A esquerda é o arco, a direita é a flecha

flechasCom todas essas mudanças políticas e econômicas que o Brasil e o mundo estão enfrentando, muitos se perguntam aonde a humanidade vai chegar. Será que o caos está próximo mesmo? Será o “fim do mundo”? Os ânimos estão se acirrando e principalmente a polarização política se intensifica cada dia mais. No meio dessa confusão toda, surgem vozes destoantes e antagônicas, e a violência cresce assustadoramente. De um lado estão os adeptos da ideologia política de esquerda, com seu discurso de inclusão e justiça social, defesa de minorias e pautas progressistas como o aborto e a legalização das drogas. De outro lado, estão os adeptos da ideologia política de direita, com sua oratória moralizante e intolerante, de preservação de uma tradição religiosa e de instituições antigas. Em meio a esse fogo cruzado, qual deve ser a postura cristã pautada por princípios bíblicos?

Segundo Karl Marx, possivelmente a maior influência para a esquerda mundial, seus princípios metodológicos e basicamente toda a sua teoria econômica e social estão fundamentados no evolucionismo darwinista. Tanto é assim que ele dedicou a segunda edição de O Capital para seu “autêntico amigo” Charles Darwin.

No livro Polemos: Uma Análise Crítica do Darwinismo (p. 220), o ex-professor da UNB José Osvaldo de Meira Penna destaca algo interessante: “Em carta a Engels de 19 de dezembro de 1860, um ano depois da publicação de A Origem das Espécies, Marx informa seu dileto amigo que, ‘durante meu tempo de provações, nas quatro últimas semanas, li toda espécie de coisas. Entre outras, o livro de Darwin sobre a seleção natural. Malgrado seu inglês pesado, esse livro contém o fundamento natural de nossa teoria’” (grifo meu). Percebeu? Foi o próprio Marx que admitiu…

No livro Darwin: Retrato de um Gênio (p. 116), Paul Johnson, escreveu que “a devoção que Marx e Engels demonstraram em relação ao livro Origem [das Espécies] ainda na semana de sua publicação foi seguida por um interesse contínuo entre importantes comunistas, de Lenin a Trotsky, de Stalin a Mao Tse-Tung, e todos lançavam mão da teoria da seleção natural para justificar a luta de classes”.

James Pusey, professor de Estudos Chineses da Universidade Bucknell, escreveu um artigo para a série “Global Darwin”, na revista Nature de 12 de novembro de 2009, sobre as reações de Lenin e Mao Tse-tung à obra de Charles Darwin. Embora não tenha citado boa tarde das mazelas comunistas, Pusey aponta uma informação muito reveladora:

“Sun, Jiang Jieshi (Chiang Kaishek) e, finalmente, o pequeno grupo de intelectuais que, em indignação pela traição em Versalhes, encontrou no marxismo o que parecia para eles a fé mais apta na Terra para ajudar a China a sobreviver. Isso não foi, é claro, toda responsabilidade de Darwin, mas Darwin esteve envolvido em tudo. Para crer no marxismo, alguém tinha de acreditar nas forças inexoráveis empurrando a humanidade, ou pelo menos os eleitos, para o progresso inevitável, através de séries de etapas (que poderiam, contudo, ser puladas). Alguém tinha de acreditar que a história era uma luta de classes violenta, hereditária (quase que uma luta ‘racial’); que o indivíduo deve ser severamente subordinado ao grupo; que um grupo iluminado deve liderar o povo para o seu próprio bem; que as pessoas não devem ser humanas para com seus inimigos; que as forças da vitória asseguraram a vitória daqueles que estavam certos e que lutaram. Quem ensinou essas coisas para os chineses? Marx? Mao? Não. Darwin” (grifos meus).

O livro Marxismo Desmascarado é a coletânea de palestras apresentadas nos anos 1950 por Ludwig von Mises. Na página 41, ele diz: “Era o tempo de A Origem das Espécies [1859], de Charles Darwin. A moda intelectual daquele momento era enxergar o homem simplesmente como um membro da classe zoológica dos mamíferos, que agia com base nos instintos.”

Por causa da cosmovisão materialista, os marxistas não veem a vida como algo sagrado e, por isso, desprezam as Escrituras e a tradição judaico-cristã como orientadoras da moral social e dos valores intrínsecos que elas carregam. Do ponto de vista adventista do sétimo dia, as instituições edênicas criadas por Deus, como o casamento heteromonogâmico e mesmo as diferenças entre os dois sexos originalmente criados são, dessa maneira, injustamente consideradas meras convenções humanas, resquícios de uma sociedade arcaica.

O memorial da criação, o santo sábado, e o relato da origem do pecado e da queda humana são tidos, dentro desse espectro político, como apenas lendas religiosas superficiais. O ser humano se resume a um animal racional, um “amontoado de células” sujeito às mutações aleatórias da suposta “macroevolução”. O pecado passa a não ser um atributo inerente à natureza e seus efeitos espirituais não mais existem. Como consequência, a redenção bíblica protagonizada por Cristo é interpretada como um ideal social nas mãos da Teologia da Libertação, e será alcançada por uma via revolucionária, socialista ou comunista.

