O papel ignorado da igreja no “empoderamento” e na justiça social

womanGostaria de compartilhar alguns dados para ajudar os irmãos que estão apelando por uma autocrítica da igreja evangélica em relação ao machismo, racismo e outras opressões sociais supostamente perpetuadas pela igreja.

A igreja evangélica é composta majoritariamente por mulheres e negros. A visão de mundo e os valores das mulheres evangélicas encontra eco nas igrejas, e vice-versa. Elas se identificam com o cristianismo evangélico. Encontram ali respostas e apoio para superarem suas angústias e aflições.

As igrejas evangélicas empoderam mulheres elevando sua autoestima, promovendo inserção e ascensão social, estimulando o empreendedorismo feminino e a “domesticação” dos homens (confira aqui e aqui). É inegável que para as mulheres o “processo de empoderamento e autonomia está muito atrelado à igreja” (confira aqui e aqui). Os dados mostram que as mulheres são a maioria dos empreendedores do Brasil, e a igreja favorece formação de capital social e propicia motivação econômica (confira aqui e aqui), e “o papel mais ativo/inclusivo é desempenhado pelos evangélicos” (aqui e aqui).

O doutor em sociologia Roberto Dutra afirma que “a participação em comunidades religiosas é a maior experiência de empoderamento individual e coletivo que as classes populares das periferias de médias e grandes cidades tiveram nas últimas três décadas no Brasil” (aqui e aqui).

A maior receptividade das mulheres em relação à religião evangélica (especialmente o pentecostalismo) é explicada pelos espaços alternativos criados pelas igrejas para a discussão dos problemas femininos e familiares, o que possibilita a construção de redes sociais que ajudam as mulheres a recuperar a autoestima, a diferenciarem-se de seus familiares e a entrarem no mercado de trabalho (MACHADO, Maria das Dores Campos; MARIZ, Cecília. “Mulheres e práticas religiosas nas classes populares: uma comparação entre as igrejas pentecostais, as Comunidades Eclesiais de Base e os grupos carismáticos”, 1997).

Na verdade, a igreja evangélica está alinhada aos anseios da população mais vulnerável. Pesquisa da Fundação Perseu Abramo (aqui e aqui) indica que pobres da periferia valorizam a organização da vida pelo trabalho, a família e a religião. Além disso, os valores da periferia incluem o papel do empreendedorismo na redução da pobreza, além de adotar uma postura favorável ao conservadorismo comportamental. Ou seja, a igreja evangélica oferece exatamente o que as mulheres e os pobres precisam (e querem).

A pesquisa indica que o crescimento evangélico nas periferias é explicado pelo “papel acolhedor e comunitário” das igrejas. De acordo com Vilma Dokany, socióloga e coordenadora do Núcleo de Estudos e Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo, as igrejas oferecem um ambiente estruturado, com a existência de creches, por exemplo, e possuem uma rede de pastores e obreiros que dão apoio aos fiéis. Para a pesquisadora, “a igreja acaba, de certa forma, cumprindo o papel do Estado”.

Para Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da FGV, “[a igreja] é vista como uma forma de ascensão social”, e as igrejas evangélicas “cumprem um papel fundamental como rede de proteção social” (aqui e aqui).

Maria das Dores Campos Machado, pesquisadora da UFRJ, afirma que “as igrejas evangélicas buscam seus pastores diretamente nas populações mais carentes. Há vários pastores negros e também mulheres pastoras e bispas. As igrejas evangélicas criaram um caminho de inclusão e ascensão social” (aqui e aqui).

Historicamente, o protestantismo teve participação fundamental na Primeira Onda do feminismo (aqui e aqui). Na verdade, o protestantismo radical já era igualitarista de gênero séculos antes do surgimento do feminismo, e a Primeira Onda tem uma “dívida histórica” com o cristianismo (e muitas mulheres evangélicas e feministas parecem desconhecer esse legado histórico (aqui e aqui).

