Pandemias, mudanças climáticas e o decreto dominical

causa-pandemiaSegundo os líderes da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do WWF International, a causa das pandemias é nossa destruição da natureza. O comércio ilegal e insustentável de vida selvagem, a devastação de florestas e outros habitats naturais e a intensificação da produção agrícola e pecuária são os fatores por trás do número crescente de doenças pulando de animais para seres humanos e levando a epidemias mundiais. Essa declaração está de acordo com a fala de diversos cientistas, como o proeminente biólogo americano Thomas Lovejoy, que afirmou recentemente que nossa intrusão excessiva na natureza é a principal culpada pela pandemia atual de coronavírus.

“Vimos muitas doenças surgirem ao longo dos anos, como Zika, AIDS, SARS e Ebola, e todas elas se originaram de populações de animais sob condições de severas pressões ambientais”, afirmaram Elizabeth Maruma Mrema, chefe de diversidade biológica da ONU, Maria Neira, diretora de meio ambiente e saúde da OMS, e Marco Lambertini, chefe da WWF International.

De acordo com um relatório da WWF, 60 a 70% das novas doenças surgidas desde 1990 vieram da vida selvagem. No mesmo período, 178 milhões de hectares de floresta foram desmatados, o equivalente a mais de sete vezes a área do Reino Unido.

Os especialistas alertam que o cenário atual deve servir de lição para mudarmos nossa postura por uma mais amigável ao meio ambiente. Caso contrário, novos surtos fatais provavelmente irão ocorrer.

“A Covid-19 não passa de um sinal de SOS para o empreendimento humano. O pensamento econômico atual não reconhece que a riqueza humana depende da saúde da natureza”, disseram Inger Andersen, chefe de meio ambiente da ONU e Partha Dasgupta, importante economista e professor da Universidade de Cambridge (Reino Unido). “O risco de uma nova doença [saltando da vida selvagem para seres humanos] emergir no futuro é maior do que nunca, com o potencial de causar estragos na saúde, nas economias e na segurança global”, complementou o relatório da WWF.

A solução, segundo esses líderes, é apostar em uma recuperação verde e saudável da atual pandemia de coronavírus. “Acordos comerciais pós-Brexit que não protegerem a natureza deixariam a Grã-Bretanha cúmplice em aumentar o risco da próxima pandemia”, afirmou o chefe da WWF no Reino Unido. Porém, o que temos visto é justamente o contrário. Do Grande Mekong a Amazônia a Madagascar, relatórios alarmantes de aumento da caça furtiva, extração ilegal de madeira e incêndios florestais têm surgido, enquanto muitos países autorizam retrocessos ambientais e cortes no financiamento para a conservação da natureza.

Mrema, Neira e Lambertini argumentam que “devemos abraçar uma recuperação justa e verde e dar início a uma transformação mais ampla em direção a um modelo que valoriza a natureza como base de uma sociedade saudável”. Não fazer isso em nome de poupar dinheiro, negligenciando proteção ambiental, sistemas de saúde e redes de segurança social, já se provou ser uma economia falsa. “A conta será paga muitas vezes”, disseram.

Para melhorarmos nossas chances, os especialistas pedem que todos os governos introduzam e fiscalizem leis para eliminar a destruição da natureza nas cadeias de suprimentos. Já o público pode tornar suas dietas mais sustentáveis. Por exemplo, carne, óleo de palma e soja estão entre os produtos frequentemente ligados ao desmatamento. No geral, evitar carne e laticínios é uma das melhores formas de reduzir nosso impacto ambiental no planeta.

[E em breve a proposta papal para amenizar o impacto ambiental humano será cada vez mais pauta do dia: o descanso dominical.]

(The Guardian, via Hypescience)