Somos todos da resistência

tristePara viver neste mundo é preciso ter muita resistência. Sexta-feira, dia de finados, minha família e eu participamos de um momento extremamente triste e desalentador. Fomos à cerimônia fúnebre da filha de um grande amigo e ex-colega de trabalho. Ela tinha apenas 24 anos e estava para se formar neste ano. Uma vida inteira pela frente, sonhos e projetos interrompidos pela nossa maior inimiga, aquela inevitável que nos nivela a todos como finitos: a morte. Em momentos de perda como esses, nos damos conta de que tanta coisa é tão insignificante, tão efêmera e às vezes até sem sentido. Cargos, títulos, poder, dinheiro, posições políticas… Em momentos de transe como esse, percebemos nossa finitude e desamparo; o fluxo da vida é interrompido e a dor toma conta da alma; somos confrontados mais uma vez com a realidade de que, como dizem, as coisas mais importantes da vida não são coisas, são pessoas. Graças a Deus, a família do meu amigo é composta por pessoas que se amam, que se abraçam, que cuidam umas das outras. Meu amigo entregou a filha a Deus e tem a firme esperança de que na volta de Cristo Ele ressuscitará a menina, e estarão juntos novamente para sempre.

Foi uma cerimônia muito triste, até porque o inconformismo é ainda maior quando um pai e uma mãe têm que sepultar um filho. Praticamente todos os que foram solidarizar com a família creem na volta de Jesus, o que tornou a cerimônia um momento triste, sim, mas carregado de esperança.

Infelizmente, nem todas as famílias são assim, por isso, quando ocorrem mortes, o desespero é avassalador. Há pais e filhos e irmãos que descem à sepultura brigados. Há amigos que não se viam nem conversavam havia anos, e que são obrigados a se reencontrar nessas tristes ocasiões – um no caixão e o outro cheio de remorsos. Não precisava ser assim. Não devia ser assim.

Nestas eleições, de modo especial, muitas pessoas se desentenderam e até romperam relacionamentos. Não souberam separar a opinião do dono dela. Foi um cenário muito triste cujas consequências serão sentidas por algum tempo ainda – espero que pouco. Não deixe uma ideologia, um partido ou um candidato afastar você de quem ama. Lembre-se: a vida é curta e não compensa perder o que realmente vale a pena por causa de coisas tão pequenas comparadas a uma vida humana. As pessoas são muito mais do que aquilo que elas pensam, do que uma posição política, do que certas escolhas que fazem.

Quero aproveitar este texto para pedir perdão a algumas pessoas que eventualmente tenham se sentido ofendidas por algo que eu disse ou escrevi (e estou fazendo isso de livre e espontânea vontade, porque senti no coração que devia fazê-lo). Em nenhum momento durante a campanha eleitoral defendi esse ou aquele partido, esse ou aquele candidato. Como pastor adventista, nem se esperaria que eu fizesse tal coisa, afinal, devemos evangelizar e amar todas as pessoas – da esquerda, do centro e da direita. Todas são filhas de Deus. Mas em alguns momentos procurei denunciar – como sempre tenho feito há anos – uma ideologia que considero anticristã e perigosa: o marxismo. Em minha opinião, assim como o evolucionismo e o espiritismo, o marxismo afasta as pessoas do Deus da Bíblia, embora apresente algumas ideias boas que, no fundo, são importadas do cristianismo. Assim, não precisamos ser marxistas para desejar a justiça, para combater a pobreza e lutar pela redução das desigualdades. Basta ser cristãos de verdade. E, como cristão, quero dizer que amo a todos, até, evidentemente, aqueles que discordam de mim.

Para viver neste mundo é preciso ter muita resistência. Às vezes, essa resistência envolve segurar a língua e os dedos raivosos sobre o teclado. Resistência para deixar a sabedoria se sobrepor ao ímpeto. Conforme escreveu Zoe Lilly, “o silêncio pode ser o remédio de muita coisa. Use-o quando for necessário. O silêncio também pode ser o veneno de outras coisas. Quebre-o quando for necessário. Sabedoria é discernir a hora dos dois”.

Admitamos que nem sempre é fácil, mas podemos tentar.

Para viver neste mundo é preciso ter muita resistência, especialmente para resistir a nós mesmos e ao mal. Resistir aos nossos impulsos, aos nossos maus desejos, ao pecado. Por isso os apóstolos Tiago e Pedro dizem que devemos resistir ao diabo pela fé, pois assim ele fugirá de nós (Tiago 4:4; 1 Pedro 5:9). E isso não significa que não devamos resistir também ao que está errado na sociedade. Mas, em lugar de gastar tanto tempo para cultivar nossas opiniões políticas (o que não é negativo em si) e propagá-las nas redes sociais, devemos aprofundar nosso relacionamento com Deus, pois é isso o que aumenta a nossa fé, afinal, fé é relacionamento que promove a confiança. É essa convivência com Deus que nos dará sabedoria e serenidade para dialogar sobre ideias sem magoar pessoas; que nos dará bom senso para saber quando silenciar e quando falar (e como falar); para saber que às vezes é melhor manter a amizade em lugar de ganhar uma discussão.

Neste mundo de pecado todos somos da resistência, mas que aprendamos a resistir ao que realmente deve ser resistido, e amar como Jesus nos ensinou a amar.

Michelson Borges

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