Terra plana: resposta ao Afonso Vasconcelos

afonsoRecentemente, publiquei em meu canal no YouTube um vídeo com o título “Desafio aos terraplanistas”, no qual ofereço uma resposta a um engenheiro que me escreveu em privado questionando o formato redondo (globo) da Terra. Em respeito a esse terraplanista, pedi que meu amigo astrofísico e engenheiro de software Eduardo Lütz escrevesse alguma coisa, e ele se empolgou: redigiu um documento de 118 páginas, disponível aqui. O único terraplanista de destaque que afirma ter lido o artigo do Lütz foi o geofísico Afonso Vasconcelos, cujo canal é citado por onze de cada dez terraplanistas brasileiros. Agradeço-o por ter dedicado tempo para analisar um material que foi preparado com dedicação e de maneira respeitosa. Que outros defensores da Terra plana sigam esse exemplo do Afonso.

Não conheço pessoalmente o geofísico youtuber, mas o respeito como ser humano e só resolvi responder ao vídeo dele porque, em lugar de começar analisando os argumentos técnicos do Lütz, ele tenta descredibilizar tanto a mim quanto ao meu amigo físico, num típico exemplo de argumentação ad hominem, em que se ataca a pessoa, deixando suas ideias em segundo plano. Há vários vídeos sobre Terra plana em meu canal (confira), e em nenhum deles me dirijo a pessoas, tratando unicamente de ideias. Esta será a única vez que abro uma exceção.

Farei a seguir uma breve análise do vídeo de 31 minutos em que ele comenta a introdução do texto do Lütz:

  1. Logo aos 10 segundos de vídeo, ele projeta na tela os dizeres “físico ‘criacionista’ que defende o modelo da bola molhada giratória”. Por que colocar a palavra “criacionista” entre aspas?Aos 7’10”, ele afirma que Lütz “se diz criacionista”, e em seguida sugere que ele seria “criacionista nutella”. Desde os anos 1990, Eduardo Lütz tem defendido o criacionismo bíblico como poucos têm feito. Ele apresentou inúmeras palestras, escreveu vários artigos sobre criacionismo e temas correlatos. Eu sou testemunha pessoal da grande sabedoria e da humildade desse cientista servo de Deus. Não é justo chamá-lo de criacionista entre aspas, quando os que o conhecem sabem que ele é um criacionista com C maiúsculo, que decidiu dedicar a vida a essa causa muitos anos antes de existirem youtubers.
  1. Ao 1’14”, Afonso diz que eu “odeio” a Terra plana. Na verdade, tenho aversão (essa é a melhor palavra) a qualquer tipo de pseudociência, como astrologia, parapsicologia, certas “medicinas alternativas”, e o terraplanismo entra nesse pacote. Assim como tenho aversão por heresias e dogmas antibíblicos que posam de bíblicos. Por quê? Pelo potencial que essas coisas têm de cegar as pessoas e as afastar da verdadeira ciência e da verdadeira teologia. Além disso, atraem o escárnio e o desprezo à Bíblia, que nada tem que ver com essas ideias esdrúxulas. Prova disso é que o YouTube já está restringindo vídeos de desinformação e considerados conspiratórios, como os que tratam da Terra plana (confira). Podemos imaginar que essa restrição acabará sendo estendida aos vídeos criacionistas, por falsa associação. Parabéns, terraplanistas!
  1. Ao 1’29”, Afonso mostra o meu vídeo com o desafio aos terraplanistas, que estava com “apenas” 7,1 mil visualizações. De fato, esse vídeo não está entre os mais visualizados do meu canal, talvez porque as pessoas que me seguem estejam preocupadas com coisas mais importantes. Afonso parece tentar medir a relevância do meu conteúdo pelos views, já que em seguida diz que meus vídeos sobre terraplanismo “não traz[em] conhecimento”, embora depois elogie o vídeo de outra pessoa, com exatamente a mesma quantidade de visualizações…
  1. Aos 4’36”, Afonso começa a falar sobre o currículo do Eduardo Lütz, que há muitos anos trabalha como engenheiro de software e faz tempo que não leciona, não tendo, portanto, o Currículo Lattes. Incensado pelos terraplanistas, o filósofo Olavo de Carvalho também não tem Currículo Lattes. Só pra lembrar…
  1. Aos 5’55”, Afonso reclama que eu não apresentei o e-mail original que deu origem ao texto do Lütz, sugerindo que teríamos inventado a mensagem. Não revelei o nome do engenheiro pelo mesmo motivo que até hoje me levou a nunca divulgar nomes de pessoas que me procuram em privado. Não seria ético revelar a identidade do indivíduo. Em lugar de se ater aos argumentos da resposta do Lütz, Afonso continua se esforçando para lançar dúvidas sobre nosso conhecimento e idoneidade. Isso é lamentável. Ele induz seus seguidores a lerem o material com desconfiança e preconceito.
  1. Aos 7’48”, Afonso considera “top” o autor do e-mail pelo fato de ser engenheiro, mas não pergunta pelo Lattes dele nem sugere que ele seja “nutella” ou coisa parecida. Basta ser terraplanista para o indivíduo já ser respeitado pelo geofísico, independentemente do currículo.
  1. Aos 7’55”, o youtuber terraplanista levanta a primeira cortina de fumaça, detendo-se em um detalhe insignificante: o fato de Lütz ter dito que o engenheiro se converteu ao terraplanismo. E pergunta: “Vocês se converteram ao criacionismo?” De minha parte, respondo sem hesitar: sim, convenci-me e converti-me. Fui evolucionista até minha juventude, até que conheci um modelo das origens muito melhor e mais coerente, que integra a boa ciência e a boa teologia. Abracei o criacionismo no começo dos anos 1990 e desde então tenho feito o que posso para divulgar esse modelo conceitual. Mas Afonso gasta tempo considerável para tentar mostrar que o terraplanismo não é filosofia nem religião, comparando-o a áreas de pesquisa como o desenvolvimento de cristais e a nanotecnologia, para desespero dos que lidam com essas coisas reais. Afonso nos chama de “monstruosamente ignorantes” e mal-intencionados pelo fato de Lütz ter usado a palavra “conversão”, e nos compara a “tartarugas”.
