Um cultuador de Gaia (mãe Terra) e a sabedoria estavam conversando

gaiaO “Gaialover” logo sugeriu:

– Você precisa acompanhar as tendências pós-modernas. Comece descarbonizando ou descolonizando suas mentes, seja lá o que isso queira dizer.

O interlocutor sábio se manifesta perplexo e ri:

– Pensar sem causar mudanças climáticas? Menos, menos. Vamos raciocinar…

– Isso é muito sério – diz o seguidor de Gaia. – Trata-se do futuro da humanidade. Não lê Greta Thunberg? Vou falar em inglês, língua do globalismo sustentável, para sanar todas as dúvidas. Aproveito e descarbonizo e descolonizo minha alma: natureza é “gender neutral”. Tudo bem, vou traduzir aos não iniciados no culto climático.

Mãe Natureza, apesar de ser biologicamente fêmea, não possui gênero definido. Igual banheiro neutro, sacou? Pronto, esclarecido.

O ponderado reclama:

– Greta? A menina manipulada, usada pelos profetas do apocalipse climático para implantar a nova ordem mundial ecofacista, comuno-tribalista? A menina que nem terminou a escola e quer dar direção aos rumos da humanidade? Preciso dizer que é pura insanidade e maldade? E, por favor, parem com esse feminismo, que coloca gênero até na abstração desmedida da Mãe Natureza (ou seria sexo?).

– Está por fora. Nós, que nos conectamos com a energia de Gaia e do Cosmos, sabemos há décadas que masculinizar Deus é uma afronta dupla: ele não existe e, se existisse, seria “gender neutral”; agora que todos captaram a ideia.

O sensato pergunta:

– Mas Gaia, mãe Terra não é referência a uma fêmea? Tipo presidenta? Ou seria, como o caso, mais uma deturpação da lógica e da língua portuguesa?

O ativist(x), em lapso de honestidade intelectual, não se aquieta:

– Não, de modo algum, tudo é mero jogo de palavras. De todo modo, a ideia não é toda ruim. Vejamos: mãe Terra é uma fêmea independente, daquelas que, inclusive, se reproduzem sozinhas. Deve ser um caso de partenogênese – um fenômeno biólogico raro, quando a fêmea de alguns animais dá à luz sem a participação do macho. Falar em mãe Terra, por um lado, é feminino, mas só quando defende a causa da existência de um gênero mais cuidadoso, menos tóxico que o masculino. Não tem lido as últimas pesquisas acadêmicas revolucionárias?

– Uai – o ponderado retoma. – Mas, você está me dizendo que as mulheres são diferentes de homens e mais cuidadosas? Isso vai contra vocês, suas ideias centrais.

– Não. Vocês não entendem. Tudo é construção social e linguística. Abafa o caso. É tudo uma questão de “lugar de fala”. Nós defendemos a fêmea às vezes, mas a neutralidade de gênero também, dependendo da situação. É que nos intitulamos representantes legais dos novos direitos da nossa mãe Terra, ou do nosso pai/mãe Terra. A invenção é boa. É a última fronteira, quase desesperada, para frear e demolir o patriarcado e a masculinidade tóxica que destroem Gaia.

O mais modesto, pois sábio, oferece uma piada de bom gosto:

– Dica: deixem apenas espermatozóides selecionados, caso a partenogênese não funcione.

– Anotarei. Continuando mais longamente: se fizermos tudo isso, de quebra acabaremos com essa mania terrível que o ser humano tem de se reproduzir biologicamente. Isso machuca a/o mãe/pai Terra! Seja lá o que for, mãe solteira, titia que não quer ter filhos, o “fato” é que há muita gente no planeta, superlotação; isso só serve para roubar espaço, no útero já maltratado da nossa mãe. Ops, quer dizer, só fêmea tem útero! Quer dizer, desculpe o mal-entendido; não queria dizer útero, mas, sim, o âmago, o íntimo, o coração e a alma do pai/mãe Terra.

A sabedoria pergunta:

– Sem sexo e gênero vai dar certo?

– Sim, fica tudo mais neutro, não incomoda ninguém. Ou incomoda? Não importa, já que nada existe, não há verdade, apenas o que eu defendo, sendo todo o resto, na pós-modernidade, mero jogo de palavras, estratégia de poder, controle através da linguagem. Adotemos uma fenomenologia descarbonizada, seja lá o que isso signifique. Soa muito bonito, científico e importante. Deve convencer. Me permitam continuar: verdade não existe, só a verdade de que são todos canalhas, canalhas… Ao afirmarmos os direitos da nossa mãe/pai Terra, trataremos de pôr fim ao trabalho dos canalhas que destroem Gaia, ao morarem em edifícios com ar condicionado e garagem; aqueles que usam celulares, colheres e garfos no almoço – esses são os piores! Todos perversos que não amam seu cachorro como a si mesmos!

