Metá tauta e a impossibilidade futurista

johnEstudar o livro do Apocalipse é sempre uma tarefa desafiadora e, ao mesmo tempo, gratificante. Sua estrutura literária profético-simbólica estabelece critérios hermenêuticos que, se não forem devidamente aplicados, podem resultar numa interpretação equivocada. O contrário, entretanto, é verdadeiro, isto é, quando as regras hermenêuticas são utilizadas corretamente, quando o texto é analisado dentro de sua estrutura literária e os parâmetros historicistas são devidamente aplicados, o resultado é hermeneuticamente mais confiável.

Recentemente, algumas teorias, que vão numa linha diferente da ortodoxia há tanto defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, têm se levantado e causado certa confusão entre os irmãos. Dentre elas, há uma afirmando que a leitura do Apocalipse deve ser feita de forma sequencial e linear, baseando-se na utilização da expressão metá tauta (“depois destas coisas”, ou “depois disto”). Este artigo pretende analisar a fragilidade do uso dessa expressão grega (metá tauta) como marcador de tempo da sequência cronológica dos acontecimentos descritos a partir do capítulo 4. [No fim deste artigo você encontrará uma tabela explicando sucintamente as nove ocorrências dessa expressão em Apocalipse.]

Como sugere essa teoria, Apocalipse capítulos 1 a 3, que trazem uma introdução geral ao livro, bem como seu objetivo e destinatário, devem ser compreendidos dentro de uma visão historicista, na qual o cumprimento profético das igrejas ocorre ao longo da história, e o tempo presente está enquadrado no período de Laodiceia. Nesse sentido, não há discordância entre o pensamento histórico adventista e o que sugere essa teoria. O que se segue, entretanto, sai completamente do escopo historicista, alinhando-se a uma perspectiva futurista de interpretação. Para os proponentes dessa visão, o início do capítulo 4 sugere uma progressão linear dos eventos descritos com a introdução do que eles entendem ser uma cena de juízo, ou seja, o que ocorre nos capítulos 4 e 5 necessariamente acontece depois do período das sete igrejas:

Depois destas coisas (metá tauta), olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz que, como de trombeta, ouvira falar comigo, disse: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas (metá tauta)” (Ap 4:1).

A pergunta que se faz é: A expressão “depois destas coisas” (metá tauta) está funcionando como um marcador de tempo estabelecendo uma ordem cronológica dos acontecimentos ou apenas a cronologia das visões? Para responder a essa pergunta de maneira satisfatória, é necessário observar as demais aparições dela no livro de Apocalipse.

A expressão em estudo ocorre cerca de nove vezes no livro do Apocalipse. Em pelo menos duas delas, nota-se claramente que serve como marcador de eventos sequenciais, ou seja, indica que os acontecimentos são cronologicamente posteriores aos que foram citados:

  1. “Passou o primeiro ai; eis que depois destas coisas (metá tauta) vêm ainda dois ais” (Ap 9:12).
  2. “E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois disso (metá tauta) importa que seja solto por um pouco de tempo” (Ap 20:3).

Como se pode observar, a expressão “depois disto” ou “depois destas coisas”, nos versos acima, indica eventos que aconteceriam depois dos mencionados: os dois “ais” ocorreriam cronologicamente após o primeiro “ai”, isto é, “depois destas coisas”. Da mesma forma, a expressão “depois destas coisas” em Apocalipse 20:3 indica que Satanás deverá ser solto cronologicamente após o evento do milênio.

As demais aparições de metá tauta no Apocalipse sempre estarão acompanhadas do verbo “ver”, com exceção de Apocalipse 19:1, verso em que a expressão está acompanhada do verbo “ouvir”. Note este padrão muitíssimo interessante que acontece nas demais ocorrências: “depois destas coisas, vi” (μετὰ ταῦτα εἶδον – metá tauta éidon). Esse padrão chama a atenção, pois o verbo “ver” associado à expressão “depois destas coisas” sempre indica o início de uma nova visão. É como se o texto estivesse informando: “depois destas coisas”, ou seja, depois das coisas apresentadas nesta visão que acabou de ser mencionada, “vi”, isto é, João passa a ter outra visão. Sendo assim, a expressão “depois destas coisas” não estaria enfatizando que os eventos a serem descritos a partir dessa sentença são cronologicamente posteriores aos eventos da visão anterior, mas que João entra numa nova visão depois das coisas que viu na visão anterior.