  1. Aos 12’34”, a segunda cortina de fumaça é levantada e vai ocupar o restante do vídeo: Afonso induz seus seguidores a pensar que Lütz afirmou no texto que as escolas só ensinam verdades, quando o que ele disse, em resposta ao engenheiro, foi, obviamente, que ensinam a verdade de que a Terra é um globo. Afirmar algo diferente disso é pior do que nos chamar de tartarugas sem Currículo Lattes.
  1. Aos 13’05”, Afonso vem com a pergunta “O que é a verdade?”, e me desafia a gravar um vídeo explicando o que para mim é a verdade. Ele diz que, para ele, a verdade é a Bíblia (mais especificamente a Torá). E eu respondo que, para mim, obviamente, também é a Bíblia (João 17:17), e, mais específica e especialmente, Aquele de quem as Escrituras dão testemunho e que de Si mesmo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Se pesquisasse em meu canal, o geofísico descobriria que gravei 26 vídeos de uma série intitulada “O Resgate da Verdade” (confira), na qual exalto a Bíblia Sagrada e suas doutrinas. Depois de me desafiar a fazer o que já fiz, Afonso começa a tergiversar, dizendo que a escola não ensina a Bíblia e, portanto, não ensina a verdade. Que nas escolas se ensina a ideologia de gênero e os alunos são estimulados a ouvir funk. Isso não tem absolutamente nada a ver com o que o Lütz escreveu, já que o assunto do documento “Ajuda a um terraplanista” é o terraplanismo. No entanto, esse passa a ser o tema do vídeo do Afonso até 30’35”. Ou seja, em um vídeo de 31’06”, ele gasta 17’03” para falar de algo que foge totalmente da discussão, desperdiçando quase 55% do tempo do vídeo – e do nosso tempo. Isso se caracteriza como a conhecida “falácia do espantalho”, “argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate e a substitui por uma versão distorcida, que representa de forma errada essa posição. A falácia se produz por distorção proposital, com o objetivo de tornar o argumento mais facilmente refutável, ou por distorção acidental, quando o debatedor que a produz não entendeu o argumento que pretende refutar. Nessa falácia, a refutação é feita contra um argumento criado por quem está atacando o argumento original; não é uma refutação do próprio argumento original. Para alguém que não esteja familiarizado com o argumento original [a maioria dos seguidores do Afonso, que certamente não leu o texto do Lütz], a refutação pode parecer válida, como refutação daquele argumento” (fonte).
  1. Aos 17’36”, Afonso mostra rapazes vestidos de saia e meninas usando gravatas em uma escola do México, para então sugerir que os responsáveis por isso são a “bola molhada giratória”, o “darwinismo” e “cia”. O que a Terra redonda (globo) tem que ver com essas questões morais? Por que tentar relacionar uma coisa com a outra? Eu jamais iria sugerir que terraplanistas são imorais por adotarem essa ideia pseudocientífica.
  1. Aos 20’46”, ele sugere que sinônimo de verdade para o Lütz e para mim seria a NASA, e para ele, a Bíblia; e dá uma risada de deboche. Depois pergunta se eu faço vídeos contra o darwinismo “só por causa dos cliques”. Creio que nem vale a pena responder esse tipo de escárnio. Melhor manter mais alto o nível da discussão.
  1. Quando cheguei aos 22’40”, uma curiosidade me veio à mente: Será que Afonso guarda o sábado do quarto mandamento da Torá? Sim, porque ele afirma que toda a Bíblia serve para validar a Torá e que o Messias também veio validar a Torá. Terraplanistas costumam ser tão literalistas (até demais) com respeito às Escrituras, mas nunca os vejo defendendo o memorial da criação, o santo sábado. Bem, foi apenas curiosidade…
  1. Aos 27’28”, Afonso faz outra “pergunta espantalho” que nada tem que ver com o texto do Eduardo Lütz: “Qual o seu objetivo, quando você manda seu filho para a escola?” Então ele cita algumas ideologias típicas da educação comum, como darwinismo, comunismo e feminismo, e diz que o objetivo dele para os próprios filhos é que eles se desenvolvam como pessoas inteligentes, aprendam um ofício para ganhar o sustento e tenham uma família. Já que ele me perguntou, eu respondo: a educação que eu escolhi para meus filhos, embora não seja perfeita, tem exatamente essas qualidades que ele destaca, e se chama educação adventista.

