Anúncio de companhia aérea foi tiro pela culatra

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A companhia aérea Royal Duth Airlines queria “lacrar” com um anúncio publicitário, mas, sem querer, acabou demonstrando a falta de lógica biológica da chamada ideologia de gênero. Conforme destacou o site National Catholic Register, “esse anúncio de orgulho gay da KLM Royal Dutch Airlines é especialmente hilariante porque oferece exatamente a mensagem oposta do que pretendiam”. E conclui: “Aqui está a coisa que eu acho que muitos esquecem hoje em dia: cintos de segurança, como seres humanos, são criados para um propósito. Nós ignoramos isso por nossa própria conta e risco. E isso não é hilário.”

No Twitter, alguém comentou que, assim como no casamento, uma única combinação realmente funciona.

Terraplanistas vão realizar evento no Brasil

terraOs terraplanistas, em sua campanha de desinformação, tendo um evolucionista na liderança da organização internacional Flat Earth Society, vão realizar uma convenção no Brasil, país com enorme potencial para ideias conspiratórias como a da Terra Plana, pois muita gente aqui prefere se informar por meio de videozinhos no YouTube a estudar matemática e física. Sim, os terraplanistas que dizem que a gravidade não existe e que a atmosfera é, na verdade, uma cúpula sólida dentro da qual o Sol e a Lua (muito menores do que a Terra) giram circularmente, estranhamente se pondo e nascendo todos os dias. Sim, os terraplanistas que sustentam que os eclipses são causados por corpos celestes invisíveis que de vez em quando passam na frente do Sol e da Lua, encobrindo-lhes a luz. Os terraplanistas que afirmam que nas bordas da Terra pizza há uma parede de gelo intransponível. Esse pessoal que despreza todos os conhecimentos em astronomia e matemática, revelados desde Newton, Galileu e Copérnico, quer levar essas ideias estapafúrdias ao grande público, e pior: muitos deles sustentam que essas ideias seriam bíblicas, atraindo, com isso, escárnio e descrédito especialmente ao criacionismo bíblico.

Entre esses expoentes do terraplanismo há um indivíduo formado em geofísica que parece ter esquecido tudo o que aprendeu na faculdade. Um rapaz que se vale do currículo para dar respeitabilidade às ideias extravagantes que defende, como a de que o ser humano é obrigado a comer carne e que isso estaria vinculado à possessão demoníaca (!), contrariando todas as pesquisas recentes na área de nutrição, que apontam as inúmeras vantagens da dieta vegetariana.

Tem também um garoto físico que defende a Teoria do Design Inteligente, mas ultimamente vem gastando mais tempo para tentar provar que a Terra é plana e que os norte-americanos não teriam ido à Lua, numa cruzada sem sentido e que já chamou a atenção da grande mídia – obviamente pelo ridículo da coisa.

Conforme escreveu meu amigo Marco Dourado, isso é “preocupante. Em 2015 e 2016, havia meia dúzia de gatos pingados defendendo intervenção militar em meio a centenas de milhares de manifestantes que só queriam um processo normal de impeachment. Pois eram justamente esses os fotografados e entrevistados pela extrema-imprensa a fim de caracterizar o movimento como golpista. Mesma coisa entre os criacionistas e defensores da Teoria do Design Inteligente: bastam dois ou três defendendo o terraplanismo que os sabujos midiáticos da Nomenklatura Científica vão igualar as duas coisas para nos tachar de malucos”.

O problema é que esses dois ou três fazem muito barulho e muito estrago, atrapalhando o trabalho dos criacionistas e teóricos do Design Inteligente que preferem agir como verdadeiros cientistas, com base em fatos, usando a verdadeira ciência e uma compreensão séria da Revelação, deixando de lado o sensacionalismo polemista caça-views.

Michelson Borges

Justiça da Ucrânia confirma lei que equipara o comunismo ao nazismo

leninA Justiça da Ucrânia confirmou a constitucionalidade de uma lei que equipara o comunismo ao nazismo. A legislação havia sido aprovada por congressistas do país em 2015, mas era contestada por grupos internos desde então. A medida abriu caminho para a remoção de símbolos comunistas em território ucraniano, como as estátuas de Vladimir Lênin. De acordo com a decisão do Tribunal Constitucional do país, tanto o nazismo quanto o comunismo usavam métodos similares de implementação de políticas estatais repressivas. “O regime comunista, assim como o nazista, infligiu danos irreparáveis aos direitos humanos porque, durante sua existência, tinha controle total sobre a sociedade, promovendo perseguições e repressões por motivos políticos, além de violar suas obrigações internacionais e suas próprias constituições e leis”, diz uma nota do departamento de comunicações do órgão. A legislação proíbe os símbolos soviéticos e nazistas no país. De acordo com a lei, quem promover esses símbolos está sujeito a penas de até dez anos de prisão.

A lei determina a proibição dos símbolos comunistas com o objetivo de “evitar um retorno ao passado totalitário” do país. Por esse motivo, três partidos comunistas que atuavam na Ucrânia foram banidos. Durante o processo de “descomunização”, 1.300 monumentos em homenagem a Lênin foram derrubados, 51.493 ruas, praças e locais públicos foram renomeados e 987 cidades mudaram de nome.

Quando foi aprovada, a legislação foi imediatamente contestada pela Rússia e por órgãos como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e o Grupo de Proteção aos Direitos Humanos da Ucrânia. Segundo Dunja Mijatović, representante da OSCE, a “linguagem ampla e vaga” da lei anticomunista “poderia facilmente levar à supressão do discurso político, provocativo e crítico, especialmente na mídia”. Já o ativista ucraniano Denis Pilaš disse ao The Guardian na época que “o principal perigo dessa lei é o deslocamento do discurso político para a direita, incentivando a violência da extrema-direita contra os ativistas de esquerda”.

Depois que a lei foi aprovada, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia acusou a Ucrânia de usar “métodos totalitários” para liquidar partidos e organizações e atacar “a liberdade de imprensa, opinião ou consciência”. Os congressistas aprovaram a lei um ano após a Rússia anexar a península do Mar Negro na Crimeia e iniciar uma guerra no leste ucraniano, que causou mais de 13 mil mortes e desalojou mais de um milhão de pessoas.

