Entre o mito e a pessoa: reflexões de um médico sobre a morte de um famoso

medico“Oremos pela família, ele faleceu.” Eram pouco mais de 17 horas quando recebi essa mensagem. E dessa maneira terminava um capítulo na história de uma das pessoas mais intrigantes e, talvez, para alguns, controvertidas dos últimos 50 anos. Foi pelo menos uma hora e meia antes de ser noticiado nos principais meios de comunicação e portais eletrônicos do País. Logo começaram as análises dos cinéfilos e até a de um biógrafo. Abri a página de um grande portal: “Provocador, niilista, gênio criativo, celebridade televisiva, ícone trash e, acima de tudo, um descrente obsessivo… Autor de mais de 40 filmes.” Em outro site, o perfil foi complementado: um “homem sem crenças, não acreditava em Deus nem no diabo, só acredita nele mesmo, acha que é o único que pode fazer justiça”.

As homenagens e os perfis trazem a descrição detalhada de um personagem criado, mas falham totalmente em descrever um ser humano, ou, pelo menos, o ser humano que acabei conhecendo.

Era madrugada de julho de 2014. Na unidade coronária, entre tantos pacientes, um nome chamou atenção. Infarto grave, coração e rins falhando. Comecei a pensar… Uma vida com tantas obras dedicadas a afrontar o que era sacro, a flertar com o terror, com o demoníaco… Lembrei-me do verso bíblico: “Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20). Orei em silêncio, de frente para aquele leito: “Senhor, tem piedade e misericórdia desse homem. Que ele possa ver o Teu Evangelho.”

O tempo passou. Certo dia, recebi a comunicação de que ele havia melhorado, e que ele e a esposa haviam começado a estudar a Bíblia. Mas não foi fácil. Os fãs (do personagem que ele havia criado) o assediavam e o perseguiam. Uma parte da família não entendia essas mudanças de vida que ele começou a ter. Falaram em opressão, lavagem cerebral. Uma vez tirou uma foto atendendo a um apelo para aceitar Jesus. Parecia que havia despertado a fúria do inferno em pessoa. Mais ridicularizações. Finalmente, chegou-se a um ponto em que uma parte da família passou a falar em nome do personagem para sites e jornais, para que a pessoa, o indivíduo de verdade, tivesse um pouco de privacidade e sossego.

Essa pessoa, não o personagem, aceitou Jesus como seu salvador pessoal e foi batizada com a esposa em junho de 2017. Tenho as fotos. Os irmãos da pequena igreja onde permaneceu pelo resto de seus dias foram testemunhas.

Disto tudo, gostaria de tirar quatro pequenas lições:

1) A mudança, a conversão incomoda e irá aborrecer um mundo não espiritualizado. Será contestada e considerada até como fraude. Veja, por exemplo, a conversão do rei Nabucodonosor em Daniel 4. Fora da religião hebraica, não existem registros de tal conversão, pois incomodaria um rei se converter ao Deus de outro país… E assim também são tratadas desde sempre pessoas simples, líderes, artistas, ao entregar o coração.

2) No momento da conversão, muitas pessoas ficam incomodadas ou interessadas. Fulano se converteu? Foi batizado? E muitos parecem querer mover sua vida espiritual em torno de quem seja o famoso que aceitou ou não a Jesus, quer seja ou não da sua religião. Devemos seguir a Jesus independentemente das pessoas ou dos famosos. “Disse-lhe Jesus: Se Eu quero que ele fique até que Eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu” (João 21:22).

3) Relembro mais uma vez do respeito pelo trabalho da igreja local, seja pequena ou grande, e pelos seus membros. Neste caso, do Wanderson, da Igreja Adventista de Vila Buarque, em São Paulo, que deu estudos e nutriu espiritualmente essa pessoa, fez amizade com a família, e segue neste momento dando conforto enquanto escrevo, no velório desse irmão, que agora descansa em Cristo. Algumas vezes Wanderson me pediu orações por causa dos assédios e das dificuldades que os novos conversos estavam sofrendo. Mas persistiu firme. Muitos necessitam de alguém que, assim como Jesus foi para Nicodemos, deem suporte, carinho e amor, conduzindo e reafirmando pessoas na fé.

4) Não despreze o valor da oração intercessória. Neste caso falo em especial a todos os colegas da área da saúde, sejam médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos, fisioterapeutas, ou até mesmo do servente de alimentação ou de limpeza de um hospital.  Lógico que eu sei que o propósito do Senhor foi muito maior que a minha oração naquela fria madrugada de julho. Mas o nosso Deus espera que todos juntos sejamos co-obreiros na salvação daqueles que nos cercam.

Muitas surpresas nos aguardam no Céu. Mas creio que não será surpresa ver esse irmão em Cristo, cujo personagem foi celebrado pelo seu antagonismo a Deus. E até imagino onde ele estará, pois está descrito no livro O Grande Conflito, página 665, que “mais próximo do trono estão os que já foram zelosos na causa de Satanás, mas que, arrancados como tições do fogo, seguiram seu Salvador com devoção profunda, intensa. Em seguida estão os que aperfeiçoaram um caráter cristão em meio de falsidade e incredulidade, os que honraram a lei de Deus quando o mundo cristão a declarava nula, e os milhões de todos os séculos que se tornaram mártires pela sua fé. E além está a ‘multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, […] trajando vestidos brancos e com palmas nas suas mãos’ (Ap 7:9). Terminou a sua luta, a vitória está ganha. Correram no estádio e alcançaram o prêmio. O ramo de palmas em suas mãos é um símbolo de seu triunfo, as vestes brancas, um emblema da imaculada justiça de Cristo, a qual agora possuem”.

Eu quero estar no meio daquela multidão. E você?

(Everton Padilha Gomes é médico e doutor em cardiologia pela USP)