Repúdio: ataque ao prédio da produtora do grupo humorístico Porta dos Fundos

portaNa terça-feira, véspera de Natal, dois coquetéis molotov foram lançados dentro do prédio da produtora do grupo humorístico Porta do Fundos, no bairro Humaitá, no Rio de Janeiro. Graças à reação de um segurança que estava no local, as chamas não se transformaram em incêndio. Imagens das câmeras de segurança mostram que ao menos três pessoas participaram do ataque. “Não vão nos calar! Nunca! É preciso estar atento e forte”, disse o ator Fábio Porchat, um dos integrantes do Porta dos Fundos, logo após a notícia vir a público. A polícia descartou atentado terrorista, e um grupo fanático autointitulado Ação Integralista Brasileira assumiu o ataque. Também conhecidos como camisas verdes, os integralistas são contra o comunismo e a esquerda, mas também discordam do liberalismo econômico defendido pela direita.

A suspeita é de que o ataque tenha sido motivado pelas produções em que o grupo Porta dos Fundos faz humor debochando da fé cristã, como no mais recente filme divulgado justamente na época do Natal, intitulado “A Primeira Tentação de Cristo”, no qual o Salvador é apresentado como um personagem gay, envolvido em orgias e que se recusa a pregar o evangelho. Muitos textos e vídeos foram divulgados com críticas às blasfêmias do grupo, que também já apresentou “Jesus” em situação pornográfica (confira), mas até aí tudo mais ou menos bem. Fazem parte da democracia as ações e reações, inclusive via Justiça. Fazem parte da democracia as discussões sobre liberdade de expressão, respeito e liberdade religiosa. O que não se pode tolerar é o fator violência, como aconteceu no atentado promovido por radicais islâmicos à redação da revista francesa Charlie Hebdo, em 2015 (veja aqui e aqui), e como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro.

Antes de tomar conhecimento do ataque à produtora do Porta dos Fundos, eu compartilhei em meu Facebook o seguinte texto, de José Luiz dos Santos:

“Genial não é quem choca, não é quem agride com sua pseudoarte. Genial é quem surpreende e acolhe. Há 20 anos chegava aos cinemas o filme ‘O Auto da Compadecida’, baseado na obra do mestre Ariano Suassuna. O filme trazia um Jesus negro, uma Maria idosa, uma estória de adultério, um trambiqueiro, um mentiroso, um monte de cangaceiros, um padre e um bispo bem interessados em dinheiro. Mas sabe de uma coisa? Foi escrito por um gênio! Foi escrito sem agredir, com doçura e delicadeza. Com respeito e bondade. Em nada ofendeu os católicos, evangélicos ou qualquer outra vertente do cristianismo. Não levantou bandeiras, mas foi a obra mais inclusiva que o Brasil já teve, colocando um negro sentado no trono de Cristo. Não, nós cristãos não nos doemos com tudo. Não venha dizer que nós não temos senso de humor ou somos racistas por estar revoltados com a afronta do Porta dos Fundos. Ninguém, nunca, jamais, em tempo algum cogitou processar Ariano Suassuna por conta da obra dele [nem teria por que]. Arte é arte, afronta é afronta. Vamos tratar cada coisa conforme a sua natureza. Artista é artista. Canalha é canalha. Tenho dito!”

Repito: esse texto foi compartilhado antes que eu tivesse tomado conhecimento do ataque no Rio de Janeiro, e continua sendo uma boa comparação e uma breve análise interessante sobre os limites do humor; sobre a arte e o deboche puro e simples (até o humorista Renato Aragão, o Didi, chamou atenção para isso). Mas também repito: violência nunca pode ser justificada. O verdadeiro cristão jamais reagiria à afronta lançando coquetéis molotov nos outros. O verdadeiro cristão sofre, fica indignado e até se revolta, mas foi ensinado pelo Mestre a dar a outra face – e exatamente por isso frequentemente é alvo de escárnio.

Não se podem tolerar incendiários, nem homicidas esfaqueadores de políticos, nem qualquer outro tipo de pessoa que se vale da violência como “recurso”.

Uma das muitas reações ao post no Facebook foi a do meu amigo presbiteriano Otávio Cardoso Filho. Ele escreveu o seguinte: “Não gostou do episódio, não assiste e entrega pra Deus. A vingança é dEle (Romanos 12:19). […] Há muitos e muitos sinais que apontam para a volta de Cristo em breve. Dentre eles, apontaria o esfriamento no amor de muitos. […] Onde [estão] os mesmos cristãos quando ‘pastores’ pedem dinheiro, vendendo a fé para andarem de jatinho? […]”

Concordo com o que Otávio diz sobre o esfriamento do amor, inclusive o de humoristas que desrespeitam o sentimento religioso de milhões de pessoas; e o esfriamento do amor de gente que reage a isso com fogo. A punição com fogo, no fim do milênio bíblico, é prerrogativa divina; o “ato estranho” (Isaías 28:21) de um Deus que, antes da sentença, oferecerá inúmeras oportunidades de arrependimento. Justamente por isso oro pelos humoristas e pelos agressores.

Otávio fala também da omissão de alguns cristãos. Não sei quanto a esses omissos, mas eu já critiquei pastores que viajam de jatinho particular (veja aqui) e a nefasta “teologia” da prosperidade (veja aqui). Mercadores da fé, falsos profetas e escarnecedores (2 Pedro 3:3) se unem aos corações de pedra para compor o cenário profético que antecede a volta de Jesus.

Concluo com as palavras de Fábio Porchat: “Não vão nos calar! Nunca! É preciso estar atento e forte.” Sim, não podemos nos calar. Mas que nossas palavras, ainda que firmes, sejam sempre temperadas com amor, respeito e bom senso. No entanto, se for para usá-las para magoar e desrespeitar, o silêncio será será sempre uma boa opção.

Michelson Borges