Jogar videogames violentos é pecado?

gtaOs recentes massacres ocorridos no Brasil e em Nova Zelândia trouxeram à tona novamente discussões a respeito dos videogames violentos. Obviamente que existe uma multifatorialidade envolvida em cada caso. Os rapazes que assassinaram dezenas de pessoas em Suzano tinham relações familiares conturbadas, sofreram bullying e frequentavam comunidades virtuais de incentivo à violência. O matador de Nova Zelândia é alinhado a grupos extremistas de direita, tem ideias racistas e xenofóbicas. O que todos eles têm em comum é o hábito de jogar videogames violentos, os quais eles reproduzem de alguma forma na vida real, em atitudes e até indumentária. Claro que vozes se levantaram para atacar e defender os gamers. E só trago o assunto novamente para cá porque, na condição de jornalista e estudioso do fenômeno (sou autor do livro Nos Bastidores da Mídia, que tem um capítulo sobre o tema), isso é algo que me interessa, tanto quanto me interessa (e choca) o esforço de alguns cristãos no sentido de defender os tais jogos sanguinários.

Li vários artigos e assisti a uma entrevista na Jovem Pan com um empresário do ramo de videogames, um jogador e um psicólogo. O psicólogo não me pareceu ter muito conteúdo, e quem dominou a conversa foram os dois que, obviamente, defenderam o passatempo. Seria praticamente a mesma coisa que convidar o dono de uma vinícola para falar sobre as características do vinho. Mas cristãos defenderem videogames violentos me parece algo bem contraditório! E há os tais.

É como dizer que pornografia não é traição, pois só ocorre na mente. Todos os cristãos sabem (ou deveriam saber) que, segundo Jesus, o adultério começa na cabeça, quando uma pessoa casada deseja sexualmente outra pessoa. O mandamento bíblico diz “não adulterarás”, o que envolve conjunção física, mas, ao ampliar o princípio por trás da lei, o Mestre deixou claro que na “virtualidade” da mente também se pode quebrar o mandamento. A mesma lei diz: “Não matarás”, e Jesus igualmente ampliou o sentido do mandamento ao dizer que desejar o mal a alguém também é matar. Jogar videogame pode não ser necessariamente pecado (embora as muitas horas desperdiçadas já sejam um mal em si), mas o que dizer de jogos que apresentam um cenário de matança em que o protagonista é o jogador armado, com o corpo inundado de adrenalina e se deleitando em cada “alvo” abatido? Evidentemente que a imensa maioria desses jogadores não sairá por aí atirando em alvos de carne e osso (embora alguns vão), mas será que os sentimentos envolvidos nesse tipo de jogo seriam aprovados por Jesus, para quem a cidadela da mente é tão importante? Aliás, seria possível imaginar Jesus Cristo sentado no sofá, divertindo-Se ao estourar os miolos de personagens na tela da TV ou massacrando e mutilando oponentes com golpes de artes marciais?

Com certeza, os sentimentos despertados por esse tipo de jogo (e incluam-se aí filmes, séries e mesmo “esportes” como o UFC) não condizem com textos como este: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gálatas 5:22, 23) ou este: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8). Muito menos com este: “Temos uma obra a fazer a fim de resistir à tentação. Aqueles que não querem ser presa dos ardis de Satanás devem bem guardar as entradas da alma; devem evitar ler, ver, ou ouvir aquilo que sugira pensamentos impuros. A mente não deve ser deixada a divagar ao acaso em todo o assunto que o adversário das almas possa sugerir. […] Devemos ser auxiliados pela influência permanente do Espírito Santo, que atrairá a mente para cima, e habitua-la-á a ocupar-se com coisas puras e santas” (Ellen White, Patriarcas e Profetas, p. 337); e este: “É lei, tanto da natureza intelectual quanto da espiritual, que, pela contemplação, nos transformamos. O espírito gradualmente se adapta aos assuntos com os quais lhe é permitido ocupar-se. Identifica-se com aquilo que está acostumado a amar e reverenciar” (Ellen White, Mente, Caráter e Personalidade, p. 331).

A decisão quanto a consumir esse tipo de conteúdos é sua, pois Deus sempre respeita nosso livre-arbítrio, mas nunca se esqueça de que o principal palco do grande conflito é a mente. Aquilo com que escolhemos alimentá-la vai determinar de que lado da guerra estaremos.

Michelson Borges