A teoria que propõe o uso da expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) como indicativo de que os eventos descritos a partir do capítulo 4 são cronologicamente posteriores aos eventos descritos nos capítulos 1-3, isto é, devem ser interpretados como eventos a ocorrerem após o período das sete igrejas, torna-se extremamente frágil e perigosa. Veja, por exemplo, Apocalipse 15:1-6:

“E vi outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus [visão dos sete anjos com as taças]. E vi um como mar de vidro misturado com fogo; e também os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número do seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos” [visão dos salvos diante do mar de vidro]. E depois disto olhei (metá tauta éidon), e eis que o templo do tabernáculo do testemunho se abriu no céu. E os sete anjos que tinham as sete pragas saíram do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro pelos peitos” [retorno à visão do v. 1].

 Seguindo a linha de interpretação em que a expressão “depois destas coisas” significaria que os eventos que seguem são cronologicamente posteriores aos descritos na visão anterior, chega-se à conclusão equivocada de que as pragas são derramadas após os salvos estarem no Céu. Note que dos versos 2 ao 4 são apresentados os salvos diante do mar de vidro e, “depois destas coisas”, João vê os sete anjos com as taças da ira de Deus para serem derramadas sobre o mundo, como, de fato, ocorre a partir do início do capítulo 16. Será esse o entendimento correto para tais eventos? Seriam as pragas derramadas após os salvos estarem no Céu diante do mar de vidro e do trono de Deus? Claro que não! Como entender a passagem de Apocalipse 15? Veja abaixo:

  1. O verso 1 inicia a visão dos anjos com as sete taças da ira de Deus que seriam derramadas sobre a Terra: “E vi outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus” [visão dos sete anjos com as taças].
  2. O verso 2 inicia outra visão que se estende até o verso 4. Na realidade, essa visão é um complemento daquilo que estava sendo apresentado no capítulo 14, a partir do verso 14, onde João vê a cena da seara e da colheita, bem como a colheita das uvas para preparar o vinho que seria derramado sobre a Terra, isto é, as pragas. O capítulo 14:14-20 é um preâmbulo para o que ocorre no capítulo 15. Há duas cenas no capítulo 14 que são retomadas no capítulo 15: a primeira é da seara dos justos (v. 14 a 16) e a segunda, o preparo do vinho que seria derramado sobre a Terra como pragas de Deus sobre os ímpios (v. 17-20). Lembre-se de que, originalmente, o Apocalipse não foi escrito com divisões de capítulos e versículos. Era um texto único. Portanto, a visão iniciada no capítulo 14:14 é retomada nos versos 2 a 4 do capítulo 15. Observe:

“E vi um como mar de vidro misturado com fogo; e também os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número do seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as Tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem Te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o Teu nome? Porque só Tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os Teus juízos são manifestos” [visão dos salvos diante do mar de vidro].

Esses versos fazem referência aos versos 14 a 16 do capítulo 14; são uma continuidade. A visão demonstra o resultado da ceifa dos justos feita por Jesus no capítulo 14.

  1. O verso 5 do capítulo 15 retoma a visão do verso 1, que, conforme foi demonstrado, é na verdade a continuação daquilo que se apresentou inicialmente na segunda parte da visão do capítulo 14, mais especificamente dos versos 17 a 20: “E depois disto olhei (metá tauta éidon), e eis que o templo do tabernáculo do testemunho se abriu no Céu. E os sete anjos que tinham as sete pragas saíram do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro pelos peitos” [retorno à visão do v. 1 do capítulo 15, iniciada no capítulo 14].

 Se for aceito o entendimento de que a expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) se refere a eventos que ocorrem cronologicamente posteriores à visão precedente numa sequência linear de acontecimentos, comete-se o erro de colocar os salvos no Céu antes de as pragas caírem sobre a terra. O mesmo pode ser dito do início do capítulo 4 quanto à expressão em questão: caso metá tauta éidon se refira a eventos que ocorrem cronologicamente posteriores às sete igrejas, a compreensão será futurista e com sérias implicações hermenêuticas.