Quando fazia parte da União Soviética, a Ucrânia viveu o Holodomor (ou “Holocausto Ucraniano”). Estima-se que até 12 milhões de pessoas morreram entre 1932 e 1933 devido ao bloqueio de alimentos imposto ao país por Joseph Stálin. A política fazia parte do processo de coletivização da agricultura, ou seja, a apropriação pelo Estado soviético das terras, colheitas e gado pertencentes aos camponeses que viviam em países soviéticos. A resposta dos agricultores foi desesperada e muitas vezes violenta, havendo numerosas manifestações e revoltas, principalmente na Ucrânia.

Na visão de Stálin, o governo ucraniano e o Partido Comunista do país tinham sido infiltrados por agentes nacionalistas e espiões poloneses, e as aldeias que resistiam à coletivização estavam sob a influência de agitadores contrarrevolucionários. Por isso, ele teria decidido utilizar a fome para punir os camponeses.

(Radio Free Europe e The Guardian, via History)

Você precisa ler também: “Assista a este filme e conheça a verdadeira face do comunismo”

Jesus tinha esposa ou a mídia é casamenteira?

papiro1Jesus teria sido casado? Essa pergunta varreu as redes de comunicação nas últimas horas devido a um fragmento antigo que parece desmentir a assertiva de que Jesus era solteiro. Tive acesso ao artigo da professora de Havard, Karen L. King (com contribuições de AnneMarie Luijendijk), publicado em Janeiro de 2013 na Harvard Theological Review. Nele a autora, de fato, apresenta um fragmento de papiro escrito em Copta e datado do 4º século d.C., e que traz um diálogo entre Jesus e Seus discípulos, no qual o Mestre usa a expressão “minha esposa”. Alguns noticiários (felizmente não todos) divulgaram de modo sensacionalista que teríamos aqui o primeiro indício de que, contrariando a posição oficial do cristianismo, Jesus teria, sim, Se casado com Maria Madalena. Será isso verdade? Vamos primeiramente ver o que diz o fragmento que mede 4 cm x 8 cm – algo pouco maior que um cartão de visitas.

No anverso, temos oito linhas incompletas com traços ilegíveis de uma nona linha e outras seis linhas podem ser lidas no verso. É importante, contudo, dizer que nem a autora nem eu somos especialistas em papirologia ou em língua copta, portanto, as conclusões tanto da Dra. Karen quanto as minhas são sugeridas após a avaliação técnica de outros expertos no assunto. Diz o texto:

Anverso:

  1. “não [para] mim. Minha mãe me deu a vi[da…”
  2. os discípulos disseram a Jesus: “[
  3. negar. Maria é digna de… [alguns sugerem que o correto seria: “Maria não é digna de…]”
  4. …” Jesus disse a eles: “Minha esposa… [
  5. …ela  será capaz de se tornar um discípulo… [
  6. Deixe os iníquos incharem… [
  7. Quanto a mim, eu moro com ela de modo que… [
  8. uma imagem [

Verso:

  1. minha mã[e
  2. três [
  3. … [
  4. Diante do qual …
  5. traços de tinta ilegíveis
  6. traços de tinta ilegíveis

Observações de papirólogos e linguistas

Como o papiro pertence à coleção particular de um anônimo, é difícil avaliar completamente sua procedência ou sua autenticidade. Contudo, muitos elementos apontam para a possibilidade maior de ser um texto verdadeiro, produzido na Síria ou mais provavelmente no Egito e datado do 4º século d.C. Não sabemos como o papiro chegou às mãos do colecionador nem em que condições foi adquirido.

Essas conclusões preliminares foram assinadas pelos Drs. Roger Bagnall, papirólogo e diretor do Instituto para Estudo do Mundo Antigo de Nova Iorque, e AnneMarie Luijendijk, da universidade de Princeton. Pelo menos dois outros especialistas, no entanto, colocaram em dúvida a autenticidade do papiro, baseados principalmente em algumas dificuldades gramaticais que foram posteriormente bem respondidas. Portanto, temos uma chance muito grande de estar diante de um documento autêntico. Novas pesquisas laboratoriais envolvendo a tinta do manuscrito poderão lançar maior luz sobre essas questões.

Observações da Dra. King

Não sabemos o gênero desse documento, nem quem o escreveu. Colocou-se o nome “Evangelho da Esposa de Jesus” (com a sigla em inglês GosJesWife) por mera identificação provisória sem a pretensão de que seja realmente um evangelho apócrifo ou que o título represente mesmo o cerne de seu conteúdo.

Pela análise textual, é mais provável que a Maria mencionada no texto seja Maria Madalena e não Maria mãe de Jesus, cuja referência aparece na primeira linha. Mas, a despeito disso, o fragmento não é, definitivamente, uma “prova” ou argumentação séria de que Jesus de Nazaré fosse casado. O papiro foi escrito muito tempo depois dos dias de Cristo, e mesmo que seja a tradução de um original que dataria do segundo século, ainda assim estamos tratando de uma fonte muito tardia que nada teria a ver com o real fundador do cristianismo.

Esse seria o mais antigo fragmento de manuscrito a mencionar que Jesus teria uma esposa e seu original deve datar da segunda metade 2º século d.C. (posterior ao ano 150), o que mostra que o assunto já estava em discussão naquele tempo. As razões da polêmica podem ser as mesmas que envolveram a questão do celibato e do domínio sobre as paixões carnais que começaram a ser debatidas com força no segundo século d.C., conforme vemos nos escritos de Clemente de Alexandria e outros.

Existem paralelos importantes entre esse texto e outros documentos como os evangelhos canônicos e o evangelho de Tomé. No entanto, trata-se de um fragmento inteiramente inédito, com um conteúdo ainda desconhecido e não inteiramente concordante com os outros textos até agora descobertos.

