Por que a Bíblia King James não é a melhor tradução disponível

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Em seu texto “Clássica e moderna”, o pastor e editor Fernando Dias escreveu: “Novas versões bíblicas confiáveis sempre foram valorizadas pelos adventistas. Na década de 1880, enquanto a English Revised Version era preparada, William C. White conversou sobre o assunto com sua mãe, Ellen G. White, que fez com que ele visse as vantagens de uma versão bíblica mais moderna, fiel aos originais e preparada por uma comissão interdenominacional. Segundo pesquisa feita por Arthur L. White sobre as versões da Bíblia usadas por sua avó, Ellen White sempre adotava o uso de versões bíblicas modernas e revisadas à luz das descobertas arqueológicas tão logo eram publicadas pelas sociedades bíblicas (‘The E. G. White Counsel on Versions of the Bible’, disponível whiteestate.org).”

De fato, a Sra. White se valeu extensivamente (mas não apenas) da Bíblia King James, afinal, era a tradução mais utilizada em seu tempo e em seu país. Mais ou menos como fazem a Igreja Adventista no Brasil e a Casa Publicadora Brasileira, ao utilizar majoritariamente a Almeida Revista e Atualizada (2ª Edição). É uma tradução perfeita? Claro que não, afinal, isso não existe. Por isso um bom hábito de leitura e estudo consiste em comparar diferentes traduções e não se prender a apenas uma.

No texto a seguir, o Dr. Daniel B. Wallace, professore no Dallas Theological Seminary e um dos maiores especialistas em grego bíblico, analisa a famosa Bíblia King James. Leia a tire suas conclusões. E mais importante: independentemente da versão ou tradução, não deixe de estudar sua Bíblia. Deus tomou providências para que, de um jeito ou de outro, ela chegasse até nós, no século 21, e em nossa língua! [MB]

Primeiro, quero afirmar com todos os cristãos evangélicos que a Bíblia é a Palavra de Deus, inerrante [sic], inspirada e nossa autoridade final de fé e vida. No entanto, em nenhum lugar da Bíblia é dito que apenas uma tradução dela é a correta. Em nenhum lugar é dito que a Bíblia King James é a melhor ou a única Bíblia “sagrada”. Não há nenhum versículo que diga como Deus preservará Sua palavra e garantia da própria Escritura para argumentar que a King James tem direitos exclusivos ao trono. Os argumentos se originam de outras fontes. Em segundo lugar, o texto grego que dá suporte à Bíblia King James é manifestamente inferior em certos lugares.

O homem que editou o texto era um sacerdote católico romano e humanista chamado Erasmus.[1] Ele estava sob pressão para levar o texto à imprensa o mais rápido possível visto que (a) nenhuma edição do Novo Testamento grego ainda havia sido publicada, e (b) ele tinha ouvido que o Cardeal Ximenes e seus associados estavam prestes a publicar uma edição do Novo Testamento grego e estava numa corrida para vencê-los. Consequentemente, sua edição foi chamada de o volume mais mal editado em toda a literatura! Está cheio de centenas de erros tipográficos que até mesmo Erasmus reconheceria posteriormente.

Dois lugares merecem uma menção especial. Nos últimos seis versículos de Apocalipse, Erasmus não tinha manuscrito grego (ele usava apenas meia dúzia; muitos manuscritos eram tardios para todo o Novo Testamento, de qualquer maneira). Ele foi, portanto, forçado a “traduzir de volta” do latim para o grego e, ao fazê-lo, criou dezessete variantes que nunca foram encontradas em nenhum outro manuscrito grego do Apocalipse. Ele simplesmente adivinhou o que o grego poderia ter sido. Em segundo lugar, para 1 João 5: 7, 8, Erasmus seguiu a maioria dos manuscritos na leitura “há três testemunhas no céu, o Espírito e a água e o sangue”. No entanto, houve um alvoroço em alguns círculos da Igreja Católica porque seu texto não dizia “há três testemunhas no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo”. Erasmus disse que não colocou isso no texto porque não encontrou nenhum manuscrito grego que tivesse essa leitura.

Esse desafio implícito  – isto é, que, se ele encontrou uma leitura em qualquer manuscrito grego, colocaria em seu texto  – não passou despercebido. Em 1520, um escriba em Oxford chamado Roy fez um manuscrito grego assim (Códex 61, agora em Dublin). A terceira edição de Erasmus teve uma segunda leitura porque um manuscrito grego foi “feito sob encomenda” para preencher o desafio. Até hoje apenas um punhado de manuscritos gregos que têm a fórmula trinitária em 1 João 5:7, 8 foi descoberto, embora nenhum deles seja comprovadamente anterior ao século 16.

