Um ensaio para o fim do mundo

coronaO que parecia tão distante e impossível de repente aconteceu. Cenários típicos de filmes apocalípticos e distópicos passaram a fazer parte do dia a dia das pessoas em todo o planeta. Somos praticamente obrigados a ficar em confinamento domiciliar. Nos supermercados, os consumidores mantêm-se distantes uns dos outros, vários usam máscaras, e em alguns lugares só podem entrar em grupos de dez ou vinte. Idosos não podem pôr os pés nas ruas. Aulas foram suspensas. As portas das lojas permanecem fechadas. Apenas os serviços essenciais ainda funcionam. Uma crise econômica sem precedentes vem sendo anunciada. No ar paira um clima de medo e insegurança. Quem poderia imaginar uma situação dessas poucos meses atrás?

É interessante analisar os efeitos dessa crise em duas frentes: (1) na igreja e (2) fora dela. No que diz respeito à Igreja Adventista, leal às autoridades constituídas (quando essa lealdade não fere nenhum princípio bíblico) e alinhada com as iniciativas promovidas pelo Ministério da Saúde, a decisão foi por manter as portas das igrejas fechadas até segunda ordem. A partir disso, um fenômeno interessante pôde ser observado: vários pastores e líderes da igreja passaram a utilizar a internet para alimentar suas “ovelhas”. Praticamente todos os dias há alguma live sendo realizada em alguma rede social. A TV Novo Tempo adaptou sua programação de sábado para aproximá-la dos serviços típicos desse dia nos templos. Chega a dar a impressão de que Deus permitiu a criação dessas tecnologias exatamente para este momento – uma nova “plenitude dos tempos” em que as pessoas podem ser facilmente alcançadas dentro de casa, por meio de um dispositivo eletrônico na palma da mão.

Talvez o efeito colateral mais positivo seja a saudade que os membros da igreja estão sentindo das reuniões presenciais. Em tempos normais, poucos param para pensar da bênção que é termos liberdade religiosa em nosso país e podermos nos reunir no templo no mínimo três vezes por semana. Privados dessa liberdade, muitos estão reavaliando sua atitude em relação aos cultos. Terminada a crise, aproveitemos para nos reunir como comunidade de crentes, enquanto ainda pudermos fazer isso. Atentemos ao apelo de Hebreus 10:25: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia.” Sim, o dia da volta de Jesus se aproxima! Sim, antes disso perderemos nossa liberdade. Portanto, aproveitemos para nos fortalecer uns aos outros enquanto podemos.

Outro detalhe interessante é a sincronia das lições da Escola Sabatina com o momento que estamos vivendo. Acabamos de concluir mais um trimestre de estudos bíblicos durante o qual nos dedicamos a revisitar as profecias de Daniel. Em pleno confinamento, relemos o capítulo 12 de Daniel e reafirmamos nossa fé de que em breve Miguel, nosso Príncipe celestial, vai nos libertar do cativeiro deste mundo. Rever as impressionantes profecias apocalípticas neste momento histórico foi algo muito especial (assista ao vídeo que eu gravei sobre Daniel 12).

A lição do trimestre que acabou de começar tem como título “Como estudar as Escrituras”. Incrível! Neste momento em que a atenção das pessoas se volta para a Bíblia Sagrada, mais do que nunca se faz necessário estudá-la correta e responsavelmente, a fim de que sejam desmascaradas ideias mirabolantes como a de que um biochip seria a marca da besta ou a de que a igreja seria secretamente arrebatada antes da volta de Jesus, para mencionar apenas duas.

Precisamos conhecer bem as profecias e nos aprofundar no estudo do Livro Sagrado, a fim de dar às pessoas as respostas que elas precisam para ter esperança. Não é maravilhoso perceber que Deus já estava preparando as condições para isso? Que tal você aproveitar o confinamento para se dedicar ao estudo da Palavra de Deus? Que tal caprichar no estudo dessa nova Lição da Escola Sabatina? Darei minha contribuição para isso gravando pequenos vídeos semanais com um resumo do lição, os quais publicarei em meu canal no YouTube sempre às quintas-feiras. Não perca!

E quanto aos efeitos da crise fora da igreja? Bem, o primeiro deles eu apresentei no texto “Mundo precisa de um líder global e papa concede perdão universal”: a ideia de que o mundo precisa de um líder mundial para sair dessa situação desafiadora. Outra consequência que chama a atenção daqueles que estudam as profecias do Apocalipse é a perda gradual das liberdades individuais e a vigilância por parte das autoridades. De repente, em questão de dias, as pessoas não mais podem se reunir para cultuar, não podem andar em grupos; em algumas cidades drones vêm sendo usados para controlar isso (sem contar o rastreio por meio dos celulares), e mesmo chips poderão ser usados para monitorar doentes. Embora chips não sejam a marca da besta, eles certamente poderão ser usados para controle social, impedindo até transações comerciais e controlando a ida e a vinda das pessoas. Curiosamente, praticamente ninguém vai se opor a essa perda de liberdade e a esse monitoramento, porque a engenharia social tratou de alimentar o medo. E pessoas com medo cedem o controle da vida àqueles que supostamente podem salvá-las.

Mais um possível desdobramento: conforme sugere o jornal El País, resolvido o problema da pandemia, a humanidade estará cara a cara com outro grande problema: a crise financeira. Para sair desse buraco, as pessoas terão que trabalhar ainda mais, a fim de compensar o tempo parado. Como a pregação ecomênica de salvação da Terra está se agigantando (inclusive com evidências de que o confinamento ajuda a despoluir o meio ambiente), pelo menos um dia terá que ser reservado para um novo tipo de “confinamento” semanal, que será benéfico para a Terra e para as famílias. Nos outros dias será necessário trabalhar duro.

Cada vez mais tenho a impressão de que estamos passando por um ensaio para coisas maiores. Cada vez mais me convenço de que Deus está nos dando uma grande oportunidade de parar e refletir no que estamos fazendo com a nossa vida, no que é realmente prioritário e no quão frágeis são as estruturas criadas pelo ser humano. De um dia para o outro tudo o que consideramos tão importante acaba perdendo relevância. E o que sobra?

Em entrevista publicada no portal UOL, o historiador, professor universitário e escritor israelense Yuval Noah Harari (uma espécie de guru atual) disse: “As decisões que em tempos normais podem levar anos de deliberação são aprovadas em questão de horas. Tecnologias imaturas e até perigosas são colocadas em serviço porque os riscos de não fazer nada são maiores. Países inteiros servem como cobaias em experimentos sociais em larga escala. O que acontece quando todos trabalham em casa e se comunicam apenas à distância? O que acontece quando escolas e universidades inteiras ficam online? Em tempos normais, governos, empresas e conselhos educacionais nunca concordariam em realizar tais experimentos. Mas esses não são tempos normais.”

Sim, não são tempos normais… É tempo de erguer a cabeça porque nossa redenção se aproxima! (Lucas 21:28). É tempo de viver “neste presente século sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tito 2:12, 13).

Michelson Borges

Acompanhe a série de palestras em vídeo “Confinados: um planeta em quarentena” (clique aqui)

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