Entre a cruz e a foice

Que BoffTrês problemas da teologia de esquerda de Leonardo Boff

Leonardo Boff é bonachão como a maioria dos avós. Por trás de sua figura quase natalina, existe pólvora. Hoje seu discurso, ao mesmo tempo espiritual e anticlerical, soa como um sopro de ânimo para aqueles que torcem o nariz para o catolicismo tradicional. Pudera: a própria Igreja Católica combateu Boff em um passado não tão remoto. Mas, afinal, como um cristão bíblico deve olhar para as ideias de Boff?

Apesar do carisma (não no sentido “bofiano”) do autor, alguns problemas aparecem:

O problema das fontes (leia mais sobre fontes em teologia aqui): para Boff, as Escrituras não são autoridade máxima na vida do crente, apenas registros falhos, fruto da cultura antiga. Isso é herança da teologia liberal. Outro aspecto do mesmo problema: o paradigma central de sua teologia não parte da Bíblia. Toda a estrutura de opressão social e necessidade de libertação por meio da revolução (não se esqueça, alguns padres pegaram em armas!) é advinda da ideologia marxista. Em outras palavras: o princípio Sola Scriptura não faz parte do menu servido por Boff (veja uma crítica sobre a teologia de Boff neste vídeo). Aqui está a raiz de todos os problemas seguintes

O problema da pluralidade: se a revelação cristã é produto da mente humana, a religião cristã está no mesmo nível de outras. Isso conduz ao relativismo religioso, do tipo que leva a perguntar por que ser cristão. O próprio Boff afirma que mesmo agnósticos e ateus podem se identificar com a figura de Jesus, desde que vivam os valores humanistas (valores da libertação, como Boff a entende). Além disso, abrem-se as portas para o ecumenismo. Boff nem faz força para esconder sua simpatia pelo Dalai Lama, por exemplo.

O problema da identidade: Boff atualmente é muito mais um místico ambientalista preocupado com políticas sociais do que um cristão com uma esperança escatológica, que defenda princípios bíblicos fundamentais.

Certamente, há outros problemas. E mesmo os que aparecem no texto poderiam ser elaborados com maior detalhamento. Entretanto, acredito que tais pontos sejam suficientes para que se perceba que Boff (assim como Caio Fábio, Ed René Kivitz, Dan Kimball, Brian MacLaren, entre outros) tem uma teologia que não casa com o que um cristão bíblico pensa, defende e vive. Quando o evangelho apresentado se resume à justiça social (e da forma como compreende o marxismo), sobra pouco para se pensar na conexão entre salvação e estilo de vida ou na solução final que parte de Deus, a parousia (retorno de Jesus). Assim, quando alguém cita Boff, o elogia, o toma como modelo, fico a pensar o que essa pessoa leu de Boff (fora frases soltas do Facebook) ou o que esse cristão realmente conhece de sua própria fé…

(Douglas Reis é mestre em Teologia, doutorando em Teologia [PhD] pela Universidade Adventista del Plata e autor de livros e artigos acadêmicos sobre identidade adventista, desenvolvimento da doutrina adventista e pós-modernidade)

Leia também: “Leonardo Boff volta a defender o ecossocialismo”