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Minhas observações

Em primeiro lugar, achei tremendamente lúcidas as posições da Dra. Karen. Minha única nota de ceticismo fica por conta da afirmação taxativa da autora de que esse é o texto mais antigo a mencionar que Jesus teria uma esposa. As razões do receio nesse ponto são simples: primeiramente temos de acentuar que o texto encontrado data do 4º século d.C. É, portanto, conjectural a afirmação de que se trata de uma tradução de outro texto grego original mais antigo e que esse dataria do segundo século. Não há evidências adicionais para afirmar ou desmentir essa tese; é uma possibilidade, não certeza absoluta. Segundo: ainda que esse texto provenha do grupo de textos apócrifos surgido no 2º século, ele não pode ser considerado o mais antigo apenas por mencionar explicitamente a expressão “minha esposa”. Afinal, outros textos, como “o evangelho de Felipe”, ainda que de modo indireto, dão a entender que teria havido alguma relação marital entre Jesus e Maria, e não temos meios de saber qual seria mais antigo. Fora isso, concordo com as demais análises da Dra. King.

Mas é importante dizer que não há nada nessa descoberta ou nesse estudo que ameace a ortodoxia cristã. Muito menos que se trate de algo jamais conhecido pelos teólogos cristãos. Na verdade, o que temos é o eco de um grupo de cristãos dissidentes (a maioria da cidade de Alexandria, no Egito) que criaram um movimento chamado gnosticismo. A maioria dos especialistas acredita que esse movimento surgiu no fim do primeiro século, início do segundo. Alguns poucos autores, no entanto, estão começando a sugerir que raízes gnósticas já poderiam ser vistas nos dias de Paulo! Seja como for, era um movimento marginal e não a voz tradicional da Igreja Cristã primitiva.

Mas o que eles ensinavam? Sua doutrina é muito complexa para ser explicada em poucas palavras e eles eram multifacetados em muitos segmentos, cada um dizendo uma coisa diferente da outra. Contudo, em termos gerais, podemos dizer que eles foram muito influenciados pela filosofia helênica que dominou a cidade de Alexandria e tentaram moldar o cristianismo com base nessa filosofia. Aqui é importante esclarecer que a filosofia helênica tinha importantes diferenças em relação àquela outra filosofia grega que surgiu no 6º século a.C., com os pré-socráticos, e terminou com os tratados de Aristóteles. É claro que uma deu origem à outra e há muitas continuidades entre ambas, mas nessa nova fase havia exagerada mistura de filosofia com mitologia e misticismo religioso.

Os gnósticos eram cristãos que a princípio queriam tornar o cristianismo mais aceitável a seus compatriotas alexandrinos, especialmente os líderes e intelectuais do povo. Seu grande problema, porém, era que o cristianismo original, aquele pregado por Jesus e pelos apóstolos, chegava a ser patético diante dos olhos do mundo grego de Alexandria. Ideias como encarnação, ressurreição, morte expiatória numa cruz, etc. não tinham boa receptividade entre os pagãos. Eram rejeitadas antes mesmo de se iniciar um diálogo. Então o jeito foi adaptar o cristianismo para torná-lo mais aceitável e menos preconcebido. Em outras palavras, o que fizeram foi modificar a figura do Jesus histórico (isto é, aquele que realmente existiu e foi descrito nos primeiros evangelhos) criando um Cristo gnóstico, mais elegante e aceitável ao povo grego.

Esse novo Cristo, por exemplo, à semelhança de Sócrates e Platão, só ensinava por meio de diálogos. Era místico e não sentia dor, nem sofrimento de espécie alguma. Ele também trazia um ensino ou conhecimento secreto que somente pessoas iniciadas poderiam conhecer. Daí o nome “gnósticos”, que vem da palavra grega gnôsis, isto é, conhecimento. Com isso, dava-se um “jeitinho alexandrino” de explicar os ensinos menos aceitáveis de Jesus. Eles diziam que aqueles eram ensinamentos pueris dados para a multidão ignorante, mas o verdadeiro ensino fora dado, de modo secreto, apenas para os iniciados. Negou-se também a morte de Jesus na cruz, afirmando que quem teria morrido, na verdade, havia sido o homem Jesus, pois o espírito do Cristo teria voltado para o Pai, no pleroma superior, onde viveriam os espíritos mais elevados.

Foi nessa “onda” que surgiu também a necessidade de se criar uma esposa para Jesus de Nazaré, a fim de fazer jus às ideias de que espíritos evoluídos estavam sempre em pares (casais) e nunca sozinhos. O Cristo ou o Logos, que seria o espírito que teria dominado a mente do homem Jesus, também teria uma consorte, uma deusa chamada Sofia!

E assim vai a criatividade dos gnósticos, produzindo evangelhos tardios escritos mais de cem anos depois da morte de Cristo e que hoje chamados de evangelhos apócrifos. Como acentuou a própria Dra. King, esses textos não têm nada a ver com o Jesus histórico, isto é, aquele que viveu no início do primeiro século e fundou o cristianismo. Seu retrato, mais fiel está nos Evangelhos canônicos e nos demais livros do Novo Testamento que não se preocuparam em maquiar Sua imagem para troná-Lo mais aceitável ao judaísmo e/ou às exigências do mundo exterior.

Uma nota final: é tremendamente exagerada e anacrônica a leitura que alguns autores fazem dos evangelhos gnósticos afirmando que eles já discutiam, na antiguidade, o papel da mulher na religião e na sociedade. Nada seria menos verdadeiro. Tenho em minha casa o texto de todos os evangelhos apócrifos, e cruzando os dados desse fragmento com o que dizem outros textos, como o Evangelho de Tomé, por exemplo, o que percebo é que o contexto era a “posição de Maria Madalena entre os discípulos” e não a posição da mulher “em geral” entre a sociedade. Os gnósticos nem pensaram nisso.

Ademais, embora houvesse tradições judaicas que encorajassem o celibato, o casamento era visto como uma possibilidade igualmente abençoada (1 Qsa 1:4-10; Josefo, Antiguidades 18.1.5.21; Philo, Hipotética 11.14-). Além disso, em 1 Coríntios 7:9; 9:5 e em 1 Timóteo 3:2, Paulo defende o direito apostólico de ser casado e menciona os líderes da Igreja (Pedro, os apóstolos e os irmãos do Senhor) como casados. Ora, se Jesus fosse casado, a Igreja não teria motivos para esconder isso. Até o Apocalipse fala do casamento entre Cristo e sua Igreja, uma imagem proscrita, caso tentassem esconder um pretenso enlace entre Jesus e Madalena. Portanto, o completo silêncio da igreja primitiva sobre esse assunto nos leva a crer não que estavam escondendo uma verdade sobre o estado civil de Jesus, mas que Ele não era de fato casado. Por outro lado, a multiplicação de textos na segunda metade do segundo século sugerindo uma união marital com Maria Madalena só pode ser uma adaptação ou criação literária tardia que nada tem a ver com a verdadeiro Jesus de Nazaré.

