Um terço dos estudantes entrevistados estuprariam se não houvesse consequências

O texto abaixo foi editado para deixar mais clara a ideia que eu quis transmitir: a do cuidado para evitar problemas neste mundo mau.

estupro

O tema do estupro voltou a ser discutido amplamente nas redes sociais por conta do caso da influencer Mariana Ferrer e do empresário acusado de tê-la estuprado em uma casa noturna. Não vou discutir aqui o caso em si, até porque muito já foi dito a respeito. Estupro é crime hediondo e deve ser severamente punido. Ponto final. E por se tratar de um crime execrado até mesmo por criminosos, as acusações nesse sentido devem ser muito bem apuradas, a fim de que outro crime não seja cometido – o da falsa acusação, que pode trazer consequências terríveis para a vida do acusado. Infelizmente, as estatísticas mostram que muitos crimes de abuso ocorrem dentro de casa, praticados por pessoas aparentemente insuspeitas, como pais, avôs e outros parentes. Assim, é preciso quebrar o silêncio, como propõe a importante campanha da Igreja Adventista do Sétimo Dia (saiba mais).

Dito isso, quero aproveitar para relembrar uma notícia de 2015, estarrecedora e reveladora de uma cultura muito mais perigosa e enraizada que a chamada “cultura do estupro”: a cultura do pecado (mais perigosa porque está na base de todas as mazelas humanas). Trata-se da publicação de um estudo da revista científica Violence and Gender, segundo o qual quase um terço dos 86 homens entrevistados estuprariam uma mulher se não houvesse consequências.

Os pesquisadores selecionaram 86 estudantes da Universidades da Dakota do Norte e da Universidade Estadual da Dakota do Norte, nos Estados Unidos, e perguntaram como eles reagiriam em certas situações. A ideia era avaliar as atitudes sexuais e a hostilidade em relação às mulheres nos campi universitários. Quando questionados sobre o que fariam em uma situação na qual pudessem fazer sexo contra a vontade de uma mulher sem nenhuma consequência, 31,7% disseram que fariam isso, ou seja, estuprariam a mulher.

Essa pesquisa mostrou uma vez mais que muitos crimes só não são cometidos por falta de oportunidade, e que, por isso, neste mundo de pecado com tantos agressores potenciais e com o “diabo à solta”, todo cuidado sempre será pouco.

Por exemplo: ladrão sempre será culpado se cometer um assalto. Nem por isso você deve sair do banco à noite, no centro de uma grande cidade, contando dinheiro à vista de todos. Se o ladrão assaltar você, obviamente que ele será culpado. Mas você não precisa nem deve se expor indevidamente.

Neste mundo injusto e de pecado, em que tantas mulheres sofrem por causa da violência, é importante que elas se protejam, evitando comportamento arriscado, como o uso de substâncias entorpecentes e a frequência a lugares de risco. Estou com isso culpabilizando a vítima? Claro que não! O foco sempre será o agressor. Apenas estou dizendo que há realidades que não serão mudadas do dia para a noite (e algumas nunca serão), e que é preciso levar isso em conta para minimizar os riscos.

Como se prevenir para evitar o estupro

A médica Rosana Maria Paiva dos Anjos, coordenadora do Núcleo de Atendimento Imediato às Vítimas de Violência Sexual do CHS, em matéria publicada no jornal Cruzeiro do Sul, destaca algumas dicas para evitar o estupro. Segundo ela, as mulheres devem evitar andar sempre sozinhas e distraídas, pois assim elas se tornam os principais alvos dos agressores, que são muito observadores. “Tenha sempre em mãos qualquer coisa que possa ameaçar ou machucar o agressor, como um guarda-chuva, por exemplo, porque, assim, a mulher consegue distanciar o agressor. Ele procura a pessoa […] mais distraída”, diz Rosana.
 