Espero que nos próximos vídeos prometidos o Dr. Afonso se atenha estritamente às ideias e aos dados apresentados no texto do Lütz, e abandone os argumentos ad hominem e a falácia do espantalho. Creio que nós e os seguidores dele merecemos isso.

Falando em seguidores, resolvi ler alguns dos inúmeros comentários ao vídeo do Afonso, mas não avancei muito ali, pois estavam me fazendo mal. São muitas palavras desrespeitosas, arrogantes e maldosas. Pessoas que não me conhecem julgando meu caráter pelo fato de eu defender a esfericidade da Terra. Isso é cristianismo? É esse tipo de ética e respeito que o terraplanismo ensina? É por esse e outros motivos que não deixo habilitada em meu canal a função comentários – preciso manter minha saúde emocional, tenho meu trabalho (o canal e as demais redes sociais são uma atividade voluntária) e, principalmente, tenho que me dedicar à minha esposa e aos meus filhos.

Já que Afonso valoriza tanto currículos, vou publicar aqui a análise do meu amigo doutor em Física e especialista no estudo do movimento de corpos celestes do Instituto de Tecnologia de Israel, Josué Cardoso dos Santos. Segundo o Dr. Josué, Afonso usa “uma tática velha de retórica, em que você tenta desqualificar o oponente ao (1) procurar limitações na formação (como se ele fosse menos capaz que Afonso por não possuir o doutorado que ele possui), utilizando o argumento de autoridade de forma conveniente, pois quando possuem menos formação aí são ‘ignorantes’; se possuem melhor formação, aí busca-se desqualificá-los, dizendo que a formação não é importante; ou força-se alguma conexão da pessoa com conspiração; (2) desqualificar a pessoa procurando falhas na vida dela para tentar manchar a reputação, tirando a credibilidade pública dela de maneira que as pessoas já desconfiem a priori do que ela fala e não analisem friamente os argumentos (o que dizer da reputação de tantos personagens da Bíblia, como Abraão, Moisés, Davi, Salomão e Paulo? Suas terríveis falhas passadas não os impediram de dizer grandes verdades. Não é o mensageiro que torna a mensagem verdadeira, mas o conteúdo dela em si. Deus usou até mesmo ímpios para pregar verdades quando o povo de Israel estava de coração endurecido. E o próprio diabo pode dizer verdades. Além disso, lembremos que as contribuições de famosos cientistas com conexão com misticismo, como é o caso de Pitágoras e Tesla, são usadas por todos nós, inclusive terraplanistas, até hoje. Mesmo que muito do que fizeram esteja claramente ligado ao misticismo, ninguém, nem mesmo os terraplanistas, deixa de usar ou nega a validade do teorema de Pitágoras ou dos estudos sobre eletromagnetismo de Tesla); (3) usando a já citada falácia do espantalho, distorcendo as palavras da pessoa para sentidos que não foram os originais (isso é falso testemunho, segundo a Torá), para induzir o público a ter uma opinião específica sobre a pessoa; etc.”.

“Afonso se equivoca na argumentação em diversos momentos, especialmente ignorando conceitos fundamentais e básicos de física, geometria e lógica”, continua o Dr. Josué. “Adicionalmente (e infelizmente) utiliza-se de ataques pessoais que levantam suspeita contra o caráter de outras pessoas a quem não conhece, e de forma gratuita. A verdade se sustenta por si própria e o foco deve ser concentrado nos argumentos (Deus usou uma jumenta para disciplinar Balaão em Números 22). Para além disso, esse comportamento nunca foi o que Jesus apresentou em Seu trato com as pessoas, mesmo quando elas estavam tremendamente equivocadas e até mesmo mal-intencionadas. Mesmo sabendo das intenções delas, Cristo sempre foi respeitoso, buscando discutir a informação de maneira a ajudar na salvação dos outros, mostrando a verdade ensinada na Torá de maneira prática, exemplificando como devem ser e viver os que dizem crer nele. Com essa abordagem não cristã de alguns terraplanistas, desvia-se o foco, fala-se e fala-se muito de outro assunto, e depois conclui-se (dando a falsa impressão para quem não está atento) que o assunto não abordado está correto (no caso, o terraplanismo). Falar verdades sobre algo não valida que tudo o que falamos sobre outro assunto estará correto. Essa é uma falácia lógica. Um matemático cristão não sabe mais e não fará uma cirurgia melhor do que um médico não cristão só pelo fato de ele aceitar mais os ensinamentos de Jesus Cristo que o outro. Pessoas minimamente instruídas e educadas percebem isso.”

Aliás, terraplanistas não se contentam em lançar dúvidas sobre a inteligência e o caráter de “globalistas” atuais. Eles têm feito isso também com grandes nomes da ciência, como Galileu, Copérnico e Newton. Sim, porque o modelo é mais importante do que tudo, e tem que ser defendido de qualquer ideia ou pessoa que o contrarie.

