Adventismo, marxismo cultural e feminismo

Deus nos ajude a refletir sobre as implicações da nossa fé sem depender das muletas intelectuais seculares tão fartamente disponíveis

gramsci

As discussões sobre marxismo cultural na religião e a conseguinte erosão da fé cristã em círculos liberais do cristianismo, debate que se iniciou com algum delay no adventismo, precisa ser mais do que reativa. A proposição de uma cosmovisão cristã bem fundamentada é urgente. Perspectivas sobre cultura, arte, educação, economia, desigualdades e discriminação, para citar alguns exemplos, podem ser extraídas da Palavra de Deus. Entretanto, muitas pessoas, movidas por uma ânsia de relevância do cristianismo em uma sociedade cada vez mais afetada pela dessacralização, insistem em um casamento entre cristianismo e perspectivas ideológicas seculares. Parecem insatisfeitas com o método teológico e suas implicações para a ética. São apressadas em dar resposta e erram no raciocínio. Assim, acabam promovendo o que o filósofo Herman Dooyeweerd identificou como síntese: a junção entre os valores cristãos e seculares em busca de objetivos comuns.

A obra Raízes da Cultura Ocidental surge na década de 1950, mas é gestada em um contexto de ebulição social com muitas similaridades em relação às enfrentadas por nós atualmente. À época, Dooyeweerd percebia um clima de excessiva disposição para o diálogo entre socialistas e cristãos na Holanda. Entretanto, ele percebeu que os pontos comuns não eram suficientes para uma junção.

A lição maior que extraí de Dooyeweerd foi a de avaliar cuidadosamente as origens, proposições e motivações dos movimentos. Muito mais importante do que fazer uma apressada coalizão pelo bem comum é distinguir as causas, pesando se a integridade da mensagem cristã pode ser posta em risco com tais relações dialógicas.

Antes de engajamento social, especialmente ao estimular a igreja na adesão de pautas controvertidas, necessitamos de uma reflexão mais acurada. Pular a etapa de pensamento e estudo nos deixa entregues ao que os alemães chamam de “zeitgeist”, o espírito do tempo, que em uma era cada vez menos cristã representa um risco.

Deus nos ajude a refletir sobre as implicações da nossa fé sem depender das muletas intelectuais seculares tão fartamente disponíveis.

(Davi Boechat é jornalista e estudante de Direito)