Outro aspecto destacado pela médica é a rotina que a mulher tem no seu dia a dia. Pelo fato de o criminoso ser muito observador, Rosana afirma que ele fica atento a uma mulher que toma sempre o mesmo caminho para trabalhar, por exemplo, e que esteja sempre desacompanhada. O mais indicado a se fazer é escolher rotas alternativas em alguns dias da semana, pois, assim, a mulher consegue despistar o potencial estuprador.
  
A delegada Joilce Silveira Ramos, titular de uma Delegacia de Polícia de Atendimento à Mulher em Mato Grosso do Sul, também oferece algumas dicas importantes, contidas no site do governo estadual:

  • Não fique em local ermo, afastado ou com matagais; evite sempre trilhas desertas que encurtam distâncias.
  • O autor do estupro geralmente não quer matar, ele quer o ato sexual; então grite o mais alto possível; se alguém estiver passando e ouvir o barulho e se aproximar, o agressor geralmente desistirá do ato.
  • Quando pedir Uber, sempre compartilhe a localização com amigos ou com alguma outra pessoa. Assim que chamar um carro, já envie o trajeto para seu esposo, parente ou um amigo que possa saber em tempo real onde você está, além do nome do motorista e a placa do carro.
  • Quando solicitar profissionais para fazer algum conserto em casa, nunca os atenda quando estiver sozinha; mulheres que moram sozinhas devem sempre contratar profissionais conhecidos.
  • Tenha sempre na bolsa um spray de pimenta; essa é uma das melhores dicas, porque você não precisa se aproximar do agressor para utilizar o spray. Com uma distância de um metro a um metro e meio, você consegue atingir os olhos do agressor, o que facilitará sua fuga.

Mais algumas dicas do Portal UOL:

  • No táxi ou em qualquer transporte individual, várias das entrevistadas contam fingir ou de fato fazer ligações para outras pessoas informando que estão a caminho. Assim, se o motorista planeja algum tipo de violência, pensará duas vezes, pois pode ser pego.
  • Se tem uma coisa que homens geralmente respeitam são outros homens. Então, se está sozinha com mais um homem, vá logo dizendo que tem marido, mesmo quando está solteira, para garantir que ele não a assedie.
  • As aulas de luta com foco em defesa pessoal para mulheres têm se tornado cada vez mais populares. O motivo? Saber se defender no caso de uma abordagem na rua.
  • Se um homem começa a andar atrás ou ao lado de uma mulher quando ela caminha em uma rua deserta, o primeiro pensamento é: “Estou sendo seguida.” Então, assim que ouvem os passos, muitas mulheres param de andar para que o homem ultrapasse. Se ele parar também, é hora de correr.
  • Ao perceber que um homem a tem seguido por algum tempo, entre em algum estabelecimento comercial ou na portaria de um prédio para se proteger.
  • Conheceu alguém por um aplicativo e planeja encontrá-lo? Nada de ir para a casa dele ou a um lugar ermo. Marque o encontro em lugar movimentado, como restaurantes ou praças.
  • Nunca aceite bebidas de estranhos. Não vá ao banheiro e deixe seu copo no balcão, por exemplo. Nunca se sabe se alguém pode colocar alguma substância nele.
  • Muitas mulheres acenam e até param para conversar com desconhecidos nas ruas. A intenção é desencorajar um possível agressor, já que não estaria mais só. A partir disso um movimento foi criado, o “Vamos Juntas”, que incentiva mulheres a fazer companhia umas às outras nas ruas.  

Esses são cuidados que podem ser tomados para ajudar a minimizar os riscos de agressão e estupro. Mas algo mais pode ser dito em relação à formação das pessoas neste mundo de pecado. Leia o que segue.

