O funk, como o mosquito da dengue, está fazendo estragos

vai-malandra-2Se criticar o funk é ser preconceituoso, sinto muito, eu sou. Pensando bem, quando nossa opinião tem como base informações e conceitos analisados previamente, isso é, na verdade, um pós-conceito. E não posso considerar boas músicas que se limitam a exaltar os atributos físicos das mulheres, tratando-as como objeto sexual e usando palavras vulgares, gemidos e insinuações que promovem a carnalidade e o erotismo sem limites. As coreografias mais parecem atos sexuais animalescos, e a letra do último hit da atual cantora mais famosa do gênero é pura baixaria, com trechos em inglês num dos quais afirma que “todo o Brasil está sentindo isso”. Depois reclamam dos gringos assanhados que consideram as brasileiras mulheres “fáceis” e o Brasil um eterno sambódromo exalando feromônios pelo ar. É esse tipo de imagem que estamos vendendo. É esse tipo de conteúdo que está poluindo a vida desta geração.

O cantor Lulu Santos deixou escapar em seu Twitter uma crítica certeira a essa cultura pornomusical que se alastra pelo país: “Caramba! É tanta [e aqui ele se refere à exibição de traseiros e genitálias] que a impressão que dá é que a MPB regrediu pra fase anal.” Claro que os fãs do funk atacaram o cantor e disseram que finalmente a favela passou a ter voz. Mas duvido que essa seja a “voz da favela”, assim como não é certo afirmar que todo morador dessas comunidades é traficante ou mesmo que todo brasileiro gosta de carnaval. Eu não gosto, e sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.

Com uma frase freudiana, Lulu Santos, cuja carreira decolou nos anos 1980, descreveu a decadência musical que tomou conta do Brasil e que está sendo exportada como se fosse representante da nossa cultura.

Aliás, foi no fim dos anos 1980 que eu decidi me desfazer da minha coleção de fitas cassete. Eu era fã de bandas de rock como Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii e outras. Quando aceitei Jesus como meu Salvador e passei a pautar minha vida pela Bíblia, entendi que meus gostos, minhas preferências e mesmo minhas predileções musicais deveriam refletir os altos padrões do cristianismo adventista que eu havia abraçado. Realmente não deveria haver comunhão entre a luz e as trevas na minha vida. Dali para a frente decidi que apenas ouviria músicas com conteúdo edificante e que, de alguma forma, me aproximassem de Deus e dos valores do reino dEle. E esse pensamento apliquei a todo tipo de produção cultural, de filmes a livros, passando por histórias em quadrinhos e séries televisivas. Filipenses 4:8 passou a ser minha baliza, meu aferidor daquilo que vale a pena ser consumido.

Só que o rock anos 1980 que eu ouvia na época é poesia requintada perto do que se ouve hoje. É com espanto que vejo cristãos curtindo o tal sertanejo universitário, rap e funk, sem peso na consciência. Sei que o mundo jaz no maligno e que a decadência cultural acompanha a corrida da humanidade ladeira abaixo, mas não tenho como evitar o espanto e a contrariedade. Se o Renato Russo estivesse vivo eu pediria desculpas a ele por ter jogado fora aqueles cassetes…

No alto de uma laje no meio da favela, a famosa funkeira gravou sua mais recente ode à objetificação feminina e ao erotismo vulgar. Nas fotos espalhadas pelas redes sociais e estampadas nos mais importantes jornais e nas mais conhecidas revistas, ela aparece praticamente nua com outras mulheres na mesma condição. A campanha de marketing foi pesada, de tal forma que ficou difícil não esbarrar nas manchetes e nas imagens. Mas sabe para o que a Secretaria de Saúde do Rio chamou atenção? Para a água parada na laje sob os pés da cantora. Sim, porque poças d’água como aquela ajudam a proliferar o temido mosquito da dengue.

Onde estão os órgãos de defesa das crianças numa hora dessas? Há muitas meninas rebolando por aí imitando suas ídolas e sonhando com o luxo ostentado por essas mulheres que venderam a honra em troca de sucesso. Onde estão as feministas para vociferar contra essa exploração indevida da figura da mulher? Não querem se indispor contra a “cultura do morro”? Muito pior do que o estrago causado pelo Aedes aegypti é a proliferação da baixaria, da pornografia, do sexo animalesco, do entretenimento obsceno. Muito pior do que a dengue é a perda da moral, o rebaixamento dos valores e o esquecimento dos bons costumes. Se tratada, a dengue tem cura, mas quem vai recuperar a mente desta geração que regrediu à fase anal?

Michelson Borges

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