Anjos têm corpo físico?

anjos01É comum vermos entre cristãos uma ideia especulativa, sem apoio bíblico genuíno, de que anjos são seres desencarnados, imateriais, etéreos e regidos por leis físicas bastante diferentes das conhecidas. Há quem chegue a afirmar que eles podem inclusive alterar leis físicas. Isso tem a ver, por exemplo, com a ideia de que os seres espirituais mencionados na Bíblia são capazes de atravessar paredes, entrar no corpo das pessoas, viajar mais rápido do que a luz e violar leis físicas. Porém, quando estudamos a linguagem bíblica mais profundamente e comparamos o que a Bíblia diz com o que sabemos sobre Relatividade Geral e outros achados mais recentes, percebemos que essas ideias não passam de fantasias tradicionais sem fundamento bíblico e contrárias a consequência de fatos que conhecemos bem de perto em Física. Proponho aqui uma especulação alternativa, porém baseada em muitas evidências, umas poucas das quais mencionaremos de passagem.

Quando você está em um andar de um prédio, pode até estar exatamente nas mesmas coordenadas geográficas (longitude e latitude) de outra pessoa que se encontra em outro andar do mesmo prédio. Cada um de vocês é invisível para o outro. Nem por isso as pessoas ficam imaginando que seus vizinhos são seres etéreos e regidos por outras leis só porque não podem vê-los. As pessoas estão apenas em andares diferentes. Basta subir ou descer uma escada e todos podem se encontrar de vez em quando. O Universo também parece ter várias camadas (como diferentes andares de um prédio). O fato de anjos ficarem invisíveis para humanos não precisa ter nada a ver com a composição deles ou com as leis que os regem. Mas os humanos estão realmente limitados pelo pecado, de forma que estão presos em sua respectiva camada, no momento.

Leis físicas possuem características do que chamamos de equações diferenciais. Elas se caracterizam por tratar de uma infinidade de situações, podendo gerar comportamentos muito diferentes em cada caso. Uma flauta perfeita tem um som agradável, ao passo que uma flauta rachada tem um som feio. A lei que rege ambas é exatamente a mesma, a mesma equação diferencial, inclusive com os mesmos parâmetros. A diferença está no que chamamos de condições de contorno: de acordo com a equação que rege esse fenômeno, a rachadura em uma das flautas afeta o formato das ondas e as frequências sonoras permitidas pela lei. A diferença no resultado é bem evidente aos nossos ouvidos.

No século 18, um estudioso chamado Pierre Louis Moreau de Maupertuis (1698-1759), ao comparar argumentos teístas e ateístas, concluiu que todos tendiam a se relativamente frágeis. Propôs um teste. Se, a partir de características do Deus da Bíblia for possível deduzir informações específicas, mensuráveis, precisas e exatas sobre o mundo físico, isso seria um poderoso argumento em favor da existência de Deus. E ele encontrou algo que foi uma das maiores descobertas científicas de todos os tempos: um princípio de otimização que ficou conhecido como “princípio da ação mínima”. Esse princípio decorre da perfeição e poder do Deus bíblico. Tudo o que Ele faz é perfeito, otimizado, inclusive as leis que regem tudo o que Ele cria. Isso pode ser expresso por uma fórmula bastante simples: δS=0. a partir disso, pesquisadores como Euler, Lagrange e Hamilton mostraram que é possível deduzir as equações das leis físicas básicas a partir deste princípio, que continua sendo usado até hoje para alavancar as pesquisas mais avançadas. Isso nos deu um conhecimento antes inimaginável sobre o funcionamento da realidade.

Note que esse princípio de otimização não se restringe à matéria, mas a tudo o que Deus cria ou faz. Aplica-se mesmo a milagres. Violar leis físicas é violar esse princípio e afastar-se da perfeição. Em outras palavras, violação da lei chama-se pecado, não milagre. Existem autores cristãos que tratam desse assunto de forma bastante interessante, como C. S. Lewis em seu livro Miracles.

