Cientistas espanhóis criam ser híbrido de humano e macaco

embriaoA equipe do pesquisador Juan Carlos Izpisúa conseguiu criar pela primeira vez uma quimera – um ser híbrido – entre humano e macaco num laboratório da China, dando um importante passo para seu objetivo final de transformar animais de outras espécies em fábricas de órgãos para transplantes, segundo confirma ao El País sua colaboradora Estrella Núñez, bióloga e vice-reitora de pesquisa da Universidade Católica de Murcia (UCAM). As quimeras, segundo a mitologia grega, eram monstros com ventre de cabra e cauda de dragão, capazes de cuspir fogo pelas ventas de sua cabeça de leão. As quimeras científicas são menos grotescas. O grupo de Izpisúa, distribuído entre o Instituto Salk dos EUA e a UCAM, modificou geneticamente os embriões de macaco para desativar genes essenciais na formação de seus órgãos. Em seguida, os cientistas injetaram células humanas capazes de gerar qualquer tipo de tecido. O resultado é uma quimera de macaco com células humanas, que não chegou a nascer, já que os pesquisadores interromperam a gestação. O experimento foi realizado na China para evitar obstáculos legais em outros países.

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A Inquisição e o atraso da imprensa no Brasil

inquisicao2O Observatório da Imprensa na TV exibiu [uma] série de três programas sobre os impactos da vinda da família Real para o Brasil, ocorrida em 1808. O foco do debate foi a conjuntura que levou o país a um atraso de mais de três séculos em relação ao início da impressão industrial de textos, datada de 1456, quando Johann Gutenberg confeccionou a Bíblia de Mogúncia. Outras colônias na América, como México e Peru, fundaram suas primeiras tipografias séculos antes do Brasil, que só decretou a implantação da Impressão Régia em 13 de maio de 1808. Participaram do programa Isabel Lustosa, historiadora da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e o jornalista e escritor Laurentino Gomes, em São Paulo. (…)

O jornalista [Alberto Dines] comentou ainda o papel da Inquisição neste atraso [do começo da imprensa no Brasil]. Naquela época, explicou Dines, era preciso um licenciamento. O controle era exercido no início do processo pelo Santo Ofício da Igreja Católica. O órgão da igreja operava aqui através de comissários que davam informações à Coroa portuguesa e obedeciam às ordens de Lisboa. Já a coroa espanhola criou no Novo Mundo vários tribunais, descentralizando a fiscalização. A medida tornou possível execuções de condenados, mas contribuiu para que suas colônias pudessem fundar tipografias muito antes do Brasil (as primeiras impressões na América seguiram a seguinte ordem: Cidade do México, 1535; Lima, 1583; EUA, 1640; Bogotá, 1739; Santiago, 1748; Quito, 1760; Nova Orleans (Espanha), 1764; Buenos Aires, 1766; e Montevidéu, 1807).

Dines comentou que um estudo pouco conhecido aponta que a implantação da tipografia poderia ter sido antecipada em mais de 60 anos. Em 1749, Antônio Isidoro da Fonseca – que foi um dos doze tipógrafos mais importantes de Lisboa, tendo publicado a Biblioteca Lusitana, o primeiro compêndio das obras escritas em Portugal – tentou estabelecer uma tipografia no Rio de Janeiro. Após publicar alguns folhetos, foi surpreendido com uma intimação que o obrigou a fechar a gráfica porque contrariava às ordens de Lisboa. (…)

Dines perguntou a Laurentino Gomes como a corte [portuguesa] formou sua cultura se a impressão não era permitida no Brasil e, em Portugal, ainda era controlada. O autor de 1808 disse que a antiga metrópole era um dos países mais atrasados da Europa. O espírito aventureiro e de conquistas que havia marcado a época das navegações e das grandes descobertas havia desaparecido com o início do reinado de D. Maria I, extremamente ligada à Igreja Católica. Portugal foi o último país a abolir a Inquisição, havia um controle absoluto das ideias. (…)

Os prejuízos causados pela Inquisição no Brasil, para Alberto Dines, não podem ser medidos, são incalculáveis. Entre 1536, quando foi instalada na metrópole, até 1821, quando foi abolida pela Constituição de Portugal, esteve presente no Brasil através do controle de livros. As obras que vinham de Lisboa eram examinadas no cais. “Tudo isso tinha um ônus tremendo, as ideias não podiam circular”, avaliou. Os contrabandos e relatos de estrangeiros eram as alternativas encontradas pelos brasileiros para ter acesso à cultura e à informação livre.

No encerramento do debate, Laurentino Gomes disse que o Brasil pode comemorar o aniversário em 1808, apesar de ter sido descoberto em 1500. Para ele, nenhum outro período na história do Brasil passou por transformações tão profundas. Deixou de ser uma sociedade atrasada, ignorante e proibida. Isabel Lustosa reafirmou que o cerceamento à informação foi extremamente prejudicial, mas que quando a impressão foi liberada foi fundamental para a formação de uma classe política.

(Lilia Diniz, Observatório da Imprensa)

Estudo do BID relaciona novelas a divórcios no Brasil

novelaUm estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sugere uma ligação entre as populares novelas da TV Globo e um aumento no número de divórcios no Brasil nas últimas décadas. Na pesquisa, foi feito um cruzamento de informações extraídas de censos nos anos 70, 80 e 90 e dados sobre a expansão do sinal da Globo – cujas novelas chegavam a 98% dos municípios do país na década de 90. Segundo os autores do estudo, Alberto Chong e Eliana La Ferrara, “a parcela de mulheres que se separaram ou se divorciaram aumenta significativamente depois que o sinal da Globo se torna disponível” nas cidades do país. Além disso, a pesquisa descobriu que esse efeito é mais forte em municípios menores, onde o sinal é captado por uma parcela mais alta da população local.

Os resultados sugerem que essas áreas apresentaram um aumento de 0,1 a 0,2 ponto percentual na porcentagem de mulheres de 15 a 49 anos que são divorciadas ou separadas. “O aumento é pequeno, mas estatisticamente significativo”, afirmou Chong.

Os pesquisadores vão além e dizem que o impacto é comparável ao de um aumento em seis vezes no nível de instrução de uma mulher. A porcentagem de mulheres divorciadas cresce com a escolaridade.

O enredo das novelas frequentemente inclui críticas a valores tradicionais e, desde os anos 60, uma porcentagem significativa das personagens femininas não reflete os papéis tradicionais de comportamento reservados às mulheres na sociedade.

Foram analisadas 115 novelas transmitidas pela Globo entre 1965 e 1999. Nelas, 62% das principais personagens femininas não tinham filhos e 26% eram infiéis a seus parceiros.

Nas últimas décadas, a taxa de divórcios aumentou muito no Brasil, apesar do estigma associado às separações. Isso, segundo os pesquisadores, torna o país um “caso interessante de estudo”.

Segundo dados divulgados pela ONU, os divórcios pularam de 3,3 para cada 100 casamentos em 1984 para 17,7 em 2002.

“A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV, a funções desempenhadas por mulheres emancipadas e a uma crítica aos valores tradicionais mostrou estar associada aos aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras”, diz a pesquisa.

(BBC Brasil)

Não vamos idolatrar pessoas; elas são falhas

tristeAo longo da história bíblica e do cristianismo houve grandes naufrágios espirituais e morais. Homens e mulheres de Deus sucumbiram às mais diversas tentações e deixaram um rastro de vergonha e dor. Com seus deslizes, mancharam o bom nome cristão e levaram outros à derrota ou à autojustificação. Louvado seja Deus pelo fato de Ele ser misericordioso e restaurador, mas, mesmo com o bálsamo do perdão, nem sempre é possível escapar das consequências de certas escolhas. Algumas dessas consequências nos acompanham por toda a vida.

