As sete trombetas e as sete últimas pragas

pragas[Este texto é parte do artigo “As sete últimas pragas”, escrito pelo Dr. José Carlos Ramos e publicado na revista teológica Parousia, do Unasp, campus Engenheiro Coelho, no 2º semestre de 2000.]

Há um perfeito paralelo entre as sete trombetas e as sete pragas. Edwin Thiele estabelece-o da seguinte forma:54

Trombetas Pragas
Sobre a terra – 8:7 Sobre a terra – 16:2
Sobre o mar – 8:8 Sobre o mar – 16:3
Rios e fontes d’água – 8:10 Rios e fontes d’água – 16:4
O sol ferido – 8:12 Sobre o sol – 16:8
Escurecimento do ar – 9:2 Trevas – 16:10
Grande Rio Eufrates – 9:14 Eufrates – 16:12
O mistério de Deus terminado – 11:15 “Está feito” – 16:17
“Relâmpagos, vozes, trovões, terremoto, grande saraiva” – 11:19 “Vozes, trovões, relâmpagos, grande terremoto, grande saraiva” – 16:18, 21

O paralelo é tão impressivo que alguns são tentados a imaginar que os dois grupos de sete preveem os mesmos fatos a se cumprirem na História; em outras palavras, são a mesma profecia sob terminologia e perspectiva diferentes. De fato, 9:20 identifica os eventos das trombetas como pragas ou flagelos, e Ellen G. White parece fazer uma aplicação futura das trombetas, equiparando-as às pragas. Ela diz:

“Solenes eventos diante de nós estão ainda por ocorrer. Trombeta após trombeta deve soar, taça após taça derramada uma após outra sobre os habitantes da terra. Cenas de estupendo interesse estão exatamente sobre nós.”55

Além disso, as trombetas soam após o anjo intercessor atirar à terra o incensário cheio de fogo do altar (8:5), o que parece indicar um cumprimento pós-graça delas. No entanto, a melhor interpretação é aquela que considera os dois materiais proféticos como distintos um do outro, e apontando para uma ordem diferente de eventos, embora iguais em significado. O próprio Thiele afirma:

“A natureza básica tanto das trombetas quanto das pragas deve ser a mesma; ambas são juízo e castigos sobre os ímpios, homens impenitentes; ambas compreendem uma terminação da obra de intercessão de Jesus seguida por um soltar das paixões malignas dos homens ao Satanás obter o controle. Mas, conquanto ambas sejam semelhantes, não são iguais – uma é um tipo da outra. As trombetas estão, em sua maior parte, no passado, enquanto as pragas estão no futuro.”56

Concordamos com esse comentarista na maneira como ele vê o toque das trombetas em consonância com uma interrupção da obra intercessora de Cristo. Claramente ele reporta essa interrupção ao passado, e a contrasta assim com a terminação da obra intercessora no futuro, quando então ocorrerá o derramamento das pragas. Que para determinadas pessoas e em determinado momento e circunstância a obra intercessora de Cristo pode cessar, sem que ocorra o fechamento futuro da porta da graça, é evidente da experiência de Caim, Saul e Judas. De forma mais coletiva, cita-se o que aconteceu com os judeus no contexto da destruição de Jerusalém em 70 d.C. “Por causa de seus pecados, foi anunciada a ira contra Jerusalém”, e tanto resistiram à graça que “sua pertinaz incredulidade selou-lhes a sorte”.57 Esse fato, que bem pode ser o cumprimento da primeira trombeta,58 “tornou-se um exemplo doloroso do que veio a acontecer com outros grupos em cumprimento das trombetas seguintes, e mais particularmente do que ocorrerá com o mundo todo a partir do fechamento da porta da graça”.59

Assim, nem o detalhe do atirar o incensário à terra, nem o que Ellen G. White afirma com respeito a um futuro retoque das trombetas60 indica que elas deveriam ser confundidas com as pragas. Elas são, como diz Thiele, um tipo das pragas, não uma primeira edição delas. Isso também explica o serem consideradas como pragas em 9:20.61

Os seguintes pontos indicam claramente que as trombetas se cumprem no transcurso da era cristã, e não após o fechamento da porta da graça no futuro, como acontece em relação às sete últimas pragas:

