As vezes em que preguei para meu pai

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Meu pai raramente aceitava nossos convites para ir à igreja conosco. Quando vinha a Tatuí, às vezes nos acompanhava aos cultos. Nessas ocasiões, quando eu estava escalado para pregar, aproveitava a oportunidade para apelar à mente e ao coração dele. Mas Francisco Borges era durão. Resistiu por três décadas às nossas orações intercessórias e aos apelos do Espírito Santo.

Em anos mais recentes, tive novamente a oportunidade de pregar do púlpito para meu pai (já que em conversas privadas ele sempre se esquivava de assuntos religiosos), e ele teve a oportunidade de ouvir novamente a Palavra de Deus. Em 2016, ele veio a Tatuí para minha ordenação pastoral. A cerimônia foi linda e o sermão do pastor Erton Köhler foi inspirado por Deus. Pude ver de longe os olhos marejados do meu pai e foi difícil segurar minhas próprias lágrimas. No dia seguinte. tivemos um agradável passeio e um piquenique em família.

Dois anos depois, tive a alegria de batizar na Igreja Central de Criciúma (onde fui batizado em dezembro de 1991) minha filha Marcella e minha sobrinha Letícia. Meu pai estava lá; creio que foi a primeira vez que ele entrou naquela igreja. Orei a Deus para que Ele me usasse uma vez mais para alcançar a mente e o coração do pai. Mas Francisco Borges era durão, e não se levantou no apelo. Estava visivelmente emocionado, mas se conteve o quanto pôde. Resistiu uma vez mais.

A última vez em que preguei publicamente para meu pai foi na celebração das bodas de ouro dele e da minha mãe, lá em Criciúma (veja o vídeo abaixo). Foi um momento feliz em família. Momento de recordar as bênçãos de Deus. Boa parte dos parentes e alguns amigos do meu pai estavam lá. Foi uma grande oportunidade que Deus me deu de apresentar uma mensagem de esperança para todos. De convidá-los a dedicar a vida a Deus e de dizer que em breve estaremos todos juntos no Céu, quando Jesus voltar. Que meu irmãozinho Marcelo, falecido aos quatro meses de idade (dois anos antes de eu nascer) estará conosco e seremos uma família completa novamente. Espero que meu pai tenha entendido o “recado” que dei com a palavra “completa”…

Nove meses depois, o homem durão entrou em coma, vitimado pela Covid e por uma encefalite. Temos clamado todos os dias a Deus para que um milagre seja feito – do jeito dEle e no tempo dEle. Tenho enviado todos os dias áudios que os enfermeiros bondosamente colocam para meu pai ouvir, na esperança de que Deus esteja fazendo com que minhas palavras cheguem aos mais íntimos pensamentos dele. Tenho procurado fazer com que ele se lembre de tudo o que já lhe preguei ao longo destas últimas três décadas.

Deus nos permitiu saber que, de alguma forma, falou com meu pai. Quando já estava em confusão mental, pouco antes de entrar em coma, ele disse três vezes para minha irmã Emanuela: “É o Todo-Poderoso.” Nunca o vimos usar essa expressão para se referir a Deus. Depois, em uma noite, já no leito hospitalar, ele disse também três vezes para a enfermeira: “Só Deus!” Pouco depois, foi entubado e perdeu a consciência. Quero crer que o durão Francisco Borges finalmente teve um encontro com Deus.

Querido amigo, querida amiga, entenda que a vida é frágil e incerta. Não sabemos o que poderá acontecer conosco dentro de algumas horas, alguns dias. Por isso, não retarde sua entrega a Deus. Aceite a salvação que Jesus lhe oferece e entregue sua vida a Ele.

Agradeço às muitas pessoas que têm orado pelo meu pai e por minha família. Peço que continuem orando. Cremos que Deus fará um milagre – no tempo dEle e do jeito dEle.

Michelson Borges