A igreja e o mundo em descompasso. Isso é bom?

igrejaFoi-se o tempo em que o descompasso entre a igreja e o mundo era uma coisa boa. “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo”, admoestou o apóstolo João (1Jo 2:15). E a igreja não amava mesmo. É claro que os cristãos entendiam que, como Jesus, precisavam amar as pessoas que há no mundo, enquanto odiavam as práticas pervertidas, injustas, desonestas, imorais e fúteis do mundo. Não amar o mundo era viver uma vida santa, separada, distinta, ao mesmo tempo em que se procurava de todas as formas possíveis levar o “sal” até onde ele precisava agir. Estar no mundo, mas não ser do mundo era a diretriz missionária dos cristãos. Estar para influenciar. Estar para levar Jesus aos outros. A “santidade interior” era notada no exterior – nas palavras, no olhar, na maneira de se comportar, se vestir, negociar, divertir… Como alguém saudável, o santo era santo por ser, sem precisar alardear. Mas era, e isso ficava evidente. O doente é que sente falta da saúde. O saudável nem percebe que tem.

Quando me tornei adventista no começo dos anos 1990, entendi claramente que a salvação é pela fé nos méritos de Cristo, ou seja, é pela graça. Compreendi também que o mínimo que eu podia fazer para agradecer tão grande amor era, agora liberto e perdoado, perguntar: “Senhor, que queres que eu faça?” Com a ajuda dEle comecei, sempre guiado pela noção de que precisava fazer coisas que me aproximassem de Deus e me mantivessem junto dEle; e deixar coisas que tivessem justamente o efeito contrário. Assim, passei a guardar os dez mandamentos, pois ficou claro para mim que eles são o padrão mínimo de conduta dos salvos – o máximo é, por exemplo, em lugar de não matar dar a vida (bem, basta ler o sermão da montanha para ver como Jesus ampliou e destacou os princípios por trás de cada mandamento). Guardar o sábado se tornou uma alegria e uma bênção em minha vida corrida de universitário recém-convertido. Era bom demais poder deixar os livros de lado por 24 horas a fim de descansar a mente e o corpo e manter comunhão mais íntima com meu Criador. O sábado era como dar um passo atrás para tomar impulso para a semana. Mas meu aprendizado de deixar o mundo para abraçar o reino de Deus não parou aí.

Recebi forças de Deus para deixar também entretenimentos que não me edificavam e, na verdade, apenas roubavam tempo que, dali para frente, eu deveria devotar a práticas, hábitos e passatempos que me fizessem alguém melhor, fossem úteis e me aproximassem do Céu. Por isso, parei de tomar café e beber “socialmente”, afinal, o álcool (está provado) prejudica a mente e o corpo, em qualquer quantidade, e a cafeína não contribuiria em nada para uma disposição mental e emocional sadia. Aliás, no voto batismal prometi não mais usar essas substâncias.

Também parei de ouvir música profana e ir ao cinema (coisas de que eu gostava muito), afinal, queria manter meus pensamentos o mais alinhados com o Céu quanto fosse possível. Filmes só em casa, com o controle na mão e muito bem escolhidos. Músicas só as sacras e aquelas que exaltam as boas e nobres coisas da vida, com melodias distintas daquelas que eu curtia ouvir no rádio e que também eram tocadas nas discotecas (como chamávamos as baladas naquele tempo). O ídolo que mais doeu abandonar foi minha coleção de mais de duas mil histórias em quadrinhos de super-heróis. Aquilo competia com a leitura da Bíblia e de bons livros – e eu tinha muito que ler para compensar os anos em que vivera sem conhecer a verdade. Precisava remir o tempo.

Deus me mostrou igualmente que namoro é coisa séria e que “ficar” é para os hedonistas irresponsáveis que pensam nas outras pessoas como objeto e se preocupam apenas com o prazer, ignorando que certas atitudes podem deixar marcas permanentes, pois envolvem emoções profundas. Pedi a Deus uma namorada cristã, missionária (e bonita, claro), e Ele atendeu à minha súplica. Estou casado com ela há mais de duas décadas.

Aliás, nestes vinte anos parece que muita coisa mudou…

Se tomar como base a qualidade de alguns crentes que vêm para a igreja hoje, eu teria que voltar no tempo e pedir perdão ao Renato Russo e ao Stan Lee. Quem mais se importa com coisas como café, cinema, música “mundana”, vestuário cristão, “ficar”? Será que a diferença entre os cristãos e os descrentes hoje é perceptível, já que ambos os grupos frequentam os mesmos lugares e têm os mesmos hábitos?

Dia desses fiquei pensando nas ironias das “marchas e contramarchas” da história. Enquanto no mundo é possível perceber uma guinada à direita, rumo ao conservadorismo, na igreja parece estar havendo um fenômeno contrário. O abuso dos de comportamento liberal, com sua licenciosidade, suas ideologias anti-família tradicional, seu multiculturalismo e seu preconceito localizado contra o cristianismo chegou a tal ponto que originou uma reação em sentido contrário (olha o movimento pendular aí…). Cansadas disso tudo, as pessoas estão colocando no poder governantes alinhados com as religiões hegemônicas, num fenômeno que a princípio pode parecer bom para as pessoas de fé, mas que poderá trazer riscos no futuro para as minorias que procuram se pautar unicamente pela Bíblia. É como eu disse a um amigo recentemente: “A esquerda é nociva; a direita, perigosa. Nossa esperança está no Alto.” Mas e na igreja, o que aconteceu?

Cansados do tradicionalismo (que também traz muitos problemas), alguns cristãos estão exagerando na dose da “atualização”. Estão consumindo conteúdos midiáticos sem critérios e ainda tentam se justificar dizendo que estão a caça de elementos religiosos que possam ser usados como “gancho” evangelístico. Alimentam o vício com a desculpa de que estão contextualizando. Outros ouvem qualquer tipo de música, enquanto entornam um copinho de café ou taça de vinho, afinal, “de vez em quando não faz mal”. Sexo? Ah, todo mundo faz… Cinema? Nada a ver! Sendo o “nada a ver” a resposta mais comum que tiram logo da manga quando alguém (ainda) questiona certos usos e costumes. Vestuário, então? Nem toque no assunto, ou, do contrário, você ainda pode ser mal interpretado e sair de mau na história.

Os mais espiritualizados, cansados da briga entre a aparência e a essência, buscam alternativas religiosas que beiram o misticismo ou o paganismo. Olham para o “adventismo nutela” e, desencantados, buscam outras pastagens. Ah, se conhecessem o “adventismo raiz”, cujo verdadeiro fundamento é Cristo! Laodiceia está raquítica e pensa que ainda pode alimentar alguém.

Enquanto a igreja se seculariza, se “nuteliza”, o mundo se “converte”. Nada mais profético! Como escreveu Ellen White, a igreja parecerá afundar; contar-se-ão nos dedos aqueles que negam a si mesmos enquanto marcham para o Céu e desejam acima de tudo a volta de Jesus. Vai ser com esse remanescente fiel que Deus trabalhará. No mundo, o alinhamento Estado-igreja criará o cenário para a assinatura do famigerado decreto dominical. Quem sabe nesse momento alguns descuidados “acordem para a vida” e vejam que aquelas coisas que tanto amavam eram bobagem. Aí perceberão, finalmente, que os conselhos de Deus sempre foram para o seu bem.

A mensagem de Deus a Laodiceia deixa claro que Ele ama essa igreja e está fazendo de tudo para prepará-la para o encontro com Ele. Vamos corresponder?

Michelson Borges

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