Por que governos de direita e a religião crescem no mundo

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Os governos de esquerda e de orientação marxista são, via de regra, ateus, não identificados com a filosofia judaico-cristã e promotores de causas e ideologias que, na verdade, vão de encontro a valores e instituições bíblicos como a família e o casamento, por exemplo. Nesse tipo de governo, assuntos religiosos têm pouco espaço na agenda e dificilmente um decreto como o dominical teria apoio (o que não significa que não pudesse acontecer). Em governos de direita, conservadores e alinhados com a religião dominante, o cumprimento das profecias é bem mais fácil e até esperado. Os trechos a seguir foram extraídos de uma entrevista com Carlos Gustavo Poggio, doutor em estudos internacionais e professor de relações internacionais na PUC de São Paulo, publicada no site Nexo, e explicam o crescimento da direita no mundo. Depois volto ao assunto do crescimento da religião.

“O Reino Unido, a França e a Alemanha são três exemplos recentes de países centrais na política europeia que viram a expressão eleitoral da extrema-direita crescer nos últimos meses. Primeiro, a retórica contra a imigração e contra a integração comunitária europeia levou a maioria dos eleitores ingleses a decidir, em junho de 2016, a favor do Brexit – termo que, em inglês, une as palavras ‘british’ (britânica) e ‘exit’ (saída), para se referir à decisão de deixar a União Europeia. Quase um ano depois, na França, em maio de 2017, a candidata de extrema-direita Marine Le Pen terminou a eleição presidencial em segundo lugar, com 34,5% dos votos. Apesar da derrota para o atual presidente, Emmanuel Macron, o desempenho do partido de Le Pen, a Frente Nacional, representou um marco para o conservadorismo europeu. Por fim, a Alemanha viu pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, um partido de extrema-direita conquistar o direito de ter representantes no parlamento. A AfD (Alternativa para a Alemanha) recebeu na eleição do dia 24 de setembro 12,6% dos votos, tornando-se a terceira força do parlamento, uma marca histórica. […] [Poggio fala também dos Estados Unidos e do Brasil, nesse contexto.]

“[Segundo Poggio,] se pensarmos as três importantes tradições políticas no Ocidente como sendo o liberalismo, o conservadorismo e o socialismo, todas elas possuem versões que se encaixam dentro da lógica democrática moderna. As variações extremistas dessas tradições tendem a se afastar das regras democráticas que conhecemos. No caso da extrema-direita, na forma como é usada no vocabulário político atual, podemos entender como uma versão extremada do conservadorismo, que pode ser mais bem classificada como reacionária. Os grupos que aderem a essa perspectiva demonstram um desconforto extremo com a modernidade. Dessa forma, buscam mobilizar o aparato estatal como forma de reação, visando a retornar a um passado nostálgico pelo uso da força, se necessário.

“[Ele também afirma que] é possível afirmar que movimentos reacionários de direita estão em crescimento no mundo de hoje. Podemos apontar três razões principais, uma reforçando a outra. A primeira é de ordem econômica, derivada das transformações na estrutura econômica dos países desenvolvidos que têm feito desaparecer os empregos que exigem menor grau de instrução. Isso tem aprofundado a distância não apenas econômica mas espacial e cultural entre o topo e a base da pirâmide social nesses países, o que ajuda a reforçar os impactos de uma segunda razão, que me parece a mais importante: o processo de transição demográfica em países desenvolvidos, derivado da baixa taxa de natalidade combinada com altos índices de imigração. Nesse processo, ‘maiorias’ vão gradualmente tornando-se ‘minorias’, o que gera um sentimento de deslocamento econômico-social e de perda de laços identitários, abrindo espaço para forças políticas que articulam uma narrativa nativista, construindo o estrangeiro como inimigo. Finalmente, uma terceira razão é a ascensão das redes sociais e de novas formas de consumo e de produção de informação, o que permitiu a difusão de ideias que de outra forma seriam bloqueadas pelos canais de comunicação tradicionais.