Recentemente, o escritor evangélico Jushua Harris, autor do livro Eu Disse Adeus ao Namoro, declarou não mais ser cristão. Joshua e a esposa, Shannon, anunciaram a separação depois de 19 anos de casados. Harris era conhecido por seu conservadorismo, mas no ano passado escreveu um comunicado oficial pedindo perdão por seus livros conservadores e renunciou ao cargo de pastor principal da Covenant Life Church. Ele disse que lamenta e até se arrepende de suas posturas conservadoras, inclusive com relação ao homossexualismo.

Quando esses naufrágios acontecem, somos lembrados uma vez mais de que nosso olhar deve estar fixo unicamente nAquele que é perfeito: Jesus Cristo. Se um líder de igreja, um pastor, um administrador começa a negar tudo o que ensinou e pregou; começa e espalhar heresias e inverdades, isso não significa que o evangelho perdeu seu valou e seu poder. Significa apenas que não devemos ancorar nossa fé em seres humanos, nem promover o culto à personalidade. Em tempos de expansão da TV e das redes sociais, certas figuras podem se destacar e passar a ser tratadas até com certa idolatria. Isso não é correto. É preciso atentar para a mensagem, não para o mensageiro, e sempre agir com a atitude dos bereanos, que submetiam todos os ensinos à Palavra de Deus (Atos 17:11).

O apóstolo Paulo é claro quando diz que “aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!” (1 Coríntios 10:12). A firmeza do cristão não vem dele, vem da Rocha. Devemos sempre desconfiar de nós mesmos e confiar unicamente em Jesus.

Ellen White escreveu que “muitas estrelas que temos admirado por seu brilho tornar-se-ão trevas” (Profetas e Reis, p. 188), e que “nas cenas finais da história terrestre, homens a quem Ele honrou grandemente seguirão o exemplo do antigo Israel. […] O afastamento dos grandes princípios que Cristo estabeleceu em Seus ensinos, a elaboração de projetos humanos, usando as Escrituras para justificar a errônea maneira de proceder sob a perversa influência de Lúcifer, confirmarão os homens no engano, e a verdade de que necessitam para serem livrados de práticas incorretas se escoa da alma como água de um recipiente que vaza” (Manuscript Releases, v. 13, p. 379, 381). “Muitos demonstrarão que não são um com Cristo, que não estão mortos para o mundo, para que possam viver com Ele; e as apostasias de homens que ocuparam posições de responsabilidade serão frequentes” (Review and Herald, 11 de setembro de 1888).

Apostasia de homens que ocuparam posições de responsabilidade… Se você for um fã dessas pessoas em detrimento da mensagem que elas anunciam, poderá confundir a mensagem com a pessoa e acatar inadvertidamente tudo o que seu ídolo disser.

Fomos devidamente advertidos, portanto, fiquemos atentos. Oremos pelos homens e pelas mulheres que ocupam cargos de responsabilidade; oremos para que nós nunca nos esqueçamos de que podemos ser um testemunho para o bem ou para o mal; e sobretudo olhemos sempre para Jesus, “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2).

Somos ovelhas de Jesus, não rebanho de seres humanos falhos. É verdade que Ele usa poderosamente homens e mulheres que se colocam sob Sua direção e se submetem à Sua vontade, mas a mão que move o leme é a Dele.

Concluo este texto com uma reflexão que recebi por e-mail:

“Igreja não tem palco, tem altar: no palco há performance, no altar há sacrifício.
“Igreja não tem show, tem culto: no show há exibição, no culto há rendição.
“Igreja não tem estrelas, tem servos: estrelas aparecem, servos obedecem.
“Igreja não tem fãs, tem discípulos: fãs aplaudem e bajulam, discípulos aprendem e seguem.
“Igreja não tem artistas, tem ministros: artistas atuam, ministros servem.
“Igreja não tem plateia, tem adoradores: plateia assiste e reage, adoradores prostram-se e entregam-se.
“Quando a igreja passa a ter palco, show, estrelas, fãs, artistas e plateia, faz jus à citação de Warren W. Wiersbe, em seu livro Crise de Integridade: ‘A igreja é semelhante à arca de Noé. Se não fosse o juízo de Deus para os que estão fora, seria impossível suportar o mau cheiro dos que estão dentro.’ Mas quando a igreja opta pela trilha do altar, do culto, dos servos, dos discípulos, dos ministros e dos adoradores, encontra sua identidade resumida nas palavras de Paulo: ‘família de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a qual é a coluna e o alicerce da verdade’ (1 Timóteo 3:15, NTLH).”

Michelson Borges

Entre desenhos animados e sessões mediúnicas

leaoNa semana passada fomos invadidos pelos apelos da mídia referentes ao remake em computação gráfica ultrarrealística de “O Rei Leão”, sucesso da Disney de 1994, que angariou na época quase 1 bilhão de dólares e definiu o renascimento daquele estúdio para filmes de animação. Aproveitando o sucesso, vários produtos estão sendo lançados, ensejando o interesse do público no assunto. Parques temáticos, promoções em lanchonetes de fast-food e desenhos derivados – chamados de spin-offs – são idealizados para incrementar os lucros do estúdio de animação.

Desde o anúncio do novo “O Rei Leão”, já vinham sendo lançados alguns produtos, e alguns deles se tornaram mais evidentes durante a semana passada. Chamou a atenção a série intitulada “A Guarda do Leão”, exibida na plataforma digital Netflix e canais a cabo, pela sua premissa, em que mensagens de conteúdo não cristão são passadas às crianças.

A ideia básica é que Kion, filho mais novo de Simba, se torna detentor do “rugido do Leão”, uma capacidade na qual ele incorpora o rugido dos reis ancestrais do reino da pedra, juntamente com um forte vento. No céu, junto com essa incorporação, aparecem nas nuvens a imagem de quatro leões. Logicamente que o desenho é entremeado de mensagens positivas de inclusão e amizade. Ele escolhe cinco amigos para recompor a Guarda do Leão, que não são mais leões. Já no segundo episódio Kion fala com seu avô, Mufasa, ao mesmo estilo visto no Rei Leão, e tudo continua. Entretanto, a questão se torna muito aberta na segunda temporada. Ushari, uma serpente, convence as hienas de que elas precisam convocar o espírito de Scar, o leão morto no fim de “O Rei Leão” (pelas próprias hienas). E, assim, com uma trama que envolve médiuns (é deixado bem claro que Rafiki, o mandril que parece ser um ancião/conselheiro do reino é, na verdade, um médium, assim como sua aprendiz Maniki – que podem evocar espíritos dos bons e dos maus, finalmente Scar emerge, não dos céus, mas da lava da terra.

São inegáveis as semelhanças com outras histórias, desta vez de caráter bíblico. A serpente, Satanás, foi o primeiro a promover a mentira da imortalidade da alma (Gênesis 3:4). E a cena da invocação de Scar lembra de maneira muito próxima o relato da invocação da Pitonisa de Endor, em que um falso espírito aparentando ser Samuel, saindo da terra foi falar com Saul.

Talvez o pior de tudo nesse contexto é a reação de alguns cristãos, incluindo líderes religiosos, a toda a história expressa em “O Rei Leão”. Análises entusiasmadas, querendo tirar lições morais ou até fazendo paralelos entre os personagens do filme e a Bíblia e o plano da Redenção. Alguns comparam Mufasa a Jesus, Rafiki a um cristão inspirado, Scar ao diabo, e assim por diante. Tudo isto com a chancela subjacente ao filme, como uma fonte aprovada e instrutiva para todos. O que devemos levar em conta é que qualquer história deve ser analisada com base na sua premissa ou mitologia. Ou, em última análise, dentro do contexto da mensagem que os autores licenciados gostariam de passar. Neste caso, o que temos claro é que, embora o Rei Leão tenha realmente lições morais, elas são dadas dentro de um meio espiritualista, em que os espíritos podem ser os “guias” para os vivos ou, no caso de “A Guarda do Leão”, espíritos inferiores podem ser antagonistas. E esse relato, da maneira como é passado, se adequa perfeitamente à ideologia espírita.

