Na intenção de ganhar o “mundo” (quando essa intenção ainda existe), há quem esteja imergindo no mundo. E para não perder o melhor de dois mundos, numa atitude de pé lá pé cá, tentam “batizar” hábitos, procedimentos, práticas, produtos que não têm qualquer relação com a religião que professam ter.

Recentemente recebi de um amigo líder na igreja (uma pessoa inteligente, cristã e bastante equilibrada) o seguinte desabafo que considero sintomático de uma época em que estão sendo corroídos os valores, os princípios, as normas e o respeito às autoridades eclesiásticas legitimamente constituídas:

“Sinceramente me sinto com medo e coagido. Na medicina existe um pensamento famoso do médico do século XVI, Paracelso, que diz: ‘A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.’ Entendo que no começo dos anos 2000, por conta de grupos extremistas, a igreja necessitava dar uma resposta imediata e efetiva contra diversos pensamentos díspares e espúrios que a ameaçavam. Só que no afã dessa resposta, um efeito colateral aconteceu: o ‘antiperfeccionismo’ está se tornando em exaltação ao imperfeccionismo.

“Em um encontro de anciãos, é o professor de Teologia falando que não tem nada de mais no uso da Coca-Cola. No meu Facebook e WhatsApp, vários dos meus colegas anciãos mandam fotos em família na fila dos cinemas do shopping como algo habitual.  Nem vou falar de usos e costumes (uso de joias, brincos, adereços), pois variam entre regiões.

“Sinceramente, me sinto tenso quando vou falar de saúde ou nutrição em alguma igreja, pelo receio que alguém vá me interromper no meio da minha fala e dizer que sou ‘perfeccionista’ (e quão longe e quanta abjeção essa ideia me causa)…

“Vivemos na era das rotulações. É paradoxal, mas é cada vez mais comum. Homofóbico, racista, facista… perfeccionista. O problema dos rótulos é que bloqueiam automaticamente qualquer tentativa de diálogo. Quem quer dialogar com um homofóbico? Ou um racista? Perfeccionsta? Isso parece que vira lepra. Contamina? Pega?

“Veja bem: existem pessoas extremistas, existem os que distorcem nossa sã doutrina. Mas pelo fato de não haver limites claros, de não se dizer o que não é perfeccionismo, criou-se uma fronteira sem bordas definidas. Antigamente se falava de legalismo, mas com o ‘perfeccionismo’ já são questões completamente diferentes. Ideologicamente, a igreja se permitia promover a lei de Deus, mas sob a égide da graça. Hoje até isso parece que ficou meio fora da ‘agenda’.

“No fim das contas, o que se perde? A meu ver, a identidade. Fica cada vez mais difícil explicar para os meus filhos por que os coleguinhas do Ministério da Criança, filhos de anciãos, vão no sábado à noite ver o novo filme do Pokémon, e nós não vamos. ‘Mas eles não são de Jesus?’, pergunta meu filho mais novo. ‘Sim, são, meu filho’, respondo. ‘E eles estão fazendo algo errado?’ Expliquei que isso é um assunto que cada família decide, mas que o nosso entendimento é que não é adequado. Entendeu a angústia?”

Sim, meu amigo, entendi perfeitamente sua angústia. Também tenho filhos tentados e assediados por filmes, séries, músicas impróprias… E só não me desespero porque creio que o Deus da minha família e o Deus da minha igreja está cuidando de tudo e vai colocar todas as coisas em ordem, no devido tempo. Este é o barco que vai chegar ao porto final. Até lá, ele vai enfrentar muitos tsunamis, icebergs, vai chacoalhar pra valer, parecerá até afundar enquanto muitos serão lançados às águas da incredulidade, do liberalismo desmedido, do fanatismo louco e da desconsideração pelos Testemunhos.

Parecerá afundar, mas não vai.

Michelson Borges

Anúncios