As sete trombetas e as sete últimas pragas

pragas[Este texto é parte do artigo “As sete últimas pragas”, escrito pelo Dr. José Carlos Ramos e publicado na revista teológica Parousia, do Unasp, campus Engenheiro Coelho, no 2º semestre de 2000.]

Há um perfeito paralelo entre as sete trombetas e as sete pragas. Edwin Thiele estabelece-o da seguinte forma:54

Trombetas Pragas
Sobre a terra – 8:7 Sobre a terra – 16:2
Sobre o mar – 8:8 Sobre o mar – 16:3
Rios e fontes d’água – 8:10 Rios e fontes d’água – 16:4
O sol ferido – 8:12 Sobre o sol – 16:8
Escurecimento do ar – 9:2 Trevas – 16:10
Grande Rio Eufrates – 9:14 Eufrates – 16:12
O mistério de Deus terminado – 11:15 “Está feito” – 16:17
“Relâmpagos, vozes, trovões, terremoto, grande saraiva” – 11:19 “Vozes, trovões, relâmpagos, grande terremoto, grande saraiva” – 16:18, 21

O paralelo é tão impressivo que alguns são tentados a imaginar que os dois grupos de sete preveem os mesmos fatos a se cumprirem na História; em outras palavras, são a mesma profecia sob terminologia e perspectiva diferentes. De fato, 9:20 identifica os eventos das trombetas como pragas ou flagelos, e Ellen G. White parece fazer uma aplicação futura das trombetas, equiparando-as às pragas. Ela diz:

“Solenes eventos diante de nós estão ainda por ocorrer. Trombeta após trombeta deve soar, taça após taça derramada uma após outra sobre os habitantes da terra. Cenas de estupendo interesse estão exatamente sobre nós.”55

Além disso, as trombetas soam após o anjo intercessor atirar à terra o incensário cheio de fogo do altar (8:5), o que parece indicar um cumprimento pós-graça delas. No entanto, a melhor interpretação é aquela que considera os dois materiais proféticos como distintos um do outro, e apontando para uma ordem diferente de eventos, embora iguais em significado. O próprio Thiele afirma:

“A natureza básica tanto das trombetas quanto das pragas deve ser a mesma; ambas são juízo e castigos sobre os ímpios, homens impenitentes; ambas compreendem uma terminação da obra de intercessão de Jesus seguida por um soltar das paixões malignas dos homens ao Satanás obter o controle. Mas, conquanto ambas sejam semelhantes, não são iguais – uma é um tipo da outra. As trombetas estão, em sua maior parte, no passado, enquanto as pragas estão no futuro.”56

Concordamos com esse comentarista na maneira como ele vê o toque das trombetas em consonância com uma interrupção da obra intercessora de Cristo. Claramente ele reporta essa interrupção ao passado, e a contrasta assim com a terminação da obra intercessora no futuro, quando então ocorrerá o derramamento das pragas. Que para determinadas pessoas e em determinado momento e circunstância a obra intercessora de Cristo pode cessar, sem que ocorra o fechamento futuro da porta da graça, é evidente da experiência de Caim, Saul e Judas. De forma mais coletiva, cita-se o que aconteceu com os judeus no contexto da destruição de Jerusalém em 70 d.C. “Por causa de seus pecados, foi anunciada a ira contra Jerusalém”, e tanto resistiram à graça que “sua pertinaz incredulidade selou-lhes a sorte”.57 Esse fato, que bem pode ser o cumprimento da primeira trombeta,58 “tornou-se um exemplo doloroso do que veio a acontecer com outros grupos em cumprimento das trombetas seguintes, e mais particularmente do que ocorrerá com o mundo todo a partir do fechamento da porta da graça”.59

Assim, nem o detalhe do atirar o incensário à terra, nem o que Ellen G. White afirma com respeito a um futuro retoque das trombetas60 indica que elas deveriam ser confundidas com as pragas. Elas são, como diz Thiele, um tipo das pragas, não uma primeira edição delas. Isso também explica o serem consideradas como pragas em 9:20.61

Os seguintes pontos indicam claramente que as trombetas se cumprem no transcurso da era cristã, e não após o fechamento da porta da graça no futuro, como acontece em relação às sete últimas pragas:

  1. O prólogo às sete trombetas (8:2-6), ao contrário de indicar que se cumprem em sua totalidade após o fechamento da porta da graça, aponta para o período entre o primeiro e o segundo adventos como o tempo do seu cumprimento. A sétima se estende para além da dispensação da graça (isto é, para quando a salvação não mais estiver disponível), e alcança sua culminação com a volta de Jesus, extensiva, em seu efeito último, ao fim do milênio. Esse fato é demonstrado no prólogo por duas ações específicas do anjo intercessor: (a) o oferecimento de incenso (o que indica a operação da graça), e (b) o atirar do incensário à terra, o que indica o cessar dessa operação.

Os demais pontos confirmam isso:

  1. Há um interlúdio entre a sexta e a sétima trombetas registrado em 10:1–11:14. Segundo esse interlúdio, a obra da graça está ainda em franca operação, o que se depreende de 10:1, 11:3-6 e 13; em outras palavras, pelo menos até o mesmo tempo da sexta trombeta a porta da graça ainda não terá sido fechada.62
  1. A operação salvífica da graça avança, todavia, até o tempo da sétima trombeta, pois só aí o “mistério de Deus” é cumprido (10:7), isto é, atinge sua plenitude. O mistério de Deus é o Evangelho, e o ser ele cumprido aponta para o momento em que a obra da pregação em todo o mundo é concluída. De fato, a obra da pregação será concluída em todo o mundo sob a pregação da tríplice mensagem angélica de 14:6-12. Ali o “evangelho eterno” atinge “cada nação, e tribo, e língua e povo” (v.6). E sabemos que a pregação da tríplice mensagem angélica se cumpre no tempo da sétima trombeta. Assim, se essa trombeta “está ligada ao fechamento da obra do evangelho […], então as seis trombetas anteriores obrigatoriamente soam durante o tempo da graça”.63
  1. A menção de períodos de tempo profético no material da quinta e da sexta trombetas (9:5, 10, 15) indica que essas trombetas se cumprem antes do tempo do fim, quando, segundo o anjo, “não haveria mais demora” (10:6), isto é, não haverá mais períodos de tempo profético.64 Como Kenneth Strand tem demonstrado, o livro do Apocalipse se desenvolve numa estrutura quiástica com um centro singular (e fundamental para a mensagem do livro) entre dois blocos principais, o primeiro compreendendo os capítulos 1-13, e o segundo os capítulos 16-22. O centro seriam os capítulos 14 e 15. Ele chama o primeiro bloco de série histórica, porque tem que ver com eventos que ocorrem dentro da Era Cristã, enquanto o segundo bloco é denominado série escatológica, pois tem que ver com os eventos finais desta era.65 As sete trombetas são parte da série histórica, e não podem, portanto, ser confundidas com as sete pragas que integram a série escatológica.
  1. É explicitamente declarado que a ira de Deus “chegou”, não na primeira, mas na sétima trombeta (11:18). Em outras palavras, as sete últimas pragas (a ira de Deus, 15:1) são um dos eventos previstos, entre outros, para a última trombeta, e não uma reedição das sete. Logo, as seis primeiras (e parte da sétima) se cumprem antes e não depois do tempo da graça. É simplesmente impossível, à luz desse fato, equiparar trombetas com pragas e vice-versa.
  1. A referência aos que “não têm o selo de Deus sobre as suas frontes” (9:4) como o alvo do juízo da quinta trombeta não significa necessariamente que essa trombeta se cumpre após a conclusão da obra do selamento de Apocalipse 7, isto é, após o fechamento da porta da graça, pois o selo de Deus não é um artigo exclusivo do tempo imediatamente anterior à volta de Jesus. O selamento, como atividade divina, não pode ser circunscrito ao dia final. Em todas as épocas Deus distinguiu, dentre a humanidade, os que eram Seus. A esse respeito Joh Paulien declara:

“Quando referido ao povo de Deus, o sentido predominante de selar é apropriação e aceitação por Deus. ([o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo:] o Senhor conhece os que Lhe pertencem” [2Tm 2:19]). Nesse sentido, ele [o selo de Deus] já era uma realidade no tempo de Abraão (Rm 4:11) […] Assim, não se deveria assumir que o selamento em Apocalipse 7:1-3 é necessariamente idêntico àquele de 9:4. Também não se deve assumir que o selamento de Apocalipse 7:1-3 está limitado ao fim do tempo. […] Ele simplesmente enfoca o significado dessa obra numa situação própria do fim.”66

Referências: 

