Razões para continuar empregando o princípio dia/ano

profeciasO adventismo, desde seus pioneiros, emprega o método historicista de interpretação. Um dos pilares da visão adventista de Daniel e Apocalipse é o chamado princípio dia/ano.[1] Enquanto preteristas e futuristas interpretam “os elementos de tempo” nas profecias de Daniel como períodos literais, os historicistas defendem que se trata de tempo simbólico.[2] Para o historicismo ser levado a sério, principalmente entre os acadêmicos, é necessário que se interpretem os símbolos bíblicos em seu contexto.[3] Vejamos alguns argumentos em defesa da aplicabilidade do princípio dia/ano (assista ao vídeo sobre o assunto e tire suas dúvidas).

As Escrituras apresentam Deus como Senhor da História. As profecias nos permitem ver Sua atuação. Especialmente as profecias que envolvem tempo tendem a descrever “circunstâncias más ou adversas”, as quais Deus permite. Ao fim, o bem prevalece, afinal, o Senhor está no controle dos acontecimentos. Sendo que os eventos na profecia apocalíptica envolvem conflitos diretos entre bem e mal, seria de se esperar que os eventos descritos abarcassem a maior parte da história da salvação, na qual ocorre a guerra entre Deus e Satanás.

Entretanto, se tomados literalmente, os períodos de tempo mencionados em profecias apocalípticas são flagrantemente menores do que os citados em profecias clássicas. Como, por exemplo, o chifre pequeno de Daniel 7 poderia executar todas as suas ações contra Deus e Seu povo em apenas três anos e meio literais (Dn 7:25)?[4] Uma vez que as profecias de Daniel e Apocalipse usam símbolos para representar reinos, é sugestivo que os períodos que mencionam (“um tempo, dois tempos e metade de um tempo”, “quarenta e dois meses”, para citar exemplos) sejam igualmente simbólicos.[5] Isso colocaria tais eventos no “tempo do fim”, para o qual, segundo Gabriel, as profecias de Daniel conduzem (Dn 8:14, 26; 12:7, 11),[5] além de se adequar aos elementos contidos, como, por exemplo, a menção de impérios que ascendem e caem (Dn 7) ou o período desde o nascimento de Cristo à perseguição da igreja (Ap 12).[6]

Além disso, é notório que há uso de tempo não literal no livro de Daniel: os três anos que ele e seus companheiros passaram na corte de Babilônia são subentendidos no original pela expressão “ao fim daqueles dias” (Dn 1:5, 18); do rei Nabucodonosor se diz ter recobrado a sanidade mental “ao fim dos dias” (Dn 4:25, 34), quando o texto informa que seu estado durou sete anos; esses e outros exemplos[7] denotam que o uso de expressões de tempo (em geral, “dias” e “semanas”) possui significado flexível, de acordo com o contexto. Aliás, a maneira como as expressões aparecem de forma não usual – se “um tempo, dois tempos e metade de um tempo” de Daniel 7:25 se referisse a três anos e meio literais, seria de se esperar que a expressão fosse grafada dessa forma, como em outras partes da Bíblia (2Sm 2:11; Lc 4:25; At 18:11; Tg 5:17).[8]

Finalmente, há antecedentes no Antigo Testamento do princípio dia/ano. Os casos dizem respeito ao ano sabático (Lv 25:1-7), ano jubileu (Lv 25:8) e a uma profecia que indicava as consequências da rebeldia (Nm 14:34). Dos três casos, o que mais se assemelha ao uso de dia/ano em Daniel – especialmente no capítulo 9, no qual se veem fortes paralelos linguísticos – é o ano jubileu. O fato de o princípio ser usado de formas diferentes em diversos textos bíblicos abre precedente para seu uso nas profecias apocalípticas, que pressupõem um período maior e, mesmo assim, apresentam tempo visivelmente curto para a magnitude do evento.[9]

(Douglas Reis é mestre em Teologia, doutorando em Teologia [PhD] pela Universidade Adventista del Plata e autor de livros e artigos acadêmicos sobre identidade adventista, desenvolvimento da doutrina adventista e pós-modernidade)

Referências:

  1. Gerhard Pfandl, “In Defense of the Year-day Principle”, in: Journal of Adventist theological society, ano 23, v. 1, p. 3.
  2. William H. Shea, Estudios Selectos sobre interpretación profética (Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 1990), tomo I, p. 57.
  3. Jon Paulien, The End of Historicism? – Part One, p. 42.
  4. William H. Shea, Estudios Selectos sobre interpretación profética, p. 58-61.
  5. Gerhard Pfandl, “In Defense of the Year-day Principle”, p. 6.
  6. William H. Shea, op. cit., p. 62. “Quando os períodos de tempo da apocalíptica acompanham personagens que realizam ações simbólicas, é natural esperar que esses períodos de tempo também sejam de natureza simbólica.” Idem, p. 63.
  7. Gerhard Pfandl, op. cit., p. 7. “As profecias de Daniel 7–8 e 10–12 conduzem ao ‘tempo do fim’ (8:17; 11:35, 40; 12:4, 9), o qual é seguido pela ressurreição (12:2) e o estabelecimento do reino eterno de Deus (7:27).” Idem, p. 9.
  8. Todos encontrados em William H. Shea, op. cit., p. 64.
  9. Gerhard Pfandl, op. cit., p. 7.
  10. William H. Shea, op. cit., p. 70-74.