Ellen White sonhou com o marido morto?

ellenEm inúmeras ocasiões, Ellen White deixou bem claro em seus escritos que o estado do ser humano na morte é de total inconsciência, e que a ressurreição corporal (no caso dos salvos) ocorrerá apenas por ocasião da volta de Jesus. Esse é exatamente o ensino bíblico quanto à morte (confira). Pouco depois da morte do esposo, Tiago White, Ellen estava muito triste e sem saber bem como prosseguir no trabalho sem ele. Então ela teve um sonho simples (não se tratou de uma visão nem de um sonho profético, como ela mesma deixa claro no relato – sim, profetas também podem sonhar como quaisquer outras pessoas). Bonito é perceber que, mesmo ela sabendo que se tratava de um simples sonho e que o marido continuaria descansando (morto) até a volta de Jesus, Deus usou a experiência para orientá-la quanto à sua preocupação com a igreja e o trabalho.

Leia abaixo o relato de Ellen e, em seguida, a nota do Centro de Pesquisas Ellen G. White e as duas notas que eu escrevi [MB]:

“Alguns dias após estar implorando por luz ao Senhor com relação à minha tarefa, à noite sonhei que eu estava na carruagem, guiando, sentada ao lado direito. Pai estava na carruagem, sentado ao meu lado esquerdo. Ele estava muito pálido, mas calmo e composto. ‘Ora, pai*?!’, exclamei. ‘Eu estou tão feliz por tê-lo ao meu lado mais uma vez! Tenho sentido que metade de mim se foi. Pai, eu o vi morrer; eu o vi enterrado. Teve o Senhor pena de mim e deixou que voltasse para mim novamente para trabalharmos juntos como fazíamos?

“Ele parecia muito triste. E disse: ‘O Senhor sabe o que é melhor para você e para mim. Meu trabalho era muito querido para mim. Nós cometemos um erro. Respondemos a convites urgentes de nossa irmandade para assistir a reuniões importantes. Nós não tivemos coragem de recusar. Essas reuniões nos exauriram mais do que percebemos. Nossa ótima irmandade esteve agradecida, mas eles não entenderam que nessas reuniões nós carregamos fardos maiores que nossa idade podia suportar com segurança. Eles nunca saberão o resultado dessa longa e contínua tensão sobre nós. Deus desejaria tê-los feito carregar os fardos que suportamos durante anos. Nossas energias nervosas foram continuamente sobrecarregadas, e assim nossa irmandade ao interpretar mal nossos motivos e ao não perceber nossos fardos, enfraqueceu nossa vontade do coração. Eu cometi erros, e o maior deles foi permitir minhas simpatias pelo povo de Deus levarem-me a carregar trabalhos sobre mim que outros deviam ter carregado.

“‘Agora, Ellen, convites serão feitos como antes, desejando que você compareça a reuniões importantes, como foi o caso no passado. Mas apresente essa situação perante o Senhor e não responda aos mais sinceros convites. Sua vida pende como se estivesse num fio. Você deve contar com descanso tranquilo, liberdade de toda excitação e toda preocupação desagradável. Nós certamente contribuímos em muito com nossas penas em assuntos de que o povo precisa e sobre que tivemos iluminação, e podemos apresentar diante deles luz que outros não têm. Assim você pode trabalhar quando sua força voltar, o que acontecerá, e você poderá fazer muito mais com sua pena do que com sua voz.’

“Ele me encarou como se apelando e disse: ‘Você não negligenciará essas advertências, não é, Ellen? Nosso povo nunca entenderá sob que dificuldades trabalhamos para servi-los porque nossas vidas estavam interligadas com o progresso da causa, mas Deus sabe de tudo. Eu lamento por ter-me sentido tão profundamente inadequado e em emergências agido de modo irrazoável, sem cuidar dos princípios de vida e saúde. O Senhor não exigiu que carregássemos fardos tão pesados enquanto nossa irmandade tão poucos. Devíamos ter ido para a Costa do Pacífico antes, e dedicado nossas vidas a escrever. Você fará isso agora? Você, quando sua força retornar, pegará sua pena e deixará escritas estas coisas que há tanto antecipamos, e agirá devagar? Há coisas importantes de que o povo precisa. Faça desta sua primeira ocupação. Você terá que falar um pouco ao povo, mas fique longe das responsabilidades que nos exauriram.’

