Duas faces de uma mesma moeda?

Members of the clergy lay hands and pray over Republican presidential nominee Donald Trump at the New Spirit Revival Center in Cleveland HeightsEnquanto acariciamos nossas polarizações políticas e religiosas, aproximações impensáveis ocorrem nos bastidores

Antes que alguém tire conclusões precipitadas ou me interprete mal, gostaria de revelar que eu mesma venho me impressionando com o que vou descrever. Cheguei a pensar se seria exagero da minha parte; se estaria supervalorizando acontecimentos ou imaginando coisas além do que os fatos são em si. Eu não sei quanto a você, mas, para mim, já está mais que saturada a polarização das narrativas políticas. Polarização que se estendeu à igreja, dividindo o pensamento religioso também. Tenho buscado me poupar da superficialidade das análises, que, ao mesmo tempo e ironicamente, são tão carregadas no quesito ofensas e afrontas pessoais.

É surpreendente ainda que, em muitos casos, um leigo sem qualquer compreensão escatológica consiga fazer uma leitura mais precisa do momento atual do que cristãos ensandecidos por suas preferências quase passionais (veja o livro O Povo Contra a Democracia, de Yascha Mounk).

Não estaria na hora de deixar de lado o embate que nos leva ao posicionamento de direita ou esquerda, conservador ou progressista, liberal ou tradicional? Será que não há coisas mais relevantes para as quais nosso olhar deveria se voltar?

Saiba que enquanto você se afasta das pessoas, talvez amigos de longa data, por questões que fogem ao seu controle, aproximações impensáveis de ambos os lados ocorrem nos bastidores da História.

The Family – democracia ameaçada

 Se você ainda não viu, está aí uma série/documentário que vale a pena ser assistida. Disponível na Netflix e com apenas cinco capítulos, o conteúdo é, no mínimo, intrigante. Evidentemente, devemos aplicar o senso crítico-comparativo a tudo que vemos, ouvimos e lemos. Longe de mim colocar todas as minhas fichas numa produção audiovisual. Mas não dá para negar que o documentário tem uma base, de certa forma, sólida, afinal ela é resultado da experiência pessoal do jornalista Jeff Sharlet, que escreveu dois livros a respeito de uma fraternidade para homens (na qual ele se infiltrou), revelando uma aliança coletiva que transforma Jesus em uma ferramenta de poder político.

O jornalista, que traz à tona a tal fraternidade ou confraria, como é chamada, explica que a liderança da instituição tem por objetivo separar e doutrinar jovens de boa reputação para que sejam engajados futuramente no meio político. A família, como a confraria é também considerada, tem o papel de formar novos bons líderes que sejam capazes de articular com sabedoria o cristianismo na política.

Na verdade, os líderes da confraria, segundo o documentário, acreditam que o mundo só vai melhorar quando os governantes fizerem a “vontade de Deus”, e para isso é necessário levar os políticos a se envolver com Cristo, diminuindo a distância entre Estado e religião.

As implicações acabam sendo muitas, mas para Jeff Sharlet – o jornalista infiltrado –, o maior problema estaria na ameaça à democracia. Ameaça porque, conforme a confraria cresce e sua influência se espalha pelo mundo, mais governantes tendem a aderir ao cristianismo, contudo, não de forma genuína, mas como instrumento de controle, perda do aspecto laico e manipulação da escolha popular pelos representantes legais das nações.

“A família” deseja, na perspectiva do jornalista, fomentar pautas e agendas de interesse conservador-cristão no meio político. Mas o que chama a atenção é que os membros da confraria não são exatamente de extrema-direita. Eles são, sim, a favor a família tradicional – homem e mulher, entre outras coisas –, mas conseguem facilmente dialogar com diversas representatividades, tentando minimizar desigualdades sociais e econômicas, além de almejar a promoção da paz mundial.