Mas não conseguimos diferenciar uma coisa de outra? Ou pode ser possível apreciar “O Rei Leão” sem ser afetado pelos pontos negativos?

Entendo que temos o livre arbítrio. Mas, ao mesmo tempo, cada “recomendação” expõe todo pacote dessa mitologia aos espectadores mais incautos, que são crianças e adolescentes. Ou alguém acha que o juvenil que vir o filme sendo recomendado por religiosos ou pelos pais não achará automaticamente recomendada a mesma série de desenhos da mesma produtora em outras plataformas?

Nesses momentos, como pai, só posso apelar que devemos manter cuidado com aquilo que permitimos que entre em nossas casas. Analisar o que eles veem previamente, ou pelo menos ao lado deles. E pedir orientação de Deus para servir o melhor aos nossos filhos.

(Everton Padilha Gomes é médico e doutor em cardiologia pela USP)

O dia em que o marxismo cultural serviu para algo de bom

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A Ariane (de vestido verde), na época das eleições presidenciais, estava pesquisando sobre marxismo cultural e encontrou uma palestra minha, em meu canal no YouTube. Gostou, começou a assistir a outros conteúdos e se interessou pela mensagem adventista. Ela mora em uma cidade vizinha, mas ontem estava em Tatuí e resolveu visitar a Igreja Adventista do Sétimo Dia das Mangueiras. Quem estava pregando lá? Sim, eu! A moça de casaco branco, a Fabiana, é adventista, mora na mesma cidade da Ariane e vai começar um estudo bíblico com ela. Os caminhos de Deus são impressionantes! E foi a primeira vez que vi o marxismo cultural servir para algo bom. [MB]

Spoiler da Lição: O clamor dos profetas

Relações perigosas: cultura pop, evangelho e contextualização

showPara iniciar a reflexão, quero mencionar um vídeo do pastor Cláudio Duarte sobre o Rei Leão. O pregador, conhecido por sua veia humorística, desta vez protagoniza uma reflexão minimalista calcada na história do desenho de 1994, que ganhou uma recente versão live action. O vídeo chegou ao meu WhattApp. Respondi ao remetente que entendia perfeitamente por que muitos evangélicos produzem esse tipo de conteúdo, procurando pelo espiritual em ovo cinematográfico. Entretanto, propor aplicações espirituais a partir de mídias seculares é incabível para adventistas. Entenda o porquê.

Quando se fala de interpretar um texto, a ciência que trata disso é a hermenêutica. Grupos cristãos diferentes chegam a interpretações divergentes da Bíblia porque adotam princípios hermenêuticos diferentes. Para os pioneiros adventistas, um dos princípios hermenêuticos mais sólidos era o sola Scriptura. Isso significa que somente as Escrituras seriam a autoridade final na vida do crente. Note o que escreveu O. R. L. Crosier, em seu artigo “The Law of Moses” (1846): “Enquanto perguntamos para a Bíblia o que o santuário é, deixe todo o preconceito educacional ser excluído da mente.” Segundo o teólogo P. G. Damsteegt, em seu clássico Foundations of the Seventh Day Message and Mission, os pioneiros adventistas interpretavam a Bíblia utilizando o princípio sola Scriptura e a auto-autentificação das Escrituras. Se você quiser saber mais detalhes sobre o sola Scriptura, sugiro que assista a este vídeo e leia este artigo.

Logo, só existe aplicação espiritual das Escrituras, não de produtos da cultura, descobertas da ciência, experiências humanas (mesmo as espirituais) ou tradições culturais e religiosas. A Bíblia é a autoridade final na vida do cristão e, para aplicá-la à vida, necessita-se interpretá-la corretamente. Por isso se busca o conhecimento das ferramentas adequadas para se chegar ao sentido do texto bíblico, fazendo-o dialogar com passagens escriturísticas que tratem do mesmo assunto. Extrair a mensagem do texto garante poder para uma aplicação à vida do cristão.

Pode-se articular o conteúdo bíblico por meio da cultura. Isso acontece quando se usa, por exemplo, uma prática cultural para ilustrar um conceito bíblico – ao tratar de João 12, quando Jesus repreende Simão por não trata-Lo de forma hospitaleira segundo os critérios da época, mencionei hábitos modernos de hospitalidade (convidar a pessoa a entrar, sentar-se no sofá, servir-lhe um copo com água, etc.) durante uma meditação dirigida a funcionários da instituição em que trabalho. Outro exemplo de articulação: a Bíblia não usa o termo “cultura”, embora forneça diversos exemplos de como era a cultura do período em que foi escrita. Igualmente, quando se fala de cosmovisão cristã, não se encontram esses termos nas páginas das Escrituras; contudo, certamente há muito sobre isso na Bíblia que preenche a grade que forma uma cosmovisão (quem é Deus, quem é o homem, o que é real, etc.).

Embora a cultura e mesmo algumas ciências (como filosofia, sociologia, filologia, etc.) forneçam articulações úteis para ilustrar ou ajudar a compreender o sentido do texto, nenhum desses elementos constitui a mensagem per se. A mensagem a ser aplicada deve provir da única fonte: as Santas Escrituras.

Contextualização e suas distorções

Agora preciso passar a outro conceito importante: a contextualização. Para envolver pessoas de outra cultura no processo de evangelização, os missiólogos criaram o termo “contextualização”. Basicamente, contextualizar é criar uma estrutura que funcione como ponte entre duas culturas, baseada em aspectos comuns que tais culturas possuam. Dessa maneira, o evangelho pode soar relevante para uma cultura que o desconhece. Como a cultura ocidental contemporânea perde suas características cristãs que a moldaram, cada vez mais a contextualização é aplicada a iniciativas evangelizadoras contemporâneas. O problema é que, quando se trata de contextualização nesse segundo sentido, o sola Scriptura entra na teoria, porque, na prática, o que se vê é o sola experientia ou sola cultura.

O que quero dizer com isso? Que muitas iniciativas evangelizadoras partem da cultura para atingir a cultura. Ironicamente, não se percebe o contrassenso: ou se segue a cultura ou as Escrituras. Afinal, não se pode servir a dois senhores.

Adventistas mais liberais como Reinder Bruinsma propõem que a igreja se adapte à pós-modernidade, o que envolve uma nova liturgia, um novo estilo de pregação e, certamente, uma nova forma de vivenciar a espiritualidade. É fácil vender uma religião que soe palatável – o difícil é fazer as pessoas comprarem a fé bíblica, que faz a mente secular engasgar com sua verdade intragável para este século (mas que permanece tão necessariamente nutritiva!). Se alguém decidiu unir-se a uma denominação cristã apenas porque foi-lhe prometido tocar o tipo de música que lhe agradasse, foi vítima de clientelismo, não fruto de evangelização. E uma igreja séria não pratica clientelismo, porque reconhece a santidade de Deus.

Ademais, atender às demandas da pós-modernidade em matéria de culto e liturgia é incorrer na adoração carismática que já permeia as igrejas evangélicas desde a década de 1970. Nos anos 1980, surgiu o movimento Celebration dentro do adventismo, que gerou polêmicas discussões, sem, porém, trazer contribuições positivas nem um legado de crescimento espiritual. Hoje os worships evangélicos são novamente os hits do momento e já se infiltraram em cultos adventistas. Porém, é necessário entender o real propósito da adoração bíblica para não se curvar a uma cultura que nivela o conceito de Deus por baixo. (Recomendo o excelente livro Música na Igreja, da CPB.)

Adorar não é equivalente a produzir um show. No show, o artista está em evidência. Na adoração, Deus é o centro de toda atenção. Quando os adoradores são o foco, ironicamente, eles deixam de ser adoradores, correndo o risco de se tornar objeto de adoração.