  1. Edwin R. Thiele, Apocalipse – Esboço de Estudos (São Paulo: Colégio Adventista Brasileiro, 1960), p. 112.
  1. Ellen G. White, Carta 112, 1890.
  1. Thiele, p. 112.
  1. White, O Grande Conflito, p. 23. Ver também as páginas 25, 26, 613, 614.
  1. Ver Thiele, p. 113-115. Essa interpretação é adotada por Jon Paulien em “Allusion, Exegetical Method, and Interpretation of Revelation 8: 7-12” (Tese de PhD, Andrews University, 1987), p. 378-381.
  1. Diz Ellen G. White: “Quando a presença de Deus se retirou, por fim, da nação judaica, sacerdotes e povo não o sabiam. Posto que sob o domínio de Satanás, e governados pelas paixões mais horríveis e perniciosas, consideravam-se ainda como os escolhidos de Deus. Continuou o ministério no templo; ofereciam-se sacrifícios sobre os altares poluídos, e diariamente a benção divina era invocada… Assim, quando a decisão irrevogável do santuário houver sido pronunciada, e para sempre tiver sido fixado o destino do mundo, os habitantes da Terra não o saberão. As formas da religião continuarão a ser mantidas por um povo do qual finalmente o Espírito de Deus Se terá retirado” (O Grande Conflito, p. 613, 614).
  1. Isso não significa que Ellen G. White adotou a ideia de um segundo cumprimento profético das trombetas. Segundo ela, é a história, não a profecia, que deve se repetir. Esse ponto é muito bem discutido e esclarecido por George E. Rice em seu estudo “Ellen G. White’s Use of Daniel and Revelation”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 145-161, principalmente p. 150-154. Ele declara: “Circunstâncias similares àquelas que cumpriram uma profecia no passado podem existir no presente [e acrescentaríamos que podem ocorrer no futuro]. Circunstâncias presentes não são, todavia, um cumprimento da profecia, pois a profecia foi cumprida historicamente pelo montante original de circunstâncias. Mas a geração presente pode ser informada pelo estudo da profecia e pelo relatório histórico dos eventos que a cumpriram, e assim estar preparada para desempenhar um papel inteligente nas circunstâncias similares do presente. Assim é que uma profecia, previamente cumprida pode, nesse sentido, ser ‘aplicada’ à situação presente” (p. 151).
  1. É simplicidade imaginar que toda vez que o Apocalipse emprega o termo “flagelo” faça referência às sete últimas pragas. O termo aparece treze vezes em todo o livro, e em três instâncias (9:18, 9:20 e 11:6) é seguramente duvidoso que se refira exclusivamente àquele evento.
  1. Que o referido interlúdio supre eventos que ocorrerão entre a 6ª e a 7ª trombetas é evidente de 11:14 (o fim do interlúdio) onde é dito que “passou o segundo ai”, isto é, a sexta trombeta, e o “terceiro”, a sétima trombeta, vem em seguida.
  1. “Issues in Revelation: DARCOM Report”, Ministry, janeiro de 1991, p. 9-11.
  1. A palavra grega original vertida para “demora” em 10:6 é chronos, tempo que transcorre, que escoa, e se refere, inclusive à luz do verso 11, a tempos proféticos.
  1. KENETH Strand, Interpreting The Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines with Brief Introduction to Literary Analysis (Ann Arbor, MI: Ann Arbor Publishers, Inc., 1976), p. 43-52. Naturalmente, o centro também é, nesse sentido, escatológico. Ver também “Foundational Principles of Interpretation” e “The Eight Basic Visions”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 3-49, principalmente p. 28-46.
  1. Jon Paulien, “Seals and Trumpets: Some Current Discussions”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 256.

A teoria dos seis mil anos e a volta de Jesus até 2027

volta“Quanto ao dia e à hora ninguém sabe” (Mateus 24:36); “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela Sua própria autoridade” (Atos 1:7).

[O texto a seguir foi preparado com base em anotações de uma palestra apresentada pelo Dr. Wilson Paroschi no Unasp, campus Engenheiro Coelho, em 2 de abril de 1992.]

Como entender as citações de Ellen G. White que mencionam a cronologia dos seis mil anos? Teria ela cometido alguns “erros” de natureza cronológica? Se consultarmos seus escritos, notaremos que ela faz mais de 2.500 referências à cronologia bíblica. O período dos seis mil anos desde a criação é citado por ela 42 vezes em suas obras primárias (excetuando-se as compilações). E o período dos quatro mil anos, referentes ao tempo da criação à encarnação, é mencionado 41 vezes. Como explicar isso?

“Tendo completado recentemente um exame de todas as 2.500 referências à cronologia bíblica feitas por Ellen White, posso afirmar inequivocamente que sua cronologia corresponde à do arcebispo Ussher mais de perto que talvez qualquer outra das dezenas de cronologias em uso no século 19” (Warren H. Johns, “Ellen G. White and Biblical Chronology”, Ministry, abril de 1984, p. 20).

Esse fato se deve basicamente a três razões:

  1. Os escritos da Sra. White, como os da Bíblia, não surgiram como resultado de inspiração verbal, isto é, não eram as palavras dos profetas que eram inspiradas. Deus não ditava Suas mensagens. A pessoa do profeta, sim, era inspirada.

Deus comunica ideias e pensamentos, mas deixa com o indivíduo a redação e a transmissão da mensagem. A cultura, educação e instrução do profeta são refletidas na revelação escrita.

“Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 21).

  1. A Bíblia usada pela Sra. White trazia impressa na margem dados cronológicos referentes à cronologia de Ussher, e como, após receber a mensagem de Deus, o profeta se utiliza de sua bagagem cultural para transmiti-la, ela inseriu esses dados cronológicos em seus escritos, e o fez unicamente como um recurso literário.

A mensagem vinda de Deus não é, de forma alguma, afetada ou comprometida por qualquer desinformação geográfica ou cronológica do profeta. As referências de Ellen White aos seis mil anos ou aos quatro mil anos não foram para estabelecer nenhuma verdade cronológica, mas sim para relacionar ou realçar alguns fatos reais, isto é, algumas verdades que tiveram lugar no grande conflito entre o bem e o mal.

Referindo-se aos seis mil anos, e também aos quatro mil anos, Warren H. Johns declarou: “Quero sugerir que sua principal função é literária, não cronológica. Primeiro, eles servem como um meio de conexão literária; isto é, eles ligam dois personagens ou eventos bíblicos que têm alguma coisa em comum… A segunda função é de ênfase literária. Ela usou afirmações cronológicas para reforçar o que desejava transmitir ao realçar duração temporal e extensão da mesma forma como alguém usaria superlativos para dar ênfase. É um recurso literário” (Johns, p. 22).

  1. Um estudo de suas referências cronológicas revela, também, que Ellen G. White seguiu a prática comum de usar números redondos para relacionar pessoas ou eventos grandemente separados uns dos outros. Por exemplo:

“Mil anos” entre Jacó e Cristo (The Spirit of Prophecy, v. 4, p. 18). Ora, se pretendesse ser exata em suas declarações cronológicas, nessa citação ela estaria fazendo de Jacó um contemporâneo de Davi.

Em Patriarcas e Profetas, p. 134, ela coloca o livro de Hebreus “mil anos mais tarde” em relação ao livro de Gênesis, quando na verdade 1.500 separam esses dois livros.

“O ponto”, conclui Johns, “é que em questões não essenciais à salvação o profeta algumas vezes tem que escolher o melhor do que há disponível, muito embora esse melhor possa conter incorreções” (Johns, p. 23).

Há algumas declarações de Guilherme White, filho de Ellen White, acerca dos dados históricos e cronológicos de O Grande Conflito (edição de 1911) que merecem ser destacadas:

30/10/1911 (perante o Concílio da Associação Geral): “Mamãe nunca pretendeu ser autoridade em história… Minha mãe nunca fez reivindicações à inspiração verbal, e não vejo que meu pai, ou o Pr. Bates, Andrews, Smith ou Wagoner as fizessem” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 437).

4/11/1912 (para W. W. Eastman, secretário do Departamento de Publicações da União-Associação do Sudoeste): “Quanto aos escritos de minha mãe e seu uso como autoridade sobre pontos de história e cronologia, mamãe nunca desejou que nossos irmãos os considerassem como autoridade no tocante a pormenores de história ou de datas históricas” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 446).