(Rodrigo Silva é professor no Unasp, apresentador do programa Evidências, doutor em teologia, especialista em arqueologia bíblica e doutorando em arqueologia pela USP)

Nota: Li certa vez no Twitter o seguinte (e gostei): “Contra fatos (mais de cinco mil manuscritos bíblicos) não há fragmentos.” [MB]

Notícias da semana: 1-19/7/2019

Jesus Cristo: um plágio?

jesus-christEm junho de 2007, foi lançado um vídeo de 122 minutos chamado Zeitgeist e até novembro de 2007, oito milhões de acessos haviam sido feitos. Esse documentário foi ganhador do prêmio de melhor filme no festival Artivist, na Califórnia, em 2007 e 2008.[1] Na primeira parte de Zeitgeist, que é dividido em três blocos principais, é proposto que o Jesus histórico não passa de um plágio das mitologias de povos pagãos antigos. Os apóstolos teriam se utilizarado de histórias já conhecidas na época e criado um personagem muito parecido, escrevendo assim quatro evangelhos a respeito desse “outro deus mitológico”. Veremos a seguir do que se trata esse intenso debate. Antes, porém, mencionaremos alguns dos deuses mitológicos seguidos de suas aparentes semelhanças com Jesus Cristo:

Horus, deus egípcio – Nasceu no dia 25 de dezembro de uma virgem; nascimento acompanhado de uma estrela no leste; adorado por três reis; era mestre aos 12 anos; foi batizado com 30 anos; tinha 12 discípulos; fazia milagres; foi traído, crucificado e morto; depois de três dias ressuscitou; era considerado filho de Deus; caminhou sobre as águas e foi transfigurado numa montanha.

Attis, deus frígio – Considerado filho de Deus, nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro; também é considerado salvador que foi morto pela humanidade; seu “corpo” como pão era comido pelos adoradores; era tanto o divino filho como o pai; numa sexta-feira, ele foi crucificado numa árvore e se levantou depois de três dias como “deus todo-poderoso”.

Krishna, deus hindu – Nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro, seu pai terreno era carpinteiro; o nascimento foi assinalado por uma estrela ao leste; visitado por pastores que o presentearam, foi perseguido por um tirano que ordenou o assassínio de infantes; operava milagres e maravilhas; usava parábolas para ensinar as pessoas sobre caridade e amor; foi transfigurado diante dos discípulos; crucificado aos 30 anos, ressuscitou dos mortos e ascendeu aos céus; era a segunda pessoa da “trindade” e deverá retornar para o dia do juízo em um cavalo branco.

Dionysus, deus grego – Nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro, era mestre viajante que operava milagres; andou em um burro durante uma procissão; transformava água em vinho; era chamado “rei dos reis” e “deus dos deuses”; considerado “filho de deus”, “único filho”, “salvador”, “aquele que redime”, “ungido” e o “alfa e o ômega”, foi identificado como cordeiro e pendurado num madeiro.

Diante de tudo isso, poderíamos perguntar, como Timothy Freke e Peter Gandy, dois dos maiores defensores da teoria do Jesus-mito pagão: “Por que consideramos as histórias de salvadores como Osíris, Dionísio, Adônis, Attis, Mitra e outros deuses pagãos fábulas, porém, ao encontrarmos essencialmente a mesma história contada em um contexto judeu, acreditamos ser a biografia de um carpinteiro de Belém?”[2]

Vamos, então, para o exame das acusações e a confirmação – ou não – de sua confiabilidade.

Nascimento virginal

O centro de todo o desentendimento quanto aos paralelos entre o nascimento virginal dos deuses pagãos e o de Jesus começa já em sua definição. De acordo com o relato de Mateus e Lucas, a descrição que encontramos do nascimento de Jesus é de Maria sendo virgem e Jesus sendo gerado pela operação do Espírito Santo. Porém, não há qualquer relato entre as religiões de mistério que lembre essa situação. A definição dos críticos do nascimento virginal é a fecundação resultante de casamento sagrado (entre um casal de deuses) ou fruto do ato sexual entre um deus disfarçado de ser humano e uma mulher mortal (hieros gamos).

Em uma das histórias de Dionísio, Zeus foi a Perséfone em forma de serpente e a engravidou, portanto, sua virgindade foi tecnicamente perdida. Na versão mais conhecida, Zeus se apaixonou por Semele, princesa da casa de Times. O deus olímpico foi até ela disfarçado de homem mortal e logo Semele estava grávida. Hera, rainha de Zeus, inflamada de ciúmes, se disfarçou de mulher idosa e foi até a casa de Semele. Quando Semele revelou seu caso com Zeus, Hera sugeriu que a história de que Zeus era o rei dos deuses poderia ser mentira e que talvez ele fosse mero mortal que inventou a história para que ela dormisse com ele. Quando Zeus foi visitá-la novamente, ela pediu apenas uma coisa. Zeus jurou que daria o que ela quisesse. “Apareça a mim como você aparece a Hera.” Relutantemente, mas fiel à sua palavra, Zeus apareceu em toda sua glória, reduzindo Semele às cinzas. Hermes salvou o feto e o levou até Zeus que o costurou à sua coxa e três meses depois deu à luz Dionísio.[3]

A história claramente não é comparável com o relato bíblico e, além disso, só existem relatos pós-cristãos. Os deuses e deusas antigos eram típica e muito explicitamente sexuais e ativos, até porque, para o mundo antigo, grandeza era comumente associada com a geração física de um deus. Esse elemento está completamente ausente do relato da concepção virginal de Jesus.