Voltando à pós-modernidade: não se pode cometer o mesmo equívoco de Bruinsma em pintar o período que estamos vivendo como algo neutro. Em meu texto “Desafios evangelizadores da pós-modernidade para o adventismo”, eu mostro a impossibilidade de criar igrejas para pessoas pós-modernas. Afinal, não existe algo como identidade pós-moderna, uma vez que a pós-modernidade é a quebra dos rótulos, o estar sempre em mudança de identidade. (Leia o texto aqui.) Além disso, movimentos cristãos voltados à pós-modernidade abandonaram o cristianismo tradicional, embarcando em uma jornada espiritual subjetiva e mística. É o caso das igrejas emergentes. (Assista a esta série de vídeos: parte 1, parte 2, parte 3.)

Em suma, é um momento de encruzilhada para o adventismo. Deseja-se uma nova geração de adventistas fiéis, mas eles são alimentados com música pop evangélica, ensinados que o mais importante na missão é a ajuda humanitária (e não orientação bíblica) e têm recebido pouca instrução das Escrituras e dos Testemunhos. Qual será o resultado? (Assista a este vídeo.)

É perturbador saber que músicas carismáticas são tocadas por bandas adventistas, vinhetas de seriados globais tocam em vídeos sobre família e outras coisas semelhantes acontecem em nome da contextualização. Contudo, se você está cansado de ver gente dançando na igreja e dizendo que a Bíblia não proíbe o rock, além daqueles que promovem festas vestidos de super-heróis, tranquilize-se: essas coisas apenas mostram que estamos no fim e que Jesus está voltando!

A solução para crescer saudavelmente

A solução? Reavivamento e reforma! E confiar que os textos inspirados não fornecem somente o incentivo para a missão, bem como as diretrizes. Note este exemplo:

“Muitos supõem que, para se aproximar das classes mais altas, é preciso adotar uma maneira de vida e um método de trabalho que se harmonizem com seus fastidiosos gostos. Uma aparência de riqueza, custosos edifícios, caros vestidos, equipamentos e ambiente, conformidade com os costumes do mundo, o artificial polimento da sociedade da moda, cultura clássica, as graças da oratória, são considerados essenciais [elementos que estavam de acordo com a cultura do tempo de Ellen G. White]. Isso é um erro. O caminho dos métodos do mundo não é o caminho de Deus para alcançar as classes mais elevadas. O que na verdade os tocará é uma apresentação do evangelho de Cristo feita de modo coerente e isento de egoísmo” (Ellen G. White, A Ciência Do Bom Viver, p. 213).

É hora de viver o evangelho em sua pureza, buscando intencionalmente trabalhar pela evangelização de pessoas em nível pessoal, de forma coerente e por meio da atuação do Espírito. Quando há a necessidade de se valer de recursos como associação com filmes, séries e ícones da cultura pop para atrair a atenção, está-se negando que o Espírito Santo, por si só, tem o poder de atrair os jovens (ou seja quem for). Assim, busque fazer o trabalho de Deus por meio dos recursos e instrumentos que Ele disponibilizou. Será o bastante.

(Douglas Reis é mestre em Teologia, doutorando em Teologia [PhD] pela Universidade Adventista del Plata e autor de livros e artigos acadêmicos sobre identidade adventista, desenvolvimento da doutrina adventista e pós-modernidade)

Respostas a um antitrinitariano (parte 4 de 4)

2Pergunta: Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram antitrinitarianos. Em 1872, foi elaborado um documento contendo os Princípios Fundamentais da IASD e lá não consta a Trindade. Ellen White, falando desses princípios fundamentais, disse que não deveríamos mover os pilares da nossa fé que tinham sido estabelecidos nos últimos 50 anos. São os marcos antigos dos pioneiros. Mas hoje esses pilares, esses marcos foram abandonados pela liderança da IASD. Como vocês me explicam isso?

(As respostas a esses questionamentos têm como base estudos feitos por mim e materiais que li de outros autores e amigos, como Reginaldo Castro, Matheus Cardoso e o Demóstenes Neves.)

Resposta: Primeiro é necessário dizer que a abordagem inicial é falsa e tendenciosa. Dizer que “os pioneiros da IASD eram antitrinitarianos” não é de todo verdade. Havia pioneiros que tinham vindo de igrejas evangélicas tradicionais e que criam na Trindade. É verdade, também, que alguns não criam na Trindade e outros eram semiarianos, mas perceba que isso não se aplica a todos:

  1. S. Spears, em artigo de 1889, transformado em panfleto em 1892, defende “A doutrina bíblica da Trindade”.
  1. N. Downer, em artigo na Review, de 6 de abril de 1876, declara que “as três pessoas da Trindade tiveram parte na ressurreição de Cristo”.
  1. Lee S. Wheeler observa, citando Efésios 4:4, 5: “É digno de nota que nesta como em muitas outras partes da Escritura o Espírito como sendo um é mencionado como distinto do Pai e do Filho” (Lee S. Wheeler, “The Communion of the Holy Spirit”, Review and Herald, 21/4/1891, p. 244).
  1. D. Hildereth: “Tire o Espírito Santo da Bíblia e ‘nada’ que reste é digno de ser falado” (Review and Herald, 1/4/1862).
  1. R. F. Cotrell: “Onde houver adoração verdadeira aí o Espírito Santo está” (1873).
  1. Joseph Clark defendeu o Espírito Santo como uma realidade em Si mesmo e um agente de Deus (Review, 10/3/1874).
  1. P. Bollman, em 4/11/1889, na Signs of the Times, escreveu: “O Espírito Santo é divino e Criador de todas as coisas.”
  1. A. J. Morton, em 26/10/1891, na Signs of the Times, declarou: “A divindade do Espírito Santo e Cristo e a do Pai e Cristo não pode ser separada.”
  1. Alonzo T. Jones, então da Review and Herald por muitos anos, em sermão na Sessão da Conferência Geral de 27 de fevereiro de 1895, defendeu que “o Espírito Santo é um representante pessoal de Deus”. Também disse que há uma unidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho (General Conference Bulletin, 27/2/1895).
  1. Stephen N. Haskell, no artigo “O Espírito Santo”, declarou que “a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo é um mistério” (Review, 28/11/1899).
  1. G. C. Tenny, que em 1883 usara “it” para o Espírito Santo, declarou em 1896 que o Espírito Santo era inteligente, tinha existência independente e passou a usar o pronome pessoal “he” (Review, 9/6/1896).
  1. S. M. I. Henry (Sarepta Miranda Irish Henry), escritora e evangelista, era incentivada por Ellen G. White e produzia uma página semanal na Review chamada “Mulheres na Obra do Evangelho”. Ela declarou em 1898 que “os pronomes usados em conexão com o Espírito devem nos levar a concluir que Ele é uma pessoa – uma personalidade” (The Abindig Spirit, 271).
  1. R. A Underwood, que havia sido antitrinitariano a princípio, expôs, segundo ele mesmo declara, sua mudança de compreensão a partir do estudo da Bíblia. Na Review de 3 de maio de 1898, ele disse que o Espírito é uma pessoa e que não deveríamos permitir que Satanás destruísse nossa fé “na personalidade dessa pessoa da Divindade – O Espírito Santo”. Em relação à sua opinião anterior, Underwood declarou: “Mas nós queremos a verdade porque ela é a verdade, e nós rejeitamos o erro porque é o erro, apesar de qualquer ponto de vista que nós possamos anteriormente ter sustentado ou qualquer dificuldade que nós possamos ter tido ou possamos ter agora quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa” (Review, 3/5/1898).

Como você pôde observar, havia muitos pioneiros que criam na Trindade; portanto, afirmar que os pioneiros eram antitrinitarianos é, no mínimo, uma atitude irresponsável.

