Entre desenhos animados e sessões mediúnicas

leaoNa semana passada fomos invadidos pelos apelos da mídia referentes ao remake em computação gráfica ultrarrealística de “O Rei Leão”, sucesso da Disney de 1994, que angariou na época quase 1 bilhão de dólares e definiu o renascimento daquele estúdio para filmes de animação. Aproveitando o sucesso, vários produtos estão sendo lançados, ensejando o interesse do público no assunto. Parques temáticos, promoções em lanchonetes de fast-food e desenhos derivados – chamados de spin-offs – são idealizados para incrementar os lucros do estúdio de animação.

Desde o anúncio do novo “O Rei Leão”, já vinham sendo lançados alguns produtos, e alguns deles se tornaram mais evidentes durante a semana passada. Chamou a atenção a série intitulada “A Guarda do Leão”, exibida na plataforma digital Netflix e canais a cabo, pela sua premissa, em que mensagens de conteúdo não cristão são passadas às crianças.

A ideia básica é que Kion, filho mais novo de Simba, se torna detentor do “rugido do Leão”, uma capacidade na qual ele incorpora o rugido dos reis ancestrais do reino da pedra, juntamente com um forte vento. No céu, junto com essa incorporação, aparecem nas nuvens a imagem de quatro leões. Logicamente que o desenho é entremeado de mensagens positivas de inclusão e amizade. Ele escolhe cinco amigos para recompor a Guarda do Leão, que não são mais leões. Já no segundo episódio Kion fala com seu avô, Mufasa, ao mesmo estilo visto no Rei Leão, e tudo continua. Entretanto, a questão se torna muito aberta na segunda temporada. Ushari, uma serpente, convence as hienas de que elas precisam convocar o espírito de Scar, o leão morto no fim de “O Rei Leão” (pelas próprias hienas). E, assim, com uma trama que envolve médiuns (é deixado bem claro que Rafiki, o mandril que parece ser um ancião/conselheiro do reino é, na verdade, um médium, assim como sua aprendiz Maniki – que podem evocar espíritos dos bons e dos maus, finalmente Scar emerge, não dos céus, mas da lava da terra.

São inegáveis as semelhanças com outras histórias, desta vez de caráter bíblico. A serpente, Satanás, foi o primeiro a promover a mentira da imortalidade da alma (Gênesis 3:4). E a cena da invocação de Scar lembra de maneira muito próxima o relato da invocação da Pitonisa de Endor, em que um falso espírito aparentando ser Samuel, saindo da terra foi falar com Saul.

Talvez o pior de tudo nesse contexto é a reação de alguns cristãos, incluindo líderes religiosos, a toda a história expressa em “O Rei Leão”. Análises entusiasmadas, querendo tirar lições morais ou até fazendo paralelos entre os personagens do filme e a Bíblia e o plano da Redenção. Alguns comparam Mufasa a Jesus, Rafiki a um cristão inspirado, Scar ao diabo, e assim por diante. Tudo isto com a chancela subjacente ao filme, como uma fonte aprovada e instrutiva para todos. O que devemos levar em conta é que qualquer história deve ser analisada com base na sua premissa ou mitologia. Ou, em última análise, dentro do contexto da mensagem que os autores licenciados gostariam de passar. Neste caso, o que temos claro é que, embora o Rei Leão tenha realmente lições morais, elas são dadas dentro de um meio espiritualista, em que os espíritos podem ser os “guias” para os vivos ou, no caso de “A Guarda do Leão”, espíritos inferiores podem ser antagonistas. E esse relato, da maneira como é passado, se adequa perfeitamente à ideologia espírita.

Mas não conseguimos diferenciar uma coisa de outra? Ou pode ser possível apreciar “O Rei Leão” sem ser afetado pelos pontos negativos?

Entendo que temos o livre arbítrio. Mas, ao mesmo tempo, cada “recomendação” expõe todo pacote dessa mitologia aos espectadores mais incautos, que são crianças e adolescentes. Ou alguém acha que o juvenil que vir o filme sendo recomendado por religiosos ou pelos pais não achará automaticamente recomendada a mesma série de desenhos da mesma produtora em outras plataformas?

Nesses momentos, como pai, só posso apelar que devemos manter cuidado com aquilo que permitimos que entre em nossas casas. Analisar o que eles veem previamente, ou pelo menos ao lado deles. E pedir orientação de Deus para servir o melhor aos nossos filhos.

(Everton Padilha Gomes é médico e doutor em cardiologia pela USP)