Faz diferença saber exatamente quem são os 144 mil do Apocalipse?

144-milTem sido muito rica a experiência do estudo do Apocalipse neste trimestre. Destaco que esse é um conhecimento que não deve somente persistir dentro do aspecto de discussão racionalizada, mas, principalmente, entrar na questão pessoal e relacional com o nosso Deus. Grande multidão? Os 144 mil? Antes de adentrarmos propriamente nesse estudo, gostaria de colocar uma nota a mais no espírito que devemos nutrir ao estudar esse assunto.

Após a ressureição, nosso salvador Jesus estava pastoreando Seus discípulos. Era Sua terceira aparição a eles, relatada em João 21. Após uma nova experiência de milagre de pesca, e já desfrutando do resultado dessa pesca, há um diálogo entre Jesus e Pedro. Pedro, que havia traído o Mestre, estava naquele momento sendo reabilitado. Jesus disse que Pedro passaria por angústia e aflições, e que pelo seu martírio daria glória a Deus (verso 19). Naquele momento, compreendendo que veria a morte, uma curiosidade humana veio à mente de Pedro. Viu João, o discípulo amado, e perguntou: “Senhor, e quanto a ele?” Respondeu Jesus: “Se Eu quiser que ele permaneça vivo até que Eu volte, o que lhe importa? Siga-Me você” (João 21:20).

Quando adolescente, passei pelo temor de estar ou não entre os 144mil. Logicamente que temos a exortação: “Procuremos, com todo o poder que Deus nos tem dado, estar entre os 144 mil” (SDABC, v. 7, p. 1084). Essa é uma exortação, acima de tudo, de consagração ao nosso Deus. Mas devemos entender que não conhecemos os tempos nem a hora. Não sabemos se estaremos na grande tribulação final ou se estaremos vivos sem passar pela morte. Desse modo, embora seja interessante questionar quem estará ou não entre os 144 mil, a ênfase no nosso estudo deve ser: Senhor, estando ou não entre os 144 mil, eu Te seguirei.

Existe aqui um segundo ponto de discussão na Lição da Escola Sabatina desta semana: Em que sentido os 144 mil não se macularam com mulheres? Como a pureza de seu caráter se relaciona com o fato de que eles são redimidos da Terra como “primícias para Deus” (Ap 14:4). Vou começar de trás para a frente na pergunta, pois o primeiro ponto (serem castos ou virgens) talvez seja o de maior reflexão. Então, vejamos a questão das primícias.

Primícias eram os melhores frutos da colheita. Em Apocalipse são um grupo especial que foi trasladado sem experimentar a morte (1Co 15:50-52): “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” São os primeiros frutos da maior colheita de salvos (Ap 14:14-16).

E sobre a virgindade? Entendemos que esse grupo não participou da infidelidade de Babilônia. Agora, o que significa isso? Sabemos que os 144 mil não passarão pela morte. Mais ainda, Ellen White descreve em Eventos Finais, pagina 182, o seguinte: “Alguns tinham sido arrojados fora do caminho. Os descuidosos e indiferentes, que não se uniam com os que prezavam suficientemente a vitória e a salvação, para por elas lutar e angustiar-se com perseverança, não as alcançaram e foram deixados atrás, em trevas, e seu lugar foi imediatamente preenchido pelos que aceitavam a verdade e a ela se filiavam” (Primeiros Escritos, p. 271 [Eventos Finais, p. 182.1]).

“Os lugares vagos nas fileiras serão preenchidos pelos que foram representados por Cristo como tendo chegado na hora undécima. Há muitos com quem o Espírito de Deus está lutando. O tempo dos juízos destruidores da parte de Deus é o tempo de misericórdia para aqueles que [agora] não têm oportunidade de aprender o que é a verdade. O Senhor olhará para eles com ternura. Seu coração compassivo se enternece, e a mão do Senhor ainda está estendida para salvar, enquanto a porta é fechada para os que não querem entrar. Será admitido um grande número de pessoas que nestes últimos dias ouvirem a verdade pela primeira vez” (Carta 103, 1903 [Eventos Finais, p. 182.2]).