A segunda abordagem feita pelo antitrinitariano refere-se aos Princípios Fundamentais, elaborados em 1872 por Urias Smith. Segundo os que não creem na Trindade, o fato de não se falar da Trindade é uma clara evidência de que essa doutrina não seria verdadeira. Para melhor esclarecermos essa segunda parte, faremos três perguntas e as responderemos de forma que o leitor consiga compreender melhor a questão:

  1. Esses princípios fundamentais eram um documento oficial da igreja?
  2. Eles representam uma finalização no conhecimento e avanço doutrinário?
  3. Eles são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala?

Resposta à pergunta 1: Não. Os Princípios Fundamentais de 1872 escritos por Uriah Smith, de que tanto falam os antitrinitarianos, não são um documento oficial da Igreja Adventista. No parágrafo inicial do documento, o próprio autor informa que não se trata de algo oficial. Destinava-se a ser apenas uma resposta sobre alguns pontos de nossa fé, e não tinha autoridade alguma sobre a igreja como um credo imutável.

Leia com atenção, pois nossos objetores não enfatizam esse detalhe:

“Ao apresentar ao público esta sinopse de nossa fé, desejamos que seja distintamente compreendido que não temos nenhum artigo de fé, credo ou disciplina, além da Bíblia. Não apresentamos isto como tendo qualquer autoridade sobre nosso povo, nem é destinado a assegurar uniformidade entre ele, como um sistema de fé, mas é uma breve declaração do que é e tem sido, com grande unanimidade, mantida por ele. Com frequência achamos necessário responder a indagações sobre este assunto” (Urias Smith, “A Declaration of the Fundamental Principles Taught and Practiced by the Seventh-day Adventists”, Battle Creek, MI: Steam Press, 1872).

Urias Smith deixou claro que o documento em questão não deveria ser tomado como um credo fechado e que ele não tinha qualquer autoridade sobre a Igreja como um credo ou sistema de fé. Agora perceba o contraste: aqui Smith afirma que esses princípios não possuem nenhuma autoridade sobre a Igreja, mas quando Ellen White se referiu aos princípios fundamentais da fé, ela afirmou que Deus “nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208). E agora? Será que quando Ellen White fala dos principais pontos de nossa fé ela não tem em mente o documento de 1872? Veremos isso mais adiante, na resposta 3.

Além disso, se aceitamos a visão trinitária de que toda a nossa base doutrinária foi lançada em 1872, teremos sérias dificuldades com a ausência de várias doutrinas que se desenvolveram posteriormente:

  1. Modéstia Cristã – 1889.
  2. Conduta Cristã – 1889.
  3. Dízimos e Mordomia – 1889.
  4. Temperança – após 1863 (Ellen White). Obs.: Uriah Smith, ainda em 1883, negava a validade de Levítico 11 (Manuscript Releases, 852, in: Spirit of Prophecy Library, v. VI, Peace Press, Loma Linda, EUAM S/D, p. 1915).
  5. A própria Justificação pela Fé passou a ser mais discutida a partir de 1888.

Algo bastante interessante – e no mínimo curioso – é o fato de os antitrinitarianos não mencionarem este texto de Uriah Smith, escrito em 1896, numa seção de perguntas e respostas da Review and Herald, na qual ele comenta a resposta:

“Pergunta: As Escrituras ordenam o louvor ou a adoração ao Espírito Santo? Se não, a última linha da doxologia não contém um pensamento não bíblico?

“Resposta: Não conhecemos nenhum lugar na Bíblia onde somos ordenados a adorar o Espírito Santo, como foi ordenado no caso de Cristo (Hb 1:6), ou onde encontramos um exemplo da adoração do Espírito Santo, como no caso de Cristo (Lc 24:52). No entanto, na fórmula para o batismo, o nome ‘Espírito Santo’ está associado ao do Pai e ao Filho. Se o nome pode ser assim usado, por que não poderia ser apropriado como parte da mesma TRINDADE no hino de louvor: ‘Louve a Deus de quem é todo fluxo de bênção?’” (Uriah Smith, Review and Herald, 27/10/1896).

Não podemos dizer que Uriah Smith tenha se tornado plenamente trinitariano, mas que sua visão já estava muito melhorada; isso com certeza. Ele até usa o termo “Trinity”, algo incomum para ele anteriormente.

Resposta à pergunta 2: Os pioneiros nunca ficaram parados no tempo em relação ao crescimento na compreensão da doutrina. Eles não tinham um credo fechado. Ao contrário disso, estavam sempre crescendo no conhecimento da verdade. Veja o que disse Tiago White:

“Eu afirmo que os credos estão em direta oposição aos dons. Imaginemos a seguinte circunstância: Obtemos um credo, declarando exatamente em que deveremos acreditar sobre esse ponto e outro, e o que deveremos fazer em referência a isso ou aquilo, e afirmamos que creremos nos dons também. Mas suponha que o Senhor, por meio dos dons, nos conceda alguma nova luz que não se harmonize com nosso credo; então, se permanecermos fiéis aos dons, isso se chocará completamente com nosso credo. Fazer um credo é fixar estacas e impedir todo avanço futuro” (Tiago White, “Doings of the Battle Creek Conference, Acts 5:16, 1861”, Review and Herald, 8/10/1861, p. 148, 149).

“Temos conseguido regozijar-nos em verdades muito além do que então percebíamos. […] Mas não pensamos de modo algum que já sabemos tudo. Esperamos ainda progredir, de forma que nossa vereda se torne cada vez mais brilhante até ser dia perfeito. Que mantenhamos sempre um estado mental inquiridor, buscando mais luz e mais verdade” (Uriah Smith, Review, 30/4/1857).

“Nunca foram as Sagradas Escrituras tão valorizadas pelo remanescente como agora. Quando o testemunho da Bíblia para começar o dia ao pôr do sol foi apresentado em clara luz, assim como outros assuntos foram apresentados na Review, eles [os primeiros adventistas] de bom grado abraçaram esse testemunho. E nós acreditamos que eles mudariam outros pontos de sua fé se eles pudessem ver uma boa razão para fazê-lo a partir das Escrituras” (Tiago White, Review, 7/2/1856).

Será que Ellen White pensava diferente?

“Percepções nítidas e claras da verdade nunca serão a recompensa da indolência. A investigação de cada ponto que foi recebido como verdade irá ricamente recompensar o pesquisador: ele encontrará pedras preciosas. E, investigando de perto todo jota e til que achamos ser verdade estabelecida, comparando escritura com escritura, podemos descobrir erros em nossa interpretação das Escrituras. Cristo quer que o pesquisador de sua palavra cave fundo nas minas da verdade. Se a pesquisa for realizada corretamente, serão encontradas joias de valor inestimável. A Palavra de Deus é a mina das insondáveis riquezas de Cristo” (Review and Herald, 12/7/1898).

“Há homens entre nós que professam compreender a verdade para estes últimos dias, mas que não investigarão com calma a verdade mais recentemente estabelecida. Estão decididos a não avançar além das estacas que estabeleceram e não ouvirão aqueles que, dizem eles, não estão em defesa dos marcos antigos. São tão autossuficientes que tornam impossível que argumentemos com eles. […] Se forem apresentadas ideias que diferem em alguns pontos de nossas doutrinas anteriores, não devemos condená-las sem uma busca diligente da Bíblia para ver se elas são verdadeiras. Devemos jejuar e orar e pesquisar as Escrituras, como fizeram os nobres bereanos, para ver se essas coisas são assim. Precisamos aceitar todos os raios de luz que nos chegam. Por meio de fervorosa oração e diligente estudo da Palavra de Deus, as coisas sombrias serão esclarecidas para o entendimento” (Signs of the Times, 26/5/1890).

