Espírito dissidente e perfeccionista

dissidenteMinha experiência religiosa começou desde a infância, no Rio de Janeiro. Nasci em um lar católico e segui essa orientação religiosa até os 16 anos. Completei os cinco anos de catequese e integrei o grupo de coroinhas da igreja na qual assistia. Aos dezesseis anos, em Curitiba, conheci um grupo de ex-adventistas chamado Ministério 4 Anjos. Meu envolvimento com eles foi através da família daquela que na época era minha namorada e que hoje (tenho 29 anos) é minha esposa.

O Ministério 4 Anjos, cuja sede estava no município de Contenda, PR, é um movimento dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A razão principal da dissidência é o antitrinitarianismo: rejeição da plena divindade de Jesus (Ele não é Deus) e do Espírito Santo (Ele não é uma pessoa distinta do Pai e do Filho e não é Deus). Além disso, nega-se o batismo de Mateus 28:19 (em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo) e a Igreja Adventista do Sétimo dia é acusada de ter se tornado Babilônia ou filha dela. Por fim, a visão de interpretação profética é futurista e a hermenêutica bíblica é perigosamente influenciada pela alegorização.

À época eu não percebia, mas além das crenças mencionadas, o espírito perfeccionista orientava os graus de “santificação” daqueles que se comprometiam com a mensagem do movimento. Havia um padrão exterior através do qual julgávamos se os seguidores estavam de acordo com o modelo supostamente determinado por Deus: dieta estritamente vegetariana, vida no campo, músicas sem bateria e sair das escolas de educação formal eram alguns desses padrões. Para as mulheres restava ainda a proibição quanto ao uso de calças, independentemente da situação. Após dez anos comprometido com esse movimento, até ao ponto de liderá-lo com outras seis pessoas (das quais três voltaram para a Igreja Adventista), a misericórdia e a providência de Deus me alcançaram. Apesar de sofrer consequências (emocionais, financeiras, educacionais e sociais) até hoje, em 2015 fui batizado com minha esposa na Igreja Adventista do Sétimo Dia e vivo em paz com Deus. Bendito seja o Senhor!

Essa longa experiência com movimentos dissidentes me fez perceber algo que chamo de “espírito dissidente”. Esse não se revela apenas em desertores da Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas também em membros da Igreja que lamentavelmente adotam uma cosmovisão perfeccionista – sim, uma “cosmovisão”; isso porque o perfeccionismo tem uma teologia e escatologia bastante peculiares, influenciando a forma como interpretam as coisas.

Para exemplificar o que seria o “espírito dissidente” característico em perfeccionistas, preste atenção na citação abaixo (que não tem absolutamente nada de perfeccionista):

“O que confessar a Cristo, tem de O possuir em si. Não pode comunicar aquilo que não recebeu. Os discípulos poderiam discorrer fluentemente acerca de doutrinas, poderiam repetir as palavras do próprio Cristo; mas a menos que possuíssem mansidão e amor cristãos, não O estariam confessando. Um espírito contrário ao de Cristo o negaria, fosse qual fosse a profissão de fé. Os homens podem negar a Cristo pela maledicência, por conversas destituídas de senso, por palavras inverídicas ou descorteses. Podem negá-Lo esquivando-se às responsabilidades da avida, pela busca dos prazeres pecaminosos. Podem negá-Lo conformando-se com o mundo, por uma conduta indelicada, pelo amor das próprias opiniões, pela justificação própria, por nutrir dúvidas, por ansiedades desnecessárias, e por deixar-se estar em sombras. Por todas essas coisas declaram não ter consigo a Cristo. E ‘qualquer que Me negar diante dos homens’, diz Ele, ‘Eu o negarei também diante de Meu Pai, que está nos Céus” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 249)

Observe agora como ficaria a citação caso fosse escrita por um perfeccionista naturalmente imbuído do “espírito dissidente”: “Os homens podem negar a Cristo por não serem vegetarianos, por ouvirem e cantarem músicas com bateria. Podem negá-Lo por não morar no campo e orar em pé. Se for mulher, podem negá-Lo por usar calças…”

O comportamento é sempre o reflexo ou consequência natural da conversão e não o meio para ser regenerado. Ao falar sobre perfeição na esfera humana, o contexto bíblico sempre enfatiza primeiramente os valores morais (mansidão, bondade, longanimidade, misericórdia…) entre os quais o maior deles é o amor cristão. A maioria dessas coisas citadas pelos perfeccionistas são importantes para nossa comunhão com Deus e para um bom testemunho, mas não no grau de prioridade disposta por aqueles que“coam um mosquito e engolem um camelo”.

Examine-se a si mesmo e se concluir que o “espírito dissidente” está em seu coração, peça a Deus para lhe conceder um novo coração e uma nova mente.

(Jefferson Araújo é graduando em História e evangelista voluntário, responsável pelo projeto Última Verdade Presente)

Anúncios