O Dia do Pastor mais triste, porém mais cheio de esperança da minha vida

Neste momento, minha ovelha especial está sendo o meu pai querido

pai

No Dia do Pastor, costumeiramente estamos pregando nas igrejas e recebendo os cumprimentos de irmãos queridos. Ovelhas carinhosas que reconhecem o trabalho e a dedicação de homens que decidiram entregar a vida ao santo ministério, em resposta ao chamado de Deus. Hoje é 24 de outubro, dois dias após relembrarmos o inesquecível 22 de outubro de 1844. Dia de pensarmos que fomos chamados para proclamar as três mensagens angélicas de Apocalipse 14; que fazemos parte da igreja remanescente, com um dever e uma missão bem definidos para este tempo especial que antecede a volta de Jesus. Momento de pensar emocionados que poderemos fazer parte da última geração de pastores que, com suas ovelhas, olharão nos olhos do Supremos Pastor e receberão um abraço apertado dEle (1 Pedro 5:4). Porém, este Dia do Pastor está sendo bem diferente para mim.

Estou em minha terra natal, Criciúma, SC. Os dias aqui têm transcorrido relativamente bem, apesar de tudo. Deus tem nos confortado e fortalecido. Fiquei pouco em casa de quinta-feira para cá. Passei a tarde de anteontem e o dia de ontem todo no hospital com meu pai. Ele está em coma há quase dois meses, vitimado por Covid e uma encefalite grave. Visitei-o na UTI três vezes um mês atrás. Agora voltei para, com minhas duas irmãs guerreiras, cuidar do meu pai num quarto comum, já que os médicos pouco podem fazer por ele agora. Hoje passarei o dia todo aqui de novo, pois quero dar um pouco de descanso para minhas irmãs, que há uma semana vêm revezando nos cuidados dele.

Tenho experimentado situações emocionalmente difíceis, como ajudar a dar banho em meu pai inerte e com o corpo já cheio de feridas (escaras). De vez em quando tenho que chamar uma enfermeira para aspirar secreções da traqueostomia, momento em que ele faz expressões de extremo desconforto (reflexo, dizem), ao ser enfiado pela garganta um tubo plástico para sucção. É tão difícil ver nesse estado aquele homem antes tão forte, atlético, determinado e cheio de vida… As pernas musculosas de jogador estão finas e debilitadas. O corpo está usando toda a proteína disponível na luta pela vida, mas os recursos estão se acabando…

Quando faço pequenos exercícios nos braços e nas pernas para tentar minimizar os efeitos da atrofia, ele também expressa dor, e eu choro por dentro (não quero que ele me ouça chorando). Quando não suporto mais, vou ao banheiro. Clamo a Deus para que, se o milagre da cura não estiver nos planos dEle, que Ele permita que meu pai descanse enquanto estou aqui para confortar minha mãe e irmãs. Assim têm sido meus dias. Assim está sendo meu Dia do Pastor.

Ontem gravei o resumo da lição da Escola Sabatina para que minha família assista em casa – um jeito de eu “estar” lá com eles (você também pode assistir aqui). Cuidar do meu pai agora é o mínimo do mínimo que eu poderia fazer pelo homem que me deu a vida e me educou em meus primeiros anos; que me ensinou a ser trabalhador, honesto, corajoso, homem de verdade. Que gostava de fazer longas caminhadas comigo, quando eu vinha para cá de férias. Momentos em que colocávamos a conversa em dia. Francisco Borges, o craque do futebol, ex-jogador do Figueirense, time da Capital, de quem não herdei o gosto pelo esporte, mas de quem gostava de ouvir as inúmeras histórias de peripécias futebolísticas.

O goleador está ali, no leito, inerte, mas lutando pela vida, como o campeão que sempre foi. Vivia dizendo que a morte teria trabalho com ele, e está tendo, pois ele é um batalhador.

Sim, este está sendo o Dia do Pastor mais triste, porém mais cheio de esperança da minha vida. Por que esperança? Porque eu tenho uma esperança que vai além desta vida! Porque minha família e eu oramos por quase três décadas para que meu pai aceitasse Jesus como seu Salvador e Senhor, e temos evidências de isso ter acontecido pouco antes de ele entrar em coma (clique aqui e saiba por quê). Essa e outras demonstrações do amor e do cuidado de Deus nos fazem sentir a alegria irromper em meio à dor.

Visitei e orei com outro doente aqui no hospital, ontem. Tenho entregado livros missionários para quem posso. Mas, neste momento, minha ovelha está sendo o Sr. Francisco Borges. Daqui a pouco, depois do banho, vou pregar para ele e orar com ele, na esperança de que Deus faça chegar alguma coisa à mente dele; na esperança de que ele esteja em paz e tranquilo, como o rosto tem demonstrado.

Obrigado, meu Pastor Jesus, por cuidar de nós e fazer de tudo para nos salvar! Que o Senhor volte logo para nos levar para o aprisco celestial! Feliz Dia do Pastor para o Senhor também!

Pastor Michelson Borges