Em 2014, manuseei um manuscrito original de Isaac Newton guardado no cofre da Universidade Andrews, nos Estados Unidos (foto abaixo). E há pouco mais de um ano estive na Inglaterra pesquisando a vida e obra do cientista. Visitei a Abadia de Westminster (onde ele está sepultado); a fazenda em Woolsthorpe (a 186 km de Londres), onde Newton nasceu, cresceu e viveu alguns anos da vida adulta; e outros lugares históricos. Li biografias sobre o cientista, como o livro Newton, do famoso escritor britânico Peter Ackroyd, e O Profeta Daniel, o Cientista Isaac Newton e o Advento do Messias, do Dr. Ruy Vieira (www.scb.org.br). Mas o livro que mais me impressionou foi escrito pelo próprio Newton e publicado em 1733: As Profecias do Apocalipse e o Livro de Daniel. Newton aplicou sua mente matemática ao estudo das profecias apocalípticas, chegando a conclusões bem interessantes e alinhadas com a interpretação dos grandes nomes da Reforma Protestante e também do adventismo. Vale a pena ler esse livro a fim de perceber que o grande cientista foi também um tremendo teólogo!

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Ackroyd escreveu, na página 52 de seu livro Newton, que o cientista “estava em busca da verdade eterna. Para ele não havia contradição entre ciência e teologia. Ambas eram parte de uma mesma busca. Teologia e ciência eram, igualmente, avenidas para Deus. Eram as verdadeiras chaves para o conhecimento do Universo”. Ackroyd diz que Newton tinha trinta versões e traduções da Bíblia, e estudou hebraico para poder ler os textos bíblicos originais. Portanto, os terraplanistas que o criticam precisam ainda comer muito feijão com arroz.

Em seu livro Tempo Astronômico, Histórico e Profético (www.scb.org.br), o ex-ateu Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, fundador e por quatro décadas presidente da Sociedade Criacionista Brasileira, uma das mentes mais brilhantes que conheço, escreveu que “a concepção de uma Terra esférica […] era algo incorporado ao conhecimento científico até o segundo século da era cristã e continuou presente até o décimo século. Como, então, veio a se tornar tão divulgado que, na época dos descobrimentos, não se sabia que a Terra era esférica, e se aceitava de maneira generalizada o conceito de uma Terra plana?” Em seu livro, o Dr. Ruy responde à pergunta que ele mesmo faz (e eu resumo a resposta neste vídeo).

Ah, e como já vimos que currículo é muito importante para o Dr. Afonso, vamos lá: um dos maiores criacionistas adventistas do Brasil, o Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, é engenheiro mecânico e eletricista, formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Dedicou-se à carreira docente, lecionando Mecânica dos Fluidos de 1954 a 1956, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Em julho de 1956, foi lecionar Física Técnica (nome italiano dado à cadeira de Mecânica dos Fluidos, Transmissão de Calor e Aplicações Tecnológicas) na Universidade de São Paulo (USP), Campus de São Carlos, onde fez a livre docência e tornou-se catedrático. Em 1970 assumiu a chefia do Departamento de Hidráulica e Saneamento naquela universidade, fundando a pós-graduação que é considerada a melhor na área no Brasil. Foi convidado, em 1972, a integrar a Comissão de Especialistas do Ensino de Engenharia do Ministério da Educação e Cultura, responsável pelas escolas de engenharia, currículos, formação de professores, reconhecimento de cursos, etc. Representou o MEC no Conselho da Agência Espacial Brasileira, participando de suas reuniões periódicas e empreendendo viagens por locais onde se desenvolvem atividades espaciais. Atuou como consultor do Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento, junto à Secretaria de Educação Tecnológica do MEC. Foi também diretor-tesoureiro da Sociedade Bíblica do Brasil, tendo vasto conhecimento das Escrituras Sagradas. Escreveu e traduziu muitos livros.

Evidentemente que currículo e formação acadêmica são coisas importantes, mas ideias e argumentos, independentemente de quem os tenha dito, devem ser analisados à luz da verdade, dos fatos e do bom senso. Por isso quero gastar mais algumas linhas para analisar outros vídeos e outras ideias do Dr. Afonso Vasconcelos, sendo bom, mais uma vez, afirmar que o respeito como ser humano e que reconheço a formação dele. Só que ideias são ideias, e penso ser bom que os seguidores desse importante terraplanista saibam o que ele afirma sobre outros temas.