Como acusação contra os “conservadores”, Karl Marx, seu amigo e coautor Friedrich Engels e seu discípulo italiano Antônio Gramsci, os principais ideólogos de esquerda seguidos no Brasil, ao lado de Nietzsche, dizem que foi o capitalismo que originou a família tradicional. Para os marxistas, essa família não é o arranjo de família natural, pois as relações familiares, antes da “praga do capitalismo”, eram comunitárias. Um trecho do livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (p. 69-74), de Friedrich Engels, esclarece essa posição:

“A família individual moderna está baseada na escravidão doméstica, transparente ou dissimulada, da mulher, e a sociedade moderna é uma massa cujas moléculas são compostas exclusivamente por famílias individuais. Hoje em dia é o homem que, na maioria dos casos, tem de ser o suporte, o sustento da família, pelo menos nas classes possuidoras, e isso lhe dá uma posição de dominador que não precisa de nenhum privilégio legal específico. Na família, o homem é o burguês e a mulher representa o proletário. […] Quando os meios de produção passarem a ser propriedade comum, a família individual deixará de ser a unidade econômica da sociedade. A economia doméstica converter-se-á em indústria social. O tratamento e a educação das crianças passarão a ser uma questão pública. A sociedade cuidará, com o mesmo empenho, de todos os filhos, sejam legítimos ou ilegítimos. Desaparecerá, desse modo, o temor das ‘consequências’ que é hoje o mais importante fator social, tanto do ponto de vista moral quanto do ponto de vista econômico, o que impede uma jovem solteira de se entregar livremente ao homem que ama. Não será isso suficiente para que apareçam gradualmente relações sexuais mais livres e também para que a opinião pública se torne menos rigorosa quanto à honra da virgindade e à desonra das mulheres? E, finalmente, não vimos que no mundo moderno a prostituição e a monogamia, ainda que antagônicas, são inseparáveis, como polos de uma mesma ordem social? Pode a prostituição desaparecer sem arrastar consigo, na queda, a monogamia?”

Para algumas pessoas, a ideologia política de direita seria uma resposta a esses abusos progressistas. Entretanto, confiar inteiramente e somente em sistemas econômicos, propostas sociais e governos humanos é algo vão, pois a História demonstra com precisão incrível que, (1) se o governo conservador fosse inteiramente religioso, já sabemos pela experiência que as teocracias não funcionariam; (2) se o governo conservador fosse parcialmente religioso e parcialmente estatal, também já sabemos pela experiência que seria uma catástrofe como na Idade Média; (3) se for liberal, deixa de ser conservador e de direita.

Na ala conservadora do espectro político, prega-se em favor da família patriarcal, da propriedade privada dos meios de produção, dos direitos individuais, da legitimidade da autodefesa pessoal, do favorecimento do mérito, etc. Mas, como já mencionei, há um grande risco: geralmente os defensores do pensamento conservador são aliados de uma religião hegemônica – o catolicismo, as “bancadas evangélicas”, ou ambos. Com eles, a relação Estado-Igreja pode ser muito mais estreita, com todos os riscos que essa união traz.

Trata-se de uma situação sui generis, que também pode ser contemplada e refletida por um grupo que pretende estar fora dessas discussões políticas: os adventistas do sétimo dia, que têm uma forte visão escatológica e buscam se pautar pelos princípios bíblicos.

Quem você acha que mais facilmente assinaria um decreto como aquele que vai impor o descanso dominical justificado pela proteção da família e do meio ambiente? De um lado, estão os adeptos da ideologia política de direita que pretendem defender a família tradicional. De outro, os adeptos da ideologia política de esquerda que pretendem defender o meio ambiente.

Como bem ilustrou o físico Eduardo Lütz, “a esquerda é só o movimento puxando o arco para o lado oposto ao que será percorrido pela flecha que vai causar os verdadeiros estragos. A esquerda é o arco, a direita é a flecha”. O fato é que o mundo parece estar chegando a uma encruzilhada. A legalização e banalização do aborto, a ideologia de gênero, o abuso do politicamente correto, a destruição da família tradicional e mesmo a islamização do Ocidente são forças que estão retesando o arco que lançará a flecha destruidora da onda moralizante que varrerá o planeta, com sua bandeira de defesa da família que, para os mais atentos às profecias, traz consigo perigos e ameaças para pessoas que nada têm que ver com isso nem com aquilo.