No mito de Horus, o engano continua. De acordo com The Encyclopedia of Mythica, depois de Osíris (pai de Horus) ser assassinado e mutilado em 14 pedaços por seu irmão Set, a esposa de Osíris, a deusa Íris, “recuperou e remontou o corpo, e em conexão pegou o papel da deusa da morte e dos direitos funerais. Ísis engravidou-se pelo corpo de Osíris e deu à luz Horus nos rios de Khemnis, no Delta do Nilo.[4]

O relato está muito distante da realidade bíblica, apesar de uma concepção necrofílica ser miraculosa. Mesmo na imagem encontrada em Luxor, com Thoth anunciando a Ísis que ela conceberia a Horus, a ordem é a concepção e depois o anúncio, enquanto que os evangelhos declaram o anúncio e depois a concepção.

Na pesquisa de Raymond Brown a respeito das narrativas sobre o nascimento de Jesus, ele avalia os exemplos de “nascimentos virginais” não-cristãos, e sua conclusão é: “Em suma, não há nenhum exemplo claro de concepção virginal no mundo ou nas religiões pagãs que plausivelmente poderia ter dado aos judeus cristãos do primeiro século a ideia da concepção virginal de Jesus.[5]

Ressurreição

Segundo Paulo, o maior fundamento da fé cristã é a crença na morte e ressurreição de Jesus (1Co 15:13, 14). Ainda no início do capítulo de 1 Coríntios 15, os exegetas do Novo Testamento encontram fortes evidências para defender a realidade do fato da ressurreição. E foi justamente nessa pedra fundamental que os críticos aproveitaram para divulgar os paralelismos com personagens das religiões de mistério e das deidades que teriam experimentado morte e ressurreição.

Não é senão a partir do 3º século d.C. que encontramos suficiente material a respeito das religiões de mistério que permitem relativa reconstrução de seu conteúdo. Muitos escritores se utilizam desse material (depois de 200 d.C.) para formular reconstruções das religiões de mistério dos séculos anteriores. Essa prática, porém, é extremamente anti-acadêmica e não pode permanecer sem desafios.[6]

Na realidade, segundo Pierre Lambrechts, os textos que se referem à ressurreição são muito tardios, do segundo ao quarto século d.C.[7] A aparente ressurreição de Adonis, por exemplo, não tem sequer uma evidência, nem nos textos antigos nem nas representações pictográficas. Quanto à ressurreição de Attis, não há qualquer sugestão de que ele teria sido um deus ressurreto, senão até depois de 150 d.C.[8]

Há ainda o famoso caso da suposta ressurreição do deus Osíris. A versão mais completa do mito de sua morte e ressurgimento é encontrada em Plutarco, que escreveu no segundo século d.C. De acordo com a versão mais comum do mito, Osíris foi assassinado por seu irmão que então o afundou em um caixão no rio Nilo. Ísis descobriu o corpo e o levou de volta ao Egito. Mas seu cunhado mais uma vez ganhou acesso ao corpo, dessa vez o desmembrando em 14 pedaços, os quais ele atirou para longe. Depois de muita procura, Ísis recuperou cada pedaço do corpo. É nesse ponto que a linguagem utilizada para descrever o que se seguiu é crucial. Algumas vezes, aqueles que contam a história se contentam em dizer que Osíris voltou à vida, mesmo que isso passe longe daquilo que o mito permite dizer. Alguns escritores ainda vão mais longe ao falar sobre a “ressurreição” de Osíris. Ísis restaura o corpo de Osíris e ele é colocado como um deus do mundo dos mortos. Roland de Vaux complementa dizendo:

“O que significa Osíris ter ‘levantado para a vida’? Simplesmente que, graças à ministração de Ísis, ele pôde levar uma vida além da tumba que é quase uma perfeita réplica da existência terrestre. Mas ele nunca mais voltará a habitar entre os viventes e reinará apenas sobre os mortos… Esse deus revivido é, na realidade, um deus ‘múmia’.”[9]

Mudando de deidade, outro muito mencionado por sua suposta história de reaparição dos mortos é o de Cybele e Áttis. Cybele era uma figura muito adorada no mundo helenístico; o rito antigamente incluía um frenesi nos adoradores homens que os levava a se castrarem.

Encontramos especialmente três mitos diferentes com respeito à vida de Áttis. De acordo com um dos mitos, Cybele amava um pastor de ovelhas chamado Áttis. Por Áttis ter sido infiel, ela o levou à loucura. Tomado de loucura, Áttis se castrou e morreu. Isso encaminhou Cybele a um luto muito forte e introduziu a morte ao mundo natural. Mas então Cybele restaurou Áttis à vida, um evento que também trouxe o mundo da natureza à vida. As pressuposições do intérprete tendem a determinar a linguagem usada para descrever o que se segue à morte de Áttis. Referem-se a ela descuidadamente como “ressurreição de Áttis”. Não há nada que se pareça a uma ressurreição corpórea no mito que sugira que Cybele só podia preservar o corpo morto de Áttis, ou seja, ele volta à vida de forma praticamente vegetativa, pois o mito menciona que os pêlos do seu corpo continuaram a crescer e que ele movimentava um dos dedos. Em algumas versões do mito, Áttis volta à vida na forma de uma árvore. Nem nesse e nem nas outras três histórias, encontramos morte e ressurreição ou qualquer coisa semelhante ao que vemos nos evangelhos.

Foi somente em celebrações posteriores pelos romanos (depois de 300 d.C.) que algo remotamente semelhante ocorreu. A árvore que simbolizava Áttis foi cortada e enterrada dentro de um santuário. Na outra noite, a “tumba” da árvore estava aberta e a “ressurreição” de Áttis foi celebrada. A linguagem, porém, é ambígua e os detalhes sobre o culto são remotos; todo o material é muito tardio.

Nas comparações com Krishna, as respostas se tornam ainda mais fáceis de dar. Segundo especialistas em hinduísmo, Krishna foi morto por um caçador que acidentalmente atirou em seu calcanhar. Ele morreu e ascendeu. Não houve qualquer ressurreição e ninguém o viu ascender. Mesmo que o mito da ascensão de Krishna traga algum desconforto, ele pode ser rapidamente resolvido com as declarações de Benjamin Walker, em seu livro The Hindu World: an Encyclopedia Survey of Hinduism: “Não pode haver qualquer dúvida de que os hindus pegaram emprestado os contos [do cristianismo], mas não o nome.”[10]

Por esses paralelos virem do Bhagavata Purana e do Harivamsa, Bryant acredita que o Bhagavata Purana seja “anterior ao sétimo século d.C. (apesar de alguns acadêmicos o considerarem do século 11 d.C.)”, e que o Harivamsa tenha sido composto entre o quarto e o sexto século.