Respondendo à pergunta 3:

O que são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala? São os princípios fundamentais escritos por Smith em 1872? Não! Analisemos o contexto das declarações:

“Tenho estado a suplicar ao Senhor força e sabedoria para reproduzir os escritos das testemunhas que foram confirmadas na fé e NA PRIMITIVA HISTÓRIA DA MENSAGEM. DEPOIS DE PASSAR O TEMPO EM 1844, eles receberam a luz e andaram na luz, e quando os homens que pretendiam possuir novo esclarecimento vinham com suas maravilhosas mensagens acerca de vários pontos da Escritura, tínhamos, PELA ATUAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, TESTEMUNHOS BEM DEFINIDOS, que excluíam a influência de mensagens como as que o pastor G [A. F. Ballenger] tem devotado o tempo a apresentar. Esse pobre homem tem estado a trabalhar decididamente CONTRA A VERDADE CONFIRMADA PELO ESPÍRITO SANTO. QUANDO O PODER DE DEUS TESTIFICA DAQUILO QUE É VERDADE, ESSA VERDADE DEVE PERMANECER PARA SEMPRE COMO VERDADE. Não deve ser agasalhada nenhuma suposição posterior contrária ao esclarecimento que Deus proporcionou. Surgirão homens com interpretações das Escrituras que para eles são verdade, mas que não o são. Deu-nos Deus a verdade para este tempo como um fundamento para nossa fé. ELE PRÓPRIO NOS ENSINOU O QUE É A VERDADE. Aparecerá um, e ainda outro, com nova iluminação, que contradiz aquela QUE FOI DADA POR DEUS SOB A DEMONSTRAÇÃO DE SEU SANTO ESPÍRITO. Vivem ainda alguns que passaram pela experiência obtida QUANDO ESTA VERDADE FOI FIRMADA. Deus lhes tem benignamente poupado a vida para repetir, e repetir até ao fim da existência a experiência por que passaram da mesma maneira que o fez o apóstolo João até ao termo de sua vida. E os porta-bandeiras que tombaram na morte devem falar mediante a reimpressão de seus escritos. Estou instruída de que, assim, sua voz se deve fazer ouvir. Eles devem dar seu testemunho relativamente ao que constitui a verdade para este tempo. Não devemos receber as palavras dos que vêm com uma mensagem em contradição com os pontos especiais de nossa fé. Eles reúnem uma porção de passagens, e amontoam-na como prova em torno das teorias que afirmam. Isso tem sido repetidamente feito durante os cinquenta anos passados. E se bem que as Escrituras sejam a Palavra de Deus, e devam ser respeitadas, sua aplicação, uma vez que mova uma coluna do fundamento sustentado por Deus ESTES CINQUENTA ANOS, constitui grande erro. Aquele que faz tal aplicação ignora A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO QUE DEU PODER E FORÇA ÀS MENSAGENS PASSADAS, VINDAS AO POVO DE DEUS” (Ellen G. White, The Integrity of the Sanctuary Truth, p. 15-20).

Lendo o texto acima, CONSTATAMOS QUE O ASSUNTO DO QUAL A SERVA DO SENHOR ESTÁ FALANDO É ESPECIALMENTE O SANTUÁRIO. O título do documento é “A Integridade da Verdade do Santuário”. Nada de Divindade não trinitária. Observe a menção que ela faz ao pastor Albion Ballenger. Quem foi Ballenger? Foi um popular pregador adventista que trabalhou na Inglaterra, País de Gales e Irlanda. Ballenger concluiu que o entendimento adventista do ministério de Cristo no santuário era antibíblico. Foram as ideias de Ballenger CONTRA A DOUTRINA DO SANTUÁRIO QUE MOTIVARAM O TESTEMUNHO DE ELLEN WHITE ACIMA. Não deixe também de perceber que Ellen recorda os tempos depois de 1844, quando Deus, mediante o Espírito Santo, deu testemunhos bem definidos por meio de Sua serva para confirmar o que era a verdade e para não permitir que falsas ideias penetrassem na Igreja. Quando, no texto acima, ela menciona que foi o próprio Deus quem ensinou a verdade à Igreja, quando se refere ao esclarecimento que o próprio Deus proporcionou, da maravilhosa demonstração do Espírito Santo e de que quando o poder de Deus testifica daquilo que é a verdade essa verdade não deve mais ser alterada, ELA ESTÁ FALANDO DA DOUTRINA DO SANTUÁRIO NO CONTEXTO DO ATAQUE DE BALLENGER A ESSA DOUTRINA. Nos primeiros anos do Movimento, Deus de fato deu visões a Ellen orientando os pioneiros na interpretação correta da Escritura quando após muito estudo chegavam a um impasse. Isso ocorreu nos estudos sobre o Santuário nos primeiros anos após 1844. Veja como os antitrinitarianos pegam textos fora do contexto para criar um pretexto.

Os dois textos – do Manuscrito 135 (1903) e o de Mensagens Escolhidas, volume 1, p. 208 – geralmente usados pelos objetores da Trindade, de fato estão falando dos princípios fundamentais, dos marcos antigos, das doutrinas definidoras do adventismo, as quais foram resultado de muita oração, estudo da Bíblia e confirmação por meio das visões da mensageira do Senhor. O problema é que, ao analisar o contexto dessas duas passagens, constata-se que Ellen White de forma alguma está se referindo ao documento de 1872. Vamos ler o contexto (parágrafos precedentes) dos dois trechos, respectivamente:

“Meu marido, o pastor José Bates, o pai Pierce, o pastor Edson, um homem ávido, nobre e verdadeiro, e muitos outros cujos nomes não consigo recordar agora, estavam entre aqueles que, após a passagem do tempo em 1844, buscaram a verdade. Em nossas reuniões importantes, esses homens se reuniam e buscavam a verdade como a um tesouro escondido. Reunia-me com eles e estudávamos e orávamos fervorosamente, pois sentíamos que era nosso dever aprender a verdade de Deus. Muitas vezes ficávamos reunidos até alta noite e, às vezes, a noite toda, orando por luz e estudando a palavra. Quando jejuamos e oramos, um grande poder veio sobre nós. Mas eu não conseguia entender o raciocínio dos irmãos. Minha mente estava por assim dizer fechada e eu não conseguia compreender o que estávamos estudando. Então o Espírito de Deus vinha sobre mim, eu era arrebatada em visão, e era-me dada uma clara explicação das passagens que estávamos estudando, com instruções sobre a posição que deveríamos tomar em relação à verdade e ao dever. Foi-me tornada clara uma sequência de verdades que se estendia daquele tempo até ao tempo em que entraremos na cidade de Deus, e transmiti a meus irmãos e irmãs a instrução que o Senhor me deu. Eles sabiam que, quando eu não estava em visão, eu não conseguia entender esses assuntos e aceitavam como luz direta do céu as revelações dadas. Os principais pontos de nossa fé, como os mantemos hoje, foram firmemente estabelecidos. Ponto após ponto foi claramente definido, e todos os irmãos entraram em harmonia. Toda a companhia dos crentes estava unida na verdade. Houve aqueles que vieram com doutrinas estranhas, mas nunca tivemos medo de enfrentá-los. Nossa experiência foi maravilhosamente confirmada pela revelação do Espírito Santo” (Manuscrito 135 [1903]).

