Coronavírus acirra a Guerra Fria 2.0 entre China e Estados Unidos

china euaO discurso defensivo do sempre assertivo Xi Jinping à Organização Mundial da Saúde, seguido pelas renovadas ameaças de Donald Trump ao órgão, dão pistas sobre os próximos passos da Guerra Fria 2.0 vivida entre a China e os Estados Unidos. Os americanos, Trump à frente, passaram meses insinuando que os chineses haviam liberado o novo coronavírus, acidentalmente ou não, de um laboratório em Wuhan. Já autoridades de Pequim inventaram sua fantasia, de que uma delegação militar americana havia dispersado o patógeno durante competição esportiva na cidade onde a Covid-19 surgiu. Ninguém fala a verdade, mas quando Xi cede à pressão e apoia uma investigação internacional sobre a origem da doença que gerou a mais grave pandemia em um século, é sinal de que a guerra narrativa estava sendo perdida. Hora de mudar de tática.

Ao defender o compartilhamento global de vacinas e tratamentos para a Covid-19, Xi remete a seu famoso discurso em novembro de 2014, quando defendeu que o multilateralismo seria inevitável. A promessa de destinar mais dinheiro à OMS, para compensar a retaliação americana, apenas colore o quadro. Hoje os EUA são o centro da pandemia, com mais de 1,5 milhão de casos, enquanto a China estacionou abaixo das 83 mil infecções.

Como potência dominante, os EUA mantêm uma relação algo simbiótica com a rival ascendente desde que um antepassado espiritual de Trump, Richard Nixon, percebeu o bom negócio que tinha à frente e colocou os países para conversar nos anos 1970. Isso vinha mudando com a guerra comercial estabelecida por Trump em 2017, que buscou impor tarifas de importação aos chineses.

A pandemia acelerou esse processo e adicionou políticas de incentivo para que empresas americanas de setores críticos, como alta tecnologia e farmacêutica, troquem suas cadeias produtivas hoje ancoradas na China. Algo parecido acontece na Europa, onde a Alemanha também estuda criar zonas econômicas especiais para multinacionais que desejem deixar a China.

Não é um processo fácil, dada a escala incomparável e os benefícios e incentivos fiscais de produzir na China, nem rápido, mas com potencial desestabilizador para o regime chinês.

A China virou a segunda maior economia do mundo calcada num modelo exportador, a exemplo do que os EUA fizeram entre 1890 e 1929. Naquele passado, compara o analista geopolítico americano George Friedman, os EUA faziam o papel atual da China, e o Império Britânico eram os EUA de hoje.

Os investimentos de Londres na antiga colônia eram vitais para as estratégias de ambos os países, assim como a presença americana na China agora, mesmo com a rivalidade crescente.

A crise de 2008 já prenunciava as dificuldades desse modelo, com o baque nas vendas chinesas, que fizeram o país reorientar sua produção para itens com maior valor agregado. O resultado se viu ao longo da década, com a Huawei liderando o mercado da próxima revolução digital, o 5G, e sendo alvo preferencial de Trump agora.

O mercado interno chinês também se mostra muito atrativo, por enorme: hoje as importações conjuntas de Pequim e Hong Kong quase empatam com as americanas. Mesmo o peso das exportações ganhou nuances na economia chinesa: elas eram 36% do PIB local em 2006, antes da crise, e em 2018 eram 19,2%.

O coronavírus adicionou uma dimensão cultural ao embate. Não deixa de ser irônico que uma ditadura comunista abrace ideais internacionalistas antes defendidos pelo dito mundo livre – e cabendo a Trump o papel de inimigo de entidades globais, apoiado, entre outros, pelo Brasil de Jair Bolsonaro.

A China não é páreo militar ou econômico para os EUA ainda, mas incomoda o suficiente para merecer ação por parte de Washington. A obsessão geopolítica de Pequim é com a possibilidade de ser bloqueada pelo mar, dominado pelos EUA. Daí vem a militarização do mar do Sul da China, além do desejo de dominar o Pacífico Ocidental.

Por isso Xi lançou seu segundo porta-aviões e está fazendo mais dois, ainda que isso não faça frente ao poderio americano, com seus 11 grupos de ataque global via mar e um arsenal nuclear só comparável ao da Rússia.

Não por acaso, nacionalistas chineses vêm pedindo, por meio de artigos sancionados em jornais ligados ao Partido Comunista, que o país quadruplique seu estoque de 300 ogivas operacionais, chegando perto das 1.750 prontas para uso dos EUA.

(Yahoo)

Nota: “Como dissecou o cientista político americano Graham Allison, da Universidade Harvard, no seu já clássico livro Destinados à Guerra (2017), em 12 dos 16 momentos de choque entre potências estabelecidas e emergentes nos últimos 500 anos, o resultado foi uma guerra.”

“Precisamos ver na História o cumprimento da profecia, estudar as atuações da Providência nos grandes movimentos reformatórios e compreender a progressão dos acontecimentos na arregimentação das nações para o conflito final da grande controvérsia” (Ellen G. White, Eventos Finais, p. 17).

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