Apesar de ser chocante às mentes religiosas ocidentais, é senso comum dentro da história das religiões que imortalidade não é uma característica básica da divindade. Deuses morrem. Alguns deuses simplesmente desaparecem, alguns somente para retornar novamente depois e alguns para reaparecer frequentemente. Todas as deidades que foram identificadas como fazendo parte da classe de deidades que morrem e ressuscitam podem ser colocadas sob duas classes maiores: deuses que desaparecem e deuses que morrem. No primeiro caso, as deidades retornam, mas não haviam morrido, e no segundo caso, os deuses que morrem, mas não retornam. Para a concepção judaica, nenhum desses paralelos ressuscitou dos mortos, e para muitos acadêmicos hoje paira a dúvida se literalmente existe algum deus que teria experimentado a morte e a ressurreição. Uma citação muito interessante explica a realidade da teoria:

“Desde a década de 1930… um consenso tem se desenvolvido de que os ‘deuses que morrem e ressuscitam’ morreram, mas não retornaram ou se levantaram para viver novamente… Aqueles que pensam diferente são vistos como membros residuais de espécies quase extintas.”[11]

Outras diferenças substanciais

Analisamos brevemente e em seus aspectos principais as semelhanças e as diferenças entre Jesus e os deuses da morte-levantamento e das religiões de mistério. A seguir, mencionaremos outras diferenças marcantes que não poderiam passar despercebidas:

1. Em todos os casos de deuses que morrem, eles morrem por compulsão e não por escolha; às vezes, por orgulho ou desespero, mas nunca por amor sacrifical.[12]

2. Não há qualquer evidência de religiões de mistério inseridas na Palestina das três primeiras décadas do primeiro século. Não haveria tempo suficiente para que os discípulos fossem influenciados pelos mistérios, se eles estivessem dispostos a ser, o que não era o caso. Quando a influência dos mistérios atingiu a Palestina, principalmente por meio do gnosticismo, a igreja primitiva não aceitou, mas renunciou vigorosamente aos mitos pagãos. A falta de sincretismo dificulta a concepção.

3. Os deuses que morrem e ressuscitam, segundo os mitos, nunca morreram por outra pessoa (vicariamente), e nunca anunciaram morrer pelo pecado. A ideia de uma aliança substitutiva pelo homem é totalmente única ao cristianismo. Além disso, Jesus morreu uma vez por todos os pecados, enquanto os deuses pagãos eram frequentemente deuses de vegetação que imitavam os ciclos anuais da natureza, aparecendo e morrendo diversas vezes.

4. Jesus morreu voluntariamente e Sua morte foi uma vitória e não derrota; ambos os aspectos são contrários aos conceitos pagãos.[13]

5. Similaridade não prova dependência. Movimentos sociais e religiosos frequentemente compartilham formas de expressão ou práticas similares. Não é de se surpreender que encontrássemos paralelos em qualquer religião a respeito de vida após a morte, identificação com uma deidade, ritos de iniciação ou um código de conduta. Se uma religião deseja atrair conversos, precisa apelar para as necessidades e desejos universais dos seres humanos. Mas isso não indica dependência! Em qual cultura, por exemplo, a imagem de se lavar em água não significa purificação? O que importa, entretanto, não é a semelhança das palavras e práticas, mas os significados anexados a elas. A fim de provar um caso de dependência é necessário demonstrar semelhança na essência e não só na forma. Os escritores normalmente exageram similaridades formais, enquanto ignoram diferenças essenciais entre a história de Jesus e os variados mitos pagãos.

6. Os pagãos nesse período não estavam confusos quanto à exclusividade da Igreja, e chamavam os cristãos de “ateus” por causa de sua indisponibilidade fundamental de ceder ou sincretizar. Como J. Machen explica, os cultos de mistério eram não-exclusivistas: “Um homem poderia ser iniciado nos mistérios de Ísis ou Mitra sem ter que abrir mão de suas crenças anteriores; mas se ele quisesse ser recebido na Igreja, de acordo com a pregação de Paulo, deveria abrir mão de todos os outros salvadores pelo Senhor Jesus Cristo… Dentre o sincretismo predominante do mundo greco-romano, a religião de Paulo, assim como a religião de Israel, permanece absolutamente distinta.”[14]

7. A cronologia está toda errada. As crenças básicas do cristianismo existiam no primeiro século, enquanto que o total desenvolvimento das religiões de mistério não aconteceu até o segundo século. Historicamente, é muito improvável que qualquer encontro teve lugar entre o cristianismo e as religiões de mistério pagãs até o terceiro século. Até hoje não há evidência arqueológica de religiões de mistério na Palestina do início do primeiro século.[15] A história das influências pode ser dividida em três períodos: (1) primeiro período (1-200 d. C), as religiões de mistério eram restritas e não exerciam influência nas outras religiões. Se há qualquer influência, ela é na direção contrária: o cristianismo influenciou os cultos; (2) segundo período (201-300 d.C.), depois de o cristianismo ter-se espalhado pelo mundo romano, as religiões de mistério se tornaram mais ecléticas, suavizando doutrinas severas e conscientemente oferecendo uma alternativa ao cristianismo (aparece o culto a Cybele oferecendo a eficácia do banho de sangue, que antes era de 20 anos, para um período que ia de 20 anos à eternidade), competição com o cristianismo; (3) terceiro período (301-500 d.C.), o cristianismo passou a adotar a terminologia e ritos dos cultos de mistério (e.g., 25 de dezembro).[16]

8. Como um judeu devoto, o apóstolo Paulo nunca teria considerado pegar emprestados seus ensinamentos de religiões pagãs (At 17:16; 19:24-41; Rm 1:18-23; 1Co 10:14), assim como João também não (1Jo 5:21). Não há a mínima evidência de crenças pagãs em seus escritos.

