Existe marxismo cultural?

[O texto a seguir é da professora Iná Camargo Costa, citada pela Dra. Virgínia Fontes, do vídeo acima. Reproduzo alguns trechos; os destaques são meus. Trata-se de mais uma prova de que o marxismo cultural existe, sim, a despeito do que digam os negacionistas.- MB]

[…] O próprio marxismo acabaria produzindo outra multiplicação de denominações. Por exemplo: marxismo legal, surgido na Rússia do século 19, os marxismos economicista, reformista e/ou revisionista; marxismo empedernido (na formulação de Lenin em 1906); marxismo ortodoxo (na concepção de Lukács), o marxismo-leninismo dos stalinistas e assim por diante, até culminar na relativamente recente formulação de Perry Anderson – marxismo ocidental. Isso sem falar em outra preciosa contribuição inglesa, a de Raymond Willliams, que impulsionou a formação  da ala do materialismo cultural, atuante até hoje na Inglaterra e nos Estados Unidos. Todas estas “escolas” constituem a nossa herança. Temos que no mínimo cultivar dialeticamente a sua memória pois, como aprendemos com Hegel, é com ela que forjaremos as armas com que confrontar os neoassaltantes de beira de estrada atualmente na ativa.

Sobre marxismo ocidental e materialismo cultural, vale apena fazer uma pausa, pois a nossa hipótese é que os luminares do “marxismo cultural-espectral” assaltaram a obra de Perry Anderson, assim como a produção dos discípulos angloamericanos de Raymond Williams. Anderson subsume ao conceito de marxismo ocidental autores como Gramsci, Lukács, Escola de Frankfurt… Não são os mesmos mobilizados pela versão fantasmática? Outra demarcação do marxista inglês: os integrantes do marxismo ocidental atuariam de preferência no âmbito da cultura e do debate teórico (exceção feita a Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, cuja principal contribuição ao marxismo cultural – incluídas as reflexões sobre Maquiavel – foi produzida no cárcere fascista e, por isto mesmo, à revelia), enquanto os marxistas tout court (os clássicos: Marx, Engels, Plekhanov, Lenin, Rosa Luxemburg, Trotsky…), além de debaterem amplamente as questões culturais, também eram ligados à militância revolucionária, ou seja, vinculados a partidos, tanto da tradição socialista quanto da comunista, o que não se aplica aos integrantes da Escola de Frankfurt. […]

Luta de classes é a principal marca registrada do marxismo, mas é bom não esquecer que sua mais importante determinação é a da crítica ao capitalismo, cifrada no subtítulo do Capital: crítica da economia política. Importa insistir nisto, porque nosso ponto de honra é a luta pelo fim do sistema capitalista, de modo que o inimigo – que defende a continuidade do capitalismo – tem bons motivos para temer os comunistas. Somos inimigos mesmo: nós combatemos as relações de produção capitalistas, a verdadeira causa de todas as misérias – econômicas, sociais, políticas e culturais – atualmente existentes. Sendo assim, podemos e devemos dar razão a eles quando brandem o “marxismo cultural” contra nós, mas precisamos corrigir as suas falácias, falta de percepção e seus erros elementares, decorrentes de medo, ignorância e incapacidade para o pensamento. […]

Gramsci, em seus Cadernos do cárcere, tem inspiradoras análises dos desafios postos aos intelectuais pela presença e dominação cultural da Igreja Católica na Itália, cuja condição de empresa privada que obteve status de Estado graças aos fascistas (pelo Tratado de Latrão em 1929) foi examinada no artigo “O Vaticano”, publicado na revista Correspondência Internacional em 1924. Ali Gramsci afirma sem meias palavras que o então papa Pio XI apoiou o golpe de estado do fascismo e declara que, além de contar em seus quadros com indivíduos de habilidade consumada na arte da intriga, o Vaticano é a maior força reacionária da Itália e um inimigo internacional do proletariado.

Encampando, além das acima enumeradas, as sugestões de Raymond Williams, o campo prioritário de atuação dos marxistas culturais vem a ser a esfera da cultura pautada pela luta de classes em todos os seus desdobramentos e seu olhar deve estar direcionado preferencialmente para os artistas e obras que, ao longo da história do capitalismo, tematizaram as lutas pela emancipação dos trabalhadores em todas as suas modalidades, sem prejuízo do interesse por aquelas obras que, a exemplo do que fez Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas, desmascaram os comportamentos da classe dominante. […]

[A]os marxistas culturais interessam todos os episódios de confronto com o colonialismo e o imperialismo, a começar pela Revolução do Haiti (1791-1804), até as vitoriosas guerras que os vietnamitas travaram contra Japão, França e Estados Unidos, passando por revoluções como a cubana e pelas guerras de libertação de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau, entre outras. E só para adiantar um tópico: você sabia que o sucesso mundial de 1967, Pata pata, de Miriam Makeba, apoiada por Harry Belafonte, serviu para arrecadar fundos para tirar lutadores contra o apartheid das prisões sulafricanas? Eis uma das milhares de histórias que interessam a um militante comunista do autêntico marxismo cultural! […]

Para encerrar este primeiro passeio, cabe fazer uma homenagem a Augusto Boal, também discípulo de Paulo Freire, enumerando alguns nomes daqueles que podemos chamar de integrantes do arco-íris do marxismo cultural sem precisar pensar duas vezes (desde já insistindo: é lista de memória e sem pretensão de ser exaustiva). […]

[O] marxismo cultural se considera herdeiro de todas as conquistas da ciência e assume seu compromisso irrevogável com a verdade – tanto a científica quanto a histórica – porque sabe que a mentira tem um papel reacionário. Reafirma assim seu compromisso com a legítima defesa da humanidade. [Pode até se considerar herdeiro, mas uma análise mais acurada da história deixará claro que o cristianismo é que forneceu os pressupostos para a revolução científica. – MB] […]

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