Como apresentado na parte inicial deste artigo, a abertura do capítulo 4 de Apocalipse apresenta a sentença metá tauta éidon (depois destas coisas, vi). O que vinha sendo apresentado nos capítulos anteriores, 2 e 3, era a visão das sete igrejas. Logo, alguns sugerem que os eventos da visão do capítulo 4 e dos capítulos posteriores incluindo os sete selos e as sete trombetas seriam eventos que se dariam após o período das sete igrejas. Para tanto, propõe-se que os capítulos 4 e 5 estariam retratando uma cena de juízo, a saber, o juízo investigativo que ocorre a partir de 1844. A visão do capítulo 4 de Apocalipse seria, portanto, similar à visão dada a Daniel no capítulo 7. Não obstante, apesar de existirem elementos de similaridade nessas visões, as diferenças são gritantes e maiores que as semelhanças, a ponto de ser completamente imprudente a associação entre elas. Falando acerca desse ponto, o Dr. Jon Paulien diz:

“Especialmente impressionantes são as acentuadas diferenças entre Apocalipse 4–5 e Daniel 7. Em Daniel são postos uns tronos (7:9); em Apocalipse os tronos já estão lá (4:2-4). Em Daniel muitos livros são abertos (7:10); em Apocalipse um livro está selado (Ap 5:1). Em Daniel a figura central é “o filho do homem” (7:13; expressão com a qual o Apocalipse certamente está familiarizado – 1:13); em Apocalipse ele é o Cordeiro (Ap 5:6; um termo mais apropriado para o serviço diário do que para o Dia da Expiação em qualquer caso).”

Para o Dr. Paulien, uma linguagem de juízo não é encontrada nos capítulos 4 e 5. Uma expressão que denote juízo vai ocorrer apenas em Apocalipse 6:10, o que deixa claro não haver ainda começado o juízo como pretende a teoria futurista. Dr. Paulien ainda argumenta que mesmo havendo algumas alusões ao santuário nos capítulos 4 e 5 que poderiam ser entendidas como sendo referência ao Yom Kippur (dia da expiação), “a impressão geral dada por essa passagem não pertence a qualquer compartimento ou serviço, mas sugere uma lista abrangente de quase todos os aspectos do antigo ministério.”[1] Para ele, as cenas observadas nos capítulos 4 e 5 de Apocalipse mais se aproximam de “uma descrição simbólica do serviço de inauguração no santuário celestial que ocorreu em 31 d.C. O que segue à cena de inauguração tem que ver com toda a Era Cristã, não apenas com o seu fim.”[2]

Segundo a ideia futurista, as cenas do capítulo 4 se dão no primeiro compartimento do santuário celestial, e as cenas do capítulo 5 no segundo compartimento. Entretanto, tais inferências são “refutadas com base na absoluta falta de evidência no texto para qualquer movimento do trono entre os dois capítulos. Os dois capítulos retratam uma simples localização visionária.”[3]

Como se pode observar, não há como traçar um paralelismo entre as visões de Apocalipse 4 e 5 com a visão de Daniel 7. Segundo o Dr. Paulien, os capítulos 4 e 5 estariam falando da entronização de Cristo por ocasião de seu retorno ao Céu. Mas, para que não fique “na palavra apenas de homens” (mesmo sendo de pessoas com autoridade para fazê-lo), note como Ellen White identificou as visões de Apocalipse 4 e 5 (para responder àqueles que sempre dizem: “ele é doutor, mas não é inspirado”):

“Ali está o trono, e ao seu redor, o arco-íris da promessa. Ali estão querubins e serafins. Os comandantes das hostes celestiais, os filhos de Deus, os representantes dos mundos não caídos, acham-se congregados. O conselho celestial, perante o qual Lúcifer acusara a Deus e a Seu Filho, os representantes daqueles reinos imaculados sobre os quais Satanás pensara estabelecer seu domínio – todos ali estão para dar as boas-vindas ao Redentor. Estão ansiosos por celebrar-Lhe o triunfo e glorificar seu Rei.

