A oferta de Caim, a falsa adoração e a autojustificação

caim abelPor que Deus rejeitou a oferta de Caim, em Gênesis 4?

Em Gênesis capítulo 4, encontramos o triste relato do primeiro homicídio da história humana, quando Caim mata o irmão Abel. No livro Patriarcas e Profetas, Ellen White comenta: “Caim veio perante Deus com íntima murmuração e incredulidade, com respeito ao sacrifício prometido e necessidade de ofertas sacrificais. Sua dádiva não exprimia arrependimento de pecado. Achava, como muitos agora, que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus, confiando sua salvação inteiramente à expiação do Salvador prometido. Preferiu a conduta de dependência própria. Viria com seus próprios méritos. Não traria o cordeiro, nem misturaria seu sangue com a oferta, mas apresentaria seus frutos, produtos de seu trabalho. Apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina. Caim obedeceu ao construir um altar, obedeceu ao trazer um sacrifício, prestou, porém, apenas uma obediência parcial. A parte essencial, o reconhecimento da necessidade de um Redentor, ficou excluída.”

Escreveu também: “Esses irmãos foram provados, assim como o fora Adão antes deles, para mostrar se creriam na Palavra de Deus e a obedeceriam. Estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus. Sem derramamento de sangue não poderia haver remissão de pecado; e deviam eles mostrar sua fé no sangue de Cristo como a expiação prometida, oferecendo em sacrifício o primogênito do rebanho. Além disso, as primícias da terra deviam ser apresentadas diante do Senhor em ação de graças.

“Os dois irmãos de modo semelhante construíram seus altares, e cada qual trouxe uma oferta. Abel apresentou um sacrifício do rebanho, de acordo com as instruções do Senhor. ‘E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta’ (Gn 4:4). Lampejou o fogo do Céu, e consumiu o sacrifício. Mas Caim, desrespeitando o mandado direto e explícito do Senhor, apresentou apenas uma oferta de frutos.”

O assunto é bem claro: Caim procurou se autojustificar ao desprezar o sangue do Cordeiro. Para ele, Deus tinha que aceitar a oferta que ele trouxesse, do jeito dele. O que importava era a vontade e a disposição do adorador, não a vontade do Ser adorado. Para alguns leitores mais atentos da Bíblia, o verso 7 desse capítulo é o mais problemático. Por isso, procurando deixar tudo mais claro, o pastor e mestre em Teologia Eleazar Domini oferece a seguinte explicação/exegese com base no texto original hebraico:

“O texto diz: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo’ (Gn 4:7). De que ‘porta’ o texto está falando? Muitos interpretam esse texto da seguinte forma: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta [do coração]; o seu desejo [desejo do pecado] será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo [tem que dominar o pecado] (Gn 4:7), o que dá margem até mesmo para interpretações perfeccionistas. A questão toda é que chatat é uma palavra feminina, e os sufixos utilizados no verso são masculinos. Ou seja, há uma aparente contradição, se traduzirmos chatat por ‘pecado’. Vejamos como está no hebraico: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta [veremos que porta é essa]; o desejo dele será para ti, e sobre ele dominarás’ (Gn 4:7). No hebraico, está literalmente assim. Por isso, aqui cabe uma exegese bem-feita, para não errarmos no que o texto está dizendo:

“1. Não somos capazes de dominar o pecado sozinhos. Já há um grave erro teológico aqui. Isso é perfeccionismo puro. Vencer o pecado não cumpre a mim, cumpre a Cristo por mim e em mim.

“2. Uma análise mais acurada do texto demonstra que, como disse antes, o termo chatat pode ser, e é mais bem traduzido nesse texto por oferta pelo pecado e não ‘pecado’. Porque, se não, como responder a esta pergunta: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta; o desejo dele [Dele quem? Se chatat é feminina, quem é esse ele?) será para ti, e sobre ele [ele quem?] dominarás’ (Gn 4:7).

“Logo, há um erro gravíssimo de tradução que precisa ser revisto. Mas, se analisarmos o texto como ele está, precisaremos buscar o antecedente masculino mais próximo, que é Abel, no verso 4. Logo, o ele do texto não tem que ver com chatat, mas com Abel. E por que Abel? O que isso tem que ver com a história?

“Ao Deus aceitar Abel e rejeitar Caim, é como se Abel estivesse herdando o patriarcado, a herança, a primogenitura. Ninguém rejeitado por Deus seria escolhido para ser o próximo patriarca depois de Adão. Daí o ódio de Caim contra seu irmão.

“Agora vamos a uma tradução mais correta do texto: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que uma oferta pelo pecado [palavra feminina] jaz à porta [do jardim, não do coração; era na porta do jardim que Adão e Eva ofereciam seus holocaustos, segundo Ellen White]; o desejo dele [de Abel, que é o antecedente masculino mais próximo] será para ti, e sobre ele [Abel] dominarás’ (Gn 4:7).

“As expressões ‘desejo’ e ‘domínio’ têm as mesmas nuances de quando Deus diz a Eva que o desejo dela seria para o marido e ele dominaria (no sentido de ele ser o cabeça da casa, o cabeça da mulher). Nesse caso, se Caim voltasse e fizesse o que Deus mandou, o desejo de Abel seria para ele outra vez e ele dominaria sobre Abel de novo, ou seja, Caim voltaria a seu status de primogênito e seria o chefe da família, dominando sobre Abel. Mas ele não aceitou isso e matou o irmão. Detalhe: a Tradução Etíope traz essa mesma visão.

“Resumindo: o problema de Caim foi oferecer algo que Deus não havia pedido. Ofereceu algo diferente do que Deus solicitou. Aqui está um princípio básico para a adoração: adoração não é o que eu quero dar para Deus; adoração é o que Deus pede de mim. Nem sempre o que eu quero dar, mesmo que de coração, é o que Deus está solicitando. Caim entregou a oferta errada e por isso foi rejeitado. Não foi rejeitado por outro motivo, apenas por esse. É claro que foi um fruto de seu coração rebelde, e por isso Deus o rejeitou, e depois rejeitou a oferta dele. Mas a rejeição ocorreu por causa da oferta errada. Não se pode rejeitar o Cordeiro impunemente.”

(Se quiser aprofundar esse assunto, leia “At the door of Paradise: A contextual interpretation of Genesis 4:7”, publicado em Biblische Notizen 100 (2000): 45-59; Joaquim Azevedo, ex-professor do Salt-Iaene, é PhD em Religião pela Andrews University e diretor do Departamento de Religião da Southwestern Adventist university, Keene, Texas, USA)