Domesticaram Jesus Cristo

“Em Jesus, Deus nos mostrou um rosto, e posso ver diretamente nesse rosto como Deus Se sente acerca das pessoas.”

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Em seu livro O Jesus que Eu Nunca Conheci (Vida), o jornalista e escritor cristão Philip Yancey defende a tese de que o cristianismo acabou “domesticando Jesus”, e justifica com as seguintes palavras: “Ele falou pouco sobre a ocupação romana, o assunto principal das conversas de Seus conterrâneos, mas pegou um chicote para expulsar do templo judeu os pequenos aproveitadores. Insistia na obediência à lei de Moisés, enquanto adquiria a reputação de transgressor da lei. Poderia ser tomado de simpatia por um estrangeiro, mas afastou o melhor amigo com a dura repreensão: ‘Para trás de Mim, Satanás!’ Tinha opiniões inflexíveis sobre os homens ricos e as mulheres de vida fácil, mas ambos os tipos desfrutavam de Sua companhia.”

Yancey diz mais: “De alguma forma criamos uma comunidade respeitável na igreja… Os miseráveis, que se reuniam ao redor de Jesus quando Ele vivia na Terra, já não se sentem bem-vindos. Como Jesus, que era a única pessoa perfeita na história, conseguia atrair os sabidamente imperfeitos? E o que nos impede de seguir Seus passos hoje?”

Jesus nunca deixou de ser uma figura surpreendente, a começar pelo Seu nascimento. Nas palavras do poeta John Done, a encarnação do Filho de Deus fica assim: “A imensidão enclausurada em teu [de Maria] amado ventre.” Segundo Yancey, “em Jesus, Deus encontrou um meio de Se relacionar com os seres humanos que não passava pelo medo”. E aqueles que descobrem esse Jesus firme, mas amoroso; severo e misericordioso, podem dizer como Dostoievski: “Se alguém me provasse que Cristo não estava na verdade… então eu preferiria permanecer com Cristo a permanecer com a verdade.”

Usando os recursos do jornalismo, Yancey investiga Jesus e o cenário social, político e geográfico que O envolveu aqui na Terra. Em linguagem agradável, ele brinda o leitor com detalhes que surpreendem até mesmo aqueles que já leram a Bíblia dezenas de vezes. E o Jesus apresentado pelo autor é o Deus-homem que ainda quer interagir com o ser humano, deixando claro que Ele Se importa com nossas lutas. “Quando Jesus enfrentou o sofrimento, reagiu como eu. Ele não orou no jardim: ‘Ah, Senhor, sinto-Me tão grato por Me teres escolhido para sofrer por Ti. Regozijo-Me nesse privilégio!’ Não, Ele experimentou tristeza, medo, abandono e algo parecido até mesmo com o desespero. Contudo, Ele suportou porque sabia que no centro do Universo vivia Seu Pai, um Deus de amor no qual Ele podia confiar, apesar de como as coisas parecessem na ocasião.”

Assim, ao concluir seus estudos sobre Jesus, Yancey afirma que uma pergunta já não mais o atormenta como antes; uma pergunta que, segundo ele, nos espreita na maior parte dos problemas com Deus: “‘Deus Se importa?’ Sei de apenas um jeito de responder a essa pergunta, e essa resposta veio no meu estudo acerca da vida de Jesus. Em Jesus, Deus nos mostrou um rosto, e posso ver diretamente nesse rosto como Deus Se sente acerca das pessoas.”

Na contracapa do livro, Lewis B. Smedes, do Fuller Theological Seminary, afirma que o trabalho de Yancey é o melhor que ele já leu sobre Jesus, e amplia: “Talvez o melhor livro do século sobre Jesus.” O livro é bom, de fato. Mas acho que Lewis nunca leu O Desejado de Todas as Nações, de Ellen G. White. Esse já me levou às lágrimas.

Michelson Borges