Embaixada americana em Jerusalém: profecia cumprida?

embaixada-americana-jerusalem-4Ontem foi inaugurada a embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, em um claro reconhecimento do governo norte-americano de que a cidade é a capital de Israel. A cerimônia atraiu a atenção do mundo todo. O evento foi transmitido ao vivo para milhões e o tom religioso ficou evidente. Dois pastores evangélicos e um rabino fizeram orações de dedicação e pediram a bênção de Deus. Robert Jeffress, pastor da Primeira Igreja Batista de Dallas, mencionou supostas profecias sobre a restauração de Israel em 1948, após quase dois mil anos sem ser contada entre as nações, e encerrou sua fala dizendo: “…em nome do Príncipe da Paz, o nosso Senhor Jesus Cristo.” Obviamente havia muitos líderes religiosos judeus ali, como o rabino Zalman Wolowik, que orou para que mais nações também mudem suas embaixadas para Jerusalém. O pastor John Hagee, do ministério Cristãos Unidos por Israel, encerrou a cerimônia com uma oração, e disse: “Jerusalém é a cidade onde o Messias virá e estabelecerá um reino que não terá fim.”

A decisão do presidente Donald Trump, como era de esperar, teve apoio e manifestações contrárias. Enquanto muitos acham que se trata de uma vitória há muito esperada, outros a consideram um crime e até uma declaração de guerra.

Muitos cristãos ficaram contentes com a mudança da embaixada, pois entendem isso como um passo na direção da construção de um novo templo em Jerusalém. “Se o presidente Trump realmente tiver um chamado semelhante ao do rei Ciro”, escreveu o site Prophecy News Watch, “pode ser que Deus use esse promotor imobiliário transformado em presidente para facilitar o maior desenvolvimento imobiliário dos tempos modernos: a reconstrução do Templo?” Trump tem sido comparado ao antigo rei Ciro porque o governante persa ajudou a restabelecer os judeus em sua terra natal depois de eles terem ficado setenta anos em Babilônia.

Os que ensinam que Israel será um ator importante no cenário do tempo do fim baseiam seu ponto de vista em textos selecionados da Bíblia que falam do respeito de Deus por Israel e de Sua promessa feita a eles por meio de Abraão. O problema com essa interpretação é que ela falha em reconhecer que essas promessas eram condicionais, como fica claro em Levítico 26:27, 31-33, por exemplo. A restauração dependia da fidelidade de Israel a Deus (Jr 7:3).

O Israel político não ocupa lugar central no Novo Testamento. O nome “Israel” é usado como um título para a igreja, não para uma nação. Aqueles que creem em Jesus são os verdadeiros judeus, segundo o apóstolo Paulo: “Os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7). “Nem todos os descendentes de Israel são Israel” (Rm 9:6; veja também Gl 3:27). Não se trata mais da identidade étnica, mas de uma mudança interna: “Não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a operada no coração, pelo Espírito, e não pela lei escrita” (Rm 2:28, 29).

Quanto a um novo templo em Jerusalém, nem Jesus nem os escritores do Novo Testamento previram algo dessa natureza. Muito pelo contrário. Com a morte de Cristo na cruz, a cortina do templo se rasgou de alto a baixo (Mt 27:51), indicando que aquele santuário e as cerimônias que eram realizadas nele não mais teriam validade dali para a frente, afinal, o verdadeiro Cordeiro de Deus havia sido sacrificado. O livro de Hebreus não se concentra em um templo feito pelos seres humanos, mas chama os crentes a olhar para o templo no Céu, onde Cristo ministra como nosso sumo sacerdote (Hb 9:8).

Essa mitologia cristã relacionada com a transferência da embaixada norte-americana e a possível construção de um novo templo em Jerusalém é baseada em uma breve declaração profética de Paulo: “Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, a ponto de se assentar no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus” (2Ts 2:4). Mas quando levamos em conta o próprio conceito de Paulo sobre o templo como metáfora para a igreja, fica claro que essa passagem não está descrevendo um templo literal, mas antevendo a vinda de um falso líder que ganhará influência e desencaminhará muitos cristãos.

Israel como nação tem todos os direitos e responsabilidades de qualquer país e deve ser tratado com justiça, mas sua existência e localização na Terra Santa não se deve à antiga promessa divina. E a mudança da Embaixada norte-americana para Jerusalém não tem qualquer implicação profética. A não ser para aqueles que insistem em uma leitura superficial da Bíblia ou que baseiam sua opinião em novelas neopentecostais.

O detalhe para o qual devemos realmente estar atentos é que Trump tem diminuído cada vez mais a distância entre o Estado e a igreja e vem cumprindo as promessas feitas aos grupos evangélicos que o apoiaram na campanha presidencial e o têm apoiado. Até onde mais Trump estará disposto a ir para retribuir esse apoio? O tempo dirá. [MB]

Leia também: “O que a decisão de Trump sobre Jerusalém tem que ver com as profecias?” e “Crença no fim do mundo pesou na decisão de Trump sobre Jerusalém”

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