Reuniões anuais – National Prayer Breakfast – contam com a presença de estadistas de todo o mundo para, juntos, comer e orar. O evento é ainda uma ótima oportunidade para a troca de contatos que, na maioria das vezes, tornam-se negócios lucrativos.

Sua filosofia se fundamenta no alcance, primeiro, de líderes mundiais, para que eles, após alcançados, governem de modo a influenciar o restante da população. Líderes políticos cristãos inevitavelmente conduzirão a sociedade nessa direção. Contudo, o político cristão não precisa necessariamente ser um profundo conhecedor da Bíblia. A Bíblia é menos importante do que o nome de Jesus, o qual se torna quase que um amuleto.

Para tanto, a confraria sustenta o discurso de que o poder é predestinado e, por isso, o governante é um escolhido de Deus.

Os pastores de Trump em Brasília

Antes mesmo de ver o documentário “The Family”, estive entretida com notícias veiculadas por outras mídias a respeito da chegada dos chamados “pastores de Trump” ao Brasil. Mas do que isso se trata, afinal? Bem, tanto o texto do jornal El País, intitulado “Os pastores de Trump chegam a Brasília”, quanto o que foi publicado pelo blog Outras Mídias, intitulado “Transicionais da fé chegam ao Brasil”, abordam a chegada de cristãos americanos cuja missão seria evangelizar o congresso nacional brasileiro.

A ideia é que, a partir do alto escalão político de Brasília, seja possível encontrar apoio para as agendas estadunidenses, cujos vieses passem pela visão conservadora evangélica.

Quem encabeça a jornada é Ralph Drollinger, ex-jogador de basquete e fundador do Capitol Ministries, que desde 1996 trabalha para criar discípulos de Jesus na arena política do mundo todo.

Sendo assim, Drollinger procura estreitar relações com políticos de vários países a fim de evangelizá-los. Com o lema “first the firsts”, ou seja, primeiro os primeiros, ele acredita que o evangelho deve começar de cima para baixo: se os líderes das nações se converterem ao evangelho, as demais camadas sociais seguirão na mesma direção. Dessa forma, seria possível construir, ainda que não perfeitamente, uma gestão que realize a vontade de Deus – tipo de conceito muito semelhante ao apresentado pelo documentário “The Family”.

Até 2010, Drollinger atuava mais eficazmente no perímetro estadual. Mas em 2017 ele conseguiu avançar e muito: passou a coordenar estudos bíblicos para membros do governo Trump. Com encontros semanais, o mais alto nível da política americana, incluindo vice-presidente, secretário de Estado e outros, já participou das reuniões.

Personalidades importantes da política mundial, cuja influência nas relações exteriores é indiscutível, já oraram e estudaram a Bíblia com o líder da Capitol Ministries.

Engana-se quem pensa que o aprendizado fica restrito ao local e momento do ensino. Fora dali o evangelho se torna, muitas vezes, prático nas decisões governamentais. Não raramente, trechos bíblicos são incluídos em discursos políticos e diplomáticos para a explanação e explicação de medidas que poderiam parecer controversas. Com um bom apelo às Escrituras, busca-se justificar medidas de modo que elas não sejam questionadas, uma vez que estariam respaldadas pelo fundamento bíblico. O apoio à guerra e outras ações radicais, por exemplo, podem claramente ser encontrados na Bíblia, segundo a interpretação de Drollinger.

Agora, Drollinger, que já esteve em toda a América do Sul e na América Central com o mesmo ideal, chega ao Brasil para progredir em sua tarefa, segundo ele, “divina”. E para isso já conta com a ajuda do pastor Raul José Ferreira Jr., da Igreja Batista Vida Nova, como responsável por conduzir estudos bíblicos no Senado e na Câmara.

Mas não para por aí! Seu objetivo de evangelizar políticos para Cristo é um pouco mais ousado: estudar a Bíblia com o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros. Assim, a visão do cristianismo aplicado à política e à legitimação da direita pela Bíblia será mais completa no Brasil e poderá, em longo prazo, se estender a toda a nação.

