Vale a pena perder amigos por causa de política?

raivaOs tempos no Brasil estão tensos. Não me lembro de ter presenciado um momento eleitoral tão agitado e nervoso desde que me entendo por cidadão. O país está polarizado e dominado por ideias bastante contrastantes. Graças às redes sociais as pessoas não dependem mais tanto da imprensa “oficial” para obter informações. Na verdade, a grande imprensa está desmoralizada e mesmo os institutos de pesquisa vêm sendo questionados por causa de números duvidosos. Há um lado bom e um péssimo em tudo isso. O bom é que as pessoas finalmente estão se politizando e buscando conhecer o processo eleitoral e governamental. Estão buscando dados, programas de governo, comparando, discutindo e, assim, tendo a possibilidade de melhorar sua visão crítica e exercitar sua cidadania. O péssimo é que muita gente embarca nas chamadas fake news e dá crédito a qualquer videozinho ou meme que vê por aí. O acesso à informação é uma bênção, mas a incapacidade de analisar essa informação pode se tornar uma maldição. Ainda assim, isso tudo não é o pior aspecto destes tempos em que o ódio está no ar e o sangue, nos olhos.

Pior mesmo é ver amigos e até irmãos de igreja trocando farpas no Facebook, no Twitter, no WhatsApp. Alguns estão jogando fora a amizade pelo fato de o outro apoiar o “candidato odiado”. Será que isso vale a pena? Daqui a pouco as datas das eleições passarão. O país poderá piorar muito ou, quem sabe, melhorar um pouco – apesar de que os conhecedores das profecias bíblicas sabem que as coisas infelizmente irão de mal a pior até que venha a solução definitiva: a volta de Jesus. As eleições passarão, e como ficarão as amizades?

Precisamos aprender a dialogar sobre ideias e não discutir sobre pessoas. É importante separar uma coisa da outra. Se somos cristãos, devemos agir como nosso Mestre. Ele não deixou de condenar o erro, mas nunca, jamais deixou de amar alguém que pensasse diferentemente dEle – ou seja, a maioria das pessoas. Cada ser humano tem sua formação, suas influências, suas idiossincrasias, suas opiniões, e tudo isso deve ser levado em conta durante um diálogo. E há diálogos que nem compensa ser levados adiante, quando a pessoa já decidiu que não quer ouvir nem mudar de opinião. Se essa pessoa sou eu, pode ser melhor “perder a discussão” para não perder o amigo. Mais importante: melhor “perder a discussão” a levar a pessoa a se perder por causa da minha atitude intransigente.

Já disse em um vídeo e reafirmo: um líder cristão não deve se posicionar publicamente por esse ou aquele candidato, afinal, o objetivo desse líder é alcançar com o evangelho todas as pessoas. Se eu defender o candidato x, os seguidores do candidato y fecharão os ouvidos para a minha mensagem. Se eu defender o y, ocorrerá o mesmo com os votantes do x.

No documento “Os adventistas e a política” está escrito: “A igreja encontra nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos base segura para evitar qualquer militância político-partidária institucional. O cristianismo apostólico cumpriu sua missão evangélica sob as estruturas opressoras do Império Romano sem se voltar contra elas. O próprio Cristo afirmou que Seu reino ‘não é deste mundo’ e que, portanto, os Seus ‘ministros’ não empunham bandeiras políticas (João 18:36). Qualquer posicionamento ou compromisso com legendas partidárias dificultaria a pregação do evangelho a todos indistintamente. Por outro lado, a Bíblia não isenta a comunidade de crentes dos deveres civis, e isso está evidente na ordem de Jesus: ‘Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’ (Marcos 12:17). O Novo Testamento apresenta várias orientações sobre o dever cristão de reconhecer e respeitar os governos e as autoridades (Romanos 13:1-7; Tito 3:1-2; 1 Pedro 2:13-17). Somente quando os poderes temporais impõem a transgressão às leis divinas é que o cristão deve assumir a postura de antes ‘obedecer a Deus do que aos homens’ (Atos 5:29).”

Com este texto não estou dizendo que temos que ser “isentões” e deixar o circo pegar fogo. Não. Eu tenho minha posição política e ideológica balizada pela Bíblia Sagrada e por minhas próprias reflexões. Tenho também o direito de escrever sobre ideias, tendências, posicionamentos, sem enveredar pela política partidária. Quando escrevo sobre evolucionismo, espiritualismo e socialismo, por exemplo, não estou deixando de reconhecer que, antes de ser evolucionistas, espíritas e socialistas, os defensores dessas ideologias são seres humanos e, como tais, devem ser respeitados. Quando escrevo sobre o estilo de vida homossexual, lembro-me de que a maior maneira de amar um homossexual é apresentar Jesus a ele.

Conforme destacou meu amigo doutorando em Administração pela UNB Alexsander Dauzeley da Silva, “todos nós sabemos que Satanás mistura a verdade com o erro, e isso tem sido o triunfo do inimigo em fazer a humanidade se perder. O socialismo pegou um dos aspectos da verdade, que é o auxílio aos necessitados, o altruísmo e a justiça social, adicionou outras causas e criou outro remédio. O capitalismo selvagem também pega outro aspecto da verdade, que é o do esmero, da diligência e da mordomia, e o inimigo o justifica sob outra lógica e acrescenta outra cartilha de prescrições. A Bíblia não é socialista nem capitalista. Ela apresenta apenas os princípios do reino de Deus dos quais o diabo se apropriou em parte para tornar suas mentiras mais tragáveis e oferecer a armadilha das duas faces da mesma moeda. Não é de se surpreender que a tirania seja o resultado de qualquer uma das estratégias que desconsidere Cristo e Sua justiça. Tirania que é a forma de governo escravagista que Satanás se deleita em executar”.

Mais um detalhe… Se você é adventista e costuma utilizar a internet para manifestar suas opiniões, quero chamar sua atenção para um texto muito importante de Ellen G. White: “Tempo virá em que expressões descuidadas de caráter denunciante, displicentemente proferidas ou escritas por nossos irmãos, serão usadas por nossos inimigos para nos condenar. Não serão usadas simplesmente para condenar os que as proferiram, mas atribuídas a toda a comunidade adventista. Nossos acusadores dirão que em tal e tal dia um dos nossos homens responsáveis falou assim e assim contra a administração das leis do governo. Muitos ficarão admirados ao ver quantas coisas foram conservadas e lembradas, as quais servirão de prova para os argumentos dos adversários. Muitos se surpreenderão de como foi atribuído às suas palavras um significado diferente do que era a sua intenção. Sejam nossos obreiros cuidadosos no falar, em todo tempo e sob quaisquer circunstâncias. Estejam todos precavidos para que, por meio de expressões imprudentes, não tragam sobre si um tempo de angústia antes da grande crise que provará os seres humanos” (O Outro Poder, p. 45).

Aproveito a oportunidade para pedir perdão a qualquer pessoa que eventualmente tenha se sentido magoada por algo que eu tenha escrito ou dito. Por favor, saiba que essa não foi a intenção. Às vezes, no afã de defender ideias, podemos nos esquecer de que por trás delas há corações e pessoas pelas quais Cristo morreu.

Michelson Borges

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