“Que influência essa, que desejaria levar os homens, neste período de nossa história, a trabalhar de modo enganador e poderoso, para solapar os alicerces de nossa fé – alicerces QUE FORAM LANÇADOS NO PRINCÍPIO DE NOSSA OBRA mediante DEVOTO ESTUDO DA PALAVRA E PELA REVELAÇÃO? Sobre esses alicerces temos estado a construir, nos últimos CINQUENTA ANOS. Admirai-vos de que, quando vejo o princípio de uma obra que pretende remover alguns dos pilares de nossa fé, tenha algo a dizer? Tenho de obedecer à ordem: ‘Enfrentai-o!’ Tenho de proclamar as mensagens de advertência que Deus me dá para divulgar, e então deixar com o Senhor os resultados. Tenho de agora apresentar o assunto em todos os seus aspectos, pois o povo de Deus não deve ser despojado. Somos o povo de Deus, observador dos mandamentos. Nos passados cinquenta anos tem-se feito pressão sobre nós com toda sorte de heresias, a fim de embotar-nos o espírito em relação aos ensinos da Palavra – especialmente quanto ao ministério de Cristo no santuário celestial e à mensagem do Céu para estes últimos dias, como foi dada pelos anjos do décimo quarto capítulo do Apocalipse. Mensagens de toda espécie e feitio têm feito pressão sobre os adventistas do sétimo dia, pretendendo substituir a verdade que, ponto por ponto, foi buscada com estudo e oração, e atestada pelo poder milagroso do Senhor. Mas OS MARCOS que nos tornaram o que somos devem ser preservados, e sê-lo-ão, conforme Deus o mostrou mediante Sua Palavra e o testemunho de Seu Espírito. Ele nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208).

Note-se que algumas expressões se repetem ou são equivalentes. “Após a passagem do tempo”, “Nos passados cinquenta anos” (o texto de ME é de 1904; os cinquenta anos são uma média que vai chegar lá nos primeiros anos do movimento; o próprio texto se refere ao “princípio de nossa obra”). Os dois textos mencionam o estudo dedicado da Bíblia e a Revelação do Espírito. É inegável que os dois textos estão se referindo à mesma época: os primeiros anos após a passagem de 1844, quando os primeiros adventistas se entregaram completamente à oração e se debruçaram intensamente sobre a Bíblia a fim de aprender o que é a verdade. Seus esforços foram recompensados pela atuação do Espírito de Deus por meio do dom profético de Ellen White. Durante esse período inicial, os pilares da fé adventista foram estabelecidos. Em outro texto, ela faz a mesma recordação. Note a semelhança nas expressões:

“Os cinquenta anos passados não apagaram um jota ou princípio de nossa fé ao recebermos as grandes e maravilhosas evidências que se tornaram certas para nós em 1844, após a passagem do tempo […] Aquilo que o Espírito Santo testificou como verdade após a passagem do tempo, em nosso grande desapontamento, é o sólido fundamento da verdade. Os pilares da verdade foram revelados e nós aceitamos os princípios fundamentais que nos tornaram o que somos – adventistas do sétimo dia, observando os mandamentos de Deus e tendo a fé de Jesus” (Carta 326, 1905).

De forma clara, Ellen White está se referindo aos primórdios da Igreja, quando as doutrinas distintivas foram estabelecidas pela oração, estudo da Palavra e revelação. Os princípios fundamentais de que Ellen White fala nesses textos NEM DE LONGE SE REFEREM AOS DE 1872, ESCRITOS POR URIAH SMITH. Por que os antitrinitarianos não mostram O CONTEXTO dos trechos que citam? Agora fica claro: OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EM ELLEN WHITE NÃO SÃO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE URIAS SMITH (de 1872). Encadear os textos de modo que passem a impressão de que Ellen White está se referindo ao documento de Uriah Smith induz a uma falsidade histórica!

Mas, para que não fique nenhuma dúvida, no próximo texto, Ellen White deixa bem claro que doutrinas são essas que foram fruto de muita oração, estudo da Palavra, e que o Espírito Santo, por meio de visões, confirmou a veracidade bíblica dessas doutrinas. Preste muita atenção no texto a seguir:

“Em Mineápolis, Deus concedeu preciosas gemas da verdade ao Seu povo. Essa luz do Céu enviada a algumas pessoas foi rejeitada com toda a resistência que os judeus manifestaram ao rejeitar a Cristo, havendo muita discussão em torno da defesa dos antigos marcos. Ficou evidente, porém, que quase nada sabiam sobre o que eram os antigos marcos. Ficou claro e foram feitos apelos diretos à consciência com base na Palavra de Deus; contudo, as mentes estavam cauterizadas, seladas contra a entrada da luz, porque decidiram que seria um perigoso erro remover os ‘marcos antigos’ quando não se estava removendo nada, além das ideias errôneas do que constituíam os antigos marcos. O PASSAR DO TEMPO EM 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a PURIFICAÇÃO DO SANTUÁRIO que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com AS MENSAGENS DO PRIMEIRO, DO SEGUNDO E DO TERCEIRO ANJOS, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: ‘OS MANDAMENTS DE DEUS E A FÉ DE JESUS.’ Um dos marcos dessa mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A LUZ DO SÁBADO DO QUARTO MANDAMENTO lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A NÃO IMORTALIDADE DOS ÍMPIOS É UM MARCO. NÃO CONSIGO LEMBRAR-ME DE ALGUMA OUTRA COISA QUE POSSA SER COLOCADA NA CATEGORIA DOS ANTIGOS MARCOS. Todo esse rumor sobre a mudança do que não deveria ser mudado é puramente imaginário” (O Outro Poder, p. 21 [Manuscrito 13, 1889]).

A QUAIS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EGW ESTAVA SE REFERINDO?

– A purificação do santuário celestial

– A tríplice mensagem angélica

– Os mandamentos de Deus

– A fé em Jesus

– O sábado

– A não imortalidade dos ímpios

Esses são, de acordo com a voz profética, os MARCOS ANTIGOS QUE NOS TORNAM O QUE SOMOS. Essas são as doutrinas chamadas de pilares de nossa fé, os principais pontos de nossa fé.

É válido ressaltar que a rejeição da Trindade por alguns pioneiros não se deu em si pela doutrina, mas pela forma como as igrejas romana e protestante a apresentavam na época, conforme bem expressa J. N. Loughborough: a doutrina “é contrária às Escrituras. Em quase qualquer texto do Novo Testamento que lermos, fala-se sobre o Pai e o Filho, apresentando-Os como duas pessoas distintas. […] O capítulo 17 de João já é suficiente para refutar a doutrina da Trindade. Mais de quarenta vezes em apenas um capítulo Cristo fala de Seu Pai como uma pessoa distinta de Si mesmo”. Numa análise simples, nota-se que J. N. Loughborough estava falando acerca da distorcida visão de que Jesus e o Pai eram um e o mesmo ser. Seria mais ou menos como mostram as ilustrações abaixo:

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Qualquer ser inteligente e conhecedor da Bíblia negaria esse conceito de Trindade. Reforçando a ideia de que o que os pioneiros combatiam era o conceito errôneo acerca da Trindade, segue-se a afirmação de Sarah Haselton: “A doutrina chamada Trindade afirma que Deus é sem forma ou partes; e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os três são apenas uma pessoa.” Esse conceito de Trindade os pioneiros realmente jamais deveriam ter aceitado, e não é assim que a Igreja Adventista creu ou crê. O comentário de A.C. Bourdeau confirma ainda mais isso:

“Que Deus é um Espírito infinito e eterno, sem pessoa, corpo, aparência ou partes; está presente em toda parte e em nenhum lugar; ou está em toda parte como um Espírito e em lugar algum como um ser tangível. Pergunto: isso não torna Deus quase um mero nada? Examinemos brevemente esses pontos à luz das Escrituras. É mostrado claramente: (1) Que Deus é uma inteligência material e organizada, possuindo corpo e partes. (2) Que Jesus é o Filho de Deus. Ele não é Seu próprio filho, nem Seu próprio pai, e é um ser distinto de Deus, o Pai.”

Veja como era ensinada a Trindade naquela época. Esse tipo de ensinamento eu também não aceitaria. O conceito de Trindade encontrado nos Escritos da senhora White jamais se assemelham ao conceito errôneo vigente em seu tempo. Ela diz: “Cumpre-nos cooperar com os três poderes mais alto no Céu – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – e esses poderes operarão por meio de nós, fazendo-nos coobreiros de Deus.”