Isso ilustra algo bastante significativo em relação à tradição textual que dá suporte à King James. Provavelmente, a maioria dos críticos textuais hoje concorda plenamente com a doutrina da Trindade (e, claro, todos os evangélicos que trabalham com crítica textual). E a maioria gostaria de ver a Trindade explicitamente ensinada em 1 João 5:7, 8. Mas a maioria rejeita essa leitura como uma invenção de algum escriba excessivamente zeloso. O problema é que a Bíblia King James está cheia de leituras que foram criadas por escribas excessivamente zelosos! Poucas das leituras distintivas da King James são demonstravelmente antigas. E a maioria dos críticos textuais apenas adota a proposição razoável de que os manuscritos mais antigos tendem a ser mais confiáveis, uma vez que se aproximam da data dos autógrafos originais. Eu mesmo amaria ver muitas das leituras da King James preservadas.

A história da mulher apanhada em adultério (João 7:53-8:11) sempre foi uma das minhas preferidas, pois trata acerca da graça de nosso Salvador Jesus Cristo. Que Jesus é chamado de Deus em 1 Timóteo 3:16, o que confirmaria a minha visão sobre Ele (cf. também João 3:13; 1 João 5: 7, 8, etc). Mas quando as evidências textuais me mostram que os escribas tinham uma forte tendência para adicionar, em vez de subtrair, e que a maioria dessas adições são encontradas nos manuscritos mais recentes, em vez de nos mais antigos, acho intelectualmente difícil aceitar essas respectivas passagens que sempre emocionalmente abracei.

Em outras palavras, aqueles estudiosos que não consideram muitas dessas passagens favoritas do Novo Testamento não fazem isso por maldade, mas porque tais passagens não são encontradas nos melhores e mais antigos manuscritos. No entanto, deve-se considerar enfaticamente que isso não significa que as doutrinas contidas nesses versículos tenham sido prejudicadas. Minha crença na deidade de Cristo, por exemplo, não vive nem morre por causa de 1 Timóteo 3:16. Na verdade, tem sido repetidamente afirmado que nenhuma doutrina da Escritura foi afetada por essas diferenças textuais. Se isso é verdade, os defensores da “King James somente” podem estar fazendo tempestade num copo d’água, em vez de se ocuparem com os aspectos mais importantes do avanço do evangelho.[2]

Em terceiro lugar, a Bíblia King James sofreu três revisões desde a sua criação em 1611, incorporando mais de 100 mil mudanças. Que Bíblia King James é inspirada mesmo?

Em quarto lugar, 300 palavras encontradas na Bíblia King James original não têm mais o mesmo significado hoje  – por exemplo, a palavra “suffer”, em Mateus 19:14. Outro exemplo é a palavra “study”, em 2 Timóteo 2:15. Devemos realmente abraçar uma Bíblia como a melhor tradução quando esta usa uma linguagem que não só não é mais claramente entendida, mas, na verdade, tem sido pervertida e torcida?[3]

Em quinto lugar, a King James inclui um erro muito definido na tradução, o que até mesmo os defensores dessa versão admitiriam. Em Mateus 23:24, a King James tem “coais um mosquito e engolis um camelo”. Mas o grego traz “coou um mosquito e engoliu um camelo”. No mínimo, isso ilustra não só o fato de que nenhuma tradução é infalível, mas também que as corrupções de um escriba podem acontecer e acontecem  – mesmo em um volume que foi trabalhado por tantas mãos diferentes (pois a King James foi o produto de um comitê com mais de cinquenta estudiosos).[4]

Em sexto lugar, quando a King James foi publicada pela primeira vez, ela encontrou forte resistência por ser muito fácil de entender. Algumas pessoas a reverenciam hoje porque a versão é difícil de entender. Receio que parte dessa atitude seja devida ao orgulho: alguns sentem que são capazes de discernir algo que outras pessoas menos espirituais não podem. Muitas vezes, 1 Coríntios 2:13-16 é citado com referência à essa versão (no sentido de que “você o entenderia se fosse espiritual”). Tal uso desse texto bíblico, no entanto, é uma grosseira distorção das Escrituras. As palavras no Novo Testamento, a gramática, o estilo, etc. – em suma, o idioma – foram compreendidos em linguagem comum do primeiro século. Fazemos um grande desserviço a Deus quando tornamos o evangelho mais difícil de entender do que o pretendido. A razão pela qual as pessoas não espirituais não entendem as Escrituras é porque elas têm um problema volitivo e não um problema intelectual (cf. 1Co 2:14, onde “receber”, “acolher” demonstra claramente que o que bloqueia o entendimento é a vontade pecadora do ser humano).