No vídeo “A Lua: entre a provocação e a ilusão”, Afonso defende o geocentrismo, diz que o Sol tem apenas 50 km de diâmetro e está a 5.000 km de altura (2’42”), que a Lua pode ser um holograma e que, portanto, é impossível pousar nela (o que torna mentirosos os norte-americanos, os russos, os israelenses, os chineses e os indianos) (13’55”); depois ele sugere que a Lua seja um tipo de prato preso no domo sólido que, segundo os terraplanistas, recobre a Terra (14’56”).

De 15’55” a 16’56”, violando a língua hebraica e citando tradições indígenas, ele afirma que o “luminar menor” mencionado em Gênesis 1:14-16 seriam as estrelas e não a Lua. A tradução literal desses versos de Gênesis é: “E disse Deus: que haja luzeiros no firmamento [palavra que também pode ser traduzida como ‘expansão’] dos céus para fazer separação entre o dia e a noite, […] e fez Deus os dois luzeiros grandes; o luzeiro grande para dominar/governar o dia, e o luzeiro [no singular] menor para dominar/governar a noite e as estrelas [no plural].” Portanto, é impossível relacionar o “luzeiro menor” com as estrelas, como faz Afonso (leia também os Salmos 8:3; 104:19; 136:9).

De 17’15” a 17’26”, Afonso menciona os tais “corpos obscuros” invisíveis a olho nu e que seriam responsáveis pelos eclipses lunares, objetos estranhamente nunca detectados nem citados na Bíblia, mas necessários para explicar o que se torna inexplicável no modelo terraplanista: os eclipses. Em 18’45”, ele diz que ninguém garante que a Lua é uma esfera (esse é um bom momento para assistir a este vídeo do meu amigo Alexsander Silva).

Sobre os mágicos e misteriosos “corpos obscuros”, é bom que se saiba que qualquer objeto capaz de ocultar a luz do Sol pode ser facilmente observado ao ocultar também a luz de estrelas. De fato, tem-se um mapeamento detalhado de objetos do sistema solar, e muitos desses objetos podem ser observados dessa maneira, apesar de serem muito menores do que algo capaz de fazer uma sombra visível na Lua. Como geofísico, tenho certeza de que Afonso sabe disso.

No vídeo “Item fundamental para o fim dos tempos”, Afonso diz, aos 36 segundos, que é fundamental comer carne no fim dos tempos, e reforça isso aos 6’27”, afirmando ainda que os demônios têm mais facilidade de acessar a mente dos que não comem carne. Dá para levar a sério uma coisa dessas?! Inúmeras pesquisas científicas têm mostrado as vantagens de uma dieta vegetariana, tanto para o corpo quanto para a mente. Até o diabo sabe que a alimentação recomendada por Deus desde o Éden desobstrui os pensamentos e, portanto, favorece a comunhão com Deus (mas claro que o inimigo usa esse conhecimento para ajudar seus servos a serem mais saudáveis e inteligentes que os servos de Deus, pois há uma guerra em curso; assim, os primeiros ficam mais receptivos e perspicazes para usar o engano, como a serpente fez no Éden, inclusive distorcendo declarações da própria Bíblia).

Aos 3’58”, valendo-se de uma má interpretação de 1 Timóteo 4:1-3, Afonso afirma que a Bíblia manda comer carne. Nesse texto aparece a palavra grega “bromaton”, traduzida por “alimento” em praticamente todos os manuscritos antigos. A palavra é traduzida como “alimento” (e não carne) em outros textos bíblicos, como Gênesis 6:21 e 44:1; Deuteronômio 23:19; 2 Crônicas 11:11; Provérbios 23:6. A King James pode ter interpretado como “carne” um termo grego que frequentemente é traduzido como “alimento”. Afonso opta por essa interpretação e defende uma ideia que vai contra as claras orientações dietéticas originais de Deus (Gênesis 1:29).

Voltando ao vídeo do Afonso em que ele critica a introdução do documento do Lütz, aos 52 segundos ele diz que “muitos adventistas” lhe pediram para comentar o texto escrito por meu amigo físico. De fato, entre as pessoas que escreveram comentários elogiosos ao vídeo do Afonso estão algumas (não muitas) que se identificam como adventistas e terraplanistas, o que me causa muita estranheza e também tristeza.