Duas faces da mesma moeda

Eu sei, eu sei… quando um cristão vê um parlamentar orando fica profundamente emocionado. É como se agora as coisas realmente pudessem entrar nos eixos, afinal, “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” (Salmo 33:12). Ainda mais se formos comparar tal panorama com o cenário do qual estamos tentando sair, de muita libertinagem e de ideologias que apoiam estilos de vida que não condizem com a orientação bíblica.

Talvez traumatizados com o que a sociedade se tornou, passamos a demonizar tudo aquilo que parece nos distanciar da moral, dos bons costumes e da virtude. Naturalmente, isso faz sentido, afinal, ninguém em sã consciência deseja se desviar do bom caminho.

Contudo, pouco senso crítico tem sido usado para avaliar o outro extremo. Como assim? Se o governo nega a Deus e apoia ideologias muito liberais, combatemos assustados. Mas se o governo se reúne para estudar a Bíblia e orar, aplaudimos? É correta essa percepção?

Bem, por um lado é normal que queiramos que nossos governantes busquem a Deus para ser bons gestores. A própria Bíblia incentiva que oremos pelos líderes: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” (1 Timóteo 1:1, 2). Porém, não podemos parar apenas aí. Os eventos finais da história da Terra nos convidam a ampliar nossa capacidade de interpretar os acontecimentos, todos entretecidos perfeitamente conforme as profecias apontam.

Se, por um lado, não devemos apoiar governos e ideologias que menosprezam a Palavra de Deus, por outro, não podemos nos iludir com governos que utilizam a Bíblia no modo texto fora de contexto.

Não podemos afirmar que os líderes políticos que estudam a Bíblia não o façam sinceramente. Mas, também, não podemos nos esquecer do que foi predito a respeito da reaproximação do Estado com a Igreja (Apocalipse 13:15). “Os protestantes dos Estados Unidos serão os primeiros a estender as mãos através do abismo para apanhar a mão do espiritismo; estender-se-ão por sobre o abismo para dar mãos ao poder romano; e, sob a influência desta tríplice união, este país seguirá as pegadas de Roma, desprezando os direitos da consciência” (O Grande Conflito, p. 588).

E mais: “Quando as principais igrejas dos Estados Unidos, ligando-se em pontos de doutrinas que lhes são comuns, influenciarem o Estado para que imponha seus decretos (Apocalipse 13:16,17; 17:3, 13) e lhes apoie as instituições, a América do Norte protestante terá então formado uma imagem da hierarquia romana, e a aplicação de penas civis aos dissidentes será o resultado inevitável” (O Grande Conflito, p. 445).

Talvez você esteja pensando que isso é muito alarmista, afinal a Declaração da Independência e a Constituição dos Estados Unidos garantem liberdade religiosa e, por sua vez, de consciência. Inclusive, “a Magna Carta estipula que ‘o Congresso não fará lei quanto a oficializar alguma religião, ou proibir o seu livre exercício’, e que ‘nenhuma prova de natureza religiosa será jamais exigida como requisito para qualquer cargo de confiança pública nos Estados Unidos’” (O Grande Conflito, p. 386).

Mas saiba que o presidente Donald Trump disse em 2017, por ocasião do National Prayer Breakfast, que destruiria a Emenda Johnson, a qual impede a aproximação de igreja e Estado. Não é à toa que ele é considerado o presidente norte-americano mais pró-evangelho da História.

É verdade que na atualidade lidamos com a valorização da diversidade, da pluralidade dos conceitos, filosofias e religiões. Parece improvável o erguimento de um pensamento coletivo uniforme. Mas também muitos esforços são feitos a fim de que se estabeleçam diálogos entre os povos e que as religiões se comuniquem em prol da paz mundial (assim como vemos nos exemplos citados anteriormente: “The Family” e Capitol Ministries). É por isso que caminhamos na busca pelo apoio de temas que sejam de comum acordo e bons para todos. Mas isso não é bom? Nem tanto. Já parou para se perguntar qual poderia ser o ponto de convergência desse acordo?

