A teoria dos seis mil anos e a volta de Jesus até 2027

volta“Quanto ao dia e à hora ninguém sabe” (Mateus 24:36); “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela Sua própria autoridade” (Atos 1:7).

[O texto a seguir foi preparado com base em anotações de uma palestra apresentada pelo Dr. Wilson Paroschi no Unasp, campus Engenheiro Coelho, em 2 de abril de 1992.]

Como entender as citações de Ellen G. White que mencionam a cronologia dos seis mil anos? Teria ela cometido alguns “erros” de natureza cronológica? Se consultarmos seus escritos, notaremos que ela faz mais de 2.500 referências à cronologia bíblica. O período dos seis mil anos desde a criação é citado por ela 42 vezes em suas obras primárias (excetuando-se as compilações). E o período dos quatro mil anos, referentes ao tempo da criação à encarnação, é mencionado 41 vezes. Como explicar isso?

“Tendo completado recentemente um exame de todas as 2.500 referências à cronologia bíblica feitas por Ellen White, posso afirmar inequivocamente que sua cronologia corresponde à do arcebispo Ussher mais de perto que talvez qualquer outra das dezenas de cronologias em uso no século 19” (Warren H. Johns, “Ellen G. White and Biblical Chronology”, Ministry, abril de 1984, p. 20).

Esse fato se deve basicamente a três razões:

  1. Os escritos da Sra. White, como os da Bíblia, não surgiram como resultado de inspiração verbal, isto é, não eram as palavras dos profetas que eram inspiradas. Deus não ditava Suas mensagens. A pessoa do profeta, sim, era inspirada.

Deus comunica ideias e pensamentos, mas deixa com o indivíduo a redação e a transmissão da mensagem. A cultura, educação e instrução do profeta são refletidas na revelação escrita.

“Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 21).

  1. A Bíblia usada pela Sra. White trazia impressa na margem dados cronológicos referentes à cronologia de Ussher, e como, após receber a mensagem de Deus, o profeta se utiliza de sua bagagem cultural para transmiti-la, ela inseriu esses dados cronológicos em seus escritos, e o fez unicamente como um recurso literário.

A mensagem vinda de Deus não é, de forma alguma, afetada ou comprometida por qualquer desinformação geográfica ou cronológica do profeta. As referências de Ellen White aos seis mil anos ou aos quatro mil anos não foram para estabelecer nenhuma verdade cronológica, mas sim para relacionar ou realçar alguns fatos reais, isto é, algumas verdades que tiveram lugar no grande conflito entre o bem e o mal.

Referindo-se aos seis mil anos, e também aos quatro mil anos, Warren H. Johns declarou: “Quero sugerir que sua principal função é literária, não cronológica. Primeiro, eles servem como um meio de conexão literária; isto é, eles ligam dois personagens ou eventos bíblicos que têm alguma coisa em comum… A segunda função é de ênfase literária. Ela usou afirmações cronológicas para reforçar o que desejava transmitir ao realçar duração temporal e extensão da mesma forma como alguém usaria superlativos para dar ênfase. É um recurso literário” (Johns, p. 22).

  1. Um estudo de suas referências cronológicas revela, também, que Ellen G. White seguiu a prática comum de usar números redondos para relacionar pessoas ou eventos grandemente separados uns dos outros. Por exemplo:

“Mil anos” entre Jacó e Cristo (The Spirit of Prophecy, v. 4, p. 18). Ora, se pretendesse ser exata em suas declarações cronológicas, nessa citação ela estaria fazendo de Jacó um contemporâneo de Davi.

Em Patriarcas e Profetas, p. 134, ela coloca o livro de Hebreus “mil anos mais tarde” em relação ao livro de Gênesis, quando na verdade 1.500 separam esses dois livros.

“O ponto”, conclui Johns, “é que em questões não essenciais à salvação o profeta algumas vezes tem que escolher o melhor do que há disponível, muito embora esse melhor possa conter incorreções” (Johns, p. 23).

Há algumas declarações de Guilherme White, filho de Ellen White, acerca dos dados históricos e cronológicos de O Grande Conflito (edição de 1911) que merecem ser destacadas:

30/10/1911 (perante o Concílio da Associação Geral): “Mamãe nunca pretendeu ser autoridade em história… Minha mãe nunca fez reivindicações à inspiração verbal, e não vejo que meu pai, ou o Pr. Bates, Andrews, Smith ou Wagoner as fizessem” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 437).

4/11/1912 (para W. W. Eastman, secretário do Departamento de Publicações da União-Associação do Sudoeste): “Quanto aos escritos de minha mãe e seu uso como autoridade sobre pontos de história e cronologia, mamãe nunca desejou que nossos irmãos os considerassem como autoridade no tocante a pormenores de história ou de datas históricas” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 446).

“Quando redigia os capítulos para O Grande Conflito, ela fazia às vezes uma descrição parcial de um acontecimento histórico importante, e quando sua copista que preparava os manuscritos para o prelo indagava a respeito do tempo e do lugar, minha mãe dizia que essas coisas foram registradas por historiadores conscienciosos. Que fossem inseridas as datas usadas por esses historiadores. Em outras ocasiões, ao escrever o que lhe fora apresentado, mamãe encontrava tão perfeitas descrições dos acontecimentos e apresentações dos fatos e das doutrinas em nossos livros denominacionais, que copiava as palavras dessas autoridades. […] Quando foi escrito O Grande Conflito, mamãe não imaginava que os leitores o considerariam uma autoridade em datas históricas ou o usariam para resolver controvérsias acerca de pormenores da história, e ela não acha agora que ele deve ser usado dessa maneira” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 447).