Adventistas do Sétimo Dia “raiz” (para usar uma expressão utilizada pelo Afonso) creem que Deus usou de maneira especial Ellen White para trazer mensagens importantes para Sua igreja. Ela escreveu centenas de milhares de páginas nas quais fala sobre temas variados, como educação, psicologia, medicina, teologia e ciência. No século 19, ela (que não era física, geofísica nem astrônoma) escreveu os seguintes textos, que nos interessam especialmente neste momento:

“Deus fez o Seu sábado para um mundo esférico; e quando o sétimo dia chega para nós nesse mundo arredondado, controlado pelo Sol que governa o dia, em todos os países e regiões é o tempo para observar o sábado. Nos países em que não há pôr do sol durante meses, e em que também não há nascer do Sol durante meses, o período será calculado pelos registros mantidos” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 317; grifo meu). Gravei um vídeo comentando esse texto (confira).

“A mesma energia criadora que trouxe o mundo à existência exerce-se ainda na manutenção do Universo e continuação das operações da natureza. A mão de Deus guia os planetas em sua marcha ordenada através dos céus. Não é por causa de uma força inerente que a Terra, ano após ano, continua seu movimento ao redor do Sol, e produz suas bênçãos. A Palavra de Deus governa os elementos” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 185; grifo meu). Mais claro impossível: a Terra gira em torno do Sol e não o contrário.

Assim, para a escritora inspirada Ellen White, umas das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia e uma das escritoras norte-americanas mais respeitadas (confira), a Terra não apenas é um globo, como gira ao redor do Sol, exatamente como ensinaram as grandes mentes da ciência e da teologia ao longo dos séculos. Alguns adventistas seguidores do Afonso escreveram que eu não os represento (nunca tive essa pretensão). Ellen White também não os representa?

(Permita-me abrir um pequeno parêntesis: já que estou falando sobre um dos mais famosos terraplanistas do Brasil, creio que seja útil mencionar também outra figura que costumava – assim como o Dr. Afonso no início de seu canal – postar vídeos interessantes sobre criacionismo e design inteligente. Refiro-me agora ao físico Douglas Aleodin, que em tempos mais recentes tem deixado de lado a Teoria do Design Inteligente para falar que o homem não pisou na Lua, não deve receber vacinas e que a Terra é plana. Douglas participará em novembro do primeiro encontro de terraplanistas no Brasil, motivo que levou o fundador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente e presidente emérito da Sociedade Brasileira de Design Inteligente, o mestre em História da Ciência Enézio Eugênio de Almeida Filho, a postar em seu blog que “Douglas Aleodin não reflete a posição do Design Inteligente sobre essa questão absurda” [ou seja, o terraplanismo; confira]. Fecha parêntesis.)

Gostaria de concluir apelando aos seguidores do Dr. Afonso (na verdade, a todas as pessoas que lerem este texto) que tenham a mesma postura dos cristãos bereanos, elogiados pelo apóstolo Paulo, que escreveu: “Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram mesmo assim” (Atos 17:11). Conselho mais atual do que nunca, ainda mais neste mar de informações e desinformações em que estamos navegando hoje em dia. Não baseie suas opiniões e convicções unicamente em vídeos de internet e nas opiniões e convicções de terceiros. Saiba das coisas por si mesmo. Vá sempre à fonte e desenvolva a visão crítica.

Sabe qual seria um bom começo? Ler por si mesmo o documento escrito pelo físico Eduardo Lütz, que começou a ser tão mal analisado pelo Afonso Vasconcelos.

Bons estudos, e que o Deus da verdade conduza você à plena verdade.

Michelson Borges é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, pós-graduando em Biologia Molecular pela Universidade Cândido Mendes e autor de dezenas de livros sobre criacionismo, mídia e História (tendo um de seus livros sido traduzido para mais de dez idiomas)