9. Como religião monoteísta com um corpo de doutrinas coerente, o cristianismo dificilmente poderia ter pegado emprestado de um paganismo politeísta e doutrinariamente contraditório.

10. Os críticos parecem ignorar completamente o pano de fundo hebraico do cristianismo. Quase nenhuma atenção é dada ao rico pano de fundo hebraico no Novo Testamento e no cristianismo primitivo. Termos como “mistério”, “ovelha sacrificada” e “ressurreição” em vez de vir dos mitos pagãos, como os escritores sugerem, são baseados nas crenças judaicas encontradas no Antigo Testamento. Além disso, os Manuscritos do Mar Morto têm lançado muita luz sobre práticas judaicas que se escondem atrás do Novo Testamento, como o batismo, comunhão e bispos.

11. O cristianismo está baseado em eventos da história, não em mitos. A morte dos deuses de mistério aparece em dramas místicos sem nenhuma conexão histórica. A igreja primitiva cria que proclamava a morte e ressurreição de Jesus como fatos incontestáveis e era baseada em um verdadeiro evento histórico. Isso faz com que seja absurda qualquer tentativa de derivá-la de histórias míticas e não históricas dos cultos pagãos.

12. Se houve qualquer empréstimo, foi na outra direção. À medida que o cristianismo crescia em influência e se expandia, os sistemas pagãos, reconhecendo a ameaça, provavelmente pegaram alguns elementos do cristianismo. Por exemplo, o rito pagão do banho em sangue de touro (taurobolium) inicialmente tinha sua eficácia espiritual de 20 anos. Mas, assim que a “competição” com o cristianismo começou, o culto a Cybele, aumentou a eficácia de seu rito “de 20 anos à eternidade”[17], quase equivalendo, assim, à eternidade prometida aos cristãos.

13. O conteúdo moral de amor e compaixão, bondade e ações de caridade eram completamente diferentes. A forma cristã de humildade, permitindo que o próximo bata nas duas faces e o próprio exemplo de Jesus utilizando Seu poder apenas para o bem, diferencia seriamente daquilo que vemos na mitologia pagã.

A conclusão da completa falta de argumentos confiáveis e verossímeis é clara e óbvia, e, nas palavras de Ronald Nash: “Esforços liberais de desacreditar a revelação singular cristã por meio dos argumentos da influência das religiões pagãs são destruídos rapidamente a partir da verificação completa das informações disponíveis. É claro que os argumentos liberais exibem academicismo incrivelmente ruim e, com certeza, essa conclusão está sendo muito generosa.”[18]

Fica claro que a melhor conclusão a ser feita é aquela do livro em que encontramos a verdadeira revelação da verdade e da fonte do mistério da vida, morte e ressurreição de Jesus: a Bíblia Sagrada. Porque “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.”[19]

(Marina Garner Assis é formada em Teologia pelo Unasp e cursa o doutorado em Filosofia nos Estados Unidos)

Referências:

1. Informação retirada do site http://www.zeitgeistmovie.com, dia 11/05/2009.
2. Timothy Freke e Peter Gandy, The Jesus Mysteries, Three Rivers Press (Setembro, 2001), p. 9.
3. Barry Powell, Classical Myth (3ª ed.), PrenticeHall (New Jersey, 2001), p. 250.
4. Mich F. Lindemans, Encyclopedia of Mythica. Artigo publicado em 21 de maio de 1997 no website: http://www.pantheon.org/articles/i/isis.html (acessado dia 23/08/09).
5. Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah, Anchor Bible (1999), p. 523.
6. “A summary critique the mythological Jesus mysteries a book review of ‘The Jesus Mysteries: Was the ‘Original Jesus’ a Pagan God?”, por Timothy Freke e Peter Gandy, Christian Research Journal, , v. 26, nº 1 (2003).
7. P. Lambrechts, “La Resurrection de Adonis”, em Melanges Isadore Levy (1955), p. 207-240, como citado em Edwin Yamauchi, “The Passover plot or Easter triumph?”, em J. W. Montgomery, (ed.), Christianity for the Tough-Minded (Minneapolis: Bethany, 1971).
8. Ibid.
9. Roland de Vaux, The Bible and the Ancient Near East, Doubleday (1971), p. 236.
10. Benjamin Walker, The Hindu World: an Encyclopedic Survey of Hinduism, v. 1 (New York: Praeger, 1983), p. 240, 241.
11. Tryggve N. D. Mettinger, The Riddle of Resurrection: “Dying and Rising Gods” in the Ancient Near East (Stockholm, Sweden: Almquist & Wiksell International, 2001), p. 4, 7.
12. J. N. D. Anderson, Christianity and Comparative Religion (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1977), p. 38.
13. Ronald H. Nash, Christianity & the Hellenistic World (Grand Rapids, MI: Zondervan/Probe, 1984), p. 171, 172.
14. J. Gresham Machen, The Origin of Paul’s Religion (New York: Macmillan, 1925), p. 9.
15. J. Ed Komoszewski, M. James Sawyer, Daniel B. Wallace, Reinventing Jesus (Kregel Publications, 2006), p. 231.
16. Ibid., p. 232, 233.
17. Nash, Christianity & the Hellenistic World, p. 192-199; citando Bruce Metzger sobre o culto de Cybele.
18. Ronald Nash, “Was the New Testament influenced by pagan religions?, Christian Research Journal (Inverno 1994) p. 8.
19. Atos 4:12

O sábado está sendo guardado no dia correto?

calendar“Há um grupo chamado World’s Last Chance (WLC) dizendo que o calendário lunar foi estabelecido por Deus e o calendário gregoriano, pela Igreja Católica com o objetivo de mudar os tempos e as leis. De acordo com essas pessoas, a Igreja Adventista teve “medo” de divulgar essa “verdade” depois do grande desapontamento de 1844. Dizem que não estamos adorando a Deus, o Criador, no dia estabelecido por Ele durante a semana da criação, ou seja, estamos adorando em um dia qualquer. Desde já agradeço a atenção e aguardo ansioso sua resposta.”

Resposta: Essas pessoas afirmam que o sábado não é o sétimo dia do ciclo semanal, mas o sétimo dia do “calendário lunissolar” proposto por eles, sendo que o primeiro dia do mês (“lua nova”) e o último dia do mês precedente – caso este tenha tido 30 dias – são considerados “não-dias”. Assim, o “sábado” seria sempre o 8º, 15º, 22º e 29º dias do mês nesse calendário.

No site deles é apresentada uma série de pressuposições que na verdade são falsas. Logo no início, é dito que “o primeiro dia da festa dos pães asmos era no dia 15 [do mês de abibe], que era um sábado”. A WLC afirma que esse era um sábado semanal, e a única “prova” que apresentam disso é o argumento de que nesse dia havia uma “santa convocação”. Ora, esse argumento não tem validade nenhuma, porque havia “santa convocação” não só no sábado semanal, mas em todos os sábados cerimoniais. Assim, havia santa convocação também no sétimo dia da festa dos pães asmos (Lv 23:8), na festa das primícias ou pentecostes (Lv 23:20, 21), na festa das trombetas (Lv 23:24), no dia da expiação (Lv 23:27), e no primeiro e último dias da festa dos tabernáculos (Lv 23:34-36). Destes, eles consideram que o dia 15 do primeiro mês e os dias 15 e 22 do sétimo mês eram sábados semanais. Baseados em quê?

Para sustentar suas pressuposições, dizem ainda que “Israel saiu do Egito na noite de 15 de abibe” (já que consideram que o dia 15 era um sábado). A Bíblia diz: “Aconteceu que, ao cabo dos quatrocentos e trinta anos, nesse mesmo dia, todas as hostes do Senhor saíram da terra do Egito. Esta noite se observará ao Senhor, porque, nela, os tirou da terra do Egito; esta é a noite do Senhor, que devem todos os filhos de Israel comemorar nas suas gerações. Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela” (Êx 12:41-43). A Bíblia é clara em dizer que os israelitas saíram nesse mesmo dia. Que dia? Ora, o dia 15 de abibe. Se tivessem saído à noite, já não seria dia 15 de abibe, mas 16 (já que o novo dia se inicia ao pôr-do-sol). E que noite é essa, em que a Bíblia diz que Deus “os tirou da terra do Egito”? A noite que “se observará ao Senhor”, e, portanto, a noite do dia 15, em que o povo comeu a Páscoa, e não a do dia 16. Não há como escapar ao fato de que os israelitas saíram em sua jornada no dia 15 e, portanto, que esse dia não poderia ser um sábado.

Outras “provas” são acrescentadas que absolutamente não são provas. Por exemplo, o argumento de que o maná cessou no dia 16 de abibe e que, portanto, o dia anterior seria um sábado semanal em que o maná não caiu. Qual a lógica desse argumento? Nenhuma. O maná cessou no dia 16 porque no dia 15 eles já comeram pães asmos feitos com o fruto da terra.

Outra “prova”, retirada do livro de Ester, diz que “o 15º dia do 12º mês foi um dia de descanso, o que torna o 8º, 22º e 29º dias, dias de descanso também”. O que a Bíblia diz é que uma parte dos judeus fez do dia 14 um dia de banquetes e de alegria pela vitória sobre seus inimigos, e que os judeus de Susã fizeram isso no dia 15. Então, “Mordecai […] enviou cartas a todos os judeus que se achavam em todas as províncias do rei Assuero, […] ordenando-lhes que comemorassem o dia catorze do mês de adar e o dia quinze do mesmo, todos os anos, como os dias em que os judeus tiveram sossego dos seus inimigos” (Et 9:20-22). Dois dias foram instituídos como feriados, e isso não tem nada a ver com o sábado.

O calendário dos judeus era realmente lunissolar, mas esse calendário seguia o ciclo semanal normalmente e não havia nenhum dia considerado “não-dia” da semana. O mês começava quando a estreita faixa de lua nova era avistada; os meses eram lunares, de 29 ou 30 dias. Como isso perfazia apenas cerca de 354 dias no ano, ou seja, deixava o ano cerca de 11 dias mais curto, a fim de manter o ano em harmonia com as estações, um mês adicional era intercalado cada vez que a cevada ainda não estava madura para a Páscoa. Assim, o calendário lunar era mantido em harmonia com o ano solar, e, portanto, o calendário era lunissolar.

Aqui é dito que em 31 d.C. “não se tem e não se pode ter uma crucifixão na sexta-feira”. Isso é totalmente contestado no livro Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27, de Juarez Rodrigues de Oliveira. A crucifixão é possível em 31 d.C., não, porém, numa sexta feira, 14 de abibe/nisã, mas numa sexta-feira 15.

Com base nesse “problema”, tomam uma carta de M. L. Andreasen para Grace Amadon e dizem que ele argumentou contra a adoção de um calendário em que o sábado “flutuava” ao longo da semana moderna, calendário este que estava sendo advogado por alguns da comissão. O problema não era esse. Na carta, Andreasen argumenta contra a adoção de um calendário como o que era usado nos tempos bíblicos, porque “embora o esquema proposto não afete de maneira alguma a sucessão dos dias da semana, e, portanto, não afete o sábado” (o que é justamente o contrário do que a WLC afirma que ele disse), a adoção de um calendário assim pela igreja causaria confusão, porque, devido ao fato de o crescente lunar, que marca o início do mês, se tornar visível em dias diferentes nas diversas localidades, as pessoas dessas diversas localidades poderiam começar seus meses em dias diferentes (por exemplo, cidades vizinhas poderiam estar, uma no último dia de um mês, outra já no primeiro dia do outro).

Os guardadores do sábado lunar estão divididos quanto ao que fazer nos dias 30 de um mês e 1º do mês seguinte, que são os dias da “festa da lua nova”. Alguns descansam nesses dias, considerando-os uma extensão do sábado do dia 29; outros se abstêm apenas de atividades comerciais e emprego remunerado, mas podem realizar outras tarefas comuns. Então, na última semana do mês, (1) no primeiro caso, trabalham seis dias e descansam três (em vez de um); (2) no segundo caso, trabalham sete ou oito dias (em vez de seis), antes de descansar um dia. Com qualquer dos dois métodos, o mandamento do Criador de que se trabalhasse seis dias e se descansasse no sétimo é violado. (Confira aqui.)

(Rosangela Lira é formada em Teologia)