Entendo que virgindade aqui simboliza fidelidade dentro daquilo que Deus estabelece. E aqui cabe um adendo: existem pessoas que neste momento não fazem parte das fileiras da igreja, mas que agem com pureza de coração, sem reservas, diante da luz que receberam. Por outro lado, devemos vigiar e orar. Muitas vezes, mesmo tendo acesso a uma luz mais completa, permitimos que ideias do mundo – daquilo que é pensamento próprio, não exalado das Escrituras, ou o pensamento reinante do mundo – contamine nossas percepções ou convicções.

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

Perceba que se sua convicção religiosa não for maior que seus outros valores pessoais, esses valores acabarão por retirá-lo do caminho de Jesus. Já vi pessoas se desviarem completamente do caminho por questões em que a convicção pessoal dos valores atuais, do socialmente aceitável ou politicamente correto, em que os valores e amores deste mundo, sejam política (esquerda ou direita), bandeiras raciais, de gênero ou a mera ausência do prestígio social ou econômico que gostariam de ter advindo de sua participação religiosa na igreja, acabaram por dar entrada a valores, ideias e convicções que afastam definitivamente do são caminho.

Entendo que estamos em tempo de graça, e que a misericórdia de Deus está aberta para todos nós hoje. Entretanto, a descrição e o chamado de selamento aos 144 mil inclui implicitamente um apelo à santidade e consagração ao Senhor a cada dia. Que o Senhor nos abençoe e nos habilite a cada dia a viver de acordo com a guia do Espírito Santo e a disposição dos 144 mil descritos no livro do Apocalipse.

Quando eu era criança, a primeira vez que li o texto: “Estes são os que não se macularam com mulheres, porque são virgens. São os que seguem ao Cordeiro aonde quer que vá. Foram comprados dentre todos os seres humanos e foram os primeiros a ser oferecidos a Deus e ao Cordeiro” (Apocalipse 14:4), achei muito estranho. Alguma coisa passou pela minha cabeça, tipo: “Pobres coitados: além de não poderem casar, ainda nem vão poder ir para onde querem?” E essa incompreensão minha de garoto talvez seja a mais sem sentido e boba que você tenha ouvido falar, mas existem muitas outras sobre os 144 mil.

Seja qual for a sua dúvida sobre o assunto, eu gostaria de deixar uma certeza: acompanhar o Cordeiro por onde Ele vá não é uma consequência de fazer parte dos 144 mil, e sim a sua maior causa. Os 144 mil seguem o Cordeiro a cada dia. Em seus hábitos, pensamentos, suas prioridades enquanto ainda estão aqui na Terra.

Quantos hinos de batismo começam justamente com essa premissa? “A Jesus seguir eu quero, Tu morreste foi por mim. Mesmo que Te neguem todos, eu Te sigo até o fim.” “Minha cruz eu tomo e sigo, a Jesus eu sempre sigo; aonde for a Ele eu sigo; seguirei a meu Jesus.” Estão essas frases fazendo ainda sentido na sua vida? Lembre-se: seguir o Cordeiro pela fé é:

– Continuar confiando, mesmo quando o mundo diz que não vale a pena.

– Continuar seguindo, mesmo quando as pessoas ao redor lhe mostrem outro caminho.

– Seguir acreditando, mesmo quando as convicções de parentes, amigos, do professor ou orientador, ou da pessoa que você ama, dizem que não vale a pena.

– Seguir vivendo a vida cristã, até nos momentos em que você parece ir na contramão da sociedade.

Que Deus ilumine a todos e nos dê alento, forças e fé para continuar seguindo o Cordeiro.

Oremos: “Pai Eterno, obrigado pela redenção em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador. Queremos seguir Jesus, nosso Cordeiro, a cada dia, até a Sua volta. E mesmo lá no Céu continuar seguindo ao Autor e Consumador da nossa fé!”

Everton Padilha Gomes é médico e doutorando em Cardiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo