Gênesis 1 e 2: Versões contraditórias?

adaoportal G1 publicou matéria afirmando que “os dois primeiros capítulos do livro sagrado de cristãos e judeus retratam não uma criação do mundo, mas duas. O ser humano surge de duas maneiras diferentes, uma logo depois da outra, e até o deus [sic] responsável pela criação não tem o mesmo nome nos dois relatos”. Será que há mesmo contradição nos relatos? De forma sucinta (pois uma análise dessa natureza exigiria muitas páginas), o pastor e professor Douglas Reis responde:

“Alguns setores da mídia tupiniquim fazem realmente de tudo para chamar a atenção, mormente, questionando a moral cristã, ou, o que é pior, levantando dúvidas a respeito da fonte da moral, a Bíblia Sagrada. É o caso da reportagem ‘Bíblia abriga duas versões contraditórias da criação do mundo’, que ressuscita a controversa hipótese documental.

“Para os proponentes dessa linha de pensamento, o Pentateuco não teria a autoria mosaica; ao contrário, seria uma coleção de documentos com épocas e linhas de pensamento divergentes, editados por alguém (supõe-se, geralmente, que Esdras seja o editor final) e atribuídos ao filho da filha de Faraó.

“Essa abordagem parte do pressuposto de algumas narrativas duplas encontradas em todo o Pentateuco (por ex.: Gn 1 e 2; Gn 16:4-16 e 21:8-20; Êx 20:3-17 e Dt 5:1-20, etc.). Para explicar tais duplicatas afirma-se haver diversas tradições, provenientes de grupos dentro de Israel (ou mesmo fora de Israel) que o editor não soube conciliar, optando por oferecer duas versões do mesmo episódio.

“Nem é preciso dizer que tal linha de pensamento, originária do século 19 (como reconheceu Suzana Chwarts, em uma declaração citada na reportagem), não seja novidade no ciclo acadêmico e evangélico, o que faz com que a notícia perca a sua razão de ser – afinal, para que explorar uma teoria tão debatida e já refutada, dando-lhe um fantasioso verniz de ‘uma verdade vinda à tona’?

“Numa reportagem se diz muita coisa não só pelo que se afirma, como também pelo que se omite. E é notória a omissão de Reinaldo José Lopes, autor da matéria, da opinião de estudiosos das áreas bíblicas que sejam da linha tradicional de pensamento. Por que apenas teólogos liberais são citados? Nem se chega a questionar o que eles dizem, que é elevado ao status de palavra final! Por que o jornalista omitiu as críticas a essa visão do texto bíblico? São perguntas que pairam pela mente de um leitor que conheça as questões tratadas na matéria…

“Christine Hayes, cuja opinião aparece no texto, afirma ser curioso ‘que elementos que lembram tanto a primeira quanto a segunda história da criação’ estejam presentes em outros textos da literatura antiga do Oriente Médio. ‘A imagem de deuses fazendo uma série de pequenos humanos com argila, como se fossem oleiros, também é muito comum’, prossegue ela. Obviamente, isso apenas contribui para pensarmos no valor daquilo que é narrado, uma vez que tantos povos e tão distantes entre si narrem uma criação de forma semelhante. Uma lenda se apóia em fatos históricos, acrescentando a eles um caráter místico e ampliado. Mas a existência da lenda não exclui a historicidade do evento que a originou. A narração de Os Lusíadas, por exemplo, não conspira contra a empreitada náutica do Vasco da Gama histórico, embora Camões tenha ‘enfeitado’ a narrativa com episódios inspirados na mitologia, seguindo as convenções literárias estabelecidas pelo modelo de épica herdado dos gregos.

“Semelhantemente, a criação do mundo pode ter ocorrido exatamente como descreve o Gênesis, sendo que, à medida que os povos foram se espalhando pela Terra, após o episódio da Torre de Babel (Gn 11:1-8), a história da Criação acabou se convertendo em lendas que, embora conservassem alguns fatos, incorporaram elementos mitológicos (os vários deuses, a deificação de elementos naturais, como o caos, os céus, as águas, etc., e a atribuição de personalidade egoísta a esses deuses em conflito que criaram o homem). Pela sua simplicidade narrativa, ordem seqüencial e visão de propósito, a narrativa bíblica diverge de outros textos de mesma tradição literária, sendo ímpar.

“Além disso, para os cristão, é substancial que o próprio Jesus declare crer numa criação em seis dias (por exemplo, Mt 19:4, 5). Se acreditamos nEle, temos de reconhecer Sua palavra como autoridade final em toda questão.

“O teólogo Ribeiro, da PUC, afirma: ‘Eu sinceramente nem sei se os povos semitas antigos tinham essa noção da criação do Universo inteiro a partir do princípio. Para eles, a criação significava provavelmente a criação de sua própria cultura, de sua própria civilização. O que ficava fora dos muros da cidade ou dos campos cultivados perto dela era considerado o caos.’ É claro que essa afirmação é facilmente desbancada pelo texto hebraico (Gn 1 e demais capítulos em sequência). Além disso, a criação apresentada em Gênesis é um desdobramento do capítulo 1 e não uma narrativa rival. A ênfase recai na criação do ser humano e na unidade familiar; por isso, o nome utilizado para Deus é Iahweh, evocando um Deus pessoal, interessado em se relacionar com o homem que cria (enquanto Elohim designa o Criador, de forma mais geral). Não há oposição, mas ênfase.

“Se mudança de estilo literário implica em mudança de autor, então o que dizer do caso de Fernando Pessoa ou de Umberto Eco, ambos autores contemporâneo que recorrem a mudanças de estilo seguindo propósitos definidos? É muita má vontade acreditar numa contradição bíblica dessa natureza – afinal, se o caso fosse esse, um editor ou conciliaria as narrativas ou apresentaria aquela que lhe parecesse a mais confiável… No demais, os estudiosos partidários da teoria documental não chegam a um consenso sobre que partes do Pentateuco foram escritas por quem, dando um caráter arbitrário às suas listas de autores e trechos que teriam escrito (cada autor tem virtualmente a sua).

“Em suma, não há razões plausíveis para descrer do texto ou imaginar contradições; apenas, por questão de opinião, alguns preferem, contrariando as evidências, seguir essa linha.”