Em sétimo lugar, aqueles que defendem que a King James tem direitos exclusivos sobre a chamada Bíblia Sagrada são sempre, curiosamente, pessoas de língua inglesa (normalmente americanos isolados). No entanto, a boa tradução de Martinho Lutero da Bíblia para o alemão antecedeu a King James em quase cem anos. Somos tão arrogantes ao dizer que Deus falou apenas em inglês! E onde há discrepâncias substanciais entre a Bíblia de Lutero e a King James (como em 1 João 5: 7, 8), vamos dizer que Deus inspirou a ambos? Ele é o autor da mentira? Nossa fé não descansa em uma tradição singular, nem é provincial. O cristianismo bíblico e vibrante nunca deve se unir ao provincialismo. Caso contrário, o esforço missionário, dentre outras coisas, morreria.

Oitavo, novamente deixe-me repetir um ponto anterior: a maioria dos evangélicos que abraçam todas as doutrinas principais da fé – preferem uma tradução e uma base textual diferentes das que estão na King James. Na verdade, mesmo os editores da Nova Bíblia de Scofield (que é baseada na King James) preferem um texto/tradução diferente! [N.T.: Nos EUA, a adesão à King James é verificada mais nos círculos dispensacionalistas e fundamentalistas, porém, há alguns adeptos reformados que têm a mesma abordagem de defesa dessa tradução. No Brasil, a Bíblia preferencial dos reformados, Bíblia de Estudo de Genebra, adotou a versão Almeida Revista e Atualizada, que discorda levemente da ACF/King James.]

Finalmente, embora seja verdade que as traduções modernas “omitem” certas palavras e versos (ou, inversamente, que a King James acrescenta à Palavra de Deus, dependendo do ponto de vista), a questão não é tão simples assim. Na verdade, a edição mais recente de um Novo Testamento grego baseado em quantidade de manuscritos (i.e. o Texto Majoritário), em vez da antiguidade (e, portanto, esse tipo de Novo Testamento permanece firmemente dando algum apoio à tradição King James), quando comparado ao padrão do Novo Testamento grego usado na maioria das traduções modernas, corta também mais de 650 palavras ou frases. Assim, não é apropriado sugerir que apenas as traduções modernas omitem algumas palavras; o texto grego (Texto Majoritário) por trás da King James omite também. A questão, então, não é se as traduções modernas eliminaram porções da Palavra de Deus, mas sim se a King James ou as traduções modernas alteraram a Palavra de Deus. Eu argumento que a King James alterou muito mais drasticamente as Escrituras do que as traduções modernas. No entanto, repito: a maioria dos críticos textuais nos últimos 250 anos diria que nenhuma doutrina é afetada por essas mudanças. Alguém pode ser salvo lendo a ACF/King James ou a NVI, ARA, NTLH, etc.

Estou confiante de que esta breve pesquisa sobre minhas razões de a Bíblia King James/ACF não se apresentar como a melhor tradução disponível não será descartada rapidamente. Todos nós temos uma tendência de fazer motins e, em seguida, fortalecer nossas divisas. Muitas vezes nos apegamos às emoções, e não à verdadeira piedade. E, como tal, fazemos um grande desserviço para um mundo moribundo que precisa desesperadamente de uma voz clara e forte que proclama o evangelho de Jesus Cristo. Soli Deo gloria!