Seguramente a guarda do domingo. O descanso dominical agrada a “gregos e troianos”. De um lado, é um importante símbolo da supremacia católica, que assume, por meio de sua autoridade autoconcedida, ter mudado o dia de guarda do sábado bíblico, o sétimo dia da semana, para o domingo, o primeiro dia da semana. De outro, é o dia de guarda da maioria esmagadora das religiões protestantes. Para os ecologistas, o descanso dominical pode ajudar no cuidado do planeta, por meio da diminuição da emissão de poluentes e da geração de lixo. Para sindicalistas, uma parada aos domingos atende às necessidades de descanso do trabalhador e ao seu direito de recreação e entretenimento.

Ellen White escreveu: “Os dignitários da Igreja e do Estado unir-se-ão para subornar, persuadir ou forçar todas as classes a honrar o domingo. A falta de autoridade divina será suprida por legislação opressiva. A corrupção política está destruindo o amor à justiça e a consideração para com a verdade; e mesmo na livre América do Norte, governantes e legisladores, a fim de conseguir o favor do público, cederão ao pedido popular de uma lei que imponha a observância do domingo. A liberdade de consciência, obtida a tão elevado preço de sacrifício, não mais será respeitada. No conflito prestes a se desencadear, veremos exemplificadas as palavras do profeta: ‘O dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao resto da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo’ (Apocalipse 12:17).”

Enquanto criamos desafetos nas redes sociais por causa de posicionamento político, esquecemo-nos de que Jesus deixou bem claro que Seu reino não é daqui: “Disse Jesus: ‘O Meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os Meus servos lutariam para impedir que os judeus Me prendessem. Mas agora o Meu Reino não é daqui’” (João 18:36).

Enquanto usamos nosso sagrado tempo defendendo lados aparentemente antagônicos, mas que, na verdade, são faces de uma mesma moeda, o preparo para um ajuntamento, ainda que sorrateiro, passa a abranger quase o mundo todo: “Os que desejam salvar-se pelos próprios méritos, e os que desejam ser salvos em seus pecados” (O Grande Conflito, p. 572). Cada lado da mesma moeda distorcendo a Bíblia a fim de que a Palavra se curve ao populismo dos seus ideais.

Felizmente, tudo isso nos encoraja a crer que hoje o fim está mais próximo do que ontem. A promessa de Deus é de que ninguém fará sua escolha sem antes saber com que está lidando. Os dias que virão não serão fáceis, mas serão cheios de poder para aqueles que desejam ser usados como instrumentos de salvação!

Nem cara nem coroa! As polarizações e suas preferências fazem parte de uma mesma moeda que, de lado algum, representa a verdadeira vontade de Deus. O foco em um dos extremos acaba por atrapalhar nosso entendimento sobre o verdadeiro sentido da questão.

É por isso que nossa confiança deve ser totalmente colocada na Bíblia Sagrada e nos méritos de Cristo, para que Ele nos preserve fiéis quando o mundo achar que está em paz e segurança, mas, na verdade, está à beira de repentina destruição!

(Agatha Lemos é jornalista, pós-graduada em Teologia, mestre em Ciência e uma entusiasta de temas escatológicos)

Referências:

Bíblia online: Nova versão Internacional. Acesso: https://www.bibliaonline.com.br/nvi/index

DIP, Andrea; VIANA, Natália. “Os pastores de Trump chegam a Brasília.” El País, 12/8/2019. Acesso: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/12/politica/1565621932_778084.html

SHARLET, Jeff. The Family. Netflix, agosto de 2019.

WHITE, Ellen Gold. O grande conflito. Casa Publicadora Brasileira. Tatuí, SP. Acesso: http://ellenwhite.cpb.com.br/livro/index/1/563/581/ameaca-a-consciencia