Uma autora importante que também fala sobre o assunto é Ellen White. Ela menciona, por exemplo, em Thought from the Mount of Blessing, página 152, que as mesmas leis regem o mundo espiritual e o natural. Um ponto interessante é que ela não parecia conhecer o princípio da ação mínima, sua origem e consequências e mesmo assim afirmou isso. Também mencionou a condição atual de Satanás: “Sua constituição era ampla; mas a carne lhe pendia frouxamente nas mãos e no rosto.” História da Redenção, página 45. Interessante, essa cena de uma pessoa forte mas envelhecida, com a carne pendendo frouxamente dos ossos do rosto e das mãos. Ela também disse que ele temeu pela própria vida ao se ver envolto pela catástrofe do dilúvio.

Uma das consequências teológicas do conhecimento gerado pela princípio da ação mínima é de que o pecado não pode alterar leis. O que ele altera são condições locais que fazem com que as mesmas leis que regem tudo gerem resultados ruins.

Independentemente da composição dos anjos, para funcionar como seres eles precisam de partes que interagem entre si. Precisam ser capazes de processar informações, pensar, interagir com outros, etc. A Bíblia também nos ensina que eles interagem com a matéria, como se vê em diversas passagens. Para o leigo isso pode parecer pouco, mas tem consequências muito específicas até mesmo quanto à composição deles. Se cruzarmos essas informações com leis derivadas do princípio da ação mínima, isso nos habilita a descartar uma série de especulações, incluindo as crenças mais populares sobre anjos que mencionamos no início.

Os anjos existem no tempo, o que implica que existem no espaço-tempo (não existe tempo sem espaço, dada a natureza do tempo). Não é qualquer coisa que pode existir no espaço-tempo, pois as leis físicas só admitem um certo conjunto de possibilidades. E todas essas possibilidades têm a ver com tipos de partículas e suas interações. E como os anjos interagem com a matéria comum das formas descritas na Bíblia, isso limita ainda mais as possibilidades. Na verdade, isso implica que eles são feitos exatamente do mesmo tipo de matéria que nós, embora com sistema biológico diferente (assim como os animais terrestres são diferentes dos peixes, por exemplo). Aliás, é sábio da parte de Deus fazer as coisas assim, pois isso torna todos os Seus filhos que vivem no Universo compatíveis entre si até em termos de alimentação, árvore da vida, etc.

A linguagem bíblica, vista pelos olhos de uma cultura helenizada, induziu muitos a entenderem as afirmações bíblicas sobre corpo espiritual à moda grega. Como o leitor entende a seguinte passagem? “Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Coríntios 15:42, 43). Quando ressuscitarmos teremos corpos espirituais, correto? É o que a Bíblia diz. Mas o que é um corpo espiritual? Não feito de matéria? Vejamos um pouco mais do contexto, o assunto que está em discussão e as explicações que se seguem. Primeiro o contexto da discussão.

“Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos” (1 Coríntios 15:12-18).

Note que Cristo morreu para pagar os pecados da humanidade. A morte, não a ressurreição dEle, pagou o preço do pecado. Com isso em mente, observe a ênfase dada pelo apóstolo ao ponto de que sem ressurreição não há salvação e que, sem ressurreição os mortos estariam perdidos, apesar de o preço de seu resgate já ter sido pago. Isso não teria sentido se os mortos estivessem vivos desencarnados, com corpos espirituais no sentido helenizado. Vejamos que outras coisas interessantes encontramos neste capítulo.

“Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como de trigo, ou de outra qualquer semente. Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo. Nem toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra a carne dos animais, e outra a dos peixes e outra a das aves. E há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela. Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção” (1 Coríntios 15:35-42).

Aos olhos de quem cria que tudo na terra é composto de quatro elementos (água, fogo, terra e ar) e tudo o que está nos céus (Sol, Lua, etc.) é feito de um quinto elemento, essa passagem parecia dizer claramente que a composição de quem ressuscita (e dos anjos, portanto, já que Cristo afirma que os ressurretos serão como os anjos) é completamente diferente do que existe no mundo natural. Hoje sabemos que não é o caso, que o Sol, a Lua e as estrelas são feitos do mesmo tipo de material do qual nossos corpos são feitos. Apenas muda a estrutura, as proporções na composição, o estado físico, etc. Apesar desses novos conhecimentos, permaneceu entre os cristãos a interpretação helenizada.

Há mais declarações interessantes neste capítulo.

“Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44). “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (verso 50).

Estas passagens parecem fechar a questão com chave de ouro. Porém, temos ainda mais comentários interessantes nesse capítulo.

“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória” (1 Coríntios 15:51-54).