“‘Bem’, disse eu, ‘Tiago, você ficará para sempre comigo agora e nós trabalharemos juntos.’ Disse ele: ‘Fiquei em Battle Creek por muito tempo. Eu deveria ter ido para a Califórnia há mais de um ano. Mas eu quis ajudar o trabalho e as instituições em Battle Creek. Cometi um erro. Seu coração é terno. Você será induzida a cometer os mesmos erros que cometi. Sua vida pode servir à causa de Deus. Oh, quão preciosos assuntos Deus me faria trazer ao povo, preciosas joias de luz!’

“Eu acordei. Mas esse sonho pareceu tão real. Agora você pode ver e entender por que não sinto que é minha tarefa ir a Battle Creek no propósito de assumir as responsabilidades na assembleia da Associação Geral. Não é minha tarefa apresentar-me na assembleia da Associação Geral. O Senhor me proíbe. Isso é o bastante.”

(Carta 17, 1881, p. 2-4; para W. C. White, 12 de setembro de 1881)

* Tratamento carinhoso entre cônjuges, em que o marido é tratado de “pai” e a esposa de “mãe”.

Qual o significado do sonho?

Esse relato do sonho da Sra. White foi publicado no livro Conselhos aos Idosos, paginas 122 a 125. Críticos têm usado esse texto para condená-la por [supostamente] ter falado com os mortos. Esse, na verdade, foi apenas um acontecimento compreensível na vida de uma viúva que sonhou com seu companheiro tão querido. Após a morte de Tiago, Ellen sentia muito sua falta; ela diz: “Meu esposo faleceu em 1881. Durante o tempo que se passou constantemente senti falta dele. Durante o primeiro ano após sua morte senti intensamente minha perda” (p. 122).

Assim, ela orou a Deus pedindo luz sobre seu dever de continuar sozinha na missão, e em resposta à sua oração ela diz ter tido um sonho em que Tiago lhe apareceu dizendo que sua morte tinha sido uma bênção, pois estava muito cansado, e de que ela deveria evitar o excesso de trabalho. No início e no final de seu relato, Ellen White identifica como sendo um sonho e nele a Sra. White expressa o desejo de estar novamente com Tiago. Mas ela finaliza dizendo: “Acordei. O sonho tinha parecido ser tão real” (p. 124), e mais adiante ela ressalta: “Ele vai descansar até a manhã da ressurreição” (p. 125).

Esse incidente, portanto, foi apenas um sonho usado por Deus como meio de confortá-la, e em tempo algum Ellen White acreditou ter falado com Tiago após sua morte.

(Nota do Centro de Pesquisas Ellen G. White)

Nota 1: Portanto, é muita desonestidade por parte de alguns afirmar que Ellen White teria tido um sonho espírita ou algo assim, sendo que ela mesma escreveu extensivamente sobre o assunto, deixando bem claro que os mortos permanecem inconscientes até a volta de Jesus (no caso dos salvos). Note que no relato dela, além de ter escrito que o sonho pareceu real, ela expressa o desejo de que, com o marido, pudesse voltar a trabalhar como antes. Caso ele fosse um fantasma ou algo assim, como poderiam trabalhar como antes? Chega a ser injusto com a memória dela insinuar que estivesse ensinando algo contrário à Bíblia e a seus próprios escritos. Aos críticos digo apenas: vão à fonte. Leiam os livros dela, comparem-nos com a Bíblia (nossa única regra de fé e prática) e tirem suas conclusões. Se os considerarem de valor, aproveitem a bênção. Se os encontrarem em desacordo com as Escrituras, descartem-nos de imediato. Só não espalhem mentiras e falsas suspeitas como cortinas de fumaça impedindo que outros possam julgar o assunto por si mesmos. [MB]

Nota 2: Insinuar que Ellen White tenha tido um sonho espírita é tão desonesto quanto afirmar que ela pregava a existência de alienígenas, levando as pessoas a pensar que estivesse se referindo a ETs de pele verde e anteninhas na cabeça, como os apresentados nos filmes. Nada mais falso. Em consonância com textos bíblicos, Ellen falou de mundos habitados por seres humanos não caídos em pecado. Mais uma vez, convido-o a ir à fonte e ler por si mesmo. Convido-o também a ler este texto e a assistir a este vídeo. [MB]