  1. O prólogo às sete trombetas (8:2-6), ao contrário de indicar que se cumprem em sua totalidade após o fechamento da porta da graça, aponta para o período entre o primeiro e o segundo adventos como o tempo do seu cumprimento. A sétima se estende para além da dispensação da graça (isto é, para quando a salvação não mais estiver disponível), e alcança sua culminação com a volta de Jesus, extensiva, em seu efeito último, ao fim do milênio. Esse fato é demonstrado no prólogo por duas ações específicas do anjo intercessor: (a) o oferecimento de incenso (o que indica a operação da graça), e (b) o atirar do incensário à terra, o que indica o cessar dessa operação.

Os demais pontos confirmam isso:

  1. Há um interlúdio entre a sexta e a sétima trombetas registrado em 10:1–11:14. Segundo esse interlúdio, a obra da graça está ainda em franca operação, o que se depreende de 10:1, 11:3-6 e 13; em outras palavras, pelo menos até o mesmo tempo da sexta trombeta a porta da graça ainda não terá sido fechada.62
  1. A operação salvífica da graça avança, todavia, até o tempo da sétima trombeta, pois só aí o “mistério de Deus” é cumprido (10:7), isto é, atinge sua plenitude. O mistério de Deus é o Evangelho, e o ser ele cumprido aponta para o momento em que a obra da pregação em todo o mundo é concluída. De fato, a obra da pregação será concluída em todo o mundo sob a pregação da tríplice mensagem angélica de 14:6-12. Ali o “evangelho eterno” atinge “cada nação, e tribo, e língua e povo” (v.6). E sabemos que a pregação da tríplice mensagem angélica se cumpre no tempo da sétima trombeta. Assim, se essa trombeta “está ligada ao fechamento da obra do evangelho […], então as seis trombetas anteriores obrigatoriamente soam durante o tempo da graça”.63
  1. A menção de períodos de tempo profético no material da quinta e da sexta trombetas (9:5, 10, 15) indica que essas trombetas se cumprem antes do tempo do fim, quando, segundo o anjo, “não haveria mais demora” (10:6), isto é, não haverá mais períodos de tempo profético.64 Como Kenneth Strand tem demonstrado, o livro do Apocalipse se desenvolve numa estrutura quiástica com um centro singular (e fundamental para a mensagem do livro) entre dois blocos principais, o primeiro compreendendo os capítulos 1-13, e o segundo os capítulos 16-22. O centro seriam os capítulos 14 e 15. Ele chama o primeiro bloco de série histórica, porque tem que ver com eventos que ocorrem dentro da Era Cristã, enquanto o segundo bloco é denominado série escatológica, pois tem que ver com os eventos finais desta era.65 As sete trombetas são parte da série histórica, e não podem, portanto, ser confundidas com as sete pragas que integram a série escatológica.
  1. É explicitamente declarado que a ira de Deus “chegou”, não na primeira, mas na sétima trombeta (11:18). Em outras palavras, as sete últimas pragas (a ira de Deus, 15:1) são um dos eventos previstos, entre outros, para a última trombeta, e não uma reedição das sete. Logo, as seis primeiras (e parte da sétima) se cumprem antes e não depois do tempo da graça. É simplesmente impossível, à luz desse fato, equiparar trombetas com pragas e vice-versa.
  1. A referência aos que “não têm o selo de Deus sobre as suas frontes” (9:4) como o alvo do juízo da quinta trombeta não significa necessariamente que essa trombeta se cumpre após a conclusão da obra do selamento de Apocalipse 7, isto é, após o fechamento da porta da graça, pois o selo de Deus não é um artigo exclusivo do tempo imediatamente anterior à volta de Jesus. O selamento, como atividade divina, não pode ser circunscrito ao dia final. Em todas as épocas Deus distinguiu, dentre a humanidade, os que eram Seus. A esse respeito Joh Paulien declara:

“Quando referido ao povo de Deus, o sentido predominante de selar é apropriação e aceitação por Deus. ([o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo:] o Senhor conhece os que Lhe pertencem” [2Tm 2:19]). Nesse sentido, ele [o selo de Deus] já era uma realidade no tempo de Abraão (Rm 4:11) […] Assim, não se deveria assumir que o selamento em Apocalipse 7:1-3 é necessariamente idêntico àquele de 9:4. Também não se deve assumir que o selamento de Apocalipse 7:1-3 está limitado ao fim do tempo. […] Ele simplesmente enfoca o significado dessa obra numa situação própria do fim.”66

Referências: 

  1. Edwin R. Thiele, Apocalipse – Esboço de Estudos (São Paulo: Colégio Adventista Brasileiro, 1960), p. 112.
  1. Ellen G. White, Carta 112, 1890.
  1. Thiele, p. 112.
  1. White, O Grande Conflito, p. 23. Ver também as páginas 25, 26, 613, 614.
  1. Ver Thiele, p. 113-115. Essa interpretação é adotada por Jon Paulien em “Allusion, Exegetical Method, and Interpretation of Revelation 8: 7-12” (Tese de PhD, Andrews University, 1987), p. 378-381.
  1. Diz Ellen G. White: “Quando a presença de Deus se retirou, por fim, da nação judaica, sacerdotes e povo não o sabiam. Posto que sob o domínio de Satanás, e governados pelas paixões mais horríveis e perniciosas, consideravam-se ainda como os escolhidos de Deus. Continuou o ministério no templo; ofereciam-se sacrifícios sobre os altares poluídos, e diariamente a benção divina era invocada… Assim, quando a decisão irrevogável do santuário houver sido pronunciada, e para sempre tiver sido fixado o destino do mundo, os habitantes da Terra não o saberão. As formas da religião continuarão a ser mantidas por um povo do qual finalmente o Espírito de Deus Se terá retirado” (O Grande Conflito, p. 613, 614).
  1. Isso não significa que Ellen G. White adotou a ideia de um segundo cumprimento profético das trombetas. Segundo ela, é a história, não a profecia, que deve se repetir. Esse ponto é muito bem discutido e esclarecido por George E. Rice em seu estudo “Ellen G. White’s Use of Daniel and Revelation”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 145-161, principalmente p. 150-154. Ele declara: “Circunstâncias similares àquelas que cumpriram uma profecia no passado podem existir no presente [e acrescentaríamos que podem ocorrer no futuro]. Circunstâncias presentes não são, todavia, um cumprimento da profecia, pois a profecia foi cumprida historicamente pelo montante original de circunstâncias. Mas a geração presente pode ser informada pelo estudo da profecia e pelo relatório histórico dos eventos que a cumpriram, e assim estar preparada para desempenhar um papel inteligente nas circunstâncias similares do presente. Assim é que uma profecia, previamente cumprida pode, nesse sentido, ser ‘aplicada’ à situação presente” (p. 151).
  1. É simplicidade imaginar que toda vez que o Apocalipse emprega o termo “flagelo” faça referência às sete últimas pragas. O termo aparece treze vezes em todo o livro, e em três instâncias (9:18, 9:20 e 11:6) é seguramente duvidoso que se refira exclusivamente àquele evento.
  1. Que o referido interlúdio supre eventos que ocorrerão entre a 6ª e a 7ª trombetas é evidente de 11:14 (o fim do interlúdio) onde é dito que “passou o segundo ai”, isto é, a sexta trombeta, e o “terceiro”, a sétima trombeta, vem em seguida.
  1. “Issues in Revelation: DARCOM Report”, Ministry, janeiro de 1991, p. 9-11.
  1. A palavra grega original vertida para “demora” em 10:6 é chronos, tempo que transcorre, que escoa, e se refere, inclusive à luz do verso 11, a tempos proféticos.
  1. KENETH Strand, Interpreting The Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines with Brief Introduction to Literary Analysis (Ann Arbor, MI: Ann Arbor Publishers, Inc., 1976), p. 43-52. Naturalmente, o centro também é, nesse sentido, escatológico. Ver também “Foundational Principles of Interpretation” e “The Eight Basic Visions”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 3-49, principalmente p. 28-46.
  1. Jon Paulien, “Seals and Trumpets: Some Current Discussions”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 256.