O Efeito Dunning-Kruger e a autoconfiança perigosa

Autoconfiança2Vivemos em uma época em que aparentemente as pessoas têm muita “certeza”. E é cada vez mais comum encontrar em redes sociais e em contato pessoal pessoas que conseguem dar opiniões cada vez mais incisivas sobre os mais diversos e complexos assuntos. As fontes virtuais, os mecanismos de busca fazem com que alguém sem formação necessária dê opiniões em situações tão diversas como política, tendência filosófica, indo a extremos como um tratamento médico ou até uma técnica de cirurgia.

O escritor americano Nicholas G. Carr descreveu em seu livro Geração Superficial: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros os efeitos cognitivos da exposição contínua ao mundo digital. Entre várias descrições e deduções, destaca-se uma geração que tem certeza de tudo, ao acessar as informações disponíveis na net, sem uma postura reflexiva sobre o que acessam, e ao mesmo tempo com dificuldades para se aprofundar em um assunto ou até mesmo ler um livro. É paradoxal, mas encontramos cada vez mais a situação de pessoas expressarem suas “verdades” sem nenhum embasamento científico, mas “apoiadas” por outras pessoas com a mesma vertente ou jeito de pensar sobre assuntos aparentemente tão diversos quanto o uso de inhame para “curar” dengue, zika e chikungunya; os antivacinação, com as mais diversas teorias sobre vacinas e câncer, ou vacinas e autismo; e mesmo os terraplanistas, pensamento quase inacreditável na entrada do século 21.

O mais interessante ao interagir com tais pessoas é a absoluta certeza de que estejam com a razão. E para elas, muitas vezes, não adianta pedir referências ou provas das ideias apresentadas, para não dizer das credenciais ou experiência da pessoa no assunto. Ideias superficiais alimentadas emocionalmente por pessoas sem embasamento profundo geram certezas artificiais, muitas vezes associadas até a extremos de agressividade, ao serem colocadas diante de ideias opostas.

O suco mágico da invisibilidade

Piadas e perplexidade foi a reação dos detetives de Pittsburg, pelo feito de McArthur Wheeler. Ele, com 45 anos, 1,67 m e 122 kg, roubou dois bancos na manhã de 6 de janeiro de 1996. O ladrão novato, que assaltou essas duas instituições sem o uso de disfarces nem máscaras, foi facilmente identificado no circuito de vídeo do banco. Ao ser preso, de maneira atônita, repetiu aos policiais: “Mas eu usei o suco de limão! Eu usei o suco de limão!”

Aos policiais, que não estavam entendendo nada, Wheeler relatou que um conhecido tinha lhe dado a “dica” de esfregar suco de limão no rosto, pois isso o tornaria invisível para as câmeras de segurança. Depois descobriram que o desastrado ladrão havia feito um “pré-teste” do efeito do limão na face e não havia aparecido nada. Pelo jeito ele era tão versado em técnicas de fotografia quanto de roubo…

O tal experimento, que parecia ser verdade absoluta na mente de McArthur, foi finalmente posto em terra quando mostraram os vídeos do sistema interno dos bancos, os quais mostravam perfeitamente o desajeitado ladrão anunciando o assalto, enquanto fazia caretas pela sensação de ardência que sentia ao ter suco de limão nos olhos.

Ao ver esse relato, dois psicólogos, David Alan Dunning e seu orientando de doutorado, Justin Kruger, elaboraram em 1999 o Efeito Dunning-Kruger. Esse é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados. Isso faz com que essas pessoas tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos, mas sua própria incompetência, falta de experiência ou aprofundamento em um assunto acaba restringindo esses indivíduos da habilidade de reconhecer os próprios erros. Essas pessoas sofrem de superioridade ilusória. Em outras palavras, quanto mais incompetente você é em alguma área, menos você percebe sua incompetência – e mais confiante você se sente no seu (pouquíssimo) conhecimento.

Em contrapartida, a competência real pode enfraquecer a autoconfiança. Pessoas experientes acabam achando que não são tão capacitadas assim e subestimam as próprias habilidades. Isso não é uma doença, mas um fato a que as pessoas em menor ou maior grau podem estar sujeitas. Eu mesmo, ao me formar na faculdade de Medicina, no dia seguinte ao receber meu diploma, pensava: “Olha, realmente eu sei bastante!” Hoje, passados 20 anos de formado, posso dizer que sabia muito pouco naquela época, e que, por sinal, cada dia necessito aprender mais.

Confiança em que ou em Quem?

Muito antes de Dunning e Kruger, a Bíblia já relatava os perigos da autoconfiança exacerbada: “O que confia no seu próprio coração é insensato; mas o que anda sabiamente será livre” (Provérbios 28:26). Nossa confiança, mais que experiências pessoais ou certezas tiradas de nossa ideia própria de certo ou errado (ou das centenas de fontes duvidosas existentes na internet), deve estar embasada na eterna Palavra de Deus. “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te apoies no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5).

 Em um mundo que parece ter tantas certezas, devemos buscar e permitir que somente convicções ajustadas pela comunhão espiritual verdadeira façam parte de nossas atitudes diárias.

A humildade é uma virtude cristã e nos permite contemplar os desafios da vida na certeza de que temos um guia maior. E teremos tanto mais tranquilidade quanto mais buscarmos essa verdadeira fonte da sabedoria. “Por fim, esforço-me para que eles sejam fortalecidos em seu coração, estejam unidos em amor e alcancem toda a riqueza do pleno entendimento, a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. NEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:2, 3).

Everton Padilha Gomes é médico cardiologista e doutor em Cardiologia pela USP

Referências

Carr, N. G. A Geração Superficial: o Que a Internet Está Fazendo Com Os Nossos Cérebros, WW Norton, 2010

Pittsburgh Post-Gazette, 21 mar. 1996, p. D-3

Kruger, J; Dunning D. Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology 77(6):1121-34