“[Como consequências desse crescimento, Poggio aponta] um aprofundamento no processo de polarização política, uma vez que, com o crescimento dos extremos, sobra pouco espaço para negociação entre forças centristas. O crescimento da extrema-direita tende a levar ao crescimento da extrema-esquerda, e vice-versa. [E há também] um declínio considerável na qualidade das democracias, uma vez que os espaços de consenso e negociação são gradualmente esvaziados. […] As novas gerações que chegarem ao poder nos próximos anos terão, portanto, uma grande responsabilidade no sentido de encontrar formas de proteger os valores democráticos num contexto de polarização política, fragmentação ideológica e transformações econômico-sociais. Não será tarefa fácil.”

Basta reler os trechos que grifei acima para perceber que esse novo cenário é extremamente favorável para a adoção de ideias extremistas e até antidemocráticas. É claro que esse estado de coisas é também um tipo de reação aos exageros esquerdistas produzidos no campo da moral (principalmente) em anos recentes. O avanço da ideologia de gênero, do abortismo e do multiculturalismo fizeram mover o pêndulo para o lado oposto, em uma busca por moralização. Aí chegamos ao outro ponto deste texto: o crescimento da religião.

Por mais que neoateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens, Sam Harris e outros tenham trabalhado ativamente na última década e meia, publicando e falando muito contra Deus e as religiões, o esforço deu em quase nada. O aumento do sentimento religioso é mais do que evidente em todo o mundo. Matéria publicada em 2015 pelo The Washington Post já apontava o crescimento das religiões (confira), e em agosto do ano passado o The Guardian comprovou isso, ao divulgar os dados de uma ampla pesquisa (confira).

No ano 2000, foi publicado no Brasil o livro Do Ateísmo ao Retorno da Religião, do filósofo francês Denis Lecompte (Editora Loyola). O título é autoexplicativo, e no prefácio, assinado pelo bispo Claude Dagens, é dito que “os pensadores ateus do mundo moderno, principalmente os do século 18, denunciam apaixonadamente as mentiras e as ilusões que atribuem à influência do cristianismo. Querem a todo custo libertar as mentes da influência esmagante, aos olhos deles, de uma religião opressiva e manipulada pelos exploradores que são os padres!” (p. 14). De fato foi assim (basta estudar um pouco as consequências da Revolução Francesa e de um de seus filhos: o marxismo), e por algum tempo parecia que o ateísmo ganharia mais e mais terreno. Só que não. Eis que em pleno século 21 a fé e a religião vão bem, obrigado (embora as religiões institucionalizadas lutem para se manter relevantes e respeitadas).

Dagens também escreveu: “O refluxo das formas mais duras ou mais ideológicas de ateísmo deixa lugar ao ressurgimento do sentimento religioso. Não é necessariamente Deus que está de volta, mas o sentido humano do sagrado ou do divino, o desejo sepultado de certa transcendência que vem à tona assumindo formas estranhas.”

Algumas dessas “formas estranhas” são as religiões ocultistas, o “ufologismo”, o orientalismo e até mesmo o cientificismo. E todas essas ideologias estão sendo unidas debaixo de um mesmo “guarda-chuva” (em breve postarei em meu canal no YouTube um vídeo explicando tudo isso).

O fato é que o cenário profético vai ficando cada vez mais claro com o crescimento do conservadorismo, do ECOmenismo e da religião. Em um ambiente assim será muito mais fácil serem aprovadas leis que digam respeito a aspectos religiosos majoritários, como a proteção da família e do meio ambiente, com propostas práticas, a exemplo da sugerida pelo papa Francisco em sua encíclica Laudato Si. Além disso, serão feitos maiores esforços na busca de uma união religiosa global sob a batuta de um líder poderoso e carismático. Quem viver verá…

Michelson Borges