Mais um ponto precisa ser dito. Com a publicação recente de vários livros, vilipendiando traduções modernas, afirmando que essas traduções são apoiadas por motivos conspiratórios, uma palavra deve ser mencionada sobre essa teoria. Primeiro, muitos desses livros são escritos por pessoas que têm pouco ou nenhum conhecimento de grego ou hebraico e, além disso, são uma grande distorção dos fatos. Eu tenho lido livros sobre crítica textual há mais de um quarto de século, mas nunca vi citações tão ilógicas, fora do contexto e lamentáveis decepções sobre isso como tenho observado nesses livros recentes. Em segundo lugar, embora muitas vezes seja afirmado que os hereges produziram alguns dos manuscritos do Novo Testamento que agora temos em nossa posse, há apenas um grupo de manuscritos conhecido por ser produzido por heréticos: certos manuscritos bizantinos do livro de Apocalipse. Isso é significativo porque o texto bizantino dá suporte ao texto da ACF/King James. Esses manuscritos fizeram parte de um livro-texto de culto misterioso usado por vários cultos primitivos. Mas os defensores da King James constantemente fazem acusação de que os primeiros manuscritos (o manuscrito de Alexandria) foram produzidos por hereges. A única base para essa acusação é que certas leituras nesses manuscritos são desagradáveis ​​para eles. Em terceiro lugar, quando se examinam as variações entre o texto grego por trás da King James (o Textus Receptus) e o texto grego das traduções modernas, descobre-se que a grande maioria das variações são tão triviais que sequer podem ser traduzidas (a mais comum é a letra grega nu móvel, que é semelhante à diferença entre “que” e “quem”). Em quarto lugar, quando se compara o número de variantes que se encontram nos vários manuscritos com as variações reais entre o Textus Receptus e os melhores testemunhos do texto grego, verifica-se que esses dois são notavelmente similares. Existem mais de 400 mil variantes textuais entre os manuscritos do Novo Testamento. Mas as diferenças entre o Textus Receptus e os textos baseados nas melhores testemunhas textuais do grego são cerca de cinco mil – e a maioria dessas diferenças é intraduzível. Em outras palavras, mais de 98% da vezes, o Textus Receptus e as edições críticas concordam. Aqueles que vilipendiam as traduções modernas e os textos gregos por trás deles evidentemente nunca investigaram os dados. Seus apelos são baseados em grande parte na emoção, não na evidência. Como tal, eles fazem uma injustiça para o cristianismo histórico, bem como para os homens que estavam por trás da Bíblia King James. Esses estudiosos, que admitiram que esse tipo de trabalho de crítica textual era provisório e não definitivo (como pode ser visto pelo prefácio e por suas mais de oito mil notas marginais que indicam leituras alternativas), acolheriam de todo o coração as grandes descobertas de manuscritos ocorridas nos últimos 150 anos.

(Dr. Daniel Wallace, Bible.org, via Medium; tradução de Evandro Junior)

[1] Um humanista no século 16 não é o mesmo que um humanista hoje. Erasmus era geralmente tolerante com outros pontos de vista e estava particularmente interessado nas ciências humanas. Embora ele fosse um amigo de Melanchthon, o braço direito de Lutero, Lutero não simpatizava com ele.

[2] É significativo que o próprio Erasmus fosse bastante progressivo em seu pensamento, e dificilmente seria a favor de como os defensores da “King James Somente” o abraçaram como seu campeão. Por exemplo, cada uma de suas edições do NT grego alternava entre o latim de um lado e o grego do outro. O latim era sua própria tradução, e deveria melhorar a Vulgata latina de Jerônimo – uma tradução que a Igreja Católica havia declarado inspirada. Por essa razão, a Universidade de Cambridge baniu imediatamente o Novo Testamento de Erasmus, e outros seguiram o exemplo. Em outro lugar, Erasmus chegou a questionar se a perícope da mulher adúltera (a história da mulher capturada em adultério [João 7:53-8:11]), o fim mais longo de Marcos (16:9-20), etc., eram autênticos.

[3] “Sofrer” em Mateus 19:14 significa “permissão”; “Estudar” em 2 Timóteo 2:15 significa “ser ansioso, ser diligente”. Veja o Oxford English Dictionary (o maior dicionário completo da língua inglesa) para obter ajuda aqui: traça os usos das palavras através de sua história, identificando o ano em que um novo significado entrou em voga. [N.T.: O autor fala das palavras “suffer”, “permit”, “study” que tinham significados bem diferentes em 1611 quando comparadas ao inglês moderno. Como a ACF deriva da King James, a tradução para o português também está de acordo com a versão moderna do inglês, e não de acordo com o antigo significado da tradução.]

[4] Há outros erros na King James que persistem até hoje, mesmo que essa tradução tenha passado por várias edições. Por exemplo, em Hebreus 4:8 se lê: “Pois, se Jesus lhes tivesse dado descanso, então Ele não teria depois falado de outro dia.” Isso soa como se Jesus não tivesse proporcionado o eterno descanso que todos desejamos. No entanto, a palavra grega para Jesus é a mesma palavra para Josué. Ademais, no contexto de Hebreus 4, obviamente, Josué é o significado pretendido. Não há problema textual aqui; é simplesmente um erro por parte dos tradutores, perpetuado nos últimos 400 anos em todas as edições da King James.