“Parece-me que há perigo em dar demasiada ênfase à cronologia. Se fosse essencial para a salvação do homem que ele tivesse clara e harmoniosa compreensão da cronologia do mundo, o Senhor não teria permitido as divergências e discrepâncias que encontramos nos escritos dos historiadores bíblicos, e tenho a impressão de que nestes últimos dias não deve haver tanta controvérsia acerca de datas” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 448).

“Quanto aos escritos de mamãe, tenho irresistível evidência e convicção de que eles constituem a descrição e delineação do que Deus lhe revelou em visão, e onde ela seguiu a descrição de historiadores ou a exposição de escritores adventistas, creio que Deus lhe deu discernimento para usar aquilo que é correto e que está em harmonia com a sua verdade acerca de todas as questões essenciais à salvação. Se por meio de diligente estudo foi constatado que ela seguiu algumas exposições da profecia que em algum pormenor referente a datas não possamos harmonizar com nossa compreensão da história secular, isto não influirá sobre a minha confiança nos seus escritos como um todo, assim como a minha confiança na Bíblia também não é influenciada pelo fato de que não consigo harmonizar muitas das declarações relacionadas com a cronologia” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 449, 450).

8/1/1928 (carta a L. E. Froom): Ellen White “ocasionalmente consultava Andrews, em especial no tocante à cronologia” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 459).

“Os grandes acontecimentos que ocorreram na vida de nosso Senhor lhe foram apresentados em cenas panorâmicas, como sucedeu também com as outras partes de O Grande Conflito. Nalgumas dessas cenas a cronologia e a geografia foram apresentadas com clareza, mas na maior parte da revelação as cenas instantâneas, que eram muito vívidas, e as conversações e discussões, que ela ouviu e pôde relatar, não foram assinaladas geográfica ou cronologicamente, e ela teve de estudar a Bíblia, a história e os escritos de homens que apresentaram a vida de nosso Senhor, a fim de obter a conexão cronológica e geográfica” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 459, 460).

Conclusão: assim, as referências da Sra. White à cronologia dos seis mil anos devem ser tidas apenas como uma aproximação do tempo transcorrido desde Adão. Não devem ser dogmatizadas, nem poderiam, pois ela mesma não segue um critério cronológico uniforme.

Algumas vezes, no mesmo livro, como no caso de O Grande Conflito, ela diz “durante seis mil anos” (p. 662, 679), e outras vezes diz “durante quase seis mil anos” (p. 523, 559). Da mesma forma, há algumas referências de que quatro mil anos se passaram até o nascimento de Cristo (DTN, p. 102, 729), ao passo que outras estendem esse mesmo período até Sua ressurreição (GC, p. 551).

Fica demonstrado, portanto, que a Sra. White não pretendeu estabelecer nenhuma verdade histórica, mas apenas lançou mão de um recurso literário, conectando personagens ou eventos bíblicos que têm alguma coisa em comum, ou ressaltando certas verdades do grande conflito entre o bem e o mal com o auxílio de referências cronológicas gerais.

Agora, mais importante ainda é o fato de que, embora Ellen White tenha usado a “cronologia dos seis mil anos”, em nenhum momento sequer ela fez uso da “teoria dos seis mil anos”, afirmando que ao fim desse período Cristo voltaria.

A “teoria dos seis mil anos”, como vimos, é uma teoria profética segundo a qual os seis dias da criação seguidos pelo sábado, juntamente com a declaração de que para Deus um dia é como mil anos (2Pe 3:8), constitui uma predição de que este mundo durará seis mil anos, e que a partir de então terá início o milênio sabático de repouso. Na Bíblia, porém, não há nenhum período profético de seis mil anos; não há nenhuma indicação de que a semana da criação deva ser alegorizada, como se representasse as eras do mundo habitado. Esse conceito se originou, sim, de antigas mitologias pagãs, passando a seguir para o judaísmo rabínico, cujos ensinamentos foram muito criticados por Cristo (Mc 7:6-13; Mt 15:1-9). Foi cristianizado pelos pais da Igreja que adotavam métodos exegéticos antibíblicos; sobreviveu durante toda a Idade Média, e alcançou os tempos modernos pela influência de Ussher.

Nem a semana da criação é profética, nem a passagem de 2 Pedro 3:8 apresenta um princípio de cálculo profético. O princípio profético encontrado nas Escrituras é o do “dia/ano” (Nm 14:34; Ez 4:6), e não o do “dia/mil anos”. O que encontramos em 2 Pedro 3:8 não é nada mais que o ensino de que mesmo uma demora de mil anos para que Cristo volte não seria grande demais. O que o Senhor deseja, na verdade, é que “nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3:9).

Assim, só o afirmar que o mundo habitado tem seis mil anos de história, tendo como base o Espírito de Profecia, já é atribuir aos escritos da Sra. White uma autoridade histórica ou cronológica que ela nunca reivindicou, e nunca pretendeu que acontecesse, mas chegar ao ponto de usar suas referências acerca dos seis mil anos para afirmar que o mundo vai acabar em determinado ano é violentar seus ensinos, e usá-los de modo ilegítimo e antinatural.

Os que assim o fazem lembram aqueles de quem o apóstolo Pedro fala com relação às coisas difíceis de entender nas Epístolas de Paulo, “que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles” (2Pe 3:16).

(Wilson Paroschi é professor de Novo Testamento e Interpretação Bíblica na Southern Adventist University, em Collegedale, TN, EUA)