Por isso, não nos iludamos. A solução para este mundo desgastado e machucado pelo pecado, cheio de injustiças, desigualdades e miséria não virá dos esforços humanos, desse ou daquele partido, desse ou daquele sistema político ou de governo. Como diz o salmista: “Levanto os meus olhos para os montes e pergunto: De onde me vem o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra” (Sl 121:1-2). Nosso socorro não virá das montanhas, não virá dos governos humanos, não virá de nós mesmos. Já tivemos seis mil anos para deixar claro que não conseguimos nos salvar. Precisamos da intervenção do Alto. Nosso socorro virá do Deus que criou os céus e a Terra, e que vai recriar este planeta e devolvê-lo à condição edênica de paz, justiça e amor eternos.

Conforme escreveu Ellen White, “alguns pretendem que a espécie humana necessita, não de redenção, mas de desenvolvimento – que ela pode se aperfeiçoar, elevar-se e regenerar-se. Assim como Caim julgava conseguir o favor divino com uma oferta a que faltava o sangue de um sacrifício, assim esperam estes exaltar a humanidade à norma divina, independentemente da expiação. A história de Caim mostra qual deverá ser o resultado. Mostra o que o homem se tornará separado de Cristo. A humanidade não tem poder para regenerar-se. Ela não tende a ir para cima, para o que é divino, mas para baixo, para o que é satânico” (Patriarcas e Profetas, p. 41).

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Barna em cooperação com o Summit Ministries revelou que tem crescido entre os cristãos ideias não bíblicas como as da Nova Era e do marxismo. Mais de dez por cento concordam com a declaração marxista: “A propriedade privada encoraja a ganância e a inveja”, e outros 14% dizem crer que “o governo e não os indivíduos deveria controlar os meios de produção e os recursos”. Por outro lado, apenas 17% dos cristãos mostraram ter uma visão bíblica sobre a vida.

No caso específico dos adventistas do sétimo dia, é evidente que doutrinas espíritas e concepções evolucionistas encontram muito mais dificuldade para se misturar à sua cosmovisão. Mas o mesmo não pode ser dito das ideias marxistas, muito embora Ellen G. White tenha escrito coisas como esta: “Não é plano de Deus que a pobreza desapareça do mundo [Jesus disse que os pobres estariam por aqui até o fim, até que em Sua segunda vinda Ele resolva todos os problemas causados pelo pecado]. As classes sociais jamais deveriam ser igualadas; pois a diversidade de condições que caracteriza nossa raça é um dos meios pelos quais Deus tem pretendido provar e desenvolver o caráter. Muitos têm insistido com grande entusiasmo em que todos os homens devem ter parte igual nas bênçãos temporais de Deus; não era esse, porém, o propósito do Criador. […] Seria a maior desgraça que já sobreveio à humanidade se todos devessem ser colocados em posição de igualdade em possessões terrenas” (Testimonies, v. 4, p. 552).

O texto de Oseias 4:6 é mais verdadeiro do que nunca: “O Meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento.” Os cristãos caem nos engodos gestados pelo inimigo de Deus justamente porque não mais estudam a Bíblia como deveriam. Vivem uma religião emocionalista, quase mística, sem lastro nas Escrituras Sagradas. Apenas usam a Bíblia como uma espécie de amuleto ou a carregam para a igreja, levando-a de volta para casa, onde fica estacionada na estante ou sobre o criado mudo – tão muda quanto esse criado. É uma armadilha satânica: enquanto essas pessoas se sentem bem por crerem que são cristãs, vivem como se não fossem e carecem de uma visão bíblica que as ajudaria a identificar as armadilhas ideológicas espalhadas por aí.

Evolucionismo, espiritualismo e marxismo são incompatíveis com a Bíblia. Essa tríade filosófica ensina a independência de Deus; que o ser humano pode evoluir física, espiritual e socialmente. E isso vai totalmente contra a essência das três mensagens de Apocalipse 14 – a justificação pela fé que, em uma palavra, é a dependência de Deus.

Existem coisas boas nessas três ideologias evolucionistas? Sim, mas, quando analisamos bem esse lado bom da “maçã”, percebemos que o que há de elogiável nelas é exatamente o que prega o cristianismo bíblico, como o amor ao próximo e a ideia de que todos, embora sejam diferentes, têm direitos iguais perante Deus – especialmente o direito à salvação. Ou então que devemos ser caridosos, o que não é monopólio do espiritismo. O problema é o lado podre da “maçã”, aquilo que vai de encontro à revelação bíblica e que é justamente o elemento que une a tríade.

Deus nos ajude a olhar para o Alto, não para a esquerda nem para a direita!

Michelson Borges

P.S.: “A Palavra de Deus não sanciona nenhum plano que enriqueça uma classe pela opressão e o sofrimento de outra. Em todas as nossas transações comerciais, ela nos ensina a colocar-nos no lugar daqueles com quem estamos tratando, a considerar, não somente o que é nosso, mas também o que é dos outros. Aquele que se aproveitasse do infortúnio de um outro para beneficiar a si mesmo, ou que buscasse para si lucros por meio da fraqueza ou incompetência de outros seria um transgressor, tanto dos princípios como dos preceitos da Palavra de Deus” (Ellen G. White, Ciência do Bom Viver, p. 187).

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