“Mas Ele os detém com um gesto. Ainda não. Não pode receber a coroa de glória e as vestes reais. Entra à presença do Pai. Mostra a fronte ferida, o atingido flanco, os dilacerados pés; ergue as mãos que apresentam os vestígios dos cravos. Aponta para os sinais de Seu triunfo; apresenta a Deus o molho movido, aqueles ressuscitados com Ele como representantes da grande multidão que há de sair do sepulcro por ocasião de Sua segunda vinda. […]

“Ouve-se a voz de Deus proclamando que a justiça está satisfeita. Está vencido Satanás. Os filhos de Cristo, que lutam e se afadigam na Terra, são ‘agradáveis… no Amado’ (Ef 1:6). Perante os anjos celestiais e os representantes dos mundos não caídos, são declarados justificados. Onde Ele está, ali estará a Sua igreja. ‘A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram’ (Sl 85:10). Os braços do Pai circundam o Filho, e é dada a ordem: ‘E todos os anjos de Deus O adorem’ (Hb 1:6).

“Com inexprimível alegria, governadores, principados e potestades reconhecem a supremacia do Príncipe da Vida. A hoste dos anjos prostra-se perante Ele, ao passo que enche todas as cortes celestiais a alegre aclamação: ‘Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças’! (Ap 5:12).

 “Hinos de triunfo misturam-se com a música das harpas angélicas, de maneira que o Céu parece transbordar de júbilo e louvor. O amor venceu. Achou-se a perdida. O Céu ressoa com altissonantes vozes que proclamam: ‘Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre’ (Ap 5:13).”[4]

 Note que Ellen White claramente faz inteira associação entre a entronização de Cristo por ocasião de Sua ascensão após a ressurreição e o capítulo 5 de Apocalipse. Os detalhes expressos nesse texto são claros o suficiente para descartar qualquer visão futurista que projete os capítulos 4 e 5 para o ano 1844, como se estivessem fazendo menção do juízo investigativo descrito no capítulo 7 de Daniel. Ademais, a expressão metá tauta, quando associada ao verbo “ver” (éidon), indica o início de uma nova série de cenas apresentadas em uma nova visão e não uma série de eventos cronologicamente posteriores às cenas anteriormente apresentadas. Sendo assim, as cenas descritas em Apocalipse 4 e 5, por se tratarem da entronização de Cristo, estão mais bem situadas, cronologicamente falando, com as cenas do capítulo 1 ou antes delas, e não após os períodos das sete igrejas.

Conclusão

 Podemos concluir que as tentativas de se fazer uma interpretação cronologicamente linear dos eventos descritos nos capítulos 1 a 3 com o capítulo 4 são completamente equivocadas, futuristas, tendenciosas e carecem de uma melhor avaliação da estrutura do texto. A expressão μετὰ ταῦτα (“depois destas coisas” ou “depois disto”), quando associada ao verbo “ver” (éidon), indica o início de uma nova série de cenas apresentadas em uma nova visão e não uma série de eventos cronologicamente posteriores às cenas anteriormente apresentadas na visão precedente. Tal evidência pode ser confirmada na leitura de Apocalipse 15:5, onde, se feita a leitura da expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) como sendo uma sequência cronológica de eventos, cai-se no equívoco de afirmar que os salvos estariam no Céu diante do trono de Deus por ocasião do derramamento das pragas no mundo, o que é inadmissível. A leitura correta do texto, portanto, é feita quando se aceita que a expressão metá tauta éidon indica o início de uma nova visão e não uma sequência dos eventos da visão anterior.

Concluiu-se, também, com base na literatura acadêmica, por meio do estudo do Dr. Jon Paulien, que a tentativa de associação dos capítulos 4 e 5 com o juízo investigativo descrito em Daniel 7 é completamente equivocada, dada a quantidade de dessemelhanças entre as visões. As cenas apresentadas nos capítulos 4 e 5 têm que ver, portanto, com a entronização de Cristo, segundo ele. Tal abordagem recebe apoio da palavra profética dada a Ellen White, confirmando, por meio de citações diretas, que as cenas dos capítulos 4 e 5 não podem ser outra coisa senão a entronização de Cristo por ocasião de Sua ascensão após a ressurreição.