Pornografia, músicas e estupro

Segundo Sue Berelowitz, comissária para a Infância no Reino Unido, não há cidade ou vila em que as crianças não estejam sendo vítimas de exploração sexual. O número de vítimas está na casa dos milhares e, de acordo com Peter Davies, diretor do Child Exploitation and Online Protection Centre, uma em cada 20 crianças é vítima de abuso sexual. O acesso precoce à pornografia na internet está na raiz dessa exploração: as crianças estão crescendo com uma visão totalmente deturpada do que é sexo e do que é um comportamento sexual normal. Alguns dos meninos que estavam envolvidos em atos de abuso sexual falaram que “era como estar dentro de um filme pornô”. “Eles viram coisas e depois repetiram o que viram. Definitivamente isso afetou os limites do que eles pensam ser normal”, contou Berelowitz.

Além da pornografia que normaliza o anormal, há também as músicas com conteúdo machista. Será que músicas com mensagens agressivas contra as mulheres podem levar um ouvinte a ser ainda mais violento contra elas na vida real? Podem, sim, segundo pesquisas de Tobias Greitemeyer, doutor em Psicologia Social e professor da Universidade de Innsbruck, na Áustria. O funk carioca “Tapinha não dói”, por exemplo, foi alvo de um longo processo contra a produtora Furacão 2000 por incitar a violência contra a mulher. Nos EUA, o hit “Blurred Lines”, de 2013, foi alvo da ira de feministas e chamado de “a canção mais controversa da década” pelo jornal The Guardian

Nas pesquisas, voluntários eram convidados a ouvir músicas que incluíam algumas letras consideradas misóginas, como “Superman”, de Eminem, e “Self Esteem”, do Offspring. Durante a audição das músicas, os participantes respondiam a algumas questões e realizavam tarefas. Eles não sabiam que a pesquisa era sobre misoginia, e achavam que estavam fazendo um desafio de ouvir músicas e fazer outras atividades ao mesmo tempo. Os homens marcaram atributos mais negativos em perguntas sobre o sexo feminino e expressaram mais desejo de vingança enquanto estavam ouvindo as letras machistas, mostra artigo publicado por Greitemeyer e por Peter Fischer, da Universidade de Munique. “Nossa pesquisa mostrou que músicas misóginas fazem aumentar reações agressivas dos homens contra mulheres”, descrevem os autores no artigo.

Os psicólogos indicam que pode haver um “efeito acumulado” nessa tendência agressiva de homens acostumados a ouvir músicas com teor machista. “O que se pode dizer sobre o efeito na vida real, onde homens provavelmente ouvem centenas de canções misóginas ao longo da vida? O efeito pode ser ainda mais forte e pode levar a um comportamento agressivo ainda mais severo contra a mulher, como estupro e outras formas de violência”, dizem.

Músicas, pornografia, filmes, séries, etc. são capazes de influenciar comportamentos e tendências. Numa espécie de retroalimentação, ajudam a moldar a sociedade que ajuda a moldar a produção cultural. É o tipo de pesquisa que faz acender a luz amarela, especialmente para aqueles que se preocupam com os valores cristãos. Imagine uma criança que cresce exposta a pornografia, a músicas que objetificam a mulher e a séries como “Game of Thrones”, com cenas e mais cenas de sexo, incesto, violência sexual e estupro (confira)… Que tipo de adulto serão essas meninas e esses meninos?

Os bons e velhos conselhos fundamentados na Bíblia Sagrada continuam válidos e ajudam muito neste mundo perigoso: (1) cuidado com os lugares que você frequenta; (2) cuidado com as pessoas com as quais se relaciona; a menos que seja para influenciá-las e salvá-las, melhor não acompanhá-las; (3) seja mais seletivo quanto ao tipo de conteúdos que você consome (Rm 12:2; Fp 4:8); (4) não use qualquer tipo de droga ou substância entorpecente; cuide do seu corpo e da sua mente; (5) se souber de algum tipo de violência e abuso sendo cometidos, quebre o silêncio e denuncie.

Isso é garantia de imunidade à violência neste mundo corrompido? Infelizmente, não, mas ajuda bastante.

Michelson Borges