O sábio, apesar de conhecer o silêncio, se manifesta novamente:

– Creio que, em um raro lapso de autoconsciência, alguém poderia se perguntar como condenar a fabricação e uso da colher, se quem condena usa talheres todos os dias? Você quer fechar as minas de exploração de minério?

O ativismo ecoxiita dá lugar à sanidade, temporariamente:

– Santa Gaia! Estaria a resposta na minha cara e não vejo? Na TV por assinatura? Já sei! “Largados e Pelados”! Não, muito melhor que isso. Ai, que alívio! Garfos de bambu, garfos de bambu… Finalmente encontrei a paz interior, inabalável! Agora posso continuar protestando, graças ao bambu.

Então vamos lá: “Viva Che Guevara, que não dava a mínima para a degradação ambiental de Cuba ou de qualquer lugar! Não, melhor: viva Lenin! Não… Mas e o cuidado com a mãe/pai Natureza? Matavam seres humanos, seres humanos são parte da natureza, eu também…

Santa Gaia, estamos frit(x). Como faremos no dia em que todos, ou quase todos, descobrirem que não são regimes em si, são pessoas que matam, que ferem…

A sabedoria interrompe:

– Mas e o socialismo-eco(bacana) não seria o caminho da salvação? Ele não é um regime?

– Sim, sim, mas há excessos e exceções.

– Por meio dele, agora recheado de pseudoecologia, não nos dizem que seremos libertos do mal (leia-se capitalismo e a sociedade ocidental)?

– Sim, sim… Mas peraí, não pode ser! Meus gurus da ONU e da universidade disseram que não há salvação, muito menos um só caminho. Juram de pés juntos, com muita fé, que essa idéia de fé, de um só caminho, é bem estúpida, medieval. Coisa de crente. Povo ignorante!

– Mas o que farão os adoradores de Gaia? A sabedoria insiste em questionar:

O que farão quando todos souberem dos fatos sobre a degradação ambiental na China comunista, na antiga URSS, na Coreia do Norte, em Cuba?

– Santa Gaia, como justificaremos o fim da sociedade industrial, capitalista e do mundo ocidental, que inclusive “inventou” a ciência?! Será o fim da nossa ideologia?

– E tem mais – suplicou a moderação. – Como farão, ao perceberem que a Mãe Natureza nunca foi tão benevolente e amorosa assim? Se ela tivesse vontade própria, como parece que creem, mas felizmente não tem, como justificar sua “gentileza”, quando sabemos que manda raios, terremoto, furacões, inundações, calor, frio, seca, vírus, mosquitos e mais mosquitos? E tudo isso independentemente da ação humana?

– Não, não, ela não é assim. Ela é muito boa. Essa coisa toda de furacão é culpa do homem – no caso, sexo masculino mesmo, masculinidade tóxica. Nossa pai/mãe Terra é muito amável, mas não pise nos seus calos! Tudo é culpa dos homens capitalistas e cruéis. Na verdade, estes são filhos bastardos, com sérios problemas congênitos, nascidos fora de hora do útero de Gaia. Somos, na melhor das hipóteses, animais que não deram certo no processo evolutivo. Quão bom seria se a Mãe tivesse parido apenas os devotos da Natureza.

A sabedoria intervém:

– O papo é longo. Você está mudando de assunto. Mas vamos lá. Se, de acordo com a religião de vocês, somos todos animais, vivamos como animais. Vai contribuir com Gaia tirando sua própria vida? Não faça isso. Existe um Deus que te ama. Gaia só irá te lançar para longe dEle. Sei que não fará nada disso com sua vida, mas muitos, infelizmente, o fazem: tornam-se adoradores da criatura e perdem o sentido da vida.

É bom constatar que muitos que defendem suas ideias não vivem o que pregam. E isso é muito bom. Imaginem só: um mundo sem nós, humanos, só com aranhas, que após fazerem “amor” matam e comem seus maridos… Ou nós, humanos, vivendo como nos ensina a natureza! Seria a barbárie ecológica.

Então a insensatez, que é cega, surda e nada de muda, retomou sua última fala:

– Insisto. Não quero escutar. Se queremos sobreviver à ira da mãe/pai Terra (Gaia), temos que cultuá-la, em primeiro lugar, com devoção linguística. Acho que, como bom ecofundamentalista, minha contribuição começa por adorar a Naturez(x), sem gênero…

Por fim, diz a sabedoria:

– Aguardamos com esperança as cenas dos próximos capítulos. E que Deus tenha misericórdia dessa gente e abra-lhe os olhos para a verdade do amor e da salvação em Cristo Jesus, amém! Se o Espírito Santo os tocar, uma boa dose de raciocínio lógico e fatos históricos também pode ajudar bastante. O nome “chic” disso é apologética cristã.

(Rodrigo Penna-Firme é professor universitário no Rio de Janeiro, na área de Geografia e Meio Ambiente)