Os gigantes nefilins e as pirâmides do Egito

piramideNos anos 1980, quando eu [Michelson] ainda era um adolescente ávido por conhecimento e desprovido dos antivírus mentais que só uma teologia bíblica sólida pode oferecer, li de tudo um pouco: de ficção científica, passando por histórias em quadrinhos de super-heróis a livros sensacionalistas e pseudocientíficos, como o famoso Eram os Deuses Astronautas, de Erich Von Däniken. Recheado de argumentos fantásticos sem fundamento, o livro apresenta a “revelação” de que as pirâmides do Egito e outras construções grandiosas teriam sido edificadas por extraterrestres, afinal, de acordo com a mentalidade evolucionista, os seres humanos do passado eram menos capazes que os de hoje. Däniken vendeu muitos livros e encheu os bolsos disseminando esse tipo de desinformação.

O tempo passou e o universo das fake news, das meias-verdades e das teorias da conspiração foi expandido de maneira alarmante. Das páginas dos livros às telas de computador e de celulares, os conteúdos que antes eram restritos às rodas mais intelectuais ou nerds agora estão disponíveis a todos – letrados e iletrados, dotados de visão crítica e céticos, ou mesmo inocentes crédulos e fideístas. E tem gente vivendo dessa curiosidade desmedida do público por conteúdos fantásticos; basta ver os canais recordistas de acessos no YouTube para perceber que tipo de conteúdo mais rende visualizações.

São especialistas em generalidades que pregam coisas do tipo: vacinas estão matando mais do que salvando. A Terra é plana e coberta por um domo sólido. A Nasa na verdade é um grande estúdio cinematográfico cheio de profissionais de Photoshop. Anjos caídos tiveram relações sexuais com mulheres, dando origem aos gigantes nefilins. Ah, e para esses Däniken tinha certa razão, porque afirmam que foram esses anjos caídos extraterrestres que construíram as pirâmides.

Como já falei bastante aqui no blog e em meu canal sobre terraplanismo e até sobre os que pregam a não vacinação, desta vez vou falar sobre os nefilins.

Gênesis 6:4 diz: “Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos.”

Conforme explicou o criador do ministério 11 de Gênesis, Alexandre Kretzschmar, “algumas traduções trazem o termo nefilins como ‘gigantes’. Por enquanto, não há evidência fóssil desses gigantes. Não há descoberta ou qualquer achado que possamos ligar a esse texto. Existe muita especulação que até rendeu uma série no History Channel com o nome ‘Em Busca de Gigantes’. Essa especulação inspira nossa imaginação, mas não podemos dizer que esses fósseis existem nem que foram encontrados. Antes do dilúvio, a Terra era bem diferente. Pelo registro fóssil, vemos que existiu uma megafauna e uma megaflora. Sabemos que as condições climáticas, relevo, alimentação e outros fatores eram totalmente diferentes. Levando em consideração todas as informações de que dispomos do período antediluviano, sabemos que os seres humanos eram diferentes. Viviam mais e, com certeza, eram maiores. Porém, não temos em mãos esse registro fóssil humano”.

A palavra hebraica nefilim significa “desertores”, “caídos”, “derrubados”, porém, esse termo é uma variação da forma causativa do verbo nafál ou nefal (cair, queda, derrubar, cortar). Ou seja, refere-se à ideia de dividido, falho, queda, perdido, mentiroso, desertor. Literalmente, os que fazem os outros cair ou mentir.

A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traz assim Gênesis 6:4: “Havia gigantes na terra naquele tempo e também depois, quando os filhos de Deus tiveram relações com as filhas dos homens e estas lhes deram filhos. Esses gigantes foram os heróis dos tempos antigos, homens famosos.” “Observe que os gigantes existiam antes e ‘também depois’ que os ‘filhos de Deus’ tiveram relações com as ‘filhas dos homens’”, destaca o teólogo Matheus Cardoso. “Então, não foi a relação entre os dois grupos que produziu os gigantes. Gênesis 6:4 simplesmente descreve como eram as pessoas daquele tempo: no original em hebraico diz nefilim, que significa pessoas fortes, altas, realmente ‘heróis’.”

Vamos ler mais alguns versos de Gênesis 6: “Quando os homens começaram a se multiplicar na terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas e escolheram para si aquelas que lhes agradaram. Então disse o Senhor: ‘Por causa da perversidade do homem, Meu Espírito não contenderá com ele para sempre; e ele só viverá cento e vinte anos.’ Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos. O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal” (6:1-5).

Segundo Kretzschmar, “alguns erradamente alegam que os ‘filhos de Deus’ eram anjos caídos (demônios), os quais teriam se relacionado com fêmeas humanas e/ou habitado os corpos de machos humanos para então se relacionar com as fêmeas humanas. Essa união teria dado origem a filhos, os nefilins, os quais eram ‘os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama’” (Gênesis 6:4).

Os “filhos de Deus” não poderiam ser anjos, porque anjos são seres espirituais (Hebreus 1:14) e não têm relações sexuais (Mateus 22:30; Marcos 12:25; Lucas 20:34-36). Se estudarmos o contexto (os capítulos próximos) de Gênesis 6, veremos que os “filhos de Deus” eram os descendentes de Sete, fiéis a Deus (Gênesis 5), e as “filhas dos homens” eram descendentes de Caim, rebeldes contra Deus (Gênesis 4:1-24). Depois que houve essa união entre os dois grupos, que foi reprovada por Deus, apenas Noé e sua família permaneceram leais a Deus (Gênesis 6:8-10).

“Se os homens antediluvianos eram maiores, esses nefilins possivelmente fossem maiores ainda, aguçando mais nossa imaginação”, diz Kretzschmar. “De acordo com as lendas hebraicas (o livro de Enoque e outros livros não bíblicos), eles eram uma raça de gigantes e ‘super-heróis’ que fizeram atos de maldade.”

Tudo o que a Bíblia diz diretamente sobre eles é que eram “os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama” (Gênesis 6:4). Os nefilins não eram alienígenas, mas, sim, seres físicos e reais, produzidos pela união entre os filhos de Deus e as filhas dos homens (Gênesis 6:1-4). “Devemos ter cuidado em não utilizar textos duvidosos, não canônicos para sustentar nossas explicações. Também devemos ter cuidado em não criar problemas teológicos com o restante das Escrituras em nossas interpretações”, adverte Krestzchmar.

Existiram mais gigantes depois do dilúvio, como vemos em Gênesis 6:4, que diz: “Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois…” No entanto, é provável que tenha sido em uma escala muito menor do que antes do dilúvio. Quando os israelitas espionaram a terra de Canaã, eles disseram a Moisés: “Também vimos ali gigantes, filhos de Enaque, descendentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos.” No entanto, essa passagem não diz especificamente que eram os nefilins de quem estavam falando, apenas que os espiões achavam que tinham visto nefilins. É mais provável que os espiões tenham testemunhado pessoas muito altas em Canaã e, por engano, acharam que eles fossem nefilins (Josué 11:21, 22; Deuteronômio 3:11; 1 Samuel 17).

Creio que chegamos ao tempo previsto pelo apóstolo Paulo: “Virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4:3, 4).

Nunca é demais lembrar: faça como os bereanos elogiados por Paulo e não acredite em qualquer um, seja ele escritor ou youtuber.