(Eleazar Domini é formado em Teologia e mestre em Teologia e Ensino da Bíblia)

“META TAUTA” EM APOCALIPSE*
Passagem bíblica Texto bíblico Interpretação bíblica
1:19 “Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto as presentes como as que estão por vir.” Neste verso, a expressão meta tauta se refere ao conteúdo da visão que João está descrevendo. Aliás, no texto, essa expressão sai da boca do ser com quem João interage dentro da visão. Assim, meta tauta aponta para uma sucessão de atos que ocorrem dentro da visão e não uma sucessão de eventos que ocorrem na história.
4:1 (2x) Depois dessas coisas olhei, e diante de mim estava uma porta aberta no Céu. A voz que eu tinha ouvido no princípio, falando comigo como trombeta, disse: ‘Suba para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas.'” Aqui, a primeira ocorrência de meta tauta sendo dita pelo próprio João aponta para o conteúdo daquilo que ele viu e ouviu desde 1:11 até 3:22. Cada uma das sete cartas para as sete igrejas começa com a fórmula introdutória – “ao anjo da igreja em […] escreve” – mostrando que o conteúdo das cartas fazia parte do discurso daquele com quem João dialogava em visão. Logo, essa primeira ocorrência de meta tauta tem relação com o conteúdo da visão e não com eventos históricos a acontecer no futuro. A segunda ocorrência, agora dita pelo mesmo ente celestial que fora visto no começo, repete as palavras do apóstolo. Ou seja, ela também indica o conteúdo da visão.
7:9 Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas.” Todo o capítulo 6 de Apocalipse fala da abertura de seis dos sete selos. O capítulo 7 começa com a expressão meta tauta. Assim, ela não se refere a eventos que acontecerão depois dos seis selos abertos, mas às coisas que João contemplou no capítulo 6, a abertura dos seis selos.
9:12 “O primeiro ai passou; dois outros ais ainda estão por vir.” Aqui, ao que parece, de fato, meta tauta indica uma sucessão de eventos cronológicos, especificamente a ocorrência dos “ais”. Primeiro um “ai” e, depois disso, outro “ai”.
15:5 Depois disso olhei, e vi que se abriu no Céu o santuário, o tabernáculo da aliança.” Aqui não é possível conceber que meta tauta designe uma sucessão de eventos cronológicos, porque isso implicaria na conclusão de que as pragas que deverão cair sobre a terra (15:5-16:21) só cairão após a ascensão dos salvos para o Céu (15:2-4). Logo, meta tauta só pode designar a sucessão de coisas na visão. Aliás, o verso 5 nada mais é do que uma retomada daquilo que foi dito no verso 1.
18:1 Depois disso vi outro anjo que descia do céu. Tinha grande autoridade, e a terra foi iluminada por seu esplendor.” Neste verso, também não é possível conceber que a expressão meta tauta indique uma sucessão de eventos cronológicos. O capítulo 17 descreve uma “grande meretriz” sentada sobre uma besta escarlata. Esta mulher é chamada de “Babilônia”. O capítulo 18, que fala sobre a queda de Babilônia, é uma explicação de como a mulher do capítulo anterior (Babilônia) será destruída. Assim, meta tauta, ao introduzir o capítulo 18, está introduzindo uma visão que descreve a queda da Babilônia do capítulo 17 e não algo que acontece depois desse capítulo.
19:1 Depois disso ouvi no céu algo semelhante à voz de uma grande multidão, que exclamava: “Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus” O capítulo 19 tem como assunto central o júbilo no Céu por parte daqueles que enfrentaram as crises terrestres finais e a honraria que Cristo recebe por ter vencido a besta e o falso profeta. Todo esse assunto é um desdobramento das coisas relatadas no capítulo anterior. Desse modo, meta tauta, neste caso, descreve tanto uma sequência de coisas dentro da visão quanto eventos que se sucedem na história.
20:3 “…lançou-o no abismo, fechou-o e pôs um selo sobre ele, para assim impedi-lo de enganar as nações até que terminassem os mil anos. Depois disso, é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo.” Aqui o contexto favorece a interpretação que entende meta tauta como tendo sentido histórico (eventos que acontecem na história), antes de sentido literário (coisas que se sucedem na visão descrita pelo texto).

* Todos os textos dessa tabela foram extraídos da Bíblia Nova Versal Internacional (NVI).

Nota: A tabela foi criada por Elton Queiroz. 

  1. PAULIEN, Jon. Selos e trombetas: algumas discussões atuais. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.) Estudos sobre Apocalipse: Temas introdutórios. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2010 (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 6).
  2. Ibid.
  3. PAULIEN, Jon. Selos e trombetas: algumas discussões atuais. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.) Estudos sobre Apocalipse: Temas introdutórios. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2010 (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 6).
  4. WHITE, E. G.O desejado de todas as nações. São Paulo, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2007. 835.