Agora a situação ficou estranha para a interpretação espiritualista usual. O texto diz que seremos revestidos de incorruptibilidade, de imortalidade. Podemos entender isso como uma transformação que nos tornará imortais (exatamente como o verso 51 afirma), com ênfase a ter nossa estrutura atual realmente modificada e não substituída por algo.

Bem, se os que forem ressuscitados e os vivos transformados serão como os anjos (Lucas 20:36), então a natureza física dos anjos corresponde a nossa natureza atual, porém modificada para ser incorruptível. Porém, como vimos acima, “nem toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra a carne dos animais, e outra a dos peixes e outra a das aves.” Note que todos esses exemplos são feitos exatamente do mesmo tipo de matéria e até das mesmas substâncias básicas. São apenas variantes de uma mesma base biológica. Da mesma forma, os corpos celestes e terrestres exemplificados são também feitos do mesmo tipo de matéria, alterando apenas pequenos detalhes do ponto de vista físico. Seguem exatamente as mesmas leis e são compostos pelos mesmos elementos.

Mas, se isso se aplica também a anjos, como explicar que eles podem entrar e sair de locais fechados, ficar invisíveis e “possuir” pessoas? Na verdade, os mesmos conhecimentos sobre Física que nos permitem descartar ideias que eram tradicionalmente aceitas mas que se mostraram incoerentes, também nos permitem conhecer inúmeras possibilidade nas quais essas coisas são possíveis mesmo que os anjos sejam feitos exatamente do mesmo tipo de matéria da qual nós somos feitos. O difícil, é colocar tudo em linguagem simples para quem não conhece certas áreas específicas da Física com certa profundidade.

Outro evento interessante é mencionado em Atos 12. Pedro estava preso, algemado a guardas em uma prisão romana. Se ele fugisse, os guardas poderiam ser executados. Um anjo aparece para ele, as algemas caem e ele sai da prisão sem impedimentos. Só pela manhã os guardas perceberam que ele havia sumido. Ninguém mais notou que a prisão se abriu durante a noite? Como as algemas caíram dos braços de Pedro? Elas tornaram-se imateriais ou Pedro tornou-se etéreo como o anjo? Conhecem-se alternativas possíveis pelas leis físicas conhecidas sem apelar-se para hipóteses mirabolantes que violam essas mesmas leis. E essas possibilidades envolvem topologia e geometria. Quem tem meios de passar de uma camada (3-brane) do universo para outra, poderia facilmente efetuar esse processo com Pedro.

Mas lembre-se de que o exemplo que dei foi de andares bidimensionais, por uma questão didática. Na realidade, estamos falando de “andares” tridimensionais. Do ponto de vista de quem pode passar de um para outro, do ponto de vista dos anjos, estamos ao alcance da mão. Não são andares bidimensionais empilhados verticalmente. Essa foi apenas uma forma didática de explicar um aspecto da coisa, mas essa analogia tem limitações que a geometria não tem.

Outro detalhe interessante: já foram feitos estudos envolvendo inclusive autópsias de médiuns pessoas suspeitas de possessão, etc. Havia danos no cerebelo dessas pessoas. Aparentemente, queimaduras de micro-ondas. As forças armadas norte-americanas têm feito experimentos com micro-ondas para transmitir sinais diretamente ao cérebro humano. Os que se submetem a experimentos têm relatado que ouvem clicks quando atingidos por pulsos eletromagnéticos devidamente calibrados. Em princípio, seria possível enviar sinais eletromagnéticos ao cerebelo (o cérebro funciona por eletromagnetismo, como qualquer outro sistema biológico) para controlar todos os movimentos de uma pessoa. Quando acessamos um computador remotamente, frequentemente dizemos que “entramos” nele. Não significa que estamos fisicamente dentro do computador, mas que o acessamos e temos pelo menos algum controle sobre ele. A possessão demoníaca pode ser entendida da mesma forma, sem apelar-se a especulações incompatíveis com o princípio da otimização.

Eduardo Lütz é bacharel em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre em Astrofísica Nuclear pela mesma universidade. Efetuou pesquisas em Física Hipernuclear (com híperons) na Universidade Friedrich-Alexander (Alemanha). Também é engenheiro de software para a Hewlett-Packard (HP), desenvolvendo tecnologias em Informática há décadas.

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