A Bíblia Sagrada é inerrante?

bibliaCom o claro objetivo de fazer frente às alegações dos defensores do liberalismo e da alta crítica, alguns teólogos evangélicos acabaram assumindo posição radical e reacionária em relação às Escrituras – posição que ficou conhecida como “inerrante”, isto é, que a Bíblia Sagrada não contém erros de quaisquer espécie e teria sido revelada de forma verbal. Essa postura influenciou muitos teólogos e, por outro lado, gerou reações contrárias radicalmente proporcionais. Vários livros foram publicados na intenção de popularizar a teoria da inerrância bíblica. Um desses é O Alicerce da Autoridade Bíblica (Vida Nova), organizado por James Montgomery Boice, e que reúne artigos de estudiosos do quilate de Francis A. Schaeffer, R. C. Sproul e Gleason L. Archer, para mencionar apenas três.

Ao longo das 196 páginas, os escritores tentam demonstrar que a inerrância foi ideia defendida pela igreja cristã em toda a sua história – desde os apóstolos e os “pais da igreja”, passando pela Reforma e chegando aos dias atuais, quando encontra os evangélicos que, para serem assim considerados, devem ser inerrantes (pelo menos essa é a sentença radical de alguns dos articulistas do livro).

No fim do prefácio, Boice faz uma afirmação auto-contraditória: “Aquilo que a Bíblia diz, é Deus quem diz – através de agentes humanos e sem erro.” Como é possível algo humano ser desprovido de erro? E na Introdução, Schaeffer sugere que a mentalidade “cartesiana, positivista e empirista” estaria influenciando a exegese bíblica, parecendo ignorar o fato de que estender a inerrância a assuntos “periféricos” – história, cosmologia, etc. – é, isso sim, uma tentativa de ler a Bíblia sob as lentes do método científico moderno, cujo contexto em muito se distancia da mentalidade semítica com a qual as Escrituras estão entrelaçadas. Na verdade, a própria Bíblia não se arroga inerrante, devendo os que advogam essa prerrogativa apelar para outras fontes – como o próprio racionalismo – a fim de sustentá-la.

Curiosamente, os mesmos que defendem a inerrância, sobem no barco da alegorização de relatos históricos como Gênesis 1, 2 e 3. James I. Packer diz o seguinte, em seu artigo: “…lê-se Gênesis 1 como se fosse uma resposta às mesmas perguntas que os manuais científicos visam a responder, e Gênesis 2 e 3 se leem como se fosse, a cada ponto, narrativas prosaicas de testemunhas oculares, daquilo que teríamos visto se tivéssemos estado lá, não fazendo caso das razões por que se pode pensar que nesses capítulos ‘eventos reais talvez sejam registrados de modo altamente simbólico’” (p. 92.)

Mais equilibrado em suas análises, Gleason Archer informa que “há muito mais apoio textual para o texto da Sagrada Escritura do que há para qualquer outro livro que foi transmitido a nós desde tempos antigos” (p. 102). Archer escreve também que como o texto bíblico tem caráter eminentemente salvífico, foi conservado numa forma “suficientemente exata para realizar o seu propósito”, com uma transmissão não “seriamente defeituosa”. Ao usar as palavras “suficientemente” e “seriamente”, ele parece não querer ir tão longe no conceito de inerrância quanto seus colegas articulistas. “A melhor explicação é supor que Deus o Espírito Santo exerceu uma influência orientadora na preservação do texto original”, prossegue Archer, “conservando-o de erros sérios ou enganadores de qualquer tipo”. Citando Lindsell (The Battle for the Bible), em seu artigo “A Bíblia e a inerrância”, o Dr. Amim Rodor explica que “os inerrantistas confundem ‘erro’ no sentido de precisão técnica com a noção bíblica de erro como engano intencional”. Em sua linguagem, portanto, Archer parece ser não tão inerrantista assim.

Na página 138, vê-se Sproul manifestando igualmente um espírito equilibrado e aberto: “Não lançamos dúvida sobre a real dedicação dos defensores da inerrância limitada. O que questionamos é a exatidão da sua doutrina da Escritura, assim como eles questionam a nossa. Mesmo assim, consideramos que este debate, por mais sério que seja, é um debate entre membros da família de Deus. Que o nosso Pai nos leve à união neste ponto, assim como tem feito em muitas afirmações gloriosas do Seu evangelho” (p. 138).

No capítulo “O pregador e a Palavra de Deus”, assinado pelo próprio Boice, o autor tenta relacionar o “declínio contemporâneo na pregação grandiosa” (expositiva) – nas palavras de Lloyd-Jones – com a perda de crença na autoridade bíblica. Mas seria apenas esse o motivo? E seria o real motivo? Na revista Veja do dia 12 de julho de 2006, a matéria de capa aborda a mudança de ênfase dos pregadores evangélicos modernos (embora o foco sejam os “novos pastores”, pós-neopentecostais). Segundo a reportagem, está havendo cada vez menos ênfase no sobrenatural e mais investimento em técnicas de autoajuda. Nas igrejas evangélicas tradicionais, estuda-se pouco a Palavra de Deus. Portanto, independentemente da ênfase inerrantista (ou da falta dela), o declínio na pregação ocorre por diversos fatores e Boice parece tentar conduzir a conclusão na direção de seu pensamento. Depois, ele tece alguns comentários oportunos a respeito da necessidade de mais sermões expositivos, com forte conteúdo bíblico.

Finalmente, o livro apresenta a Declaração de Inerrância Bíblica de Chicago. Entre declarações que podem ser facilmente consideradas extremadas, há uma que quase surpreende pelo equilíbrio:

“As diferenças entre as convenções literárias nos tempos bíblicos e as do nosso tempo não podem ser desprezadas: uma vez que, por exemplo, a narração não-cronológica e a citação imprecisa eram comuns e aceitáveis, e não frustravam expectativa de espécie alguma na época, não se deve tê-las como equívocos quando as encontramos na Bíblia. Quando não se espera uma precisão absoluta de tipo específico, não se incorre em erro se ela não é alcançada. A Escritura é inerrante, não no sentido de que é absolutamente precisa segundo os padrões modernos, e sim no sentido de que ela cumpre aquilo que afirma e atinge aquela medida de verdade específica que foi objeto dos autores.”

Michelson Borges