Uma estrada para a reconciliação

Theomistocles“… assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido.” Mateus 6:12b

Um dos temas que mais me tem chamado a atenção nos últimos anos é a luta entre nossas normas culturais e nossa convicção religiosa. Ou, em outras palavras, como nós preferimos na hora de tomar uma decisão seguir os costumes culturais nos quais crescemos em detrimento de nossa convicção religiosa ou daquilo que a Bíblia ensina claramente. Creio que o maior desafio do cristianismo é justamente ser mais forte do que a cultura. Como dizia Heródoto, a cultura é o rei. Por exemplo, na Alemanha nazista, praticamente todas as igrejas cristãs tinham placas nas entradas dos prédios com a frase “É proibida a entrada de judeus”. Porém, aqueles mesmos cristãos “absurdamente” esqueciam o fato de Jesus ser judeu. Portanto, a cultura local da época induzia (ou forçava) as pessoas durante a semana a odiar judeus, mas no fim de semana a adorar um. O mesmo paradoxo “cultura versus ensinamento bíblico” ocorreu durante os anos de escravidão durante os quais os cristãos achavam aceitável que pessoas fossem escravizadas. E mais recentemente nos Estados Unidos, onde afroamericanos eram proibidos de entrar nas igrejas de brancos. O racismo era claro em todos os cantos da sociedade, porém, os mesmos racistas liam textos bíblicos durante seus cultos, como: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

A cultura local vigente cegava naquela época e pode cegar hoje completamente o entendimento ou o desejo de entender ou obedecer às doutrinas bíblicas.

Cristo apresenta em Mateus capítulo 6, no Seu famoso sermão do monte, a oração modelo, conhecida como “Pai Nosso”. Praticamente todos os cristãos conhecem essa oração e grande parte do cristianismo tem como prática decorar esses versos bíblicos. Mas, mesmo assim, palavras como “perdoa as nossas ofensas assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido” tornam-se apenas palavras vazias em nossa boca, especialmente quando permitimos que nossa cultura vingativa e o desejo de executar justiça com as próprias mãos sejam mais fortes que o ensinamento de Cristo.

Tive o privilégio de visitar Ruanda durante o mês de abril com a missão de ajudar uma escola que tenho apoiado financeiramente por meio da organização alemã l’Esperance Kinderhilfe e.V. (www.lesperance.de). Visto que as doações têm diminuído nos últimos anos (o porquê dessa diminuição é assunto para outro texto), minha intenção era ensinar os funcionários assim como os alunos a desenvolver produtos a partir dos materiais disponíveis na escola e então passarmos a comercializá-los gerando renda tanto para os alunos quanto para a escola, transformando-a em uma escola autossustentável.

O que nos surpreendeu e é a razão deste texto foi a coincidência ou providência de chegarmos em abril, justamente o mês em que o povo em Ruanda relembra o genocídio contra os tutsis, que ocorreu em 1994.

No início da década de 1990, Ruanda vivia uma guerra civil. Os hutus (maioria da população) governavam e não aceitavam compartilhar com os tutsis (segunda tribo de Ruanda) a liderança do país. Os tutsis que haviam fugido do país e viviam como refugiados em Uganda haviam organizado um exército, o Rwandan Patriotic Front (RPF), e assim os confrontos haviam-se iniciado entre o governo e o RPF. As agressões foram aumentando e a propaganda de ódio do governo hutu contra os tutsis também se intensificou. Já era possível ler e ouvir palavras nos jornais e rádios como: “Tutsis são cobras… são baratas… devem morrer.” Já era possível ver nas escolas, durante as aulas de matemática, explicações do tipo: “Se há cinco tutsis e você mata dois, quantos restam?” Nos jornais era também possível ler listas com os nomes de tutsis famosos que deveriam morrer.

Todo esse clima hostil teve seu ápice em abril de 1994, quando o presidente (leia-se ditador) de Ruanda, Juvénal Habyarimana, que esteve no poder de 1973 a 1994, morreu quando seu avião foi abatido em Kigali, a capital de Ruanda. A partir daquele momento, a máquina de propaganda do governo anunciava por rádio que os tutsis haviam sido os responsáveis e, portanto, todos os tutsis (não somente os do RFP) deveriam morrer. Para piorar a situação, as estações de rádio espalharam a notícia de que qualquer hutu que matasse um tutsi automaticamente ganharia as posses do morto. A partir daquele momento seguiram-se cem dias de terror durante os quais pelo menos 800 mil pessoas foram assassinadas.

Os hutus estavam tão convencidos de que aqueles assassinatos eram socialmente aceitáveis que naturalmente paravam de matar para ir às igrejas, mas depois da missa ou do culto saíam com facões e machados para continuar assassinando seus vizinhos. Cerca de 50 mil hutus também foram assassinados por se oporem ao genocídio ou até mesmo por simplesmente não mostrarem interesse em matar os tutsis. Quase toda igreja em Ruanda virou memorial do genocídio, pois em praticamente todas elas pessoas foram assassinadas e em inúmeros casos líderes religiosos foram responsáveis por assassinatos em massa.