Ela ainda afirma: “Aqui estão as três personalidades vivas do trio celestial, nas quais cada alma arrependida dos seus pecados recebe Cristo por fé viva, para aqueles que são batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”

É verdade, entretanto, que o conceito trinitário foi sendo compreendido com o tempo, como se nota na declaração de Waggoner na Review and Herald do ano de 1875: “Há uma questão que tem sido muito controvertida no mundo teológico sobre a qual nunca temos presumido entrar. É da personalidade do Espírito de Deus.”

Mesmo assim, eles seguiam a ordem do mestre batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (bem diferente dos antitrinitários de hoje, que negam o batismo trinitário). Na sessão da Review and Herald com o subtítulo “Church Manual” (Manual da Igreja) está assim: “Quando o momento adequado foi finalmente alcançado, o ministro deve levar o candidato devagar e solenemente para o local onde ele se propõe batizá-lo. […] Tendo chegado ao local desejado, o administrador deve ter uma firmeza do candidato, proferindo as seguintes palavras: meu irmão (ou irmã), agora eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Adequando a ação à palavra, ele deve lentamente mover o corpo do candidato em uma direção para trás até que a cabeça toque a água, em seguida, por um movimento súbito, o candidato deve ser mergulhado abaixo da superfície a uma profundidade suficiente para cobrir cada parte de sua pessoa com a água. Feito isso, ele deve ser levantado para a posição de pé novamente. Assim como ele emerge da água, é habitual para o administrador pronunciar a palavra ‘Amém’.”

Mais evidente e nítido se torna o crescimento da visão dos pioneiros quanto à Trindade nestas afirmações encontradas na Review and Herald de 1898 (mesmo ano em que Ellen White escreveu O Desejado de Todas as Nações), escritas por R. A. Underwood, com o título “The Holy Spirit a Person” (O Espírito Santo uma Pessoa):

“Espírito é o representante pessoal de Cristo no campo, e Ele é carregado com o trabalho de conhecer Satanás e derrotar esse inimigo pessoal de Deus e Seu governo. Parece estranho para mim, agora, que eu sempre acreditei que o Espírito Santo era apenas uma influência, tendo em vista o trabalho que ele faz. Mas nós queremos a verdade porque é verdade, e nós rejeitamos o erro porque ele é o erro, independentemente de quaisquer visões que mantivemos anteriormente, ou qualquer dificuldade que tivemos, ou podemos ter, quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa. A luz é semeada para o justo. O esquema de Satanás é destruir toda a fé na personalidade da Divindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo, – também em sua própria personalidade.”

É bem perceptível também que após uma compreensão mais aclarada acerca da Trindade esse assunto passou a ser bastante explorado nas literaturas da igreja. A seguir uma sequência de textos publicados por M. E. Steward no volume 87 da Review and Rehald, números 50, 51 e 52, que datam respectivamente de 15, 22 e 29 de dezembro de 1910. O primeiro artigo intitulado “The Divine Godhead: God, the Father” (A Divina Divindade: Deus, o Pai) começa com a declaração de 1 João 5:7: “Há três seres na Divindade: Deus, o Pai, Jesus Cristo, a Palavra e o Espírito Santo. Estes três são um.” Não é intenção desse artigo discutir a autenticidade dessa passagem, apenas mostrar que a compreensão dos pioneiros quanto a esse assunto foi gradual e crescente.

O segundo artigo é intitulado “The Second Person of the Godhead – Jesus Christ” (A Segunda Pessoa da Divindade – Jesus Cristo) e traz as seguintes afirmações: “Cristo tinha uma existência, antes de vir à Terra . (1) Ele tinha glória com o Pai ‘antes que o mundo existisse’ (João 17:5). (2) ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ‘O Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (João 1:1, 14). (3) Cristo estava com os israelitas no deserto (1 Coríntios 10:4, 9). Jesus Cristo uniu a humanidade à divindade. ‘Grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne’ (1 Timóteo 3:16).”

O terceiro artigo tem como título “The Third Person of the Godhead – the Holy Spirit” (A Terceira Pessoa da Divindade – O Espírito Santo). Nesse artigo é afirmado que o Espírito é “o representante de Cristo”, e “por isso o Espírito Santo é o direto agente no cumprimento de todos os propósitos e promessas divinos na obra da salvação do homem. E, como representante de Cristo, aquele que aceita a Cristo tem o dom do Espírito Santo”.

No ano de 1913, a Review publicou uma edição especial com relatos dos avanços do evangelho em todo o mundo. Entretanto, ao meio da revista com o subtítulo “Mensagem para hoje” há a seguinte declaração: “Para o benefício daqueles que podem desejar saber mais particularmente as características fundamentais da fé mantida por esta denominação, nós referiremos que os adventistas do sétimo dia creem… na Trindade divina. Essa Trindade consiste do eterno Pai, um ser espiritual pessoal, onipotente, onisciente, infinito em poder, sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, o Filho do eterno Pai, por quem todas as coisas foram criadas, e através de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o regenerador na obra da redenção” (grifo nosso).

É importante salientar que todos esses textos foram produzidos enquanto a senhora White estava viva e não houve da parte dela nenhum tipo de observação contrária. Alguns indivíduos já tiveram a ousadia de afirmar para mim que tais declarações passaram a ocorrer e não houve crítica da senhora White porque ela já estava bastante avançada em idade (morreu em 1915), e que, portanto, não estava mais acompanhando as supostas entradas de heresias na igreja. Ora, essa afirmação é no mínimo absurda. Prova disso é que nessa mesma revista apresentada acima (do ano de 1913) há um artigo escrito pela senhora White, e o curioso é que o artigo dela é imediatamente anterior ao artigo que traz a declaração mencionada anteriormente.

CONCLUSÃO

Pelo que se nota com clareza, o assunto da Trindade não foi introduzido na igreja a partir da década de 1940, como alguns advogam, nem na década de 1980. Mas a compreensão gradual dos pioneiros é evidenciada ao longo das edições das literaturas eclesiásticas, em especial (como mostrou este artigo), nas edições da Review and Herald. Portanto, qualquer tentativa contrária ao ensino da Trindade, tomando-se como base o argumento de que os pioneiros não aceitavam essa doutrina, carece de um estudo sério e abalizado, tanto na história da Igreja quanto em sua literatura. Proceder dessa maneira é evidenciar total ignorância e carência informacional acerca do assunto, o que torna os argumentos dos proponentes de tais alegações pueris e reducionistas.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” parte 1parte 2 e parte 3

Material complementar:

“Desenvolvimento do pensamento cristológico na IASD”

“Os pioneiros adventistas e a Trindade”

“Desenvolvimento gradual da doutrina da Trindade na Igreja Adventista do Sétimo Dia: uma análise nos registros iniciais da Review and Herald e da Revista Adventista”

Prezis:

“O adventistas e a Trindade”

“Mitos e fatos sobre a Trindade na IASD”

Por que a Nasa não voltou à Lua desde 1972?

luaQuando se fala no pouso do Homem na Lua, que aconteceu pela primeira vez com a Apollo 11 há cinquenta anos, muita gente ainda duvida que a Nasa conseguiu esse feito histórico naquela época, com teorias conspiratórias mil levantando “provas” de que tudo não passou de uma farsa muitíssimo bem elaborada. E, ainda que especialistas cansem de mostrar que seria impossível forjar as filmagens com as tecnologias da época, e também mesmo com provas de que a coisa aconteceu mesmo, incluindo observações feitas por outras agências espaciais que nada têm a ver com os Estados Unidos, os incrédulos permanecem com um ponto de interrogação em mente quando o assunto é o pouso de astronautas na Lua – isso quando não têm a “certeza” de que é tudo mentira, entre aspas mesmo.

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