Quando eu conheci marxistas honestos

jesus

Minha adolescência e parte da juventude foi vivida sob a orientação da Teologia da Libertação, nos idos fins dos anos 1980 e começo dos 1990. Leonardo Boff e outros pensadores/escritores “faziam nossa cabeça” inquieta e ansiosa por mudanças sociais. Queríamos “implantar o reino de Deus na Terra”, e eu entendia que isso seria feito por via política, por meio de revoluções, trabalhando árdua e voluntariamente nas Comunidades Eclesiais de Base (as CEBs). Nessa época, eu ainda não havia ouvido falar que Jesus vai voltar e trazer com Ele Seu reino de glória. Mesmo sendo líder de pastoral, presidente de grupo de jovens, frequentador de casas paroquiais e dioceses, e tendo passado alguns dias num seminário teológico recebendo aulas e conselhos de padres, a fim de saber se eu deveria mesmo ingressar na vida sacerdotal, nunca havia sido apresentado à verdade maravilhosa da segunda vinda de Cristo – a solução definitiva para todas as mazelas humanas.

Anos depois dessa experiência religiosa e de ter passado por uma universidade federal, onde me formei em Jornalismo, pude perceber, num processo de “desintoxicação ideológica”, que desde a adolescência eu havia sido doutrinado no marxismo (além do darwinismo). Teologia da Libertação é, em outras palavras, um tipo de cristianismo marxizado. Uma tentativa de mistura de elementos – hoje eu sei – imiscíveis. E por ter imergido nessa cultura antibíblica e sido retirado dela por Deus (uma cultura tão antibíblica quanto o capitalismo selvagem), causa-me espanto ver que algumas pessoas se esforcem por trazer para o adventismo esse tipo de coisa. Mas são pessoas sem um passado verdadeiramente marxista; que talvez nem saibam o que isso significa, a não ser pelo que leram em livros ou aprenderam em aulas de pós-graduação pagas pela igreja.

Em meus tempos de católico, conheci marxistas de verdade; homens e mulheres intelectualmente honestos e coerentes, porque viviam na prática aquilo que pregavam. Éramos envolvidos com as lutas e os desafios da comunidade; visitávamos os mais necessitados não só uma vez por ano; realizávamos festas juninas e revertíamos os lucros para essas pessoas carentes. Cobrávamos ações dos políticos; ajudávamos lideranças de bairro; organizávamos missas nas comunidades; e protagonizávamos várias outras ações. Meus amigos padres faziam voto de pobreza e dedicavam a vida ao próximo. Hoje discordo ideológica e teologicamente deles, mas não posso deixar de continuar admirando-lhes a coerência. Eles eram alinhados com a filosofia e com a instituição que defendiam, já que a Igreja Católica brasileira daqueles anos era grandemente regida pela Teologia da Libertação.

Além de espanto, causa-me estranheza ver líderes religiosos hoje se dizendo marxistas, enquanto postam frases de efeito nas redes sociais escritas em seus smartphones de última geração. Líderes cuja formação acadêmica e cujo salário são financiados e pagos pela instituição que criticam e que desejam subverter/revolucionar. Alguns desses até usam tempo e talentos para propagar ideias comunistas, mas não creio que estariam dispostos a abrir mão do bom automóvel e do guarda-roupa “grifado” para compartilhá-los com o semelhante.

Continuo crendo que, como cristãos, devemos ter uma atuação social, pois somos sal da terra e luz do mundo. E louvo a Deus pelos muitos irmãos e irmãs que têm feito há anos um lindo trabalho voluntário e discreto, visitando presídios, entregando cestas básicas, organizando feiras e bazares, dando estudos bíblicos, etc. Creio que “unicamente os métodos de Cristo trarão verdadeiro êxito no aproximar-se do povo. O Salvador misturava-Se com os homens como uma pessoa que lhes desejava o bem. Manifestava simpatia por eles, ministrava-lhes às necessidades e granjeava-lhes a confiança. Ordenava então: ‘Segue-Me’ (Jo 21:19)” (Ellen White, A Ciência do Bom Viver, p. 143). Missão sem o “segue-Me” não é missão.

Não tenho saudade do tempo em que cri numa utopia inalcançável, mas invejo a coerência daqueles que não possuíam tenta compreensão das Escrituras, mas viviam à luz da verdade que conheciam. Marxistas de verdade, não aproveitadores do melhor de dois mundos.

Michelson Borges

“Os comunistas e socialistas ateístas sempre erroneamente pensaram que as respostas para as misérias humanas encontram-se não em Deus (cuja existência eles negam), mas no materialismo econômico. É tão irônico que os comunistas e socialistas ataquem os ricos por serem supostamente obcecados por dinheiro e coisas materiais quando, na verdade, comunistas e socialistas são obcecados por dinheiro e coisas materiais. Mas, como a maioria dos ricos aprende, o dinheiro não compra felicidade. Os humanos desejam mais do que isso. Quão profundo é que Jesus tenha dito a Satanás que o homem não vive só de pão. Enquanto os dois debatiam, o Pão da Vida disse ao tentador que o homem vive por toda a palavra que sai da boca de Deus. Marx não tomou o lado de Cristo nesse caso. É claro, Marx rejeitava a Cristo em sua totalidade. Comunistas são ateístas afinal de contas.”

Paul Kengor, The Devil and Karl Marx: Communism’s long march of death, deception, and infiltration

Assista à série Cavalo de Troia Vermelho, aqui e aqui.