Tanto as Nações Unidas quanto a França, que poderiam ter feito algo para parar a tragédia, falharam miseravelmente em suas funções e pioraram a situação. Somente quando o exército RPF entrou no país foi possível parar o genocídio. Um novo governo foi formado, dessa vez liderado pelos tutsis. Apesar de os conflitos terem-se estendido por algum tempo, a paz finalmente se estabeleceu. E a partir daquele momento algo incrível aconteceu. O novo governo tutsi, que poderia ter usado sua posição para se vingar dos hutus, decidiu adotar uma série de medidas que em minha opinião estão entre as mais avançadas (tanto de um ponto de vista social quanto espiritual) já implementadas por um governo para reconstruir um país. O governo eliminou o divisionismo entre tribos, retirando da identidade das pessoas a referência à tribo à qual pertenciam e anunciando que daquele momento em diante todos seriam ruandeses. Virou crime até mesmo perguntar se uma pessoa era hutu ou tutsi. Os assassinos foram presos, julgados e condenados. Porém, decidiu-se estabelecer uma “estrada para a reconciliação” com base no sistema de justiça tradicional de Ruanda, em que os autores dos crimes deveriam aparecer diante dos familiares das vítimas, admitir os erros e pedir perdão. Apesar de parecer aos nossos olhos algo injusto e obviamente doloroso para as famílias das vítimas, esse programa foi um sucesso. Hoje muitos dos envolvidos nos assassinatos foram restabelecidos às suas comunidades e o país tem sido um exemplo de estabilidade e progresso para a África e para o mundo, mostrando como é possível curar feridas e reerguer uma nação.

Quando Theomistocles, o diretor da nossa escola [foto acima], me explicou tudo isso enquanto viajávamos de Kigali para o oeste do país, onde fica nosso projeto, perguntei se ele chegou a participar de algum desses programas de reconciliação, e ele me disse: “Sim, e eu me encontrei com o homem que matou minha mãe e minha irmã. Ele me disse onde as havia enterrado. Eu o perdoei, desenterrei os corpos dos meus familiares e os enterrei num cemitério.” Naquele momento meus olhos se encheram de lágrimas por estar diante de um exemplo vivo de cristianismo prático no mais profundo sentido da palavra. Enquanto eu me remoía em meus pensamentos e me sentia mal, imaginando a dor que aquele homem passou, também sofria ao refletir no fato de estar muito longe daquele nível de cristianismo.

Um dos pilares do cristianismo é o perdão incondicional, dado justamente àquele que não merece ou nem mesmo reconhece o erro. Várias parábolas de Cristo tratam do perdão. Várias histórias no Novo Testamento são de pessoas em busca do perdão. Uma das frases mais famosas de toda a Bíblia é: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Sem esse perdão estaríamos todos perdidos. Sem esse perdão demonstrado por Theomistocles e tantos outros naquele pequeno país na África, Ruanda provavelmente ainda estaria se banhando em sangue com vinganças sucessivas e sem fim.

Quando vejo cristãos que não perdoam seus cônjuges, filhos, pais, amigos, às vezes por coisas banais, fico me perguntando se eles prestam atenção quando oram o Pai Nosso. Conheço muitos cristãos valentes, inteligentes, eloquentes, fortes, etc., mas conheço poucos que sabem perdoar.

O exemplo de perdão demonstrado pelos ruandeses esmaga qualquer pretensão religiosa que eu tenha, pois o cristianismo é muito mais do que doar uma roupa de que eu já não precise ou perdoar quando o outro lado sinceramente se arrepende e se humilha. O cristianismo vivido e ensinado por Cristo, como descrito nas páginas da Bíblia, quebra barreiras, derruba vícios ou aspectos culturais, por mais enraizados que estejam.

Como é comum em tais viagens, quando vamos ajudar outras pessoas tentando transformar a vida delas, voltamos transformados. Mas eu não imaginava que essa minha visita a Ruanda teria um impacto tão profundo em minha vida e em minha fé. Eu fui para ensinar, mas aprendi que estava diante dos verdadeiros mestres.

Infelizmente, ainda temos uma luta grande dentro de nós a cada dia para evitar que nossa cultura seja mais forte que a ordem de Cristo.

Minha oração é que Deus possa me conceder um espírito perdoador e reconciliador, como mostrado por aquele meu amigo e por tantos outros ruandeses.

Agora me pergunto: O que eu ando fazendo hoje que considero normal, pois faz parte da minha cultura, mas que anda ofuscando as palavras de Cristo? Talvez esse meu comportamento que parece completamente aceitável hoje um dia possa ser motivo de vergonha para os meus netos e para a minha igreja.

(Rivelino Montenegro mora com sua família na Alemanha)

 * As fotos que ilustram este texto são de Jefferson Rodrigues.

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