A influência de grupos protestantes como os quakers no processo histórico de emancipação feminina tem sido inexplicavelmente subestimada em pesquisas (poucas meninas feministas sequer ouviram falar nos quakers), enquanto outros grupos são supervalorizados na bibliografia feminista (aqui e aqui). Tudo isso antes e à margem de qualquer movimento feminista organizado. Mas hoje, desprezando tudo isso, é comum encontrar um jovem crente chamando, de maneira generalizada, esse povo de “promotor da cultura do estupro”, “ignorante”, “preconceituoso”, “câncer do Brasil”, etc.

Uma boa parte das críticas feitas aos evangélicos é baseada em preconceito e desconhecimento da realidade mais ampla, como muitos pesquisadores já constataram. William Nozaki, da Fesp-SP, por exemplo, critica a tendência de se construir uma visão pejorativa de evangélicos e tratá-los como se fossem um “rebanho acéfalo que sofre de lavagem cerebral” (aqui e aqui).

Carlos Gutierrez, antropólogo da Unicamp, questiona o discurso daqueles que continuam vendo as igrejas evangélicas como agentes de alienação e de atraso, pois a atuação das igrejas evangélicas estimula a ascensão social: “Na religião, os fiéis encontram incentivo e apoio, desenvolvem a autoestima e encaram as agruras da vida com mais esperança” (aqui e aqui).

O estudo “Retrato das Religiões do Brasil” (FGV) mostrou que as igrejas evangélicas crescem entre os “grupos mais desprotegidos da população”: a presença evangélica é maior do que a média em favelas, periferias de regiões metropolitanas, entre desempregados e migrantes recentes (aqui e aqui).

Juliano Spyer, pesquisador, doutor em antropologia, afirma que “os maiores promotores da escolaridade no chamado “Brasil profundo” hoje não são as escolas e os professores, mas a internet e as igrejas evangélicas”. A igreja evangélica “representa uma espécie de estado de bem-estar social alternativo que ajuda quem atravessa momentos difíceis – doença, desemprego, violência doméstica, casos de dependência química na família, etc.” (aqui e aqui).

Esses são os fatos, são os dados, o que aparece em pesquisas. Qualquer crítica feita à igreja como um todo, para ser justa, deveria estar baseada em dados, não apenas em impressões subjetivas ou experiências pessoais negativas ou positivas.

A igreja tem muitos problemas, certamente. Mas muitas propostas de autocrítica à igreja têm sido meros ecos do ativismo secular, usando categorias estranhas à Palavra (como os conceitos de gênero, sexo, casamento e família, uma visão do ser humano distante da antropologia bíblica; e uma confusão entre o conceito feminista contemporâneo de “patriarcado” com a sociedade patriarcal descrita na Bíblia Hebraica). Frequentemente, tais apelos à autocrítica repercutem críticas direcionadas ao catolicismo e as aplicam irrefletidamente ao protestantismo radical (o que não faz o menor sentido!).

Nem tudo são flores na igreja evangélica, claro. A violência familiar está presente em lares evangélicos (aqui e aqui), mas é injusto dizer que a igreja “promove” uma cultura de violência e estupro. Ao contrário, ciente do problema, a igreja tem procurado combater essa cultura em seus ministérios voltados à mulher, família, educação e crianças (por ex.: aqui, aqui, aqui e aqui).

Muito mais pode ser feito. Provavelmente há mulheres sofrendo silenciosamente em nossas congregações, e nosso esforço deveria ser em fortalecer o potencial de promoção da justiça que a igreja já provou historicamente. Movimentos sociais que surgiram “ontem” historicamente deveriam ser cautelosos na crítica àqueles com mais horas de voo e um enorme currículo de benefícios sociais, e buscar somar esforços, pois os objetivos são comuns.

(Pastor Isaac Malheiros é professor no Instituto Adventista Paranaense)