“Quando redigia os capítulos para O Grande Conflito, ela fazia às vezes uma descrição parcial de um acontecimento histórico importante, e quando sua copista que preparava os manuscritos para o prelo indagava a respeito do tempo e do lugar, minha mãe dizia que essas coisas foram registradas por historiadores conscienciosos. Que fossem inseridas as datas usadas por esses historiadores. Em outras ocasiões, ao escrever o que lhe fora apresentado, mamãe encontrava tão perfeitas descrições dos acontecimentos e apresentações dos fatos e das doutrinas em nossos livros denominacionais, que copiava as palavras dessas autoridades. […] Quando foi escrito O Grande Conflito, mamãe não imaginava que os leitores o considerariam uma autoridade em datas históricas ou o usariam para resolver controvérsias acerca de pormenores da história, e ela não acha agora que ele deve ser usado dessa maneira” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 447).

“Parece-me que há perigo em dar demasiada ênfase à cronologia. Se fosse essencial para a salvação do homem que ele tivesse clara e harmoniosa compreensão da cronologia do mundo, o Senhor não teria permitido as divergências e discrepâncias que encontramos nos escritos dos historiadores bíblicos, e tenho a impressão de que nestes últimos dias não deve haver tanta controvérsia acerca de datas” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 448).

“Quanto aos escritos de mamãe, tenho irresistível evidência e convicção de que eles constituem a descrição e delineação do que Deus lhe revelou em visão, e onde ela seguiu a descrição de historiadores ou a exposição de escritores adventistas, creio que Deus lhe deu discernimento para usar aquilo que é correto e que está em harmonia com a sua verdade acerca de todas as questões essenciais à salvação. Se por meio de diligente estudo foi constatado que ela seguiu algumas exposições da profecia que em algum pormenor referente a datas não possamos harmonizar com nossa compreensão da história secular, isto não influirá sobre a minha confiança nos seus escritos como um todo, assim como a minha confiança na Bíblia também não é influenciada pelo fato de que não consigo harmonizar muitas das declarações relacionadas com a cronologia” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 449, 450).

8/1/1928 (carta a L. E. Froom): Ellen White “ocasionalmente consultava Andrews, em especial no tocante à cronologia” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 459).

“Os grandes acontecimentos que ocorreram na vida de nosso Senhor lhe foram apresentados em cenas panorâmicas, como sucedeu também com as outras partes de O Grande Conflito. Nalgumas dessas cenas a cronologia e a geografia foram apresentadas com clareza, mas na maior parte da revelação as cenas instantâneas, que eram muito vívidas, e as conversações e discussões, que ela ouviu e pôde relatar, não foram assinaladas geográfica ou cronologicamente, e ela teve de estudar a Bíblia, a história e os escritos de homens que apresentaram a vida de nosso Senhor, a fim de obter a conexão cronológica e geográfica” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 459, 460).

Conclusão: assim, as referências da Sra. White à cronologia dos seis mil anos devem ser tidas apenas como uma aproximação do tempo transcorrido desde Adão. Não devem ser dogmatizadas, nem poderiam, pois ela mesma não segue um critério cronológico uniforme.

Algumas vezes, no mesmo livro, como no caso de O Grande Conflito, ela diz “durante seis mil anos” (p. 662, 679), e outras vezes diz “durante quase seis mil anos” (p. 523, 559). Da mesma forma, há algumas referências de que quatro mil anos se passaram até o nascimento de Cristo (DTN, p. 102, 729), ao passo que outras estendem esse mesmo período até Sua ressurreição (GC, p. 551).

Fica demonstrado, portanto, que a Sra. White não pretendeu estabelecer nenhuma verdade histórica, mas apenas lançou mão de um recurso literário, conectando personagens ou eventos bíblicos que têm alguma coisa em comum, ou ressaltando certas verdades do grande conflito entre o bem e o mal com o auxílio de referências cronológicas gerais.

Agora, mais importante ainda é o fato de que, embora Ellen White tenha usado a “cronologia dos seis mil anos”, em nenhum momento sequer ela fez uso da “teoria dos seis mil anos”, afirmando que ao fim desse período Cristo voltaria.

A “teoria dos seis mil anos”, como vimos, é uma teoria profética segundo a qual os seis dias da criação seguidos pelo sábado, juntamente com a declaração de que para Deus um dia é como mil anos (2Pe 3:8), constitui uma predição de que este mundo durará seis mil anos, e que a partir de então terá início o milênio sabático de repouso. Na Bíblia, porém, não há nenhum período profético de seis mil anos; não há nenhuma indicação de que a semana da criação deva ser alegorizada, como se representasse as eras do mundo habitado. Esse conceito se originou, sim, de antigas mitologias pagãs, passando a seguir para o judaísmo rabínico, cujos ensinamentos foram muito criticados por Cristo (Mc 7:6-13; Mt 15:1-9). Foi cristianizado pelos pais da Igreja que adotavam métodos exegéticos antibíblicos; sobreviveu durante toda a Idade Média, e alcançou os tempos modernos pela influência de Ussher.

Nem a semana da criação é profética, nem a passagem de 2 Pedro 3:8 apresenta um princípio de cálculo profético. O princípio profético encontrado nas Escrituras é o do “dia/ano” (Nm 14:34; Ez 4:6), e não o do “dia/mil anos”. O que encontramos em 2 Pedro 3:8 não é nada mais que o ensino de que mesmo uma demora de mil anos para que Cristo volte não seria grande demais. O que o Senhor deseja, na verdade, é que “nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3:9).

Assim, só o afirmar que o mundo habitado tem seis mil anos de história, tendo como base o Espírito de Profecia, já é atribuir aos escritos da Sra. White uma autoridade histórica ou cronológica que ela nunca reivindicou, e nunca pretendeu que acontecesse, mas chegar ao ponto de usar suas referências acerca dos seis mil anos para afirmar que o mundo vai acabar em determinado ano é violentar seus ensinos, e usá-los de modo ilegítimo e antinatural.

Os que assim o fazem lembram aqueles de quem o apóstolo Pedro fala com relação às coisas difíceis de entender nas Epístolas de Paulo, “que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles” (2Pe 3:16).

(Wilson Paroschi é professor de Novo Testamento e Interpretação Bíblica na Southern Adventist University, em Collegedale, TN, EUA)

Na China, câmeras são instaladas dentro da casa de pessoas em quarentena

CHINA-HEALTH-VIRUSEm várias cidades da China, governos locais estão instalando câmeras de monitoramento em frente a casas de cidadãos em quarentena para vigiá-los durante o período de isolamento, revelou uma reportagem da CNN. Em alguns casos, as câmeras são instaladas dentro das residências. A informação se baseia em entrevistas e postagens nas redes sociais. Em 16 de fevereiro, cita a reportagem, uma publicação do gabinete de um subdistrito chinês na plataforma Weibo – similar ao Twitter – informou que câmeras haviam sido instaladas do lado de fora da entrada das casas das pessoas em quarentena para monitorá-las 24 horas por dia. Autoridades de um distrito de Hubei também disseram que estavam usando câmeras de monitoramento para vigiar residentes em quarentena. Na cidade de Hangzhou, uma companhia de telecomunicações estatal ajudou a prefeitura a instalar 238 câmeras para monitorar as pessoas que estavam em isolamento em casa.

A CNN conversou com um funcionário público da cidade de Changzhou, que teve uma câmera instalada dentro de seu apartamento depois de voltar de uma viagem a outra província chinesa. Segundo o relato dele, um policial e um trabalhador comunitário foram ao seu apartamento no dia seguinte à sua chegada e instalaram a câmera em uma estante, apontando para a porta de entrada. O trabalhador comunitário tinha acesso à filmagem em tempo real em seu celular. A polícia disse ao funcionário público que a câmera não poderia ser instalada do lado de fora do apartamento porque poderia ser vandalizada.

“(A câmera) teve um enorme impacto em mim psicologicamente”, disse à CNN o homem, que não quis ser identificado. “Tentei não fazer telefonemas, temendo que a câmera gravasse minhas conversas por acaso. Eu não conseguia parar de me preocupar, mesmo quando dormia, depois de fechar a porta do quarto.” Ele também contou à reportagem que outros dois moradores do prédio estavam passando pela mesma situação.

Outros países estão usando tecnologia para monitorar pacientes com Covid-19, mas não chegam a este nível de vigilância que vem sendo adotado por alguns governos locais na China. A Coreia do Sul, por exemplo, usa um aplicativo que rastreia o paciente via GPS e envia alertas quando as pessoas saem da quarentena.

Segundo levantamento do IHS Markit Technology com dados de 2018, a China é o país com mais câmeras de monitoramento no mundo, com uma câmera para cada 4,1 habitantes. Os Estados Unidos vem logo atrás, com uma câmera instalada para 4,6 pessoas.

(Gazeta do Povo)

Nota: Aos poucos, a liberdade vai sendo substituída pela alegada segurança. Aos poucos, as pessoas vão sendo cada vez mais monitoradas. O script profético vai sendo seguido à risca e o cenário sendo montado em todo o planeta. (Claro que os governos comunistas seriam mestres na arte que já conhecem tão bem.) [MB]

Vídeos do Pentágono que mostram OVNIs são reais, diz Marinha dos EUA

ovniA Marinha dos Estados Unidos confirmou a autenticidade de três vídeos do Pentágono divulgados pela imprensa em 2017 que mostram objetos voadores não identificados (OVNIs). O governo americano afirmou não saber o que são os objetos vistos nas filmagens. As imagens foram vazadas em 2017 e 2018 pelo jornal americano The New York Times e pela organização The Stars Academy of Arts & Science, criada pelo ex-vocalista e guitarrista da banda Blink-182 Tom DeLonge. Nesta semana, a Marinha americana confirmou a veracidade dos vídeos ao site The Black Vault, especializado em vazamento de documentos e informações sigilosas do governo. Segundo o porta-voz Joseph Gradisher, as imagens mostram “fenômenos aéreos não identificados”.

As imagens mostram pilotos da Marinha dos Estados Unidos perseguindo objetos voadores não identificados. Um deles foi filmado em 2004, em San Diego, na Califórnia.

As outras duas filmagens são de 2015. Nelas, é possível ouvir os pilotos americanos conversando sobre os objetos não identificados. “É um drone, cara! ”, um deles diz. “Meu Deus! Eles estão indo contra o vento! ”, afirma o outro.

O porta-voz da Marinha se recusou a especular sobre o que os objetos vistos nos vídeos poderiam ser. Porém, em entrevista à revista Time, afirmou que em casos como esse geralmente acaba se descobrindo que se tratam de objetos comuns, como drones. “A frequência desse tipo de incursões aumentou desde o advento dos drones e dos quadcópteros”, disse.

(Veja)

Vídeos em que falo dos OVNIs e a possível relação deles com os eventos finais:

As sete trombetas e outros assuntos mal-compreendidos

trombetasNos últimos anos, têm sido debatidas entre os adventistas algumas interpretações alternativas a assuntos proféticos que, mais do que colocar em causa nosso entendimento escatológico, têm provocado alguma celeuma e perturbação. Pior ainda é quando essas interpretações incorrem em erros que levam a outros erros, ou até mesmo minam princípios de interpretação e entendimento. Não é o propósito aqui fazer uma análise elaborada e detalhada de cada um desses pontos. Faremos apenas uma breve revisão de matéria que nos permita perceber as falhas de algumas dessas interpretações que têm surgido. O objetivo não é denunciar pessoas, mas, sim, levar o estudante da Bíblia ao correto entendimento dos textos e das profecias em questão.

Apocalipse 4, 5

Tem sido sugerido que os capítulos 4 e 5 de Apocalipse se referem à entrada de Jesus no lugar santíssimo do santuário celestial em 1844, dando assim início ao juízo investigativo, o que contraria a posição prevalecente de que o relato que João faz ali ocorreu no ano 31, quando da ascensão definitiva de Cristo ao Céu após Sua vida, morte e ressurreição na Terra, descrevendo Sua consequente entronização diante de todos os exércitos celestiais.

Pensamos que breves argumentos serão suficientes para demonstrar que Apocalipse 4 e 5 não podem se referir ao episódio ocorrido em 1844, ou seja, à entrada de Jesus no lugar santíssimo para início da obra de juízo investigativo.

  1. Em Apocalipse 5:1 aparece um livro selado com sete selos. Após o clamor de um anjo acerca de quem será digno de abrir o livro com os selos, o versículo 5 aponta quem poderá abrir: o “Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi”, uma referência óbvia a Jesus, identificado e confirmado como Cordeiro nos versículos 6 a 9.

Esse livro e em especial seus selos são abertos em Apocalipse 6:1-17 e 8:1. Esses selos representam diferentes períodos da história da igreja cristã, começando na época de João, no primeiro século, e estendendo-se até ao fim do tempo: o primeiro selo coincide com o tempo da igreja de Éfeso (2:17) até o fim do primeiro século; o segundo coincide com o tempo da igreja de Esmirna (2:8-11) até o ano 313; o terceiro coincide com o tempo da igreja de Pérgamo (2:12-17) até o ano 538; o quarto coincide com o tempo da igreja de Tiatira (2:18-29) até 1517; o quinto selo decorre até meados do século 18; o sexto selo profetiza o terremoto de Lisboa de 1755, o escurecimento do sol de 1780, e a queda das estrelas de 1833 (6:12, 13), e segue até quase o fim da história da Terra.

Assim, surge a pergunta: Se os selos que Cristo recebe em Apocalipse 5 e são em seguida abertos apontam profeticamente para eventos da história da igreja cristã que começam logo no primeiro século, como será possível que o capítulo 5 descreva um evento ocorrido em 1844? A resposta só pode ser uma: o capítulo 5 não descreve eventos ocorridos em 1844.

[Para derrubar esse raciocínio que fizemos existe o argumento de que os sete selos ainda hoje estão à frente no tempo. Mais abaixo, ao abordarmos as sete trombetas, veremos que essa ideia é ilógica.]

  1. Em Apocalipse 4 temos menção à presença tanto do Pai (4:8) quanto do Espírito Santo (4:5, cf. 1:4) – Jesus não aparece. Já no capítulo 5 temos menção à presença do Pai (5:13, cf. 4:2, 9) e de Jesus (5:5, 6, 8, 12, 13) – o Espírito Santo não aparece. Por que razão Jesus (ainda) não aparece no capítulo 4 e o Espírito Santo (já) não aparece no capítulo 5?

Nos últimos dias da Sua passagem por este mundo, Jesus tinha advertido os discípulos para aguardarem por algo específico: “E eis que sobre vós envio a promessa de Meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lucas 24:49). Essa promessa, esse revestimento de poder trata-se do Espírito Santo que já tinha sido prometido antes: “E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece; mas vós O conheceis, porque habita convosco, e estará em vós” (João 14:16, 17).

Portanto, quando Jesus fosse embora deste mundo, Ele enviaria o Espírito Santo para cá. Dar-se-ia uma espécie de substituição: Jesus sairia da Terra, entraria no Céu; o Espírito Santo sairia do Céu e entraria na Terra.

Mas, como já vimos, Jesus também tinha dito aos discípulos que o Espírito Santo não chegaria imediatamente no momento da Sua partida, mas que eles deveriam aguardar pela chegada do Espírito. E por que razão deveriam aguardar? Porque Jesus precisava ser entronizado ao chegar ao Céu, ocupando ali Seu lugar, permitindo então que o Espírito viesse para cá, em cumprimento da promessa.

Isso é confirmado no livro de Atos 2:32, 33: “Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis” (note o uso da expressão “exaltado pela destra de Deus”, que faz lembrar Apocalipse 5:1, 7).

Mais confirmado ainda é por Ellen White: “A ascensão de Cristo ao Céu foi, para Seus seguidores, um sinal de que estavam para receber a bênção prometida. Por ela deviam esperar antes de iniciarem a obra que lhes fora ordenada. Ao transpor as portas celestiais, foi Jesus entronizado em meio à adoração dos anjos. Tão logo foi essa cerimónia concluída, o Espírito Santo desceu em ricas torrentes sobre os discípulos, e Cristo foi, de fato, glorificado com aquela glória que tinha com o Pai desde toda a eternidade. O derramamento pentecostal foi uma comunicação do Céu de que a confirmação do Redentor havia sido feita. De conformidade com Sua promessa, Jesus enviou do Céu o Espírito Santo sobre Seus seguidores, em sinal de que Ele, como Sacerdote e Rei, recebera todo o poder no Céu e na Terra, tornando-Se o Ungido sobre Seu povo” (Atos dos Apóstolos, p. 20).

E assim temos Apocalipse 4 e 5: Jesus ascende aos Céus no ano 31, após a Sua ressurreição, e “substitui” o Espírito Santo, que desce à Terra. Sendo que as cenas desses capítulos ocorrem integralmente no Céu, é por isso que o Espírito Santo (ainda) aparece no capítulo 4, mas (já) não aparece no capítulo 5, e é por isso que Jesus (ainda) não aparece no capítulo 4, mas (já) aparece no capítulo 5.

  1. Finalmente, encontramos outra evidência de que o capítulo 5 de Apocalipse teve lugar no ano 31, em O Desejado de Todas as Nações, páginas 590 e 591. Descrevendo a cerimônia da entrada de Cristo no Céu após Sua ascensão, Ellen White relatou como segue (não colocaremos o relato integral desse episódio, mas apenas o término dele, chamando sua atenção especialmente para as referências bíblicas que a autora coloca no fim dos dois últimos parágrafos):

“Com inexprimível alegria, governadores, principados e potestades reconhecem a supremacia do Príncipe da Vida. A hoste dos anjos prostra-se perante Ele, ao passo que enche todas as cortes celestiais a alegre aclamação: ‘Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças’! (Apocalipse 5:12).

Hinos de triunfo misturam-se com a música das harpas angélicas, de maneira que o Céu parece transbordar de júbilo e louvor. O amor venceu. Achou-se a perdida. O Céu ressoa com altissonantes vozes que proclamam: ‘Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre’ (Apocalipse 5:13).”

Portanto, Ellen White aponta claramente o capítulo 5 de Apocalipse como estando enquadrado no momento em que Cristo entrou no Céu após Sua ascensão.

Apocalipse 17

O capítulo 17 de Apocalipse é um dos textos bíblicos mais estudados e debatidos entre os acadêmicos adventistas, dada a sua enorme riqueza e complexidade de símbolos. Dentro desse contexto, o significado dos sete reis que aparecem nos versículos 9 e 10 tem sido interpretados como sendo sete poderes ou nações que, ao longo da História, têm tido impacto junto ao povo de Deus.

A maioria desses estudiosos apenas diverge acerca de qual nação será a primeira nesse fluxo histórico: Egito, Assíria, Babilónia, Medo-pérsia, Grécia, Roma imperial, Roma papal é uma das hipóteses; outros começam pela Assíria e colocam os Estados Unidos (besta da terra, Apocalipse 13:11) lá, quase no fim da lista; outros ainda começam em Babilônia e acrescentam os Estados Unidos e a Revolução Francesa (besta do abismo, Apocalipse 11:7). O que é certo e consensual é o uso de impérios, nações, poderes, sistemas globais para identificar os sete reis, jamais sendo usadas pessoas específicas de qualquer uma ou de todas essas nações.

Contudo, outra leitura entende que esses sete reis seriam sete papas, pontífices romanos, contados em linha sucessória a partir de determinado ponto na História, especificamente 1929, com a assinatura do tratado de Latrão entre a Santa Sé e o Estado italiano.

  1. O primeiro problema dessa teoria é que interpreta o termo “reis” (17:10) como sendo pessoas, homens específicos à cabeça de uma nação ou poder, quando em toda a leitura profética “reis” são entendidos como a nação, o poder em si.

Por exemplo: em Daniel 2:38, interpretando o sonho de Nabucodonosor, o profeta declarou ao monarca da Babilônia: “Tu és a cabeça de ouro.” Acontece que quando Babilônia foi conquistada pela Medo-pérsia, o rei em Babilônia já não era Nabucodonosor, mas, sim, Belsazar (Daniel 5:1). Isso quer dizer que, caso em Daniel 2:38 o profeta estivesse se referindo à pessoa de Nabucodonosor como sendo ele mesmo a cabeça de outro, essa interpretação estaria errada – na verdade, a expressão “tu és a cabeça de ouro” era referência a Babilônia. Como sabemos disso? Porque em Daniel 2:39, logo de seguida, Daniel afirma: “Depois de ti se levantará outro reino.” E quando se levantou outro reino? Apenas depois de Belsazar, neto de Nabucodonosor. Portanto, a cabeça de ouro era Babilônia, não Nabucodonosor, como certamente todos concordam.

Assim, por que razão interpretar seletivamente os sete reis de Apocalipse 17 como sendo sete homens, sejam papas, imperadores ou presidentes? Por que razão profeticamente “reis” sempre aparecem como reinos, nações, poderes, mas aqui, especificamente, seriam pessoas? Inclusive no versículo 11 é mencionado que “a besta que era e já não é, é ela também o oitavo rei, e é dos sete” – “besta” também representa sempre um reino, uma nação, um poder; será que aqui nesse versículo “besta” estaria representando um homem?

Ainda no contexto de Apocalipse 17, surge outra pergunta: Se os sete reis do versículo 10 são sete homens (no caso, papas) e não sete nações, quem são os dez reis do versículo 12? Serão os dez últimos papas? Serão os dez últimos presidentes norte-americanos? Serão os dez últimos secretários-gerais das Nações Unidas (apenas para evocar uma teoria que também existe)?

Parece-nos que nenhuma dessas perguntas pode ter outra resposta a não ser esta: “reis” representam reinos, nações, poderes, e não homens.

  1. Todo o raciocínio que lê os sete reis de Apocalipse 17:9, 10 como sendo sete papas em linha sucessória desde 1929 parte da premissa de que a ferida mortal infringida ao papado romano (Apocalipse 13:3) foi curada em 1929, daí se contar o número de papas que exerceram o pontificado romano desde então. Contudo, essa premissa não está correta; o papado romano não se recuperou da ferida mortal em 1929, o que de imediato compromete todo o fundamento dessa teoria.

Para explicar por que razão a ferida mortal no papado não foi curada em 1929, comecemos por perguntar: O que é que aconteceu ao papado em 1798? Qual a “ferida” que o atingiu?

Desde o século 6 o papado dispunha de um poder imenso junto das nações da velha Europa, lugar da sua sede e quase completa influência. Veja as evidências: “O altivo pontífice também pretendia o poder de depor imperadores; e declarou que sentença alguma que pronunciasse poderia ser revogada por quem quer que fosse, mas era prerrogativa sua revogar as decisões de todos os outros” (Ellen White, O Grande Conflito, p. 57). “O papado se tornou o déspota do mundo. Reis e imperadores curvavam-se aos decretos do pontífice romano. O destino dos homens, tanto temporal como eterno, parecia estar sob seu domínio. […] Seu clero era honrado e liberalmente mantido. Nunca a Igreja de Roma atingiu maior dignidade, magnificência ou poder” (O Grande Conflito, p. 60).

Portanto, vemos aqui que o domínio de Roma abrangia tudo: poderes religioso, secular, político, civil, militar (usando a força dos estados), etc.; tudo estava sob a ordem do pontífice romano.

Mas algo mudou. Em fevereiro de 1798, o general francês Berthier entrou em Roma, e numa ação militar que durou poucos dias prendeu o Papa Pio VI, proclamou uma república e retirou o poder temporal (secular, político, civil) do papado, cumprindo a profecia de Apocalipse 13:3: “Vi uma de suas cabeças como ferida de morte.”

A inspiração profética confirma este cumprimento profético: “Nesta ocasião [1798] o papa foi aprisionado pelo exército francês, e o poder papal recebeu a chaga mortal” (Ellen White, O Grande Conflito, p. 439).

Cessou ali – melhor dizendo, interrompeu-se por algum tempo – o domínio absoluto, o despotismo e a tirania da igreja romana. Mas o mesmo versículo de Apocalipse que já lemos (13:3) continua dizendo: “E a sua chaga mortal foi curada”, o que indica que essa interrupção chegaria ao fim e o papado seria novamente restituído ao seu poderio anterior a 1798.

É justamente aqui que a maioria dos autores e comentaristas adventistas chega a 1929. O que aconteceu nesse ano de significativo com o papado? Em 7 de junho de 1929, o reino da Itália e a Santa Sé ratificaram uma série de três tratados, assinados em 11 de fevereiro do mesmo ano, cujos documentos atestavam:

a) O reconhecimento total da soberania da Santa Sé no estado do Vaticano.

b) Uma concordata regulando a posição da religião católica no Estado.

c) Uma convenção financeira acordando a liquidação definitiva das reivindicações da Santa Sé por suas perdas territoriais (estados pontifícios) e de propriedade.

Portanto, o que Roma recuperou em 1929 foi território, poder religioso (não obrigatório, não vinculativo) e bens patrimoniais e financeiros. Assim, pergunta-se: Em 1929 Roma recuperou o poder temporal (secular, político, civil) que havia perdido em 1798? A resposta é não.

Então, de que é que Roma se recuperou em 1929? Pois bem, nessa data Roma se recuperou de outra “ferida” (permita o uso desse termo apenas para fazer paralelo) que tinha sofrido em 1870: no dia 20 de setembro, e após alguns anos de disputas políticas internas e europeias, o rei Victor Emanuel II (monarca do reino da Itália) anexou a cidade de Roma como parte do processo de unificação da península italiana, retirando, assim, a soberania papal sobre todos os territórios conhecidos como estados pontifícios ou papais.

Resumindo: em 1929, Roma recuperou, sarou essencialmente a ferida que tinha sofrido em 1870 – os territórios físicos do seu domínio. Mas não houve recuperação nem sarar do seu poder temporal perdido em 1798.

Vejamos o que diz a Bíblia, no texto já citado: “Vi uma de suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a Terra se maravilhou após a besta” (Apocalipse 13:3). Portanto, o oráculo profético de Patmos indica que depois de a ferida de morte (sofrida em 1798) ser curada toda a Terra se maravilhará após (ou diante, ou com) a besta (papado romano).

Perguntamos: A Terra toda já se maravilhou com a besta após 1929 e até agora? Não, claro que não. Então, por dedução lógica, isso quer dizer e confirma que a ferida de morte sofrida em 1798 não foi curada naquela data.

Neste momento você pode estar pensando: Então, será que a ferida papal de 1798 já foi curada? Se sim, quando foi? Se não, quando será? Veja como Ellen White comenta esse momento em que, de fato, toda a Terra se maravilhará após a besta, ato contínuo à cura da ferida sofrida em 1798:

“A profecia do capítulo 13 do Apocalipse declara que o poder representado pela besta de chifres semelhantes aos do cordeiro fará com que a ‘Terra e os que nela habitam’ adorem o papado, ali simbolizado pela besta ‘semelhante ao leopardo’. A besta de dois chifres dirá também ‘aos que habitam na Terra que façam uma imagem à besta’; e, ainda mais, mandará a todos, ‘pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos’, que recebam o ‘sinal da besta’ (Apocalipse 13:11-16). Mostrou-se que os Estados Unidos são o poder representado pela besta de chifres semelhantes aos do cordeiro, e que esta profecia se cumprirá quando aquela nação impuser a observância do domingo, que Roma alega ser um reconhecimento especial de sua supremacia. Mas nesta homenagem ao papado os Estados Unidos não estarão sós. A influência de Roma nos países que uma vez já lhe reconheceram o domínio, está ainda longe de ser destruída. E a profecia prevê uma restauração de seu poder. ‘Vi uma de suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a Terra se maravilhou após a besta’ (Apocalipse 13:3). A aplicação da chaga mortal indica a queda do papado em 1798. Depois disto, diz o profeta: ‘A sua chaga mortal foi curada; e toda a Terra se maravilhou após a besta.’ Paulo declara expressamente que o homem do pecado perdurará até ao segundo advento (2 Tessalonicenses 2:8). Até mesmo ao final do tempo prosseguirá com a sua obra de engano. E diz o escritor do Apocalipse, referindo-se também ao papado: ‘Adoraram-na todos os que habitam sobre a Terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida’ (Apocalipse 13:8). Tanto no Antigo quanto no Novo Mundo o papado receberá homenagem pela honra prestada à instituição do domingo, que repousa unicamente na autoridade da Igreja de Roma” (Ellen White, O Grande Conflito, p. 579).

Vemos que Ellen White relaciona diretamente a cura da ferida de 1798 com o reconhecimento do domingo como dia santo (que na verdade é o falso sábado) – será aqui que Roma recuperará totalmente o que perdeu em 1798: o poder temporal (secular, político, civil), agora associado ao religioso de que já dispõe. E isso será feito com uma importante e decisiva intervenção dos Estados Unidos da América do Norte, o que não sucedeu até o dia de hoje.

Podemos com algum esforço dizer que em 1929 a ferida começou a curar ou foram dados os primeiros passos nessa cura? Possivelmente, sim; mas dizer que a ferida mortal de Apocalipse 13:3 foi curada em 1929 simplesmente não está correto.

Assim, assumir a data de 1929 como algo de profeticamente marcante é um exagero de interpretação. Todas as leituras que surjam após e baseadas nessa premissa estão comprometidas desde o início.

As sete trombetas

As sete trombetas proféticas mencionadas em Apocalipse 8:6-9:21 e 11:15-19 são normalmente entendidas como se referindo a juízos da parte de Deus (Levítico 25:9; Juízes 6; Sofonias 1:16).

Mais ainda, o cumprimento delas é entendido como se estendendo cronologicamente ao longo da História, desde o tempo de João, no primeiro século, até o momento da segunda vinda de Jesus. Esse é o mesmo entendimento sobre as sete igrejas e os sete selos: começam no tempo de João e se desenvolvem até o tempo do fim, por vezes simultaneamente entre si, outras vezes não.

Existe, contudo, uma linha de pensamento segundo a qual as sete trombetas de Apocalipse se referem a acontecimentos que ainda estão no futuro. Cronologicamente, sugere-se que tivemos já as seis primeiras igrejas de Apocalipse 2 e 3, estamos atualmente no tempo da sétima igreja (Laodiceia), ao que se seguirão os sete selos de Apocalipse 6 e 8:1 e, depois disso, as sete trombetas.

  1. Essa tese é defendida partindo do princípio de que esses símbolos proféticos da primeira parte do livro de Apocalipse, descritos com recurso comum ao número sete, estão dispostos em ordem cronológica. Essa premissa é inconsistente com o estilo literário do Apocalipse. Por exemplo: as sete igrejas são concluídas em 3:22. Depois, nos capítulos 4 e 5, temos, como já vimos, a cerimônia de entronização de Cristo após a ascensão dEle, no ano 31 – nesse caso, se houvesse ordem cronológica na redação do livro, a igreja de Laodiceia teria que estar no tempo antes do ano 31, ou a ascensão de Cristo teria de estar ainda no futuro! E mesmo admitindo a hipótese (que consideramos errada) de os capítulos 4 e 5 se referirem à entrada de Jesus no lugar santíssimo do santuário celestial em 1844, ainda assim a igreja de Laodiceia teria que estar no tempo antes de 1844, o que sabemos não estar certo.
  2. Verificamos também que na abertura do sétimo selo (Apocalipse 8:1) faz-se menção a “quase meia hora de silêncio do céu”. Essa “quase meia hora” (que são sete dias e meio literais, partindo do princípio interpretativo de um dia profético = um ano literal) é um período de tempo profético que tem intrigado os estudiosos, uma vez que não se repete em nenhum outro ponto das Escrituras.

Precisamos aqui da ajuda de Ellen White, uma vez que há um texto que pode trazer esclarecimento. Em Primeiros Escritos, página 16, lemos: “Todos nós entramos na nuvem, e estivemos sete dias ascendendo para o mar de vidro.” O “mar de vidro” é referido duas vezes em Apocalipse: 15:2, onde os salvos (“vitoriosos da besta”) estão cantando com harpas, e 4:6, onde se descreve um trono no Céu (4:1-6), o que só pode ser o trono do próprio Deus.

E por que razão há silêncio no céu durante “quase meia hora”? Porque, de acordo com Apocalipse 19:14, os exércitos do Céu acompanham Jesus em Sua segunda vinda, deixando, assim, o Céu vazio, sem ninguém para quebrar o silêncio.

Juntando tudo isso, facilmente concluímos que o texto de Ellen White se refere aos sete dias que os salvos levam para subir da Terra até o Céu, quando da segunda vinda de Jesus, que é o período de tempo de “quase meia hora” profética de Apocalipse 8:1, na abertura do sétimo selo. Isso quer dizer que, caso os relatos das sete igrejas, dos sete selos e das sete trombetas estejam em ordem estritamente cronológica, então a segunda vinda de Jesus acontecerá antes até mesmo do tempo da primeira trombeta! Repetindo e reforçando: nessa leitura, a primeira trombeta terá que soar após a segunda vinda de Jesus ou, na melhor das hipóteses, no momento dessa segunda vinda.

  1. Em O Grande Conflito, página 334, Ellen White confirma e comprova a correta interpretação do tempo referente à sexta trombeta:

“No ano de 1840 outro notável cumprimento de profecia despertou geral interesse. Dois anos antes, Josias Litch, um dos principais pastores que pregavam o segundo advento, publicou uma explicação de Apocalipse 9, predizendo a queda do Império Otomano. Segundo seus cálculos, essa potência deveria ser subvertida ‘no ano de 1840, no mês de agosto’; e poucos dias apenas antes de seu cumprimento escreveu: ‘Admitindo que o primeiro período, 150 anos, se cumpriu exatamente antes que Deacozes subisse ao trono com permissão dos turcos, e que os 391 anos, quinze dias, começaram no final do primeiro período, terminará no dia 11 de agosto de 1840, quando se pode esperar seja abatido o poderio otomano em Constantinopla. E isso, creio eu, verificar-se-á ser o caso’ (Josias Litch, artigo no Signs of the Times, and Expositor of Prophecy, de 1º de agosto de 1840). No mesmo tempo especificado, a Turquia, por intermédio de seus embaixadores, aceitou a proteção das potências aliadas da Europa, e assim se pôs sob a direção de nações cristãs. O acontecimento cumpriu exatamente a predição.”

A quinta e a sexta trombetas em Apocalipse têm dois períodos de tempo profético associados: “cinco meses” proféticos ou 150 anos literais (9:5, quinta trombeta) e “hora, dia, mês, ano” proféticos, ou 391 anos e 15 dias literais (9:15, sexta trombeta). No texto de Ellen White que colocamos no parágrafo anterior, a mensageira do Senhor confirma que o período profético referente à sexta trombeta se cumpriu em 11 de agosto de 1840. Assim, se a sexta trombeta se cumpriu há precisamente 180 anos, como será possível que as sete trombetas tenham seu cumprimento ainda no futuro? A única resposta é: não é possível.

  1. Mas fazemos ainda outro raciocínio: imaginemos que os proponentes dessa teoria admitam que, na verdade, o Apocalipse não está redigido em exata ordem cronológica, e que as sete trombetas de Apocalipse acontecem antes da segunda vinda de Jesus, embora estejam toda ainda no futuro; isto é, acontecem em algum momento entre hoje e a segunda vinda de Jesus. Ora, se as sete trombetas ainda estão no futuro e acontecerão em algum tempo entre hoje e a segunda vinda, então os tempos proféticos mencionados na quinta e na sexta trombetas (150 anos; 391 anos e 15 dias literais) forçosamente ainda estão no futuro. Portanto, nesse caso, as conclusões seriam: (a) aquele texto de Ellen White em O Grande Conflito está errado, é uma falsa interpretação profética; (b) Jesus não voltará nos próximos 541 anos (150 + 391), o que implica marcar data profética após 1844.

A única conclusão lógica de tudo isso é que colocar as sete trombetas de Apocalipse no futuro é um erro enorme e perigoso.

  1. Recorre-se muitas vezes a um texto de Ellen White no qual é mencionado o seguinte: “Solenes acontecimentos ainda ocorrerão diante de nós. Soará uma trombeta após a outra; uma taça após a outra será derramada sucessivamente sobre os habitantes da Terra” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 426). Segundo alguns proponentes, isso indica que as sete trombetas de Apocalipse ainda estão no futuro. Pelo exposto nos pontos anteriores, não pode ser assim. E podemos facilmente perceber a que se refere esse texto de Ellen White recorrendo a Apocalipse 16.

Nesse capítulo são apresentadas as “sete taças da ira de Deus” que serão “derramadas sobre a terra” (16:1). Se quiser reler o texto acima de Ellen White, é exatamente nesses termos que a mensageira de Deus se expressa: “…uma taça após a outra será derramada sucessivamente sobre os habitantes da Terra.” Portanto, aqui Ellen White se refere às sete últimas pragas que serão derramadas sobre um mundo perdido, já após o fechamento da porta da graça – juízos de Deus sobre os ímpios –, daí o uso da imagem de “trombetas”. Nada mais do que isso.

Daniel 12

Um dos pontos mais controversos de interpretação profética diz respeito aos tempos mencionados em Daniel 12: argumenta-se que os 1260, 1290 e 1335 anos devem ser entendidos de forma literal e não simbólica.

Reproduzimos um breve artigo do pastor Ángel Manuel Rodríguez, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Bíblias da Associação Geral da Igreja Adventista, que resume muito bem as razões pelas quais esses períodos proféticos devem ser entendidos simbólica e não literalmente:

“Os adventistas seguem o método historicista de interpretação profética, pelo qual as profecias recebidas por Daniel abrangem o tempo desde os dias do profeta até o estabelecimento do reino de Deus. De acordo com essa abordagem, o princípio dia/ano (Ezequiel 4:6) é usado para interpretar períodos proféticos. A abordagem historicista afirma que esses períodos foram anos e que eles foram cumpridos durante o fim da Idade Média.

“Alguns adventistas agora argumentam que o princípio dia/ano não se aplica a essas duas profecias e que esses períodos proféticos devem ser entendidos como dias literais de eventos a serem cumpridos antes da volta de Jesus. Eles são forçados a especular sobre quais eventos marcarão a conclusão desses períodos. Vamos examinar o contexto da passagem para obter orientação.

“A. Contexto imediato e o tempo do fim. Nem tudo descrito em Daniel 12:5-13 está relacionado ao tempo do fim. Por exemplo, o selamento do livro e o aumento do conhecimento começam antes desse tempo (v. 4 e 9); é antes do tempo do fim que o ser celestial jura ‘por quem vive para sempre’ (v. 7), ocorre a quebra do poder do povo santo, e as ‘maravilhas’ terminam (v. 8). O refinamento do povo de Deus ocorre ao longo da história, não simplesmente no tempo do fim (v. 10). Portanto, é incorreto dizer que, como o contexto imediato menciona o tempo do fim, os períodos proféticos pertencem ao mesmo tempo.

“B. Períodos proféticos em Daniel. Mesmo que reconheçamos que os períodos proféticos estão em um contexto em que não há visões e que a linguagem é predominantemente literal, isso não significaria que os próprios dias são literais. Em Daniel, os períodos proféticos nunca são dados em forma visual. O profeta ouve ou lhe são ditos por um ser celestial. Em Daniel 7:25, os três tempos e meio são introduzidos não durante a visão, mas durante a explicação do anjo sobre a visão. Em Daniel 8:14, os 2.300 dias são dados no contexto de uma revelação na qual a linguagem é predominantemente literal. Finalmente, em Daniel 9 encontramos a profecia das 70 semanas dadas a Daniel por meio de uma explicação oral. Em todos esses casos, a linguagem usada na interpretação da visão é basicamente literal, mas os períodos proféticos não são. Eles são apresentados após a visão, como informações adicionais, mas seu conteúdo simbólico não é totalmente explicado. É exatamente o que encontramos em Daniel 12:11, 12. Durante a apresentação oral, períodos proféticos são dados sem uma interpretação detalhada. Daniel é incapaz de entendê-los, mas ele é levado a acreditar que o povo de Deus os entenderá no futuro.

“C. Conexão entre os períodos. Os 1.290 dias são uma extensão dos 1.260 dias mencionados em Daniel 7:25 e 12: 7 como um ‘tempo, tempos e metade de tempo’. A diferença em Daniel 12:11 é de 30 dias, sugerindo que um mês adicional foi acrescentado para estender o período (uma prática comum nos calendários lunares). Como o período de 1.290 dias se baseia nos 1.260 dias, e como os intérpretes historicistas reconhecem que os 1.260 dias são anos, temos que concluir que o princípio dia/ano também se aplica aos 1.290 dias.

“A referência aos 1.260 dias em Daniel 7:25 enfatizou o tempo durante o qual o povo de Deus sofreria perseguição. Daniel 12:7 enfatiza o momento em que as atividades dos inimigos de Deus terminariam. Os 1.290 dias em Daniel 12:11 enfatizam o momento em que o tempo profético começa. Para sincronizar o início da profecia com um evento específico, o período é estendido adicionando um mês extra – em vez de 42 meses (1.260 dias), agora temos 43 (1.290 dias). Essa intercalação permite que o anjo intérprete seja mais preciso em relação ao evento que inicia o período, bem como a toda a sua extensão. O período profético de 1.290 dias é então prorrogado por 45 dias extras, totalizando 1.335 anos proféticos, com base no princípio do dia/ano.

“Em conclusão, esses dois períodos são extensões de um período profético bem estabelecido e devem ser interpretados simbolicamente, de acordo com o restante da profecia” (Fonte: Biblical Research Institute).

Terminamos esse esclarecimento citando um texto de Ellen White que nos parece encaixar muito bem na exposição que fizemos, e que deve servir de orientação para qualquer estudo da Bíblia, particularmente a profecia:

“Tem havido uns e outros que, estudando a Bíblia, julgaram descobrir grande luz, e teorias novas, mas não têm sido corretas. As Escrituras são todas verdade, mas por aplicarem-nas mal, homens chegam a erradas conclusões. Achamo-nos empenhados em grande conflito, e ele se tornará mais rigoroso e decidido ao nos aproximarmos da luta final. Temos um inimigo vigilante, e está em constante atividade na mente humana que não teve experiência pessoal nos ensinos do povo de Deus pelos cinquenta anos passados. Alguns tomarão a verdade aplicável a seu tempo, e pô-la-ão no futuro. Acontecimentos, na sequência da profecia, que tiveram seu cumprimento no distante passado, são considerados futuros, e assim, por essas teorias, a fé de alguns é solapada” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 102)

(Filipe Reis é ancião na Igreja Adventista de Avintes, em Portugal, e diretor do projeto O Tempo Final)

Assista à série A Profecia (clique aqui).

Perguntas interativas da Lição: Bíblia – fonte autoritativa de nossa teologia

BibleExistem cinco diferentes fontes que podem influenciar nossa interpretação das Escrituras: a tradição, a experiência, a cultura, a razão e a própria Bíblia. A prioridade dada a alguma dessas fontes vai resultar em ênfases ou resultados muito diferentes, e vai determinar, por fim, a direção de toda a nossa teologia. Vamos refletir sobre cada uma delas a seguir.

 Perguntas para reflexão e discussão on-line:

 TRADIÇÃO

 Leia Mateus 15:1-6. Apesar de não ser ruim, por que a tradição se torna perigosa quando se trata de interpretar a Bíblia? Leia 1 Coríntios 11:2 e 2 Tessalonicenses 3:6. O apóstolo Paulo passou algumas “tradições” aos novos conversos gregos de Corinto e de Tessalônica. Como podemos distinguir entre a tradição humana e a Palavra de Deus (Gl 1:8, 9)? Por que é importante fazer essa distinção (Mt 15:9)? Apesar de consolidadas pelo costume e de serem aparentemente “solenes”, que coisas podemos estar fazendo como igreja que não são ensinamentos bíblicos, mas apenas tradições humanas (ver exemplos na nota abaixo)? Como podemos interpretar as tradições de acordo com a Bíblia, e não o contrário?

 EXPERIÊNCIA

 Leia Tiago 1:22; 2 Coríntios 13:5; Hebreus 5:13, 14. Além do conhecimento intelectual da Bíblia, por que a experiência pessoal é importante? Por outro lado, de que modo as experiências podem ser muito enganadoras? Qual deve ser o limite da confiança em nossas experiências? Como elas devem ser provadas pela Palavra de Deus? Qual é o papel da experiência pessoal na interpretação da Bíblia?

 CULTURA

 Temos que admitir: em maior ou menor grau, ninguém escapa das influências da cultura local. Dê exemplos de aspectos de sua cultura que estão em oposição aos ensinos bíblicos (festas típicas, culinária regional, religiosidade pagã, baladas, Carnaval, etc.). Como podemos viver no mundo e ainda assim não ter uma mentalidade “mundana” (ver Rm 12:2; 1Co 2:16)? De que modo a cultura pode acabar influenciando nossa interpretação das Escrituras? Como podemos nos proteger para que isso não aconteça? Assim como Jesus, como podemos criar uma contracultura sem que nos tornemos “esquisitos”?

 RAZÃO

 Qual o significado de Provérbios 1:7? O que significa “razão” para as pessoas secularizadas? E para Deus, o que significa (Sl 14:1; Pv 14:9, 12; Is 1:18)? Por que as pessoas tendem a separar “razão” de “fé” (Ef 4:18)? Qual é o erro dessa separação? O que significa ter uma “fé racional” (Rm 12:1; 1Pe 3:15)? Por outro lado, por que a fé verdadeira não pode ser “irracional”? Que tipo de “razão” deve ser usada para interpretar corretamente as Escrituras? (ver 1Tm 6:20; Cl 2:8).

 BÍBLIA

 Por que a Bíblia é superior à tradição, à experiência, às diversas culturas e à razão humana? Por que todas essas coisas têm que ser provadas por ela? Leia Lucas 10:26; João 5:46, 47. Como Jesus reforça a superioridade da Bíblia para podermos crer nEle de maneira correta? Por que uma porção bíblica nunca deve ser entendida de maneira que coloque outro trecho em contradição? Por que as pessoas que dizem ter tido uma “revelação” devem estar de acordo com toda a Escritura? Como a própria Bíblia deve ser a norma para entendermos seu conteúdo? De acordo com Gálatas 1:8 e 9, como devemos considerar tudo aquilo que “passar” dessa norma?

Nota: As tradições não são ruins. Mas elas não devem ser confundidas com os princípios eternos. Algumas igrejas, por exemplo, não realizam a Santa Ceia sem antes praticarem um tipo de “lava mãos”. Todavia, isso não faz parte da cerimônia instituída por Jesus; foi idealizado apenas para demonstrar aos presentes que as mãos são devidamente higienizadas antes de manusearem o pão que lhes será servido (especialmente pelo fato de terem acabado de lavar os pés de outra pessoa). Apesar de parecer “solene” para alguns, é apenas uma tradição que pode ser dispensada sem prejuízo algum ao significado da cerimônia da Santa Ceia. Obviamente, é justo instruir os participantes a lavar as mãos logo após a cerimônia do “lava-pés” (esta sim, bíblica, cf. Jo 13). Há outros exemplos de tradições confundidas com fundamentos bíblicos, tais como a necessidade do uso de gravata para pregar a mensagem a partir do púlpito, ou a necessidade de se montar uma “plataforma” (pessoas sentadas atrás do pregador para auxiliar nas diversas partes do culto). Apesar de serem apenas convenções sociais originadas em um determinado contexto cultural, local e temporal, são muitas vezes confundidas com a verdade eterna. Contudo, deve ser muito claro para os cristãos que os princípios bíblicos ultrapassam as culturas, as geografias e o tempo, pois são santos, universais e eternos.

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Mais que médico, ajudante do Pastor

1– O senhor é pastor?

De repente, todos nós, que estávamos naquele momento compenetrados, paramos para olhar para o leito 2 da UTI. Lá estava o seu Roberto, de 49 anos, com a voz ainda rouca e embargada pelos dez dias que passou entubado na UTI do Hospital Adventista de São Paulo.

São dias estranhos e diferentes os que vivemos. Estava comigo o Dr. Elson, diretor clínico do CEVISA, que naquele momento de luta contra a pandemia mundial de coronavírus, acostumado a aplicar diariamente seus conhecimentos em Medicina do Estilo de Vida, estava, assim como eu, a enfermeira e a fisioterapeuta, revisando e pensando em tantos fatores diferentes, como dose de drogas vasoativas, critérios de ventilação mecânica, antibióticos e todas as questões relativas ao tratamento de pacientes graves.

– O senhor é pastor? – repetiu Roberto, desta vez com a voz um pouco mais forte, como tentando vencer a máscara de oxigênio que estava usando.

Naquele momento, algo mexeu dentro de mim. Médico? Coordenador da UTI? Cardiologista? Intensivista? Não. Não me pareceu o correto. Falei então:

– Não, seu Roberto. Não sou pastor. Sou ajudante do Pastor. Por quê?

– Eu ouço todos os dias… você orar… pelos pacientes… Poderia orar por mim?

A observação do Roberto me deixou impressionado. Todos os dias, antes de passar visita multiprofissional, fazemos uma oração pedindo a Deus pelos pacientes, e que Ele nos dê orientação e sabedoria ao tomarmos as decisões que melhorem a saúde deles. Mas confesso que me surpreendi pela observação do Sr. Roberto. Ele passou vários dias em sedação, o que chamamos de “coma induzido”, respirando por auxílio de aparelhos.

– Claro, Roberto, já vamos aí orar com você!

Terminamos as observações que tínhamos naquele instante. E, naquele momento, nos achegamos, médicos, enfermagem e fisioterapia. Éramos ajudantes do Pastor Jesus Cristo, intercedendo em oração por uma pessoa que tinha visivelmente mais sede de Deus do que do próprio ar de que tanto necessitava para respirar. Pedimos a Deus mais uma vez pelo Roberto, para que a Luz de Deus iluminasse sua vida e por todos os pacientes, não só deste hospital, mas de todos que estão em luta nas UTIs e enfermarias.

Em todo o mundo, várias homenagens estão sendo feitas aos trabalhadores da saúde e da segurança que estão arriscando a vida para atender a população. Neste momento, em que é lembrada a importância desses profissionais, podemos achar que somos o centro da solução para a saúde. Contudo, me permito relembrar de que nosso trabalho, por mais importante e essencial que seja, tem um propósito maior: ajudar as pessoas a enxergar a misericórdia e o amor do nosso Deus.

Diz Ellen White, no livro Evangelismo, página 513: “Coisa alguma abrirá portas à verdade como a obra missionária médico-evangelista. Esta achará acesso aos corações e espíritos, e será um meio de converter muitos à verdade. […] A obra médico-missionária é a mão direita, a mão auxiliadora do evangelho, para abrir as portas à proclamação da mensagem. […] Portas que foram fechadas para aquele que simplesmente prega o evangelho, abrir-se-ão ao inteligente missionário médico. Deus alcança os corações por meio do alívio ao sofrimento físico.”

Saí naquele momento profundamente emocionado, por mais uma vez lembrar que nossas atitudes profissionais têm um propósito maior que salvar o corpo. E me senti muito feliz e honrado em dizer que minha função, assim como a de tantos colegas da área de saúde, é a de ajudante do Pastor.

(Everton Padilha Gomes